O sol batia direto em meus olhos queimando-os, virei de lado me arrependendo de tê-lo feito, minhas costelas gemiam agudamente em protesto.

Despertei querendo que uma tempestade caísse; aí ao menos eu sentiria que estava tudo bem, que eu não tinha por que temer. Sentei-me arquejando com o protesto agudo de minhas costelas, ao lado da cama jazia um líquido verde despejado numa taça antiga, sem pensar eu entornei o líquido sentindo um maravilhoso gosto de licor de cereja, meu preferido e preparado pela madre, eu tomei uma vez aquilo e nunca mais pude esquecer. O líquido verde tinha gosto do licor, era estranho, olhei pro lado e Deidara me encarava sentada em sua cadeira de rodas.

-Já que você surta com minha forma original acho melhor ficar assim antes que você dispare pelo acampamento de novo- ela disse sorrindo de leve.

-Que diabos você é?- eu perguntei me encolhendo- que diabos todos vocês são?

-Eu sou um centauro Annice, você como todos os outros daqui são semideuses, fruto do amor entre um deus ou deusa e um mortal.

-Certo então, vou embora- eu disse.

-Não vai não, não está treinada, você combateu um troll, imagine o que mais tem lá fora, acalme-se e fique bem aqui por enquanto- ela disse séria.

-Eu sou filha do que?Não me diga que eu vou me transformar num cavalo ou ser metade cabrito!- eu disse assustada.

-Você vai ficar exatamente como é; nós nascemos assim — ela disse.

Deidara saiu, e eu fiquei ali, eu sabia muito bem do que eu precisava pra me curar: uma bela e violenta tempestade.

Levantei de fininho e dei a volta cambaleando e torcendo pra não ser vista e ter que ver aquele garoto cabrito de novo. Aquele pequeno penhasco parecia me chamar, eu sabia que era ali que eu ficaria boa.

Sentei puxando o ar lentamente “tempestade”-eu ficava murmurando.

Senti o tempo mudar, o ar ficar mais pesado e ozônio se concentrar, continuei murmurando até sentir as gotas de água gelada que caíam do céu “trovões e raios” eu comecei a murmurar ouvindo os primeiros estouros “relâmpagos”, e luzes piscavam no céu acinzentado, olhei melhor e reparei que a chuva só estava concentrada onde eu estava “chuva forte, vento leste!”. Ao proferir essas palavras a chuva ficou mais forte, o poderoso vento norte veio ao meu encontro brincando com meus cabelos.

Meu corpo já não doía, eu já não tinha medo, me sentia bem, me sentia controlando tudo aquilo.

Os raios estavam ficando cada vez mais fortes e mais próximos, mas aqueles não eram pedidos meus, pelo menos não conscientes.

Olhei apreensiva pro céu, aquilo estava fora do meu controle, não era eu quem estava aproximando os raios desse jeito. “Pare tudo”- eu murmurei concentrada.

Abri um dos olhos e olhei em volta apreensiva, minha tempestade tinha se tornado uma chuvazinha débil, mas a camada pesada de ozônio ainda me circundava pesadamente.

“Não sou eu quem está fazendo isso, não mesmo”- eu pensei

-É você quem está fazendo isso?- Annabeth perguntou.

-Comecei a provocar uma tempestade, mas esses raios não são meus- eu disse apontando pro céu.

-V... Você fez chover?- ela perguntou surpresa, assenti levemente.

Um raio veio espiralando e caiu provocando um estouro ali, o barulho era ensurdecedor, com certeza aquilo não era um raio normal, não mesmo. Curiosa e imprudente que sou desci o penhasco e fui em direção da clareira, muita gente tinha se juntado pra ver o motivo do estouro, eu por minha vez tentei não olhar em volta.

A minha frente havia outros adolescentes vestidos como cavaleiros medievais, eu passei me espremendo por eles enquanto me aproximava da fumaça. Um centauro imenso estava ali parado frente a um tipo de fumaça que espiralava branca.

Olhei pro chão tentando não encarar o cara com bunda de cavalo que estava ao meu lado. Ele por sua vez me encarava, mesmo não olhando diretamente eu sabia disso.

-Foi você?- ele perguntou com voz de trovão, sensivelmente irritado.

-Eu não fiz isso- respondi.

Percebi que dentro do buraco onde saía fumaça havia algo, um tipo de... Cesto. Avancei involuntariamente pra mais perto.

“Chame por ele, é seu”- eu ouvi uma voz ecoar na minha cabeça.

Estiquei minha mão enquanto todos me encaravam, respirei fundo pronta pro que viesse, ou pelo menos era isso que eu achava.

-Venha!- eu exclamei tentando parecer segura.

Ouvi um tipo de guincho metálico, e depois alguns estalos, algo ali levitava e vinha em minha direção. Na minha mão parada a frente do corpo eu vi um anel encaixar-se perfeitamente, nele vários raiozinhos minúsculos se entrelaçavam delicadamente circundados por pequenas pedrinhas mais brilhantes do que diamante, no meu pulso eu tinha uma pulseira que me maravilhou, ela era prateada e dela pendiam milhares de estrelinhas em miniatura, perfeitas e cheias de pontas.

Rodei a mão, e num movimento involuntário e puxei e empurrei abruptamente, ouvi um estalo e fechei os olhos, minha mão pesou. Abri os olhos e em minha mão eu tinha um tipo de escudo prateado todo cheio de estrelas; em seu brasão jaziam uma mão e um raio dourados, a mão sustentava o raio poderosamente, mas aquilo não era tudo, segurado por meus dedos finos e trêmulos estava um tipo de lança maior que eu, em sua ponta estava um tipo de faca, num lado do fio estava o bronze, e no outro, um ouro tão brilhante, nunca tinha visto nada reluzir assim, o cabo era de metal, mas era recoberto de um tipo de couro azulado e grosso, onde eu segurava algo como escamas me davam a segurança para não soltá-lo.

Fiz algo que talvez tivesse sido impulsivo, levantei a lança acima da cabeça, senti como se estivesse agradecendo a alguma coisa, ou melhor, a alguém,ouvi um trovão ressoar ao longe e sorri,desci a lança, e quando dei por mim todos ao meu redor estavam ajoelhados, fiquei confusa.

-Determinada!- Annabeth gritou a plenos pulmões.

Todos se levantaram, uns me olhavam confusos, outros parecendo sentir inveja, e outros jazia quietos num canto, no meio deles Deidara estava me olhando num misto de confusão e orgulho. “Não esperava menos de você!”- ela sussurrou.

-Filha de Zeus, o velho barbudo então andou quebrando as regras?- um trovão ressoou perto de nós, a frase vinha de um carinha baixinho parecendo um tipo de criança velha e esquisita- Dionísio sou eu, e não pense que me curvarei a você.

-Não pedi pra que ninguém se curvasse senhor, não me importo em ser filha nem do papa se quer saber, a única coisa que quero no momento é sair daqui- eu rebati seca.

-Rá!Quer sair daqui?Muito bem então, Annabeth de Atena, venha até aqui- ele disse chamando-a – se vencê-la, pode sair daqui.

Annabeth olhou confusa e depois começou o que parecia ser um estudo á meu respeito, quando parei de tentar entender ela já estava vindo pra cima de mim com uma espada e um escudo na mão.

Virei meu corpo a tempo de não ser pega no seu ataque, agora todos ali eram expectadores,gritando,pondo lenha na fogueira. Rodei a lança ao meu lado, eu não queria briga, pena que eu não podia dizer o mesmo dela. Sua espada passava a milímetros de mim, resolvi atacar também, não queria mais fugir, e se aquela era a condição pra sair dali...

A lança zunia ao meu lado enquanto eu esperava a hora certa, cada movimento dela parecia estar em câmera lenta, a cada golpe meu eu a sentia mais fraca, menos impulsionada. Ledo engano meu, quando dei por mim sua espada estava apontada pro meu rosto.

-Se fosse você eu desistiria; você mesmo sendo filha de Zeus não é páreo pra mim- ela disse sorrindo.

Ela tinha mexido com meu orgulho, nada bom, pelo menos pra ela, rodei mais forte a lança por cima da cabeça e desferi golpes certeiros, a lâmina fazia talhos e cortava tecido e pele como se fosse papel, num giro errado dela eu interceptei seus pés com o cabo e puxei, ela rodopiou no ar e eu aproveitei pra terminar meu ataque, subi a lança a terminei de derrubá-la pra garantir que ficaria no chão. Dei um tranco e novamente as jóias estavam na minha mão. Annabeth estava desacordada, aquilo me perturbou violentamente, eu tremia toda enquanto outros a rebocavam pra enfermaria.

-Nunca vi alguém fazer um estrago tão grande em Annabeth, vá então se é o que quer,conseguiu sua liberdade, mas não me responsabilize por tudo o que te acontecerá no mundo mortal- Dionísio disse sério.

Todos saíram e eu fiquei ali pensando em tudo o que fiz; aqueles movimentos pensados e letais não pareciam naturais, pelo menos não pra uma pessoa normal. Reparei que alguém me olhava atentamente, Deidara estava ali.

-O que aconteceu?Pra eu parar naquele lugar, minha mãe não... Me quis?- eu sussurrei com lágrimas nos olhos.

-Ela sempre te amou, e sacrificou-se por você muito tempo atrás, então quem te protegia éramos nós, a madre e eu, ela uma mortal, e eu uma centauro. Mas tente entender, seu pai não podia te ver, era um risco pros dois- ela disse.

-Ah, aí então ele me botou naquele inferno e eu passei por tudo aquilo?Grande merda!Dezessete anos Deidara, por dezessete infernais anos eu fiquei trancafiada ali!- eu esbravejei por entre lágrimas.

-Foi necessário – ela murmurou.

-Necessário?!Eu passar por tudo aquilo foi necessário?Eu chorar sozinha toda noite, passar pelo que passei sozinha foi necessário?Eu nunca tive o que se podia chamar de vida, e foi necessário?!- eu gritei.

Saí dali a passos largos chorando dolorosamente, a solidão, o medo e tudo mais que eu senti a vida toda eram necessários?Ver crianças felizes no parque com suas famílias e eu sempre sozinha, sem nunca ter um amigo sequer era necessário, a humilhação, as punições injustas e tudo mais foram necessárias também?

Dei a volta pelo campo até chegar aos dormitórios, peguei minha mochila e fui saindo.

-Vai sair?Desistir assim tão fácil?- uma voz vinda da porta perguntou.

Olhei pra trás e gelei, o garoto de meus sonhos estava ali, parado e me encarando, seus olhos cor de mar pareciam me tranqüilizar.

-Eu, Annabeth e Grover tiramos minha mãe dos domínios de Hades, isso aqui é o começo, você luta bem, mas não está preparada pra voltar, pelo menos não ainda- ele disse- e, além disso, você vai voltar pra onde?Pro orfanato?Acho que não.

Seus olhos eram intensos, profundos, ele estava certo, exceto por uma coisinha. Ele tinha um motivo, um alguém por quem lutar, eu não.

Sentei na cama e passei nervosamente as mãos pelos cabelos, tudo estava escuro demais pra mim, doía me irritava, eu me sentia em chamas e ao mesmo tempo levando um balde de água gelada na cabeça.

-E aí, vai ficar sentada ou vai vir comigo?- ele perguntou estendendo a mão.

Olhei pra porta do dormitório e Deidara estava ali me encarando séria, ela empurrou sua falsa cadeira até chegar até mim, pegou meu rosto na mão e me encarou.

-Jure- ela disse.

-Eu, Annice juro por minha honra que cumprirei meu destino até morrer- eu murmurei pesadamente.

-Ah, Percy, ela gora é sua responsabilidade, sua e de Annabeth na verdade, ela tem que ficar aqui entenderam, aqui no acampamento até segunda ordem- Deidara disse encarando-o – agora jure, Annabeth já fez isso.

-Eu, Perseu Jackson juro por minha honra proteger a filha de Zeus até dela mesma se isso for preciso- ele disse com a mão no peito.

Deidara saiu deixando-me com o garoto que agora tinha nome, Percy. Levantei na esperança de dar uma volta, espairecer, ouvi passos atrás de mim e virei, ele estava ali. Parei encarando-o.

-O que foi?- ele perguntou.

-Estamos indo na mesma direção por mero acaso, ou você está me seguindo?- perguntei.

-Você me ouviu jurar, eu não falharei em te proteger e em te manter aqui – ele disse sério.

Bufei contrariada enquanto dava mais alguns passos, logo ouvi o que me pareciam passos, meio que trotes na grama úmida.

-Percy, está aí!

Eu olhei aturdida o menino cabrito e vi em sua cabeça pequenos chifres aflorando, ofeguei tentando não gritar.

-Grover, esta é Annice- Percy disse.

-A filha de Zeus- ele disse.

-Não tenho pai, nunca tive, então dá pra parar de me chamar assim, poxa vida, isso não importa pra mim, eu sou Annice e nada mais, só Annice, sem filha de sei lá quem, só Annice!- eu esbravejei.

-Entendo, eu sei o que você tá sentindo, você se sente abandonada- Percy disse.

-Você não sabe de nada, me deixa em paz!- eu disse andando mais rápido.

Saí a passos pesados dali, dei voltas e voltas até chegar numa clareira vazia. Ali só se viam velhos bonecos inúteis de batalha.

Joguei os braços fazendo aparecer minha lança, golpeei sem parar até esquecer onde eu estava, por que estava ali e de tudo o que tinha acontecido, ao meu redor eu só via o movimento da lança e nada mais ali me importava. Mas aquela frase insistia em ficar na minha cabeça, em me aporrinhar,”eu te entendo,entendo o que você está sentindo”, não ele não entendia, nunca entenderia na verdade. Passei a realizar movimentos imaginando que cada boneco quase destruído era Zeus, cada golpe desferido ali não era pros bonecos, era pra atingi-lo.

Meu corpo doía depois de tantas horas ali sem parar, eu não tinha comido, mas a essa altura do campeonato nem me importava com isso. Um único dado vinha a minha cabeça, por mais que eu estivesse rodeada de gente, eu estava sozinha, sempre ia ser assim.