A Filha dos Raios
21 Águas escuras
Meu coração martelava tão alto em meus ouvidos enquanto ele se aproximava tão lentamente como se eu fosse evaporar se ele se movesse demais.
Lágrimas corriam manchando meu vestido enquanto seus olhos presos aos meus estavam cada vez mais perto.
Tentei me levantar mas suas mãos frias me seguraram no lugar enquanto ele ficava por cima de mim.
—Eu tô aqui -ele murmurava segurando firme em meus pulsos
—Não vou sair — ele dizia aproximando nossos rostos.
Seus olhos me hipnotizavam ,sua boca falava cada palavra lentamente enquanto eu sentia seu corpo sobre o meu.
Meu peito respirava pesadamente,minha mente girava enquanto eu tentava encontrar forças pra sair dali.
Inutilmente.
Minhas pernas estavam bambas,meus braços estavam moles enquanto minha cabeça pendia pra trás.
Até que aqueles olhos vermelhos voltaram a tomar minha mente.
—Não!
Gritei empurrando-o pra longe e empunhei minha lança.
—Percy saia daqui agora!
Minhas pernas fraquejavam,eu arfava desesperadamente enquanto ele se aproximava.
—Por favor,Percy eu não posso,por favor sai daqui…
Mais rápido do que pude processar ele se esquivou da lança e me puxou pela cintura.
—Me diz que você não quer.
Sua boca deslizava por meu pescoço,abocanhava meus lábios enquanto seus braços me prendiam.
Sua mão se enrolou em meu cabelo me puxando ainda mais pra si,seu cheiro tomava meu corpo e eu começava a me render ao prazer.
Respirei fundo tentando tirar a névoa que cobria meus pensamentos e segurei sua cabeça com firmeza.Meus olhos estavam frios e isso foi suficiente pra que ele me soltasse.
—E...eu não entendo,eu te amo,você me ama, então por que?
Soltei-me de seu abraço e dei um passo pra trás sentido a água fria no meu calcanhar.
—Pensei que tivesse entendido que eu não queria você desde o Olimpo- murmurei enfurecida.
Ele mais uma vez tentou me segurar mas me projetei e o joguei contra as pedras.Meu coração se cortava em mil pedaços repassando as cenas do pesadelo,repassando a imagem dele com a espada atravessando seu peito.
Eu tinha que protegê-lo.
—Você ama Annabeth
—Não, eu gostei Annabeth,eu amo você
—Fique com alguém que possa estar com você Percy
Ele se levantou enfurecido agarrando meu pulso e me jogando na água.
Percy me segurou me levando pro fundo e me prendendo dentro de uma bolha de ar junto com ele.
—Por que não pode ficar comigo?Você está dizendo claramente que não pode, não que não deseja.Voce não confia em mim pra resolver qualquer que seja o problema, não confia no quanto eu te amo pra te salvar! -ele berrava agitando os braços.
Aproximei-me e dei um tapa forte derrubando-o no chão.
—Por você seu idiota!Eu não quero ficar com você!Eu não posso ficar com você!Você é fraco e patético demais pra ficar com uma filha de Zeus!Você não tem como me oferecer um futuro por que eu não quero que você faça parte dele!Agora pegue Annabeth e fique com ela!
Meus gritos ecoavam pela bolha enquanto eu a rasgava com minha lança.
Com um impulso eu subi nadando o mais rápido que eu conseguia.
Ele não me seguiu, não me impediu ou respondeu nada do que eu disse.
Meu coração pesava no peito,dilacerado por minhas palavras, destruído por aquele beijo,por aquele cheiro e por aquele toque.
Subi no deck dando de cara com Daeria que de irada mudou a expressão pra preocupada assim que eu encontrei seus olhos.
—Saia daqui, não quero falar com ninguém
Murmurei passando por ela e trancando a porta atrás de mim.
—Nem comigo?
Lucius estava ali sentado numa cadeira e rodopiando uma faca entre os dedos.
—Por favor,agora não...Eu preciso…
Ele se levantou e veio até mim segurando minha cintura,seu cheiro de madeira em brasa tomava conta de mim enquanto seus lábios marcavam o caminho do pescoço até minha orelha.
—Você precisa esquecer -ele rosnou
Suas mãos firmes me prenderam em sua cintura,sua boca fazia uma trilha de fogo em meu pescoço enquanto ele caminhava até a cama.
Até que ele parou,me segurou pelo queixo e se colocou por cima de mim.
—Peça,se quiser algo de mim vai ter que me dizer.
Sua voz demandava num tom baixo e grave.
Eu queria enterrar tudo aquilo,enterrar minhas emoções,enterrar todas as memórias e me distrair com qualquer outra coisa.
—Me faça esquecer de tudo Lucius.
Com um sorriso ele prendeu minhas mãos sob a cabeça e rasgou meu vestido com a mão livre.
Sua boca explorava ávida por contato,rua roupa caía peça a peça revelando um corpo forte e quente como brasa.
Por horas ele marcou meu corpo,eu arranhei suas costas até sentir finos cortes se formando e o mundo todo girando ao meu redor freneticamente.
Enquanto a tarde caía nós arfávamos derrotados.Eu sob seu peito,as peças de roupa atiradas pelo chão e suas mãos agarradas as minhas coxas.
—Você é deliciosa -ele murmurou roubando um beijo.
—Obrigada.
Levantei-me e fui pro banheiro.As irmãs me aguardavam em silêncio enquanto eu entrava na água quente e deixava meu corpo relaxar.
Por duas horas eu fiquei ali deitada absorvendo o absurdo prazer de tudo o que eu tinha feito ali.
Estar com Lucius era divertido,era fácil como respirar e era tão errado quanto parecia.
Vi a tarde começar a cair enquanto eu saía da água e ia pro quarto.
Troquei-me colocando botas,uma saia de pregas preta e um top vermelho jogando uma jaqueta de couro por cima dos ombros.
Meu estômago roncava alto enquanto eu abria um bilhete deixado sob minha cama.
“Jantar?
PS: estou aqui sempre que precisar de uma borracha apagadora de memórias”
Sorri jogando o bilhete no lixo e fui pra colina em direção ao refeitório pra poder jantar.
Grover estava ali e acenou enquanto caminhava na minha direção.
—Vamos jantar?Aposto que vai ser bom depois desse caos todo — ele disse me oferecendo o braço.
Sorri e o acompanhei até o refeitório que explodiu em palmas quando eu cheguei.
—Uma brinde a filha de Zeus que salvou o acampamento do ataque!
Um filho de ares levantava sua taça acompanhado de todos ali.
—Parece que perdi o início da festa.
Olhei pra trás e Lucius vinha caminhando com sua típica roupa toda preta e um sorriso de lado que faria qualquer desavisado perder a compostura.
Ignorei-o e voltei minha atenção pra comida que espiralava fumaça na grande mesa.
Grover falava de amenidades,falava do que sabia sobre o ataque enquanto eu me servia e ia em direção aos doces.
Distraída minha mão bateu contra alguém.Annabeth estava ali.
Com o rosto machucado,a expressão cansada mas tranquila ela me observava.
—Vejo que estão celebrando você ter fritado aquele monstro — ela murmurou segurando um pegador.
—Não me importo, só fiz o que eu precisava -respondi pegando um copo.
Sem que eu notasse sua presença Percy veio por trás de Annabeth e abraçou sua cintura evitando fazer contato visual comigo.
—Vamos? — ele murmurou entrelaçando seus dedos com os dela.
As imagens de hoje cedo espiralavam na minha mente me fazendo começar a perder a força das pernas.
Lábios quentes tocaram meu pescoço enquanto uma mão passava por minha cintura me firmando e a outra segurava minha bandeja.
—Pronta?
A voz de Lucius era firme,seus olhos encontraram os de Percy e eu estremeci.
Eram como fogo e lava colidindo.
A expressão de Percy se fechava enquanto sua respiração ficava irregular,Lucius praticamente rosnava dando um passo pra frente.
—Vamos sair daqui.
O empurrei com o quadril e o puxei pelo braço antes que as coisas pudessem piorar.
Grover me olhava pasmo,Daeria tentava segurar a surpresa e eu andava em direção a fogueira apagada com Lucius atrás de mim.
Com uma pequena rajada elétrica a fogueira começou a crepitar e nos aquecer.
Sentei-me no colo de Lucius na esperança de que ele não resolvesse se levantar e fazer alguma idiotice.
Comemos em silêncio até que ele começou a chutar pedrinhas na fogueira.
—N... nós somos alguma coisa agora ou você só me usou pra esquecê-lo?
Sua voz tremia,suas mãos agarravam sua calça enquanto eu me levantava incomodada.
—Eu...eu ainda não estou pronta pra assumir qualquer coisa Lucius -eu disse me afastando.
Ele se levantou e sua boca se abria mostrando um sorriso irônico.Em um passo ele me prendia pela cintura e segurava meus pulsos atrás das minhas costas.
—Me diz que você não sente nada.
Sua voz era rouca,eu sentia sua excitação contra minha perna e seu calor irradiando pra mim.
—Podemos ser amigos? — eu perguntei encarando o zíper de sua jaqueta.
Ele bufou me soltando e bagunçando os cabelos pra todas as direções.
—Depois de uma transa daquelas somos só amigos? -ele perguntou cruzando as mãos sob os olhos.
—Amigos com benefícios? -murmurei oferecendo o máximo que era capaz de fazer no momento.
Lucius riu me encarando com a cabeça pendendo pro lado.
—Então essa é sua oferta?
Dei de ombros e me aproximei da fogueira.
No segundo seguinte Lucius partia uma estaca de gelo que cruzava os ares com sua espada .
Olhei pra trás e Percy estava ali com olhos alucinados,sua boca murmurava desconexa,seus olhos estavam fixos em mim e ele avançava como se estivesse possuído.
—Seu filho da puta com ela não! — sua voz ecoava no campo enquanto Annabeth corria na nossa direção.
Lucius riu e segurou sua espada mais firme.
—Acho que você não tem nada a ver com isso cara -ele disse rindo.
—Percy para,deixa ela, acabou! -Annabeth suplicava tentando não sacar a espada.
Meu coração queimava com a ideia idiota que eu estava tendo,lágrimas se formavam em meus olhos enquanto eu dava as costas a Percy e encarava decidida os olhos de Lucius.
A passos largos eu me aproximei e o puxei num beijo forte agarrando seus cabelos entre meus dedos.
Soltei-me e voltei a encarar Percy.
—Eu já te disse, não quero nada com você.
Entrelacei meus dedos com os de Lucius enquanto Annabeth arrastava Percy pra longe.
Ela se virou uma última vez encontrando meus olhos e eu murmurei “obrigada" enquanto ela concordava e saía com ele.
Soltei minha mão da de Lucius e agarrei meus cabelos me agachando em frente aos restos de madeira queimada.Minhas lágrimas corriam,meu peito doía e o ar me faltava.
Mas Lucius não tinha se movido.
—Você é inacreditável.
Ele murmurou e saiu em direção ao velho pinheiro da entrada.
Um grito frustrado cortou a noite enquanto ele corria de volta e me pegava no colo.
Seus olhos queimavam urgentes,sua boca surrurrava meu nome e suas mãos se enrolavam nos meus cabelos.
No segundo seguinte ele me soltava e passava a mão por cima do rosto encarando o céu.
—Você é louca mas eu devo ser mais ainda pelo visto — ele murmurou saindo.
Seus passos foram ficando cada vez mais distantes até que ele desapareceu em direção ao que restava do campo de treinamento.
Por algumas horas eu fiquei ali e as lágrimas corriam num choro silencioso.Eu me sentia imunda,perturbada e mortalmente infeliz.
Levantei-me e caminhei atraindo olhares curiosos enquanto eu ia até o penhasco.
Abaixo de mim o rio corria escuro,as aves noturnas nos rondavam e meu coração se dilacerava.
Fechei os olhos e no segundo seguinte eu estava em queda livre em direção a água fria e mortal.
Tentei trazer a memória os dias em que eu acordava e dava de cara com Percy sorrindo pra mim e me puxando pra si .O fim parecia a melhor saída a que recorrer.
Num baque seco eu caí nas costas de alguma criatura metros antes de me chocar com a água.
Abri meus olhos e o grifo piava alto enquanto alcançava uma altura maior na noite.
Sentei-me entre lágrimas e deixei que ele voasse livre pelo céu estrelado.
—Perdão Percy...
Minhas palavras se perderam na imensidão azul enquanto o vento frio cortava meu rosto.
Paramos depois de algumas horas e estávamos num antigo estábulo de madeira corroída pelo tempo.
O grifo me empurrou com a cabeça pra dentro do lugar me fazendo encontrar um ovo dourado enorme que se mexia levemente.Ele então deitou-se ao lado do ovo e ele começou a se agitar mais ainda.
Sons cada vez mais altos de metal começando a se partir ecoavam do ovo enquanto eu me aproximava pra ver.
O ovo reluzia coberto de luz enquanto o grifo piava alto cobrindo a noite com seu som.
De dentro do ovo um pequeno grifo com penas brancas e um pelo dourado curto saía trôpego da casca.
O grande grifo o cheirou e me olhou com seus olhos redondos e piou baixo como se me chamasse.Com cuidado eu engatinhei até o pequeno filhote e sorri enquanto ele abriu suas asas quando me viu.
O pequeno grifo saiu trôpego de perto de sua mãe e veio até mim se aninhando em meu colo.
Com um passo o grande grifo se pôs em pé e abriu suas asas .
—Peraí,o seu neném está aqui.Vai pegar comida pra ele?
Até que eu me lembrei
Grifos são criaturas de Zeus e não ficam com seus pais.Quando um ovo choca ele é dado a alguém pra que o grifo cresça com a tarefa de proteger alguém a quem ele é ligado.
O grande grifo partiu voando pelos ares enquanto eu levantava cobrindo o filhote com minha jaqueta.
A criaturinha piava alto me encarando com grandes olhos enquanto eu notava uma pequena diferença.
Com cabeça de Águia,asas pretas e as pernas cor de caramelo aquilo não era um grifo como os outros que eu tinha visto nos livros.
No seu quadril havia uma pequena mancha branca em forma de raio e a ponta de sua cauda era branca.
Suspirei saindo do estábulo e encarando o céu estrelado.
A lua minguante brilhava pálida como se sua beleza tivesse sido sugada.
Assoviei ouvindo o som ecoar pela noite na esperança de que Pégaso me encontrasse e três assovios depois eu ouvia o som de grandes asas batendo na minha direção.Pégaso aterrissou batendo os cascos e se aproximando desconfiado de mim.
O pequeno grifo do tamanho de um cachorro médio se agitava e suas unhas começavam a arranhar minha roupa.
—Esse aqui é...Nox -apresentei.
O grande cavalo veio trotando lentamente até se aproximar o bastante pra cheirar o pequeno grifo e relinchou agitando sua crina.
Abracei Nox com um dos braços e subi em Pégaso alcançando o céu da noite.
Voamos por cerca de uma hora até chegarmos ao meu alojamento e aterrissamos no deck.
As irmãs vieram e se entreolharam quando viram o pequeno grifo aninhado no meu peito.
—Podem arranjar comida pra eles por favor?
Pedi e elas assentiram entrando.
Sentei-me cansada no deck e vi meu reflexo na água escura.
Meus olhos estavam fundos,eu estava pálida e cansada.
Pégaso comeu uma cesta de frutas e legumes enquanto eu dava pedaços de carne crua a Nox segurando com hashis.Quando se saciou o grande cavalo se abaixou cheirando meus cabelos e eu acariciei seu nariz molhado.
—Obrigada por ajudar — sussurei
Ele então se levantou e voou pelos céus da noite.
Nox batia suas asinhas tentando levantar voo e se colocar no meu colo.
Quando viu que era um esforço inútil ele usou as patas pra me escalar.
Levantei-me com ele no colo e me joguei na cama.
Nox dormiu ao lado da minha cabeça e eu apaguei rezando pra quem quer que fosse que minha noite não tivesse sonhos.
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