A Filha do meu chefe
12 Capítulo 14: O Refúgio de Pedra e Névoa
O isolamento era a única estratégia que restava. Uma tentativa de aquisição hostil, financiada por um fundo de investimentos obscuro da Europa, havia colocado a Vanhansen & Lucas Group contra a parede. As linhas telefônicas da sede estavam grampeadas, e os corredores estavam infestados de espiões corporativos. Para salvar o império, Lucas e Beatriz precisavam desaparecer por quarenta e oito horas para traçar a contraofensiva final.
O destino escolhido por Otávio foi a antiga propriedade da família na Serra da Mantiqueira, uma casa de pedra e madeira encrustada no alto da montanha, onde o sinal de celular era inexistente e a única conexão com o mundo era um telefone via satélite criptografado.
A viagem foi feita em silêncio. Lucas dirigia o SUV preto pelas curvas sinuosas enquanto a névoa subia, engolindo a estrada. Ao seu lado, Beatriz revisava pilhas de documentos físicos que não podiam ser digitalizados. Quando chegaram à casa, o frio da montanha era rigoroso.
A propriedade era rústica, mas imponente. Não havia funcionários; a privacidade era o bem mais precioso ali. Lucas acendeu a imensa lareira de pedra na sala principal, enquanto Beatriz espalhava os mapas financeiros sobre a mesa de jantar de madeira maciça.
— Temos trinta e seis horas até a abertura do mercado na segunda-feira — disse Lucas, retirando o casaco pesado. Suas mãos estavam frias, e o cansaço pesava em seus ombros como chumbo. — Se não encontrarmos a brecha no contrato dos acionistas minoritários, eles vão tomar o conselho.
Beatriz olhou para ele. A luz das chamas dançava em seu rosto, suavizando as linhas severas que ela costumava usar no escritório.
— Nós vamos encontrar, Lucas. Nós sempre encontramos.
A Noite dos Segredos
O trabalho atravessou a madrugada. Entre xícaras de café forte e o estalar da madeira na lareira, a "dupla imbatível" operava como uma máquina. Eles mal precisavam trocar palavras para entender o que o outro estava pensando. Beatriz encontrava uma inconsistência, Lucas formulava a resposta jurídica. Era uma dança intelectual perfeita.
Por volta das três da manhã, o cansaço atingiu o ponto de ruptura. Beatriz soltou a caneta e encostou a cabeça no encosto da cadeira, fechando os olhos.
— Não aguento mais ver números — ela confessou, a voz rouca.
Lucas levantou-se e foi até o aparador, servindo duas doses de conhaque. Ele caminhou até ela e entregou o copo. Por um segundo, seus dedos se tocaram. Não foi o toque profissional de um aperto de mão, mas um contato demorado, carregado pela eletricidade do isolamento. Lucas não retirou a mão imediatamente, e Beatriz não recuou.
— Você tem sido o meu pilar, Beatriz — Lucas disse, sentando-se na borda da mesa, perto dela. — Durante esse ano todo. Eu nunca tive a chance de te dizer isso sem o barulho da empresa ao redor.
Beatriz abriu os olhos. Ali, sem a armadura do terno de luxo, ela parecia vulnerável.
— Eu fiz o que era necessário. Para a empresa... e para você.
— Por que? — A pergunta de Lucas flutuou no ar, densa. — Depois de tudo o que aconteceu, depois da forma como nos destruímos no passado... Por que você dedicou cada minuto do seu dia a me proteger?
Beatriz deu um gole no conhaque, sentindo o líquido queimar a garganta. Ela queria dizer que era porque o amava desde os dezessete anos. Queria dizer que cada humilhação que ela lhe impusera fora um grito de dor por ele ter escolhido o caráter em vez dela. Mas ela sabia que se dissesse isso, o equilíbrio acabaria.
— Porque eu acredito em você, Lucas. — Ela escolheu as palavras com cuidado cirúrgico. — E porque eu sei que, no fundo, somos as únicas duas pessoas no mundo que realmente se conhecem. As partes boas e as partes terríveis.
A Proximidade Proibida
Lucas inclinou-se um pouco mais. O cheiro da névoa e do perfume de Beatriz criava uma atmosfera inebriante. Ele olhou para os lábios dela e, por um instante, a imagem de Isadora surgiu em sua mente, mas não como um impedimento, e sim como uma lembrança doce que parecia dar-lhe permissão para voltar a viver.
Ele estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo do rosto de Beatriz. O gesto foi tão terno que o coração dela falhou uma batida. Dentro de Lucas, o sentimento que ele vinha sufocando — uma mistura de gratidão, desejo e uma conexão profunda que transcendia o luto — aflorou com uma força avassaladora. Ele não precisava de declarações. O jeito como ele a olhava, como se ela fosse o único porto seguro em um oceano de caos, dizia tudo.
Beatriz sentiu a pressão do olhar dele. Ela queria que ele a beijasse, queria que ele quebrasse o silêncio, mas ela mesma manteve a guarda. Ela apenas inclinou o rosto para o toque dele, fechando os olhos e sentindo o calor da palma de Lucas contra sua bochecha. Era uma declaração silenciosa de que, embora o passado fosse uma cicatriz, o presente era uma construção mútua.
— Precisamos terminar o plano — ela sussurrou, embora não fizesse menção de se mover.
— Só mais cinco minutos — Lucas respondeu, a voz baixa. — Cinco minutos de paz antes de voltarmos para a guerra.
Eles ficaram assim, naquela penumbra aquecida pela lareira, enquanto a névoa lá fora isolava a casa do resto do universo. Não houve promessas de amor eterno, nem confissões dramáticas. Houve apenas a aceitação de que eles pertenciam um ao outro de uma forma que ninguém mais entenderia. Eles eram cúmplices no crime, no poder e na dor.
O Amanhecer e a Vitória
Quando o sol começou a nascer entre as montanhas, tingindo a névoa de laranja, eles tinham o plano pronto. A brecha fora encontrada: uma cláusula de fidelidade que o fundo europeu havia ignorado. Eles tinham as armas para destruir a aquisição hostil.
Beatriz arrumou os papéis na pasta com gestos precisos. Lucas já estava ao telefone via satélite, dando as ordens iniciais para Otávio e para a equipe de advocacia em São Paulo. Ele agia com uma energia renovada, uma vitalidade que não demonstrava desde o acidente de Isadora.
Antes de saírem da casa, Lucas parou Beatriz na porta. Ele a olhou de cima a baixo, um olhar possessivo e orgulhoso.
— Quando isso acabar e vencermos essa fusão... as coisas vão mudar, Beatriz. — Ele não explicou o que mudaria, mas o tom de sua voz deixou claro que a barreira profissional estava com os dias contados.
— Eu sei — ela respondeu, com um brilho de desafio nos olhos. — Eu estarei esperando.
Eles entraram no carro e desceram a montanha. Naquela segunda-feira, a Logos Tech não apenas sobreviveu, ela esmagou seus opositores. O mercado financeiro assistiu, boquiaberto, à coordenação impecável entre o CEO e sua Vice-Presidente. Eles eram, definitivamente, imbatíveis. E, embora ninguém na elite soubesse o que aconteceu naquela casa de pedra, a forma como eles trocavam olhares durante as coletivas de imprensa deixava claro que algo novo, e muito mais forte, havia nascido no meio da tormenta.
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