A Filha do meu chefe

6 Capítulo 8: O Limite da Honra




​As semanas seguintes foram um teste de resistência para Lucas. Beatriz parecia ter prazer em submetê-lo a tarefas que beiravam o absurdo. Ela o chamava para reuniões às seis da manhã e o obrigava a refazer relatórios inteiros por causa de uma única fonte que ela considerava "pouco moderna".

​Em uma tarde particularmente humilhante, diante de toda a junta diretiva, ela o interrompeu no meio de uma apresentação.

​— Lucas, esses dados são arcaicos. — Ela disse, girando sua caneta de luxo entre os dedos. — Talvez o tempo ao lado do meu pai tenha deixado você... confortável demais. Saia da sala, refaça tudo e traga algo que não me faça perder meu tempo.

​O silêncio na sala de reuniões foi ensurdecedor. Lucas sentiu o rosto queimar. Ele era o Diretor Geral, mas ali, sob o olhar gélido de Beatriz, ele parecia um estagiário em erro. Ele recolheu seus papéis, mantendo a coluna ereta, mas com os dentes cerrados.

​A Conversa com o Patriarca

​Ao sair da sala, ele não foi para o seu escritório. Ele caminhou até o final do corredor, para a sala onde o Dr. Otávio ainda mantinha sua autoridade, embora estivesse cada vez mais ausente das operações diárias.

​Sem bater, Lucas entrou. Otávio o olhou surpreso, notando o tremor nas mãos de seu homem de confiança.

​— Ela está passando dos limites, Otávio. — Lucas disse, a voz rouca. — Eu aceitei o seu perdão, aceitei a culpa e trabalhei como um condenado para manter esta empresa no topo. Mas a Beatriz não está fazendo gestão... ela está fazendo uma vingança pessoal.

​Otávio suspirou, fechando o livro que lia. Ele sabia que esse dia chegaria.

— Ela me contou que você está tendo dificuldades com os novos processos, Lucas.

​— Dificuldades? Ela me humilha na frente dos conselheiros. Ela desfaz o meu trabalho por puro capricho. Se o senhor não intervir, eu não vou ter outra escolha a não ser entregar meu cargo. Eu não posso ser o "Diretor" de uma empresa onde sou tratado como lixo.

​Otávio viu a dor no olhar de Lucas e percebeu que a ferida que ele achou ter curado com o exílio na Suíça só tinha infeccionado.

— Fique calmo, Lucas. Eu vou falar com ela. Agora mesmo.

​O Confronto de Sangue

​Minutos depois, Beatriz entrou na sala do pai. Ela estava radiante, com a confiança de quem acabara de "vencer" mais uma batalha no escritório.

​— Mandou me chamar, papai? — Ela perguntou, mas seu sorriso vacilou ao ver o rosto severo de Otávio.

​— Sente-se, Beatriz. — A voz de Otávio era a mesma que a enviou para a Europa. — O que você está fazendo com o Lucas?

​— Estou modernizando a empresa, papai. O Lucas é... lento. Ele pertence à sua era, não à minha.

​— Não minta para mim! — Otávio bateu na mesa. — Eu conheço o trabalho dele e conheço o seu olhar. Você não está modernizando nada, você está tentando quebrá-lo. Eu mandei você para a Suíça para amadurecer, não para voltar como uma tirana.

​Beatriz levantou-se, os olhos brilhando com uma fúria antiga.

— Você o protege! Você sempre o protegeu! Ele me traiu, papai! Ele contou o nosso segredo para garantir o lugar dele na sua mesa, e você o recompensou com o meu lugar enquanto eu era trancada em um colégio a quilômetros daqui!

​— Eu o recompensei porque ele teve a decência de ser homem e assumir o erro! Coisa que você nunca fez! — Otávio levantou-se também. — Se você continuar a tratar o Lucas desse jeito, eu vou retirar você da vice-presidência. Eu posso ser seu pai, mas sou o dono desta empresa. E não vou permitir que você destrua o meu melhor homem por causa de uma mágoa de adolescente.

​O silêncio que se seguiu foi pesado. Beatriz olhou para o pai, chocada com a ameaça. Ela percebeu que, apesar de todo o seu poder conquistado, Lucas ainda era o ponto fraco daquela família.

​— Entendido. — Ela disse, a voz baixa e vibrante de ódio. — Se é assim que o senhor quer... eu vou tratá-lo com todo o "respeito" que ele merece.

​Ela saiu da sala batendo a porta. No corredor, ela encontrou Lucas, que esperava para saber o resultado da conversa. Ela parou diante dele, a respiração ofegante.

​— Você foi chorar para o meu pai? — Ela sussurrou, aproximando-se tanto que ele podia sentir o calor da sua raiva. — Parabéns, Lucas. Você ganhou um aliado. Mas acabou de transformar este escritório em um campo de batalha onde não haverá prisioneiros.

​Ela deu as costas e entrou em sua sala, deixando Lucas com a sensação de que, embora tivesse vencido a batalha com o apoio de Otávio, a guerra com Beatriz estava prestes a se tornar muito mais pessoal e perigosa.