A Filha do meu chefe

4 ​Capítulo 4: Quarto 402




​O jato executivo da empresa cruzava as nuvens em direção ao Rio de Janeiro. Lucas tentava manter os olhos fixos em um tablet com gráficos financeiros, mas o silêncio na cabine era cortado apenas pelo som das páginas da revista de moda que Beatriz folheava ao seu lado. O Dr. Otávio, sentado na poltrona à frente, estava mergulhado em ligações internacionais.

​— Vai ser uma conferência intensa, Lucas — Otávio disse, desligando o celular. — Por isso fiz questão de ficarmos no Copacabana Palace. Precisamos estar relaxados para a rodada de negócios de amanhã. E a Beatriz... bem, ela pode aproveitar a piscina enquanto trabalhamos.

​Beatriz deu um sorriso de lado, sem tirar os olhos da revista.

— Vou aproveitar muito, papai. Pode ter certeza.

​O Corredor do Pecado

​Ao chegarem no hotel, o check-in revelou o primeiro problema. Otávio, por um erro da secretária (ou talvez por um excesso de confiança), havia reservado uma suíte master para si e dois quartos conjugados para Lucas e Beatriz.

​— Não tem problema, não é, Lucas? — Otávio perguntou enquanto caminhavam pelo corredor acarpetado. — São quartos separados, só dividem uma porta interna que, claro, ficará trancada.

​— Sem problemas, Dr. Otávio — mentiu Lucas, sentindo o suor pinicar sob a camisa.

​Assim que entrou no seu quarto, Lucas jogou a mala na cama e foi direto para a porta que o separava de Beatriz. Ele testou a maçaneta. Estava trancada do lado dele. Ele suspirou de alívio, mas o alívio durou pouco. Dois segundos depois, ele ouviu o clique metálico. A maçaneta girou.

​Beatriz abriu a porta do lado dela. Ela já havia tirado o blazer e estava apenas com uma regata de seda fina.

​— O que você está fazendo? — Lucas sussurrou, furioso. — Tranque essa porta agora!

​— O papai já desceu para o bar do hotel — ela disse, entrando no quarto dele com uma naturalidade que o assustava. — Ele vai ficar lá pelo menos uma hora discutindo contratos. Estamos sozinhos, Lucas. Finalmente.

​— Nós nunca estamos sozinhos, Beatriz. Cada segundo que você passa aqui é um risco para a minha vida profissional. Sai.

​— Você é tão chato quando tenta ser o "homem de negócios" — ela caminhou até o frigobar, pegando uma garrafa de água mineral. — Noite de sexta você não era assim. Noite de sexta você era o homem que me fazia perder o fôlego.

​A Queda das Máscaras

​Lucas caminhou até ela, pretendendo segurá-la pelo braço e levá-la de volta ao quarto dela, mas Beatriz foi mais rápida. Ela se virou, prendendo-o entre o frigobar e seu próprio corpo. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelas luzes da orla que entravam pela janela.

​— Você me empurrou naquela sacada — ela murmurou, a voz agora rouca, os olhos fixos nos lábios dele. — Mas eu vi como você me olhou quando eu saí. Você está morrendo de medo, mas não é do meu pai. É do que você sente quando eu chego perto.

​— Você tem dezessete anos, Beatriz. Isso é crime, é loucura, é o fim de tudo — Lucas disse, mas sua voz não tinha a convicção de antes. A proximidade era intoxicante.

​— Falta um mês — ela sussurrou contra o pescoço dele. — Em trinta dias eu faço dezoito. O que você vai dizer depois disso? Qual vai ser a desculpa?

​Ela não esperou a resposta. Beatriz o beijou, e desta vez não foi o beijo desesperado do banheiro. Foi um beijo lento, possessivo, que dizia claramente que ela não aceitaria um "não" como resposta. Lucas lutou contra si mesmo por três segundos antes de ceder. Suas mãos subiram pela cintura dela, puxando-a para cima, sentindo a urgência que ambos tentavam sufocar há semanas.

​Eles caíram na cama, um emaranhado de lençóis e respirações curtas. O mundo lá fora — o Dr. Otávio, o emprego, a ética — deixou de existir. Por alguns minutos, eles eram apenas dois estranhos novamente, como naquela noite na boate.

​O Som do Desastre

​Um som metálico vindo do corredor fez Lucas saltar da cama como se tivesse levado um choque. Bip. O som de um cartão magnético sendo inserido em uma porta.

​— Lucas? Está acordado? Esqueci meu tablet no seu quarto! — A voz de Otávio ressoou através da porta principal do quarto de Lucas.

​O pânico foi absoluto. Beatriz, com os cabelos desgrenhados e a blusa desalinhada, arregalou os olhos.

​— Pro seu quarto! Agora! — Lucas sibilou, apontando para a porta conjugada.

​Beatriz correu, deslizando para dentro do próprio quarto e fechando a porta silenciosamente no exato segundo em que Lucas se jogava em uma poltrona e pegava um relatório qualquer, fingindo estar concentrado.

​A porta principal se abriu. Otávio entrou, parecendo levemente alterado pelo uísque do bar.

​— Ah, desculpe entrar assim, meu caro. Achei que estava dormindo. — Otávio caminhou até a mesa de canto. — Onde deixei aquela droga de aparelho? Ah, aqui está.

​Otávio pegou o tablet, mas parou por um momento, olhando para a cama de Lucas, que estava visivelmente bagunçada. Depois, olhou para Lucas, que estava com a respiração levemente pesada e o rosto corado.

​— Tudo bem, Lucas? Você parece... agitado.

​— Só... o calor do Rio, Dr. Otávio. O ar condicionado demorou a pegar — Lucas respondeu, o coração batendo tão forte que ele achava que o chefe podia ouvir.

​Otávio caminhou até a porta conjugada que separava os quartos de Lucas e Beatriz. Ele colocou a mão na maçaneta.

​— A Bia já deve estar dormindo. Aquela menina apaga assim que deita — Otávio comentou, fazendo menção de girar a maçaneta para conferir a filha.

​Lucas sentiu que ia desmaiar. Se a porta estivesse aberta, ou se Beatriz não tivesse tido tempo de se recompor...

​— Dr. Otávio! — Lucas exclamou, talvez alto demais. — Antes de o senhor ir... eu estava revisando os termos da fusão e notei uma brecha no contrato da logística. Pode me dar um minuto para eu lhe mostrar?

​Otávio parou, soltando a maçaneta. O interesse pelo lucro superou a curiosidade paterna.

— Uma brecha? No meu contrato? Mostre-me agora.

​Enquanto Otávio se debruçava sobre o notebook de Lucas, o jovem executivo olhou para a porta do quarto de Beatriz. Ele sabia que o perigo não tinha passado. Tinha apenas sido adiado. E agora, com a confissão de Beatriz sobre o aniversário de dezoito anos, ele sabia que a contagem regressiva para a sua ruína — ou para a sua entrega total — havia começado.