A Filha do meu chefe
13 Capítulo 15: O Olhar do Patriarca
A vitória contra a aquisição hostil consolidou o império, mas o clima no jantar de comemoração era de uma eletricidade diferente. O evento ocorreu na cobertura de um dos hotéis mais caros de São Paulo, reservado apenas para a alta cúpula e o Dr. Otávio.
O tilintar dos cristais e o som do jazz ao fundo deveriam sinalizar um momento de relaxamento, mas para Lucas e Beatriz, o ar parecia carregado. Eles estavam em lados opostos do salão, conversando com acionistas, mas os seus olhares cruzavam-se constantemente, como se existisse um fio invisível que os puxasse de volta para aquela noite na montanha.
O Dr. Otávio, observador nato e mestre em ler pessoas, não perdeu um único detalhe. Ele notou como o tom de voz de Lucas suavizava ao mencionar o nome de Beatriz, e como ela, habitualmente impenetrável, buscava a aprovação silenciosa de Lucas a cada decisão comunicada aos sócios.
— Lucas, pode acompanhar-me até a varanda? — Otávio pediu, com uma voz que não aceitava recusas. — O fumo dos charutos lá dentro está a incomodar-me.
O Confronto na Varanda
Os dois homens saíram para o terraço, onde a cidade de São Paulo se estendia como um mar de luzes infinitas. Otávio acendeu um charuto, mas não o levou à boca imediatamente. Ele olhou para Lucas, o homem que ele resgatou, perdoou e que agora comandava o seu legado.
— Fizemos história hoje, Lucas. O mercado nunca viu uma defesa tão agressiva e coordenada — começou Otávio. — Mas eu não sou apenas o seu sócio. Eu sou o pai da mulher que planeou isso consigo em total isolamento.
Lucas sentiu o peso da conversa. Ele manteve a postura, mas não desviou o olhar.
— A Beatriz foi fundamental, senhor. Sem ela, a Logos Tech estaria perdida.
— Não me venha com relatórios de desempenho, Lucas. Eu conheço-o — Otávio deu um passo à frente, a voz ficando mais baixa e séria. — Eu vi como olhou para ela lá dentro. É o mesmo olhar que tinha pela Isadora, mas com algo mais... algo que vem de anos de conflito.
— Dr. Otávio, eu respeito a sua filha e a posição que ela ocupa — Lucas tentou manter a barreira.
— Deixe-se de formalidades! — Otávio exclamou, embora sem raiva. — Eu mandei-a para a Suíça para separá-los quando eram jovens e imprudentes. Depois, ela voltou e tentou destruir-te. Agora, vejo que a tragédia e o tempo transformaram esse ódio em algo que eu não consigo rotular. O que está a acontecer, Lucas? Vai trair a minha confiança novamente?
A Resposta de Lucas
Lucas respirou fundo o ar frio da noite. Ele pensou na solidão do último ano, na lealdade de Beatriz e na forma como ela se tornou a sua única âncora.
— Não há traição, senhor. Há apenas... sobrevivência — respondeu Lucas, com uma honestidade brutal. — Nós passámos por um inferno juntos. Eu perdi a minha família, e a Beatriz perdeu a juventude por causa das minhas escolhas e das suas. O que existe entre nós agora não é um segredo de boate ou uma aventura. É uma parceria que se tornou vital. Eu não vou mentir para o senhor: eu não consigo mais imaginar a minha vida, ou esta empresa, sem ela ao meu lado.
Otávio ficou em silêncio por um longo tempo, a brasa do charuto brilhando no escuro.
— Ela é o meu único sangue, Lucas. Se a magoar novamente, não haverá fusão ou amizade que o salve.
— Eu já a magoei o suficiente para uma vida inteira, Otávio. Agora, eu só quero protegê-la. De tudo, inclusive de si mesma.
A Dança das Sombras
Otávio apenas assentiu, um sinal de trégua silenciosa. Eles voltaram para o salão. Beatriz estava parada perto da entrada, observando a porta da varanda com uma ansiedade mal disfarçada. Quando viu os dois entrarem, ela relaxou visivelmente.
Lucas caminhou diretamente até ela. Ignorando os olhares dos outros executivos, ele parou ao seu lado e colocou a mão discretamente na parte baixa das suas costas — um gesto de posse e proteção que ele nunca se permitira em público.
— O seu pai e eu terminamos a nossa conversa — ele murmurou no ouvido dela.
— E o que ele disse? — ela perguntou, sentindo o calor da mão dele através do tecido do vestido.
— Ele disse que, se eu a magoar, estou morto — Lucas deu um pequeno sorriso, o primeiro sorriso verdadeiramente genuíno em muito tempo.
Beatriz olhou para o pai, que os observava de longe com um copo de uísque na mão e um aceno de cabeça solene. Ela então voltou-se para Lucas, os olhos brilhando.
— Então é melhor ter muito cuidado, Diretor. Porque eu não pretendo facilitar as coisas para si.
— Eu não esperava menos — respondeu ele.
Eles não precisaram de beijos ou promessas sob os holofotes. O entendimento era total. A "dupla imbatível" agora tinha a bênção — ainda que cautelosa — do patriarca. O futuro da Vanhansen & Lucas Group estava garantido, e, nas sombras daquela celebração, um novo capítulo, sem culpas e sem mentiras, começava finalmente a ser escrito.
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