A Filha do meu chefe
1 Capítulo 1: O Labirinto de Vidro e Ferro
Lucas sentiu o suor frio brotar na nuca. Ele era um homem de estratégia, treinado para manter a compostura em reuniões de milhões, mas ali, diante do olhar arregalado de Beatriz, ele sentiu o chão ceder. Ela parecia menor do que na boate, envolta no uniforme escolar de saia xadrez e um moletom que escondia a mulher que ele acreditava ter conhecido na sexta-feira.
— Prazer, Sr. Lucas... — a voz dela saiu em um sussurro quase inaudível. Ela não conseguia desviar os olhos, que oscilavam entre o pânico e uma estranha centelha de reconhecimento.
— Prazer, Beatriz — Lucas respondeu, a voz forçadamente estável, embora sua mente estivesse em chamas. — O Dr. Otávio estava justamente me contando sobre sua dedicação aos estudos. O último ano é... desafiador.
— É sim. — Otávio interveio, rindo e dando um tapinha nas costas de Lucas, sem notar o abismo que se abria entre os dois jovens. — Dezessete anos e já quer dominar o mundo. Mas vamos lá, Lucas, deixe-me mostrar sua nova sala.
— Com licença, Dr. Otávio — Lucas interrompeu, sentindo a náusea subir. — Eu... eu bebi muito café antes de vir. Importa-se se eu passar no banheiro antes de continuarmos o tour?
— Claro, meu caro! No fim do corredor à esquerda. Te espero aqui em cinco minutos.
O Confronto Silencioso
Lucas saiu da sala quase tropeçando nos próprios pés. Ele entrou no banheiro de mármore impecável, trancou a porta e abriu a torneira, jogando água gelada no rosto. Dezessete. Ela tem dezessete anos. O que eu fiz?, ele pensava, olhando o próprio reflexo, agora pálido.
De repente, a porta do banheiro foi aberta com um solavanco e fechada logo em seguida. Pelo espelho, ele viu Beatriz. Ela estava trêmula, com a respinhação ofegante.
— Você não pode estar aqui! — Lucas sibilou, virando-se para ela. — Esse é o banheiro masculino, e seu pai está a metros daqui!
— Eu não sabia! — ela disparou, as lágrimas ameaçando cair. — Eu juro que nunca disse que tinha dezessete porque... porque eu não queria ser a "garotinha" naquela noite. Eu queria ser alguém. Eu queria ser a mulher que você viu!
— Beatriz, isso é um desastre. — Lucas deu um passo atrás, batendo as costas na pia. — Eu sou o novo braço direito do seu pai. Se ele sonhar que...
— Ele não vai saber! — Ela deu um passo à frente, agarrando o terno dele com mãos trêmulas. — Por favor, Lucas. Esquece tudo. Esquece meu nome, esquece aquela noite, apaga a memória do que aconteceu naquele apartamento. Eu imploro. Se ele descobrir, ele acaba com você e me manda para um internato na Suíça. Finja que nunca me viu na vida.
— É exatamente o que eu vou fazer. — Ele segurou os pulsos dela, tentando afastá-la, mas a proximidade era perigosa. O perfume cítrico dela, o mesmo que ficou no travesseiro dele, preencheu o espaço confinado do banheiro.
O pânico nos olhos dela se transformou em algo mais denso, uma eletricidade que eles não conseguiram desligar. Por um segundo, a razão foi silenciada pelo instinto. Em um movimento impensado e desesperado, Lucas a puxou para mais perto, e Beatriz o beijou com uma urgência que misturava medo e desejo. Foi um beijo amargo, com sabor de despedida e perigo.
Ele a afastou bruscamente, recuperando o fôlego, o rosto vermelho de tensão.
— Isso foi um erro. O último erro. — Lucas disse, a voz ríspida. — Nunca mais. Não fale comigo, não olhe para mim. Você é a filha do meu chefe. Nada mais.
— Combinado. — Ela limpou o canto da boca com as costas da mão, recuperando uma fração de sua dignidade. — Você é apenas um funcionário. Eu nem sei quem você é.
Beatriz saiu do banheiro primeiro, verificando o corredor. Lucas esperou dois minutos, respirando fundo para baixar a adrenalina. Quando voltou para a sala de Otávio, ele era novamente o profissional impecável. Mas, no fundo de sua mente, ele sabia que aquela "promessa de esquecimento" seria a coisa mais difícil que já tentou cumprir.
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