A Filha de Ártemis
3 A profecia
Sonhei que estava na sala de aula e que meu professor tinha grandes pernas de bode, ele me xingava por não ter ganho de Dionísio no jogo de cartas enquanto eu tentava explicar que eu era apenas uma ninfa e não tinha chance contra o deus.
O sonho mudou de repente, eu estava em uma floresta, um lobo uivava de dor, parecia preso a uma armadilha, eu corri para ajudá-lo, sua perna havia sido machucada.
“Me ajude por favor”. – agonizava o lobo. – “Você tem que tentar.”
Eu recuei, lobos não sabiam falar. Mas então percebi que a voz estava em minha cabeça. Era como se eu pudesse entender seus pensamentos. Tentei ajudá-lo, mas ele não parava de debater-se e assim machucava-se mais. Eu olhei para o céu e reparei na lua que estava vermelha como sangue.
Desviei os olhos, corpos agora jaziam no chão coberto de folhas amarelas que aos poucos se tornavam vermelhas com o sangue das pessoas ao meu redor.
Acordei suando e com o coração disparado. Suspirei de alívio ao me dar conta que era apenas um sonho. Sentei-me na cama, a respiração ainda um pouco elevada, era óbvio que não conseguiria voltar a dormir. O que queria dizer aquele lobo? E a lua? E os corpos no chão (arrepiei-me ao lembrar-se deles)?
Sai da cama devagar, me vesti e abri a porta do chalé 11. Deveria ser umas três horas da manhã. Era uma noite estrelada, eu olhei para a lua e (graças aos deuses) ela estava normal, brilhando imponente no céu.
Observei que as luzes da casa grande estavam ligadas, aproximei-me da casa e entrei. Ouvi vozes, pareciam vir de um corredor à direita, as segui e deparei-me com uma porta entreaberta por onde escapava um fino feixe de luz.
– Você tem certeza de que se refere a ela?
Falou uma voz que vinha do outro lado da porta, eu não a reconheci, mas parecia ser de um adolescente.
– É claro Percy. Só pode ser ela, tudo se encaixa. — falou outra voz, dessa vez de uma menina.
– Quíron, você acha que devemos contar a ela? – perguntou o que devia chamar-se Percy.
Ouvi a voz tensa de Quíron responder.
– Eu não sei. Se contar-mos significará que ela terá que partir para uma missão e ela não recebeu nenhum tipo de treinamento ainda.
– Que se vire, não temos tempo para esperar. – falou uma voz arrogante que reconheci ser a de Dionísio.
– Iremos com ela, Annabeth e eu. – disse Percy.
– Eu também. – ofereceu-se Jéssica rapidamente.
Imaginei mais quantas pessoas tinham e sobre o que estariam falando na calada da noite. Eu acho que sabia a resposta da segunda pergunta e isso me deixava mais nervosa ainda. Esperaria ouvir meu nome na conversa e então interromperia a reunião.
– Não, apenas dois poderão ir com ela, vocês sabem muito bem que mais de três pessoas em uma missão da azar. – falou Dionísio.
– Deixaremos que Gabrielle escolha. – determinou Quíron.
Era a minha deixa, empurrei a porta.
– O que estão falando sobre mim? – perguntei.
As cinco pessoas na sala me olharam, de repente achei que ter ficado atrás da porta teria sido uma boa ideia. O clima estava tenso e eu não estava gostando daquilo.
Dionísio estava se segurando para não rir.
– Você sabia! – enfureceu-se Percy apontando para Dionísio. – Você sabia que ela estava escutando.
Dionísio abriu um largo sorriso.
– É claro seu idiota, sou um deus.
– Por que não nos disse? – perguntou Annabeth.
– Porque cedo ou tarde vocês teriam que contar a verdade a ela não é? – respondeu Dionísio. – Eu só adiantei as coisas.
– Vocês querem, por favor, me dar uma explicação? – pedi olhando no rosto de cada um em particular.
Quíron foi o primeiro a impor-se. Ele me encarou profundamente.
– Gabrielle nós precisamos ter uma séria conversa.
Senti vontade de responder que achava que eles já estavam fazendo isso pelas minhas costas, mas decidi escutar o que ele tinha a dizer.
– Alguns meses atrás recebi uma profecia do Oráculo, e depois de conversar com sua mãe e achar isso perdido no saguão percebi que ela só podia referir-se a uma pessoa, você.
Ele ergueu um colar prateado e entregou-o a mim. Eu levei a mão ao pescoço por instinto, não podia acreditar que o havia perdido e nem me dera conta. Eu o recoloquei ao pescoço rapidamente.
– Acho que você deveria começar lendo a profecia, para que depois possamos lhe explicar tudo. – disse o garoto que se chamava Percy entregando-me um pedaço dobrado de papel.
Era um menino muito bonito, alto e com o corpo em perfeita forma, tinha os olhos de um azul mar hipnotizante, parecia estar na faixa dos 17 anos.
Ao meu lado a menina chamada Annabeth sorriu para mim, tinha o cabelo loiro e ondulado, seus olhos eram iguais aos das crianças de Atena. Também parecia ter 17 anos.
Abri o bilhete com as mãos tremulas.
– Leia em voz alta. – ordenou Dionísio.
Minha voz também tremia um pouco, mas no final consegui ler a profecia inteira.
Uma meio-sangue nascida de uma promessa quebrada.
Em suas mãos o destino de uma tribo milenar.
O poderoso Zeus escolheu o desafio.
Quatro partirão para cumpri-lo, mas só três poderão voltar.
Seguiu-se um silêncio na sala. Eu ainda olhava para o bilhete em minhas mãos tentando decifrá-lo, na esperança que alguma coisa nele me desse uma revelação.
– Então vamos as explicações. – disse Dionísio batendo a palma das mãos ansioso e quebrando o silêncio.
Eu olhei para Quíron esperando que ele começasse. Era como se ele estivesse pensando nas palavras certas. Ele começou a falar enquanto fitava o chão pensativo.
– Há muito tempo atrás nasceram no Olimpo os irmãos gêmeos filhos de Zeus e Leto. Com o tempo mostraram-se muito diferentes entre si. O filho de Zeus tornou-se deus do sol e das profecias, conhecido como Apolo. Sua irmã tornou-se deusa da lua e da caça, era muito ligada a natureza em especial aos animais. Zeus a deu um arco de prata invencível e um bando de ninfas para que a seguissem em sua atividade favorita: a caça.
– Blá, blá, blá. Passa logo para a parte interessante Quíron. – resmungou Dionísio impaciente.
– A deusa queria ser livre e independente. Subiu ao Olimpo e jurou aos pés de Zeus que nunca se casaria e nem teria filhos. Jurou ser uma deusa virgem para toda a eternidade. Aos pouco surgiram mulheres guerreiras mortais, chamadas mais tarde de Amazonas, com o mesmo propósito. Elas então passaram a adorar a deusa casta conhecida por Ártemis. Ártemis ainda vive na floresta com suas fiéis seguidoras: as Caçadoras.
Quíron fez uma pausa. Até aí tudo bem, agora viria a parte que eu não queria escutar.
– Há 15 anos Ártemis apaixonou-se perdidamente. Dessa paixão nasceu uma criança. O poderoso Zeus que tudo vê chamou Ártemis ao Olimpo e jurou castigá-la e matar a criança imediatamente. Mas um sentimento novo invadiu Ártemis, o amor materno falou mais alto e ela escondeu a criança de Zeus entregando-a a um casal mortal.
Eu dei as costas a Quíron, a porta me pareceu uma ótima saída, tudo o que eu queria era voltar ao chalé 11, deitar-se para dormir e nunca mais acordar.
Quíron continuou.
– Zeus enfureceu-se com sua filha, a prendeu e como castigo a fez assistir enquanto ele matava o homem por quem ela havia apaixonado-se. Zeus então a soltou e dirigiu-se as Caçadoras para matá-las, mas Ártemis se pôs a frente de seu pai e lhe fez uma proposta na esperança de salvar suas seguidoras. Quando a criança atingisse a adolescência ele lhe proporcionaria um desafio, se ela sobrevivesse ele a deixaria viver, caso contrário ele a mataria e também as Caçadoras de sua filha. Zeus concordou com o desafio.
Eu ainda estava de costas, agora tudo fazia sentido. Meu colar, a profecia. Era como se os versos da profecia fizessem eco em minha mente.
“Uma meio-sangue nascida de uma promessa quebrada”, eu era o resultado do erro de uma deusa, o fato de estar viva já era um pecado, eu nem deveria existir.
Além dos monstros os deuses também deveriam estar de olho em mim (é claro que o Olimpo inteiro já sabia sobre isso) alguns talvez até quisessem me matar, talvez estivessem com raiva pelo fato de eu existir, assim como Zeus.
“Em suas mãos o destino de uma tribo milenar”, as Caçadoras contavam comigo para sair triunfante em um desafio proposto por Zeus. Pelos deuses! Eu não conseguia nem vencer os desafios que me faziam na escola.
Os dois últimos versos eram os que mais me incomodavam. Qual seria o desafio que Zeus escolhera? E como eu encararia uma missão sabendo que um não voltaria?
Os cinco ainda me olhavam esperando minha reação. Dionísio me observava com interesse, imaginei se estaria lendo meus pensamentos.
– Alguém de vocês sabe que desafio é esse afinal? – eu perguntei tentando reagir a confusão em que meus pensamentos estavam.
– Dionísio irá ao Olimpo daqui a pouco para informar Zeus dos últimos acontecimentos. Esperaremos para ver o que Zeus dirá e amanhã cedo conversaremos sobre isso.
Eu acenei com a cabeça e me dirigi à porta em silêncio.
Estava quase chegando aos chalés quando ouvi passos atrás de mim.
– Gabi, espera!
Eu me virei, era Jéssica que vinha acompanhada de Percy e Annabeth.
– Vamos com você, OK? Seja qual for o desafio. – disse Percy.
– Vocês recém chegaram de uma missão, não se importem comigo, vou ficar legal. – eu respondi tentando parecer mais corajosa do que o normal, mas acho que não funcionou
Annabeth me encarou preocupada, me deu um aperto de mão e dirigiu-se para o chalé de Atena. Percy deu um grande suspiro, desejou-nos boa noite e entrou no chalé de Poseidon.
Jéssica me acompanhou até o chalé de Hermes e nós duas paramos à porta.
– Amanhã veremos o que Zeus decidirá. – ela disse. – Ele não deve demorar muito, seja o que for, vai querer que comecemos o quanto antes, ele não costuma ser paciente.
Eu concordei e nós nos despedimos, enquanto observava Jéssica desaparecer na floresta o sonho fez sentido.
O lobo pedindo ajuda era Ártemis, ela sabe que eu sou a única pessoa que pode salvar as Caçadoras e estava me encorajando a seguir em frente. A lua vermelha de sangue é o sofrimento que ela sente por suas Caçadoras e os corpos no chão é o que acontecerá a elas se eu não conseguir cumprir esse tal desafio.
Voltei ao meu saco de dormir e é óbvio que por mais que eu tentasse pegar no sono não conseguia. Foi a pior noite da minha vida.
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