A Filha de Sherlock Holmes

7 O Destino de Sarah e Emma.


Apesar de apenas poucos segundos terem se passado, Sarah foi capaz de acompanhar tudo, como se estivesse em câmera lenta. Ela viu o corpo de Sebastian Moran cair lentamente em cima dela, e viu por trás dele surgir à figura de Emma, com uma arma na mão. Lestrade chegou logo em seguida ao disparo, e Sarah ainda caia, quando percebeu que sua cabeça bateu, levemente, na mesa da sala. Antes que Sarah pudesse tentar se mexer, Emma e Lestrade removeram o corpo de Sebastian Moran de cima dela.

– Sarah, está bem?! – começou Emma preocupada.

– Estou! Só bati a cabeça! – respondeu a garota, enquanto passava a mão no local machucado, verificando se realmente estava tudo bem. – Onde você aprendeu a atirar? – perguntou Sarah, notando mais uma vez para a arma, na mão da amiga.

– Não aprendi! Fiquei desesperada!

– Teve sorte! – comentou Lestrade.

Sarah olhou com certa reprovação e, ao mesmo tempo, admiração para Emma. Se ela tivesse errado o tiro, poderia ter acertado ela, mas ao que parece, a amiga tivera realmente sorte com a mira. Sarah deu graças a Deus por isso. Sebastian Moran estava morto, e com isso, os perigos que recaíam sob ela e sua família também.

Antes que as duas pudessem se dar conta, o apartamento da Baker Street lotou de policiais da Scotland Yard, e em seguida, Lestrade pediu para que enfermeiros retirassem Sarah.

– Estou bem! – protestou a menina, quando tentaram removê-la – Estou mais interessada em saber quem é esse cara! E por que ele queria me matar?

Lestrade pareceu meio desconcertado com a pergunta, e antes que ele pudesse terminar de pensar no que iria responder, uma voz naturalmente sarcástica irrompeu pela porta.

– Sebastian Moran é um ex-fuzileiro do exército britâncio! – a figura de Mycroft apareceu com a prepotência natural, de quem sempre soube o que estava acontecendo – Depois da guerra, sentiu-se inútil e começou a trabalhar para um certo vilão, conhecido como James Moriarty! A partir daqui, sobrinha querida, imagino que seja capaz de deduzir o resto!

Sarah levantou-se e caminhou até o tio.

– Tio, como sabia que eu estava em perigo?! – perguntou a garota.

– Perdão?! – rebateu o outro, sem entender completamente a pergunta da menina.

– Foi você, não foi?!

Sarah esticou o celular, mostrando a mensagem que recebera minutos antes da intervenção de Emma e Lestrade. Mycroft analizou a mensagem e depois procurou por algo nos bolsos.

– Certamente não fui eu! Mas imagino saber quem tenha sido! – falou logo após constatar que todos os bolsos estavam vazios.

– Imagino também que planeja me devolver, não é, irmão querido?!

Sarah congelou ao ouvir isso, pois logo em seguida, viu a figura esbelta de seu pai entrando, com a ajuda de uma bengala. Emma, assim como a amiga, entrou em choque. Ele andava com certa dificuldade, mas ainda assim, mantinha a postura que sempre possuía.

– É só um celular, Mycroft! Não seja tão desesperado! – retrucou em brincadeira, e então voltou-se sério – Olá Sarah!

Sarah não se conteve. Apesar dela nunca ter sido muito próxima do pai, os acontecimentos dos últimos três dias a fizeram se sentir mais próxima a ele, do que nunca antes. Ela finalmente o compreendia, e finalmente, sentia que era mesmo filha dele. Algo dentro dela sempre soube que, no instante em que ela resolvesse o caso, seu pai acordaria. Foi por tudo isso, que ela não se importou em quanto tempo fazia, desde a última vez que ele havia falado com ela. Ela simplesmente correu e o abraçou com toda a força que podia. O próprio Sherlock ficou surpreso com o ato da filha, mas apesar disso, ele não a repeliu. Envolveu-a em um de seus braços, levemente sem jeito. Estava desacostumado a esse tipo de afeto.

Emma sorriu ao ver a cena. E talvez até tenha deixado rolar algumas lágrimas de emoção. Afinal, aquela era a primeira vez que via Sarah e Sherlock abraçados. Lestrade colocou a mão sob um dos ombros da menina, como se compreendesse o sentimento que ela carregava naquele momento. E então, por um breve instante, todos na Baker Street pararam para admirar aquela cena entre pai e filha.

– Como você podia saber? – perguntou Sarah se afastando, enquanto enxugava os olhos já avermelhados. — Como podia saber que eu corria perigo? E quando foi que acordou?

Sherlock ajoelhou-se, tentando diminuir a altura entre eles, para olhar nos olhos da menina.

– Você me contou! Você me contou que estava negociando com Moran, então eu tive que tomar uma atitude!

– Você estava acordado? – surpreendeu-se.

– Não, mas acordei naquele momento!

– E então foi até minha casa! – interrompeu Mycroft – E pediu para que eu a rastreasse!

– Vimos que estava na Baker Street, e então viemos para cá! – completou Sherlock. – Emma, não vai me abraçar também?! – chamou o detetive para a menina que considerava sua sobrinha.

A garota não esperou por um segundo convite. Correu imediatamente para os braços do tio.

– Estou feliz que esteja de volta! – falou a garota, chorando novamente.

– Obrigado por cuidar de Sarah! – respondeu o detetive, referindo-se ao disparo. Emma, compreendendo do que se tratava, riu sem graça.

– Tem a mira da mãe! – comentou Mycroft – Direto na cabeça!

Emma se afastou de Sherlock.

– Mira da mãe?

– O que me lembra... – começou Sherlock olhando torto para o irmão – Que está na hora de chamar John e Mary até aqui! Lestrade, por favor!

Lestrade, como que acordando de uma realidade própria, despertou ao ouvir seu nome. Imediatamente ele pegou seu celular e ligou para John.

Sarah ajudou Sherlock a sentar-se em sua poltrona. E, aproveitando que Emma conversava com os pais pelo telefone de Lestrade, e que Mycroft fazia suas próprias ligações, Sarah tentou conversar com o pai.

– Está bravo comigo?! – perguntou.

Sherlock exibiu um meio-sorriso.

– Por você ter quase se matado? De jeito nenhum! – respondeu sarcástico – Mas apesar do perigo, você soube agir muito bem! Estou realmente impressionado!

Um momento de silêncio se instaurou por alguns segundos. Sarah sabia que tinha muito mais coisa a dizer, mas então, por que não dizia? A surpresa, de ver o pai recuperado estava desaparecendo e, com isso, ela voltou a sentir a falta de intimidade que eles possuíam.

– Você gostaria de ser minha assistente? – perguntou Sherlock repentinamente.

Sarah processou por um tempo aquela pergunta.

– É sério isso?!

Sherlock afirmou.

– Bem, se você vai começar a querer a solucionar casos, imagino que deva aprender com o melhor! – e deu uma piscadela para a garota.

Sarah sorriu e abraçou o pai mais uma vez, que novamente ficou surpreso, e retribui sem jeito.

– Pelo menos, não vai mais ter que entrar no meu escritório escondida! – falou.

Sarah riu.

– Não consigo esconder nada de você, não é?!

Aquele sorriso e aquela frase, levaram Sherlock para algum momento muito longe dali. Foram as feições no rosto de Sarah, e a forma como ela disse, que o transportaram para anos atrás, quando uma moça ainda omitia sua condição, a fim de fazer uma surpresa para o detetive.

– Quando vai me contar que está grávida? – ele perguntou, sem tirar os olhos do jornal que folhava, naquela manhã.

Molly sorriu.

– Não consigo esconder nada de você, não é?! – ela respondeu, indo abraça-lo logo em seguida. – Você vai ser papai, Sherlock! Parabéns!

Foi esse mesmo sorriso que ele vira agora no rosto de Sarah. Havia se esquecido o quanto elas eram parecidas. Ele retribui o sorriso da filha, e afagando-lhe os cabelos, disse com carinho.

– Você é a sua mãe, por inteiro!

E puxou a filha para um abraço. Dessa vez não um abraço desajeitado, mas um abraço sincero e ansiado por ambos. Foi quando uma exclamação de Emma, chamou a atenção de todos da Baker Street.

– Sarah, seu aniversário é amanhã! E não preparamos nada!

Sarah trocou olhares com o pai e riu.

– Está tudo bem, Emma! Tudo o que eu quero, está aqui mesmo!

–-------------------------------------------------------------------------------

(nota da autora: eu tava imaginando essa musica, nessa cena: https://www.youtube.com/watch?v=q5T8kV0PjU4 XD)

Não houve tempo para grandes decorações, não era nem o desejo dela que isso acontecesse. Ela odiava festas, e só permitiu essa, por que tinha um motivo a mais para comemorar. Todos que ela amava estavam presentes: Seu pai, sua melhor amiga, seus tios, Sra. Hudson e, até mesmo, sua mãe! Sherlock colocara uma foto de Molly, bem no centro da mesa. Ela não sabia o que pedir, quando anunciaram que ela deveria fazer um pedido, antes de assoprar as velas. Olhando em volta, e vendo a cena que estava à sua frente, não havia mais nada que ela quisesse, exceto que aquele momento durasse para sempre, e foi exatamente isso que ela desejou, quando assoprou as velas.

– Não é a festa de quinze anos mais tradicional do mundo! – queixou-se Mary – Mas ao menos, não passou em branco!

– Foi a melhor festa que tive! – rebateu com sinceridade. – Por mim, seriam todas assim!

– Muito bem! – interrompeu a Sra. Hudson com alguns pedaços de bolo, que ela cortara – Quem vai querer bolo?

– Só chá, obrigado! – responderam Sarah e Sherlock juntos, e então começaram a rir, pela sincronização perfeita.

Todos olharam com carinho para os dois, exceto Mycroft, que estava no celular.

Não era uma família comum, pensou Sarah, tampouco ela era. Mas ainda assim, era uma família. Talvez outras meninas tivessem menos problemas, uma mãe viva, por exemplo, um pai menos problemático, um tio menos arrogante, uma melhor amiga que não saiba atirar, uma tia que não fosse uma ex-assassina – seu pai lhe contara sobre Mary – e um tio que não fosse um soldado de guerra. Talvez não tivessem um tio que trabalhasse na Scotland Yard, e uma governanta que não tivesse sido uma ex-stipper. Talvez. Mas ela tinha, e sabia, que não seria tão feliz, se sua família fosse outra.

– Sherlock, assassinato na Rua Fleet! – informou Lestrade, após ler uma mensagem que acabara de chegar em seu celular.

– Vamos, John! – chamou o detetive, e então, olhou para as duas garotas, encarando-o. Elas estavam lhe cobrando algo, e ele sabia o que era – Sarah, Emma, vamos! – suspirou o detetive, resignado. Afinal, promessa é dívida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.