As ondas se chocavam contra o paredão de pedra com uma fúria renovada, herança da tempestade que castigara a costa na noite anterior. Do alto do penhasco, eu observava o caos líquido lá embaixo. O céu, um manto de chumbo carregado de promessas de chuva, parecia descer sobre mim, enquanto o vento gélido chicoteava meu rosto, desmanchando qualquer ordem nos meus cabelos.

Eu estava ali há horas. O som da natureza — o farfalhar da floresta às minhas costas, o estalar dos grilos e o rugido do mar — era meu único refúgio. Naquele isolamento acústico, eu me proibia de pensar. Se houvesse apenas o barulho do mundo, não haveria espaço para as perguntas que gritavam dentro de mim, aquelas para as quais eu nunca teria resposta.

Mas o silêncio é uma armadilha. Meus pensamentos sempre encontram uma fresta para voltar. “Por que eu ainda estou nesta cidade?”, eu me questionava. E a resposta, um sussurro persistente que parecia vir de algum lugar além da minha própria mente, vinha rápido demais: Porque eles te amam. Porque eles precisam de você. Era esse amor, essa necessidade alheia, que me acorrentava aqui quando tudo o que eu queria era desaparecer, ir para um lugar onde eu pudesse ser apenas... normal.

Abri os olhos sem perceber que os tinha fechado. O horizonte, onde o sol deveria estar se pondo, era apenas uma mancha cinzenta. Em uma cidade onde o inverno parecia durar o ano inteiro, o sol era um milagre raro. Às vezes, eu sentia que aquele céu era o meu espelho; uma vastidão escura refletindo a escuridão que eu carregava no peito.

— O que a pobre pedra te fez?

O susto me fez dar um salto. Eu estava tão submersa em mim mesma que não ouvi os passos sobre a grama úmida. Virei o rosto, ainda sentada, e encontrei Nathan. Ele me olhava com uma sobrancelha erguida e um meio sorriso que não chegava aos olhos.

— Você acabou de esmagar uma pedra com a mão — ele completou, sentando-se ao meu lado na beira do abismo.

Ele arremessou um cascalho no mar e eu olhei para a minha própria palma. O que deveria ser um pedaço de rocha sólida era agora apenas pó e farelo. Limpei a mão no short, sentindo o peso do silêncio que se seguiu.

— O que faz aqui? — perguntei, voltando meus olhos para o vazio cinzento à nossa frente.

Senti o olhar dele queimar meu perfil por um segundo antes de ele suspirar, exausto.

— Nós precisamos conversar.

Apenas quatro palavras, mas pesavam como chumbo. Eu vinha fugindo dessa conversa há dias. Sabia que tinha passado do ponto na nossa briga, que o ciúme — aquela faísca irracional que eu me recusava a admitir — tinha tomado as rédeas e estragado tudo. Eu era especialista nisso: agir por impulso, deixar a raiva falar e depois observar os escombros.

— Sarah! — Ele chamou, a voz carregada de uma urgência cansada.

Virei-me para encará-lo. O rosto de Nathan estava abatido; as olheiras denunciavam noites em claro. Senti uma pontada de culpa e desviei o olhar para o chão, subitamente sem coragem.

— Eu te dei espaço, Sarah. Respeitei o seu tempo. Mas eu não consigo mais ficar longe de você — ele confessou, a voz falhando levemente no final. — Diz alguma coisa. Me xinga, me manda ir embora... qualquer coisa que não seja esse silêncio.

— Eu só não quero conversar agora, Nathan — murmurei, a covardia falando mais alto. Levantei-me abruptamente, tentando escapar antes que as defesas caíssem.

Ouvi o bufo de frustração dele atrás de mim. Comecei a caminhar em direção à trilha da floresta, mas não cheguei longe. Senti meu braço ser puxado. Não foi um gesto bruto, mas foi firme o suficiente para me fazer girar e colidir contra o peito dele.

Nathan envolveu minha cintura com os braços, mantendo-me presa. Eu sabia que, se quisesse, poderia me soltar com um simples movimento, mas a verdade era que eu não queria. Eu precisava daquele ancoradouro.

Ele sorriu de forma triste, afastando uma mecha de cabelo do meu rosto com a ponta dos dedos. Fechei os olhos involuntariamente, sentindo o arrepio percorrer minha espinha com o toque quente de sua pele contra a minha.

— Acha que fugir vai mudar o que eu sinto? — Ele sussurrou, a respiração agora misturada à minha. — Aquela crise de ciúmes semanas atrás... ela te entregou, sabia?

Ele estava perto demais. O cheiro dele, a pressão de suas mãos em minha cintura, o modo como ele me olhava com tanta intensidade... tudo isso nublava meu raciocínio. Eu queria responder, queria manter minha fachada de indiferença, mas minha voz tinha desaparecido. Nathan inclinou o rosto, diminuindo a distância mínima que nos separava. Seus lábios quase roçavam os meus, e naquele momento, o mundo — a tempestade, as pedras e as sombras — deixou de existir.

Notas finais
Façam comentário, falando se gostaram ou não.