Rachel e Quíron se viraram e começaram a discutir novamente. Dessa vez, prestei atenção.

- Droga, Quíron, não podemos manda-la por ai! A gente não tem nenhum sinal de que é ela mesmo. Se fosse ela, o mundo já estaria sendo destruído!

Então nós ouvimos o grito.

E então vieram outros e mais outros. Parecia que o mundo estava acabando, de tantos gritos que chegavam ao meu ouvido.

E mesmo que eu não soubesse ate aquele momento... Ele estava.

Rachel correu para o lado de fora, e os outros a seguiram. Eu hesitei por alguns segundos, ate reconhecer um grito em meio a multidão.

Alexandre.

Sem pensar muito bem, corri para o lado de fora.

Eu já havia visto coisas horríveis em minha vida. Havia visto meu pai adotivo morrer esquartejado, pelo pequeno cubículo que eu chamava de guarda roupa. Mas nem aquilo, me preparou para o que eu vi ali.

Pessoas pegando fogo, outras morrendo afogadas, algumas simplesmente gritando, outras simplesmente chorando encolhidas no chão, esperando que a fúria que vinha do céu não chegasse ate elas.

Não adiantou.

Eu tinha que admitir que, a verdade é que uma parte de mim gostou de tudo aquilo. Uma parte de mim se sentiu vingada. Mas ignorei essa parte com todas as forças que tinha e continuei a fitar a multidão de maneira embasbacada.

Foi nesse momento que as coisas ficaram realmente estranhas.

Eu comecei a voar. Não, voar não, planar. E todos os olhares de repente se voltaram para mim. E naquele momento eu senti como se alguma coisa me invadisse e simplesmente desmaiei. Ou pelo menos achava que tinha desmaiado.

POV Alexandre

Eu olhava pro céu com cara de idiota. Okay, eu era um idiota, mas eu não tinha cara de idiota, graças a Deus. Mas naquele momento, a única coisa que eu conseguia fazer era olhar para Mabel como um idiota.

Se bem que, todos ali estavam fazendo o mesmo, pois aquela cena a nossa frente não era nada fácil de aceitar.

Mabel planava sobre todos nós. Seus olhos pareciam ter virado, se tornando completamente brancos. Os cabelos ao invés de estarem caindo sobre os ombros nas ondas que eu achava tão bonito (coisa que jamais iria admitir) estavam voando ao lado dela, não mais prateados, mas brancos.

- Dois gregos e dois romanos lutando lado a lado

Buscando a cura para o incurável

Ao longo do caminho surpresas devem ter

E ate se iludir achando que a cura para a maldição

Podem ter

Mas a cura é apenas uma:

As filhas da morte devem definhar

Para a maldição da morte acabar.

E caiu no chão. Com uma velocidade que não sei da onde tirei, corri ate ela e a segurei. Quando finalmente pude olha-la, ela já não era a coisa diabólica que parecia a minutos atrás. Era apenas uma pequena garotinha que precisava ser protegida.

E eu a protegeria a todo o custo.

POV Mabel

Acordei sobre a cama de um chalé vazio. Reconheci o chalé como o de Hades, tendo plena consciência que aquele não era o meu chalé.

Percy havia conseguido chalé para quase todos os deuses. Faltando apenas o de Thânatos.

O meu pai.

Meus olhos vaguearam pela extensão do quarto, ate encontrar um garoto no meio das sombras me olhando preocupado. Reconheceu imediatamente os olhos de Alexandre e sorriu involuntariamente.

Não pensem besteira, por favor. Ela não era apaixonada pelo garoto. Para falar a verdade, ele era a única pessoa que ela falava em todo o acampamento, mesmo que eles apenas brigassem.

E ela brigava com ele quando sentia falta de falar com alguém.

- Mabel – ele soltou um suspiro aliviado – Você esta bem?

Eu apenas assenti com a cabeça e tentei me sentar. Foi então que senti a dor insuportável na cabeça e senti tudo rodar. Me segurei na cama em busca de apoio. E senti duas mãos me segurando.

- Estou bem, pode me saltar – respondi de forma rude – O que foi que aconteceu?

- Você não lembra de nada?

- Não. – respondeu simplesmente. Aquela era a verdade, ela não conseguia lembrar de absolutamente nada e não tinha a mínima ideia do por que. A última coisa que conseguia se lembrar era o sentimento de satisfação e tristeza e então, tudo se apagou.

- Você começou a planar. Seus olhos ficaram brancos e seus cabelos voavam acima de sua cabeça. E você soltou a seguinte profecia, com uma voz que simplesmente não parecia sua: Dois gregos e dois romanos lutando lado a lado/Buscando a cura para o incurável/Ao longo do caminho surpresas devem ter/E ate se iludir achando que a cura para a maldição podem ter/ Mas a cura é apenas uma:/As filhas da morte devem definhar /Para a maldição da morte então quebrar.

- As filhas da morte? Eu tenho uma irmã? – pensou em voz alta, como se perguntasse para se mesma.

- É, parece que tem. E nós temos uma missão.

- Nós? Quíron não desistiu dessa ideia maluca? – falou, de repente irritada.

- Não. Você vai ter que me aturar.

- Chato – murmurou fazendo bico.

- Gorda!

- Não sou gorda, seu... seu... seu... SEU GIGANTO!

- BAIXINHA!

- MALDITO!

- IRRITANTE!

- ODEIO VOCÊ – os dois gritaram juntos, mesmo sabendo que não era verdade.

Cruzaram os braços e viraram de costa um pro outro, ao mesmo tempo que o senhor D. entrava no quarto.

- Oi, bolacha, oi Alexei. Passei aqui só pra avisar que você vai morrer! – ele disse apontando pra mim com um sorriso que mostrava toda a sua felicidade – Há! E pra avisar também que é pra vocês irem arrumar suas coisas, vocês saem ainda hoje.

- Mas são duas da manhã!

Por quanto tempo eu tinha ficado desmaiada?

- Parece que Thânatos não ta nem ai pra isso, já que ele ta matando todo mundo ai fora – disse senhor D. arqueando levemente as sobrancelhas – Garoto mimado – exclamou em voz alta.

Sem alternativas, sabendo que nada mudaria a decisão de Quíron, ela se levantou para buscar suas coisas no chalé dos indefinidos (Pois é, fizeram um chalé pra eles também) No qual, só quem estava hospedada era eu, já que todos eram reclamados assim que chegavam no acampamento. Dando de mão beijada um chalé confortável só pra mim.

Parou alguns minutos para se recuperar da tonteira. E caminhou ainda meio mal, para o tal chalé que por sorte era quase do lado do chalé de Hades, mantendo os olhos fixados na porta do chalé, pois não sabia se aguentaria olhar pro lado e encarar o pandemônio que se formava no acampamento. Ela entrou e pegou uma capa de violão (não, não tinha um violão nem sabia tocar um, usava apenas como mala) e enfiou vários moletons (a maioria com estampa de desenho ou filmes, tipo Mickey, Bob Esponja, Batman, Super Man). Suas adoradas calças jeans rasgadas, casacos que cobriam o rosto, lentes de contato vermelha e de outras cores... Coisas assim.

E com um simples olhar ela se despediu do chalé em que vivera por 3 anos, e caminhou para o lado de fora.

Dessa vez, não teve como não olhar para o lado.

Os gritos se intensificaram. Havia pessoas correndo em carne viva, outras com braços ou pernas arrancados. Todas choravam e gritavam. Filhos de Apolo se revisavam cuidando dos ferimentos ali mesmo, sem conseguir levar todos para enfermaria.

Eu corria tentando evitar morrer queimada ou esquartejada, sem muito sucesso. Aqui e ali bolas de fogo passaram raspando pela minha cabeça e eu corria o mais rápido possível para a colina.

Quando cheguei lá, vi um Alex andando de um lado para o outro extremamente impaciente.

- Finalmente a princesinha chegou.

- Vá se foder – sussurrei baixinho enquanto descia a colina com um aperto no coração.

Foi quando as primeiras vozes começaram a encher meus ouvidos.

2 dias depois

Nós caminhávamos a dois dias, parando apenas para comer e dormir de forma breve. Meus pés já haviam se enchido de bolhas e eu quase não conseguia acompanhar Alex, que seguia feliz a frente. Nunca viaje com filhos de Hermes. O mundo pode estar acabando, mas eles sempre vão estar felizes a sua frente. Mas a felicidade dele tinha motivo, e não era somente por estar viajando. Alex tinha certeza que estava quase chegando ao acampamento romano.

As vozes na minha cabeça só tinham piorado, se tornando cada vez mais alta, e por mais que eu tentasse, só conseguia entender uma única palavra, “socorro”.

Por isso quando ouvi uma voz gritando socorro, demorei alguns segundos pra perceber que essa não vinha da minha cabeça e correr em direção a voz.

Por algum motivo, não me perdi em nenhum momento e apenas segui o mais rápido possível em meio a escuridão, Alex me seguindo um pouco confuso. E foi ai que nós o encontramos.

O Acampamento Júpiter.

Ele estava ao fim de uma colina, como a do acampamento Meio Sangue, mas ao contrario dele, não parecia ser só um acampamento.

O que nós víamos ali, não era um acampamento. Era uma cidade.

A primeira coisa que notou foi um coliseu romano de cinco andares brilhando a luz da lua, perto de uma campina arena oval como uma pista de corrida.

Sem pensar muito, rumou para lá. A primeira coisa que sentiu foi um cheiro inebriante de comida de algum lugar do qual não sabia onde era. Ela apenas seguiu a comida, sem se virar para olhar para absolutamente nada, tamanha a fome que estava. Fazia dois dias que não tinha uma refeição.

Quando o boato do acampamento júpiter surgira, ela o imaginava como o acampamento meio sangue, só que com vários guardas em sua entrada, mas ali, não havia nada disso.

Ali havia somente um túnel, e quanto mais se aproximava do túnel, mas vozes gritavam em sua mente. As coisas pioraram ainda mais quando atravessaram o túnel e chegaram ao lado de fora.

Ela tinha que dizer que os dois acampamentos não tinham nada a ver. Mas estava acontecendo a mesma coisa que acontecera no Meio Sangue. Ou seja, todos estavam morrendo.

Ela não parou nem um momento para ajudar ninguém, afinal não tinha como ajudar. Colocou o capuz no rosto e saiu andando, enquanto Alex fazia o mesmo. Os anos no acampamento sendo zoada serviram de alguma coisa, afinal, agora ela sabia exatamente como passar despercebida pelas pessoas.

Alex já não tinha mesma sorte, andando pelo meio da multidão, esbarrando aqui e ali em alguém. Diferente de Mabel que seguia como se soubesse exatamente para onde ia.

Eu não sabia e ao mesmo tempo, sabia.

Eu sei que não faz sentido, mas alguma coisa me empurrava para um lugar meio afastado do Acampamento. Onde, avistou de longe uma garota presa numa cadeira, com um garoto tentando de forma desajeitada solta-la.

Um garoto alto e magricela, com cabelos cor de palha, jeans grande e uma blusa roxa ainda maior.

Imediatamente correu ate lá.

Não demorou muito para o garoto nota-la.

- Quem são vocês? – murmurou ele, olhando diretamente para a garota, esperando que ela tirasse o capuz. E ela o fez. Deixando os cabelos caírem sobre os ombros.

- Eu sou Mabel e esse ai é o gigan... Digo, Alex.

- Vocês não são daqui, são? – Foi a vez da garota falar presa falar.

- Bom, não. Viemos do acampamento Meio Sangue.

Bastou essa simples frase pro garoto virar pra ele com a adaga que tentava cortar as amarras no braço da menina. Antes que ele pudesse tentar dar um golpe, eu já estava com a espada no pescoço dele.

- Nem tente isso, garoto. Agora, nós fazemos as perguntas. – ela disse, sorrindo. Se tinha uma coisa que ela havia ficado boa era em lutar com espadas. – Por que ela esta presa?

- Por que sou filha da morte e Reyna teve a brilhante ideia de me prender aqui para a profecia não se cumprir.

- E eu vim salta-la.

- Profecia? – involuntariamente ela começou a murmurar a profecia que ela mesmo recitara a mais ou menos 3 dias — Dois gregos e dois romanos lutando lado a lado/Buscando a cura para o incurável/Ao longo do caminho surpresas devem ter

- E ate se iludir achando que a cura para a maldição podem ter/ Mas a cura é apenas uma:/As filhas da morte devem definhar /Para a maldição da morte então quebrar. – continuou a garota.

Quando olhou para ela viu que as duas não tinham nada a ver. A única coisa que combinavam era bom... Os olhos prateados.