A Filha da Magia
1 O Mago e a Feiticeira
Notas iniciais
Merlín avançou pelo castelo mergulhado na penumbra. Camelot parecia deserta, para todos os que vissem a cidade de fora. Cinquenta anos se haviam passado, desde a morte de Arthur e Gwen. No entanto, por mais que tentasse, Merlín nunca fora capaz de esquecer o rosto de Morgana, quando descobriu a sua traição.
Merlín sempre fora especial. E possuir magia não era o único factor para tal. Merlín sempre havia conseguido descortinar a verdadeira essência das pessoas. Com Morgana, a situação não havia sido diferente. Certo que o seu belo rosto de anjo se tornara com ao passar do tempo na face do mal, mas isso apenas reflectia as suas más escolhas. Dela e de Merlín.
Morgana não pecara, por não saber a magia que dentro dela se escondia. Merlín percebera-o, tentara leva-la até aos druidas, mas nada adiantou. Uther Pendragon não se limitava a tolerar o desaparecimento da sua filha bastarda, que criara como protegida. Filha dele e de Igraine, mais tarde sua rainha, após o seu marido Gorlois, duque da Cornualha ter morrido na guerra. Para sempre, seria a imagem de Gorlois, que Morgana carregaria na sua mente. A imagem do homem com quem aprendera a andar. Por vezes frio e insensível, mas que a amava e tomava conta dela. Não de Uther, o pai que a tratava com caridade. Que tomava conta dela como de uma estranha. Certo que ela vivera rodeada de luxo e de conforto, porém também viveu com a ausência paternal de um pai que na realidade apenas não a queria assumir.
Morgana passara os seus dias em agonia, com medo que Uther descobrisse a herança mágica que o seu sangue carregava. Apenas Merlín e Gaius sabiam desta. Morgana confiara-lhes a verdade. No entanto, Merlín não fizera o mesmo para com ela.
Escondera-lhe que também ele possuía magia no seu sangue. Que lutava por as mesmas coisas que ela, uma Camelot livre da tirania de Uther.
Hoje, depois de tudo o que se passara, Merlín olhava para o seu passado com pesar por não ter feito aquilo que devia há tanto tempo. Escondera a verdade dentro de si há tanto tempo, que quase parecia mentira, quando dito em voz alta. Porém, aquilo que o mago tinha para dizer á feiticeira era a verdade que sempre enterrara no seu coração.
Morgana dançava na sala do trono, como fazia todas as noites. Camelot estava destruída. Apenas bandidos passavam por ali de vez em quando. Pessoas boas evitavam o antigo reino, agora dominado pela feiticeira.
Ao luar, todos os dias ela dançava no salão de Camelot, sozinha. Na companhia dos espíritos e fantasmas do passado, talvez.
Alguns diziam que a loucura por poder a tinha consumido. Outros diziam que fora a magia.
Merlín, Arthur e Gwen eram os únicos que sabiam a verdade. Em vida, tinham tentado torná-la amigável para os outros, depois da queda de Uther. Mas, Morgana não aceitava ninguém á sua beira. Vivera na corte do irmão como um fantasma. Sem vida e sem alma, enquanto Merlín tentava enterrar a verdade dentro de si. Porém, tanto tempo se passara e ambos permaneciam iguais, pois as maravilhas de Avalon os tinham conduzido á imortalidade. Morgana fora coroada rainha de Avalon e Merlín, graças aos seus dotes mágicos e ao facto de ser o último encantador de dragões vivo, estava liberto da morte.
A voz de Morgana ecoava pelo palácio. Uma triste canção era murmurada pelos seus lábios rosáceos entreabertos. Uma canção sobre perdas e dor. A dor de nunca ter conhecido o amor.
Tal sentimento fora-lhe negado ao que ela se lembrava. Vi-a os outros, mas desde que descobrira que Morgause tentara manipulá-la para obter o trono, percebeu que tal sentimento nunca lhe seria dirigido.
Era uma feiticeira. Uma praticante da antiga religião. A última Guardiã do Cálice da Vida.
Tinha tudo, mas não aquilo que mais desejava. O amor daquele que sempre em segredo amou.
- Morgana.
A voz de Merlín vibrava pelo ar, chegando a Morgana poderosa.
A feiticeira, no entanto pensou tratar-se de mais uma das suas alucinações. Lentamente virou-se e observou a sua miragem. Merlín. O seu amado Merlín. As roupas estavam gastas pela exaustão da viagem. No entanto, para ela nada disso importava.
O que ela não daria, para tocar o seu rosto sujo do tempo e cansado das viagens dos últimos anos.
- Merlín…
A voz dela tremia e perdia-se no ar. Como uma folha acabada de cair de uma árvore levantada por um vendaval.
- Que fazeis aqui? Sozinha e miserável?
- Este é o lugar que pertenço. O trono de Camelot é meu, sou rainha. Um reino precisa de um governante. Não posso abandonar o meu lugar.
As palavras de Morgana iam ganhando força, enquanto olhava para a imagem de Merlín que finalmente aceitava ser real. Normalmente, as suas alucinações diziam-lhe o quanto ela era tola por achar que algum dia ele a poderia amar. Gozava dela e depois ia, deixando uma feiticeira prostrada de joelhos a implorar por o amor de um fantasma que nunca ali estivera realmente. Se no passado Morgana tivesse tido um vislumbre do seu verdadeiro futuro, talvez pudesse ter concertado as coisas. Agora era tarde. Deixara a sua sede de compreensão e justiça para aqueles que como ela, possuíam magia levá-la por maus caminhos. Merlín por certo teria uma família. Uma mulher que tomasse conta da sua casa e que desse á luz os seus filhos.
- Acabou Morgana. Camelot é apenas um fantasma agora. Não existe nada aqui. Nada porque valha a pena viver.
As palavras do mago feriram o coração de Morgana como a mais afiada das adagas. Podia ter tido milhares de alucinações, mas nada se comparava á sua real figura a dizer-lhe que ela não valia nada.
As palavras cravavam-se dolorosamente como espinhos na sua alma. Nunca a dor teria um fim. Pois era este o seu castigo. Ser rejeitada por quem mais amava.
- Vêm comigo, Morgana. Por favor. Já não há nada aqui para nenhum de nós.
As palavras de Merlín confundiram-na por momentos.
- Porquê? Porque me pedes que vá? Por pena? Que pensará a tua mulher? Que estás a acobertar uma feiticeira que odeias por piedades?
Merlín deteve-se por instantes e depois pronunciou-se novamente.
- Há mais de cinquenta anos que te escondo algo, Morgana. Nunca to disse, porque para mim era algo um pouco fora do normal. Nunca senti isto por ninguém. Não possuo mulher ou filhos. Como poderia, se desde o primeiro momento em que pus os olhos em uma mulher aqui em Camelot me apaixonei para toda a eternidade por ela?
Por certo ele falava de outra. Seria bom demais para ser verdade, mas feiticeiras como ela não tinham finais felizes. Nunca poderiam ter.
- Não te ocorre quem seja, Morgana? – Ao silêncio da feiticeira, ele continuou. – Talvez nunca tenho lhe dado provas suficientes para que ela percebesse que era por ela, que o meu coração batia. Mas, como o poderia fazer, se eu próprio era completamente cego aos desígnios do meu coração? Foram precisos cinquenta anos para conseguir pensar em admitir o que sinto, porque finalmente percebi que já não posso viver sem ela.
Morgana preparou-se para o momento que se avizinhava. O momento em que Merlín admitiria a sua paixão por outra.
- A mulher que eu amo…
Morgana inspirou.
- És tu.
O ar soltou-se intuitivamente dos seus pulmões, á revelação de Merlín. Ela? Uma feiticeira do mal, que levara á morte de tantos inocentes? Por certo seria uma brincadeira.
Os olhos do mago fitavam-na com adoração. Como se o seu cabelo castanho-escuro não estivesse despenteado e o seu vestido bege com tons brancos e cremes não estivesse esfarrapado.
- Eu? Merlín, não sabes que é de mau tom gozar assim com uma rainha?
- Não estou a gozar. Apenas disse a verdade.
- Queres portanto levar-me a crer que essa é a verdade?
Merlín não respondeu e aproximou-se da feiticeira. Agarrou a sua nuca e juntou os lábios aos dela num beijo casto e cálido.
Morgana passeou as suas mãos pelos cabelos do mago que continuava tão belo quanto fora no dia em que o conhecera. Não mudara num único detalhe.
Quando se soltaram, ambos estavam ofegantes.
- Amo-te. Sempre te amei, sempre te amarei. Não sei se sentes o mesmo por mim, mas gostava de te pedir em casamento, Lady Morgana das Fadas, Rainha de Camelot.
O coração de Morgana sentiu-se aquecido pela primeira vez em décadas.
- Então?
Morgana beijou-o outra vez e por fim falou.
- Sim. Amo-te e quero permanecer o resto da minha vida contigo.
Merlín enlaçou a cintura da feiticeira e juntos cederam aos desejos dos seus corações. A sua imortalidade? Bem, está a ser desfrutada. Ainda hoje eles estão entre nós.
Caminham como humanos, cruzando os seus destinos com os nossos diariamente. Mas, isso é outra história.
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