A Filha Proibida
7 Caça à bandeira - Parte 2
Notas iniciais
Ela deve ser filha de Dioniso ou de Demeter mas isso não importa, ela está me impedindo de avançar e isso me deixa irritada. Fecho os olhos e sinto os galhos afrouxarem por alguns segundos e ouço a garota arfar:
– De que deus você é filha?
– Não fui reclamada ainda. – disse também arfando, pois sentia um repuxo no peito que aumentava de intensidade até que não aguentei mais e gritei. Um grito agudo e, surpreendentemente, ritmado, muito diferente dos gritos que eu soltaria normalmente. Fechei os olhos enquanto aquele grito incontrolável aumentava e o repuxo também.
– Ai meu deuses! De onde vieram esses... Ah! Socorro! É você que está fazendo isso? Faz eles pararem! – e ela seguiu gritando de algo que eu não sabia o que era, visto que meus olhos estavam bem fechados. Ao pouco, o repuxo diminuiu, assim que a pressão das plantas em meus pés e eu parei de gritar.
Abri os olhos e vi a garota sentada no chão chorando, suas roupas cheias de buracos e sua pele sangrando em vários pontos incluindo no rosto. Ouvi vários pássaros piando e olhei para cima, arregalei os olhos ao ver o maior e mais variado bando de aves que já vi. Patos, Periquitos, Beija-Flores e todo tipo de pássaro voava de volta a seus ninhos e codornas e pavões, muitos pavões, corriam de volta para a floresta. Fiquei alguns segundos olhando aquilo estupefata, aparentemente, eu tinha feito aquilo acontecer; será que tinha alguma relação com o repuxo que eu senti e com o grito anormal? Preciso perguntar a Quíron quando o jogo acabar... Me ajoelho e levanto a cabeça da garota, avaliando seu rosto. Ela tem algumas feridas pequenas mas fundas, provavelmente feitas pelos beija-flores, e algumas maiores e rasas, periquitos e pássaros maiores.
– Você está bem.... ahn... eu não sei seu nome...
– Meu nome é Laura... As bicadas são pequenas mas podem infeccionar e... – ela para de falar e solta um grunhido que parece vir do fundo da garganta – eles estão muito espalhados. Não se preocupe... Volta pro jogo, April – ela disse entredentes e eu podia ver que ela estava sentindo muita dor.
Não podia abandoná-la ali daquele jeito, então me abaixei e fiz o possível para ajeitar o corpo de Laura em meus ombros, percebendo então, que a armadura a deixava muito pesada. A coloquei no chão cuidadosamente e tirei o peitoral de bronze e o elmo jogando-os num canto qualquer. Tentei de novo e, agora, Laura estava bem mais leve e minha tarefa era mais fácil.
– Pare... Você é do outro time, me deixe aqui. – Laura dizia enquanto eu tentava fazer minhas mãos pararem de escorregar no sangue que se derramava em suas pernas.
– Nós duas somos campistas e não tem mais ninguém aqui, Laura. Eu vou levar você até encontrarmos alguém, ouviu?
Nesse momento, ouvimos urros e gritos de alegria. O jogo terminou. Quem será que ganhou? A clareira termina e eu estou avançando entre as árvores com Laura quase desmaiada, ela perdeu muito sangue, em meus ombros, quando escuto duas vozes chamarem meu nome. Uma é de Matt e a outra é uma voz que, mesmo que passasse anos sem chegar a meus ouvidos, eu reconheceria: é a voz de Nate. Sorrio e começo a meio que correr, meio que cambalear seguindo o som da voz deles, quando Matt irrompe de entre arvores e arbustos e me vê, sua primeira reação como campista experiente é tirar Laura de meus ombros. Lhe dirijo um olhar que diz “conversamos depois” e olho para ver Nate correndo para me abraçar:
– Desculpa Kate. Desculpa... Você tá legal? – Ele afasta meus ombros e me avalia a procura de machucados. Eu sorrio e encaro seus olhos afetuosos.
– Eu tô bem sim. Tá desculpado, mas nós ainda precisamos conversar ouviu?
– Tudo bem, quantas conversas você quiser – e encerra a frase me beijando. Eu fico surpresa mas correspondo e paro ao lembrar de que Matt está ali perto.
– Meus deuses! Laura!
Pego a mão de Nate e nós corremos pelo local onde vi Matt sair com Laura. Não demora muito e nós os alcançamos. Matt disse que o nosso time ganhou e que vai levar Laura até a enfermaria e que eu podia ir para o chalé. Decido que vou passar na enfermaria mais tarde mas agora tenho Nate aqui e preciso resolver isso logo. Arrasto meu amigo até a beira do lago onde me sento e olho para ele indicando que ele também deve sentar. Ele suspira e senta ao meu lado inclinando a cabeça e tentando me beijar, mas eu me afasto e dou um sorriso brincalhão:
– Agora não. – desfaço o sorriso e encaro os olhos cor-de-mel dele – Nathaniel Fletcher, eu já lhe desculpei, mas você tomou atitudes muito estranhas esses dias e eu exijo explicações.
– Tudo bem. É o seguinte: Eu fiquei com ciúmes porque, logo quando a gente chegou, percebi como você ficou encarando os olhos azuis perfeitos do Matt e ficou toda vermelhinha com isso. Eu te conheço bem demais para saber que você pensou em alguma coisa romântica com ele e nem queira negar. – nesse ponto eu abri a boca para falar, mas ele pôs o dedo em meus lábios – Deixe eu terminar. O fato é que eu não gostei disso, a princípio porque ele é muito mais velho que você, depois percebi que é porque... – ele sorriu com se o que ele fosse dizer fosse a coisa mais importante do mundo – eu gosto de você Kate. Eu gosto muito de você.
– Nate... Isso... Fico aliviada em finalmente entender o porquê de você ter agido daquele jeito mas... É coisa demais ao mesmo tempo... Eu... Preciso conversar uma coisa com Quíron. – beijo sua bochecha e saio correndo em direção a casa grande.
Paro na frente das escadas que levam ao terraço mas sinto que não conseguiria falar sobre os pássaros depois do que Nate me disse. Então corro até o chalé de Hermes e me deito em minha cama, enquanto sinto minha mente se dividindo entre Nathaniel, meu melhor amigo e a pessoa mais importante para mim, e Matt, o estranhou que me cativou e é supercarinhoso comigo. Em instantes sinto lágrimas rolando por minhas faces e enxugo-as com o travesseiro, me sento na cama e respiro fundo. Tiro a armadura, largo a aljava e o arco no chão e vou até o banheiro lavar o sangue de Laura da minha pele. Os outros campistas estão chegando então me deito com as costas para a porta, de modo a evitar Nate.
Os campistas de Hermes começam a entrar no quarto e esbarrar nas coisas que larguei ao lado da cama então me levanto para guarda-las embaixo da cama; e é aí que uma coisa estranha acontece: enquanto me abaixava para recolher as coisas, todos começaram a soltar exclamações e suspiros. Então me levanto e vejo que Nate está parado na porta com um símbolo brilhando em cima de sua cabeça. Um símbolo cinza brilhante com uma balança dentro e todos, menos eu e Nate, pareciam entender o que significava. Então Jake, o chefe do chalé disse:
– Amanhã nós resolvemos isso. Garoto, hoje você dorme aqui mesmo. O resto, tomem banho e vão dormir logo.
Empurrei tudo para de baixo da cama e me deitei, a tempo de ouvir Nate sussurrar na cama ao lado as palavras “boa noite kate”.
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