A única pessoa a qual poderia me ajudar nessa busca seria Arya, que neste exato momento deve estar trancada em seu quarto me xingando de alguns vários nomes. Vejo que terei que me virar sozinha, ok, sem problemas!

Na verdade, por onde eu começo...?

—IRINA!
—Sim?- Viro-me na direção da voz.
—Cadê a Arya?- É Luke que deveria estar descansando e não correndo. Minha atenção deveria estar focada em responder sua pergunta mas meus traiçoeiros olhos se concentram em seu abdômen totalmente exposto já que suas blusas não entram por causa do gesso.

—O quê?- Pergunto tentando acordar de meu devaneio mas ele solta uma leve risada. Pronto, acabou, quer dizer, praticamente babei em cima do garoto!
—Onde está a Arya?

—Não sei, ela deve estar no quarto dela, ela voltou antes de mim!

—Por quê?
—Se importa de não falarmos disso no momento, tenho algo mais importante para me concentrar do que os segredos de Arya.

—Posso saber o quê?

Fico na dúvida se posso ou não confiar em Luke. Sendo sincera, não sei em quem confiar, na verdade, não há essa pessoa. Quando se faz parte da realeza o mais confiável é o mais traiçoeiro e os mais fechados são os mais honestos.

Resolvo confiar nele já que como ele não esteve aqui antes disso tudo, ele não tinha contato com Lizzie. Conto tudo o que está havendo

—Me acompanhe! — Digo indo para o jardim da frente, não posso confiar nas paredes desse castelo.

Chego ao imenso e verde jardim, coberto pela relva que aos poucos começa a se esverdear mais ainda graças ao verão que se aproxima. As árvores ao nosso redor além de grandes e robustas são ótimas para empregadas fofoqueiras se esconderem portanto tomo cuidado e me afasto bem delas. Puxo Luke para o canto que continua me olhando confuso.

—Enfim, digamos que o parlamento quer matar meu dragão porque ele supostamente representa uma ameaça para o nosso povo.

—Deixe-me advinhar, Lizzie?
—Exato. Anne está morta e Lizzie, bem... Digamos que sua condição não é das melhores.
—E o que pretende fazer?

—Olha, o que eu vou falar agora não pode sair daqui Luke, está me entendendo?
—Sim. Agora conte-me de uma vez Irina!
—Eu falei com uma bruxa...
—Que?
—Foi durante a caminhada. Ela me chamou enquanto almoçávamos, e eu fui escondida de Arya. Lá ela meio que... Meio que invocou meu pai, na verdade parece que ele queria falar comigo e conversou com ela e ela me chamou... Isso não importa, a questão é. — Aproximo-me de seu ouvido sussurrando de modo quase inaudível garantindo-me que mais ninguém ouça. — Meu pai foi envenenado...
—Como assim? Irina, isso é uma acusação muito grave! Assassinato de um rei!
—Shhhh!!! Fala baixo! Eu sei, mas ele me contou e acredite eu confio naquela mulher e eu confio no que vi, tenho meus motivos pra saber que ela não estava mentindo.
—Quais? Como sabe que ela não está armando uma armadilha pra você? Sem contar que bruxaria não é algo muito comum...
—Eu congelei um Wyrm, você quer mesmo discutir sobre a existência da magia? É sério isso?
—Ta, desculpa! Mas como sabe que era verdade?

—Digamos que eu tenho uma amiga que sabe de tudo e quando estou prestes a me meter em uma furada... Ela me avisa! — Refiro-me a lua mas de modo oculto. Prefiro deixar o fato dela se comunicar comigo em segredo.
—Ok, então se está me contando isso no meio de todo esse contexto é porque acha que foi Lizzie, não é?

—Eu não acho nada, Luke. Foi ela! Quem mais iria querer ver meu pai morto o mais rápido possível justo quando eu estava fora sem previsão para voltar? Só pode ter sido ela!
—Irei fazer o possível e o impossível para descobrir se ela tem qualquer ligação com isso, falarei com os empregados, procurarei pistas e tudo que eu conseguir.
—Eu lhe ajudarei!

—Não pode! Jorge está alerta, ele estará de olho em você enquanto Lizzie permanece em coma. Cuidado com qualquer passo que vá tomar, ele é perigoso, noto a forma a qual ele te olha. Como se desejasse ver uma faca encaixada em seu pescoço...

—Tudo bem, tentarei disfarçar o máximo possível.
—Mas... Você tem que me fazer um favor!
—Qual?- Pergunto
—Vá se resolver com Arya.
—Como sabe?
—Não está óbvio? Você não viria me pedir ajuda, é com Arya que conta e também a única que pode contar! Você sabe que Arya é de confiança, sabe que ela é sua amiga e que jamais lhe trairia, pra você estar me pedindo ajuda e não a ela, é porque algo aconteceu!
—Ta, eu vou falar com ela!
—Obrigado!

—Majestade?!- Um voz alta me chama.

—Eu vou indo. — Ele diz.

—Boa sorte! — Digo e ele acena com a cabeça pra mim.

—Majestade alguns reis e lordes de outros países gostariam de falar com a senhorita! — Diz Alfred.

—Pra que?
—Bem, eles querem apenas conversar.
—Eles querem conversar ou testar a minha capacidade pra tratar de negócios com eles?
—É... Não sei lhe informar, Majestade... — Alfred fala nervoso.

Cerro os pulsos segurando meu vestido com força indo em direção ao castelo. Subo alguns andares e vou para a sala de reuniões onde 4 cavalheiros me aguardam conversando enquanto fumam seus charutos empesteando minha sala de fumaça e bebem do meu vinho.

—Óh! Majestade! — Um velho pançudo, com bigode cabelos encaracolados batendo na altura das orelhas e trajes de ministro anuncia em voz alta minha entrada. Ele tira o charuto da boca vindo me cumprimentar. Posso sentir seu cheiro de suor e fumaça daqui, tento mas não consigo segurar algumas tosses. — É um prazer imenso finalmente conhece-la! Sou o lorde Bars, vim da Escócia!
—É um prazer conhece-lo, lorde Bars!

—Bom já eu já tive o prazer de conhecer Irina a muitos anos atrás, não é mesmo? — O homem é de aproximadamente 28 anos. Tem cabelo com franja preta, barba por fazer que por acaso ficou bem sexy, e usa roupas pretas. Ele segura minha mão beijando-a e então o reconheço.
—Khaleesi Irina pra você! -Digo e alguns dos homens riem. A história desse cavalheiro é longa e prefiro deixar pra conta-la em outra ocasião. Aquele é Felipe. Príncipe de Portugal embora não se pareça nem um pouco com um. Ele da uma risada sarcástica como quem já esperava que eu fosse ser grossa. Removo rapidamente minha mão da dele e viro-me para o próximo.

—Vossa graça! É uma imensa honra! Sou o barão George da Espanha! — Sorrio em retribuição.

No canto da sala, encostado na janela exalando fumaço por sua boca, está um cara de mais ou menos 60/70 anos, careca, de trajes formais de um duque, carregando consigo o brasão da Rússia. Ele tem uma cara franzida e não parece muito feliz por me ver. Ele não se move ou sequer fala algo sobre a minha chegada, então resolvo eu mesma falar.

—E o senhor? Posso saber quem és? — Digo simpática tentando saber o que há. Calmamente, sem pressa alguma, ele tira o charuto da boca deixando que fumaça saia lentamente por sua boca. Ele se levanta da janela ajeitando sua roupa e anda em minha direção analisando-me de cima a baixo com uma cara não muito boa.
—Eu sou o Grão-Duque Salazar Fretcher, da Rússia.

—Prazer, sou...
—Eu sei quem você é, minha cara! — Ele começa a andar em volta de mim me analisando. — Agora, diga-me Irina, o que planeja para a Inglaterra? Que alianças pretende manter? Irá quebrar alguma? Seu exército continua aumentando ou será que está recuando?

—Grão-Duque, eu...

—Fale garota!
—Eu... — Começo a tossir. A fumaça daquele charuto impede que eu fale.

—Sua insolente mal consegue lidar com umas poucas perguntas e quer governar um país? Seu pai foi um rei exuberante, a Inglaterra era ótima mas agora ela está nas mãos de uma incapacitada, de uma mulher que deveria estar limpando e cozinhando para seu marido e não fugindo de um! Imagino a vergonha que seu pai não teria de estar aqui, imagino a vergonha que eu não teria se minha filha pensasse nisso! — Ele grita comigo como se eu fosse uma criança de 5 anos. Sinto meu sangue ferver. Minha mão se ergue ao lado de meu rosto esticada em sua direção e é quando eu pronuncio involuntariamente:

—Gelidis! -Um filete de gelo escapa de minha mão entrando no charuto fazendo com que a fumaça pare. Ele olha incrédulo com ódio pelo que eu fiz. — Vamos começar. Senhor Salazar, estou sabendo que a quantidade de grãos que vem enviando para a Inglaterra vem diminuindo com o tempo, mas a força do exército que a Inglaterra oferece aos senhores continua alta e que eu saiba a França tem um leve interesse na Rússia. Então, porque não fazemos assim, o senhor passa a oferecer o dobro do que oferecia e eu penso na possibilidade de não findar nosso tratado! Que tal?

Ele parece desesperado.

—Você não pode! Você é uma mulher! Acorde! Sem os grãos da Rússia o que fará? Deixará seu povo morrer de fome?

—Se permite que eu me intrometa rapidamente, majestade, Portugal adoraria trocar metade de seus grãos em troca da aliança militar da Inglaterra! — Se pronuncia Felipe.
—Olha só que beleza! Resolvido! Irei chamar Alfred agora mesmo!
—NÃO!- O velho rabugento grita. — Ta bom, voltamos a oferecer nossa quantia normal!
—Eu disse o dobro!
—A normal!
—Ok então, o triplo!
—O triplo?
—Então Felipe o que... — Começo a falar e ele logo interrompe.
—TA BOM! Ok! Ok! A Rússia oferecerá o triplo de grãos e a Inglaterra continuará apoiando a Rússia com seu exército!
—Ótimo! — Faço menção a sair mas paro. — Ah sim, e Salazar, dá próxima vez que pensar em diminuir qualquer mulher que seja ela uma rainha ou uma taverneira, lembre-se de que enquanto o senhor herdou seu título, eu batalhei e lutei pelo meu!

Ele me olha com fogos nos olhos.

—E quanto a vocês senhores, foi uma grande honra revê-los, espero que aproveitem sua estadia no castelo e que diferente de outras pessoas, possam confiar em minha capacidade tanto como rainha quanto como uma garota que faria tudo pelo seu povo! Pretendo reinar como ou melhor que meu pai, sou sua filha, ele me ensinou e eu aprendi rápido! Obrigada pela conversa e até mais!

E é assim que eu saio daquela sala, vitoriosa, enquanto ouço os risos dos homens junto ao grunhido de ódio saindo da garganta de Salazar.