Quem trouxe a mim e meu cavalo foi Arya, estou nervosa demais para comandar um animal. Chegamos no castelo encharcadas, ela sugere que eu tome um banho mas eu mantenho meu olhar fixo na escada que leva para o andar subterrâneo e sigo sem dizer uma palavra.

Desço passando por aquelas paredes imundas, cobertas por teias de aranha e barro. Tochas acesas iluminam as escadas de pedra que levam para as celas. Aqui é tudo escuro, mal da para se ver, mas avisto todo o povo que enviei para cá parado em frente a cela de Calabar.

—Irina! Meu Deus! Por que está tão molhada?!Mamãe nos avisou que tinha saído.- Fala Lauren.
—Majestade?!- Chama uma voz grossa. O general. -Ela está aqui como mandou!
—Irina! -Chama a voz de Athena mas ignoro indo para o outro lado do corredor. Sigo para a cela e entro nela com vontade.
—General Birk? -Ele me olha.- Não quero que ninguém entre, não quero que ninguém apareça aqui ou intervenha. Só abra esta cela quando eu mandar! E por favor, deixe-nos a sós e chame o dono do parlamento!
—Seu desejo é uma ordem, majestade!- Ele acena com a cabeça fechando a cela e mandando que todos, incluindo meus amigos que vigiam Calabar, saiam daquele andar. Ouço suas vozes me chamando e exigindo para falar comigo, principalmente a de minha mãe, mas está na hora deles entenderem quem é a rainha e quem da as ordens nesse palácio.

Ouço os passos se aproximando, é o dono do parlamento, se eu obter uma confissão preciso que ele escute. Veio ele e dois amigos.

Rosa está em pé, olhando me com fúria por te-la feito desviar de sua rota provavelmente pra bem longe daqui. Ajeito meu cabelo bagunçado e alvoroçado, e então com a voz firme começo:

—Acho que sabe bem porque estou aqui, não é? Caso contrário não teria fugido.
—Sobre o que isso se trata, vossa graça?
—Olha só, eu tenho informantes que me disseram que você, com essas mãos imundas, pôs uma espécie de veneno na comida de meu pai, em seus últimos meses de vida, levando-o a morte.
—Não sei do que está falando, majestade!
—Pois eu vou ser bem clara com você, Rosa. Você não tem mais família, correto? Todos ja morreram pelo que soube, a senhora está sozinha no mundo. Então, lhe tenho uma proposta. Você me diz quem lhe deu o veneno junto as ordens para coloca-lo na comida de meu pai e eu poupo a sua vida miserável de uma tortura acompanhada de um balde flamejante e um rato.
—Se eu falar e sair viva, serei morta pelo que me mandou!
—O que lhe mandou lhe ofereceu o que em troca de seus serviços? Terras? Comida? Dinheiro?
—Cem mil moedas de ouro.
—Hm... Uma vida de luxo, não é Rosa? Nunca mais teria que trabalhar servindo, limpando ou obedecendo a alguém.
—Pois eu lhe ofereço as terras que quiser, mais um casamento arranjado com o mais rico dos condes. Acho que cem mil não podem lhe dar título algum, não é? Mas eu posso, e além de lhe devolver os cem mil, lhe dar um marido mais um título, enquanto isso não acontece, terá segurança 24 horas até porque, a pessoa que fez isso, será banida e não poderá lhe machucar.
—Então, se eu te contar você jura que me dará tudo o que falou? O título, o marido, o dinheiro e as terras?
—E por que não? Tenho tudo que preciso, Rosa. Não me fará falta! Você me conhece desde que eu nasci Rosa, sabe que nunca quebro uma promessa! -Digo suavemente olhando-a nos olhos. -Tudo que eu preciso, é que você me dê o nome do malfeitor!

Ela respira fundo, olhando para baixo e diz um nome. Não entendo, sinto meu corpo fraquejar com medo, ela ergue a cabeça e então repete o nome em alto e bom som de forma que eu entendo com perfeição.

—Sua tia, Isabel de Lannister!

Arranco a espada da bainha e faço um corte em seu pescoço, ele jorra sangue por todo o meu rosto, meu cabelo e meu corpo. Não satisfeita golpeio mais e mais até que sua cabeça solta de seu corpo e rola por aquele terreno baldio e vazio. Minha armadura estava imunda, minha espada e minhas mãos sujas de sangue.

Eu empunho a espada novamente e saio da cela correndo. Os parlamentaristas apenas me olham embasbacados. Subo as escadas com ódio e fúria. Aquela garota, aquela bastarda, matou meu pai, foi culpa dela, se não fosse por Isabel meu pai estaria aqui, vivo. Ele teria visto minha coroação e teria me aplaudido de pé como sempre sonhou.

Vejo meus amigos em frente a escada. Eles se assustam ao me ver manchada de sangue, corro para a enfermaria e ouço eles me gritando e correndo atrás de mim.

Chego no andar de cima e a porta já está descongelada. Entro e vejo os olhos de Lizzie abertos olhando para o médico, eu pulo em cima dela e agarro minhas mãos em seu pescoço a sufocando. Ela me olha exasperada, clamando por socorro e isso só me da mais ódio e eu a aperto mais ainda.

—IRINA!
—SOLTA ELA!
—IRINA PARA!

Eu começo a chorar, as lágrimas escorrem involuntariamente. Estou com raiva mas não posso deixar de chorar.

O caos é tanto que logo todos os meus irmãos entram no quarto, eles me olham sem entender nada e gritam meu nome sem parar.

—Foi ela!- Eu digo chorando.
—Foi ela o que filha?- Minha mãe pergunta tentando achar uma forma de me tirar de cima dela.
—O que está havendo, Irina?- Pergunta Margarida.
—Foi ela! Ela matou o papai! Ela mandou que Rosa envenenasse a comida dele, ele não morreu da doença de Mary, foi o veneno posto por essa vadia!
—O quê?- Minha mãe me olha atordoada e eu a olho nos olhos. Lauren tem a mesma expressão no rosto.
—Irina, como sabe disso?- Pergunta Anny sem querer acreditar em minhas palavras.
—A Rosa me confessou tudo no calabouço!!
—Nossa criada? A Rosa? -Pergunta Lauren.

Eu aceno com a cabeça chorando e deixando as lágrimas cairem sobre o rosto já roxo de Lizzie.

—Irina, não faça isso! Seria fácil demais, ela morrer assim, deixe a viver com essa culpa!
—NÃO! EU QUERO ELA MORTA!- Grito enquanto minha mãe chora no ombro de seu filho mais velho Robert.
—Irina, você quer ser que nem ela? Uma assassina?- Pergunta Arya e eu choro mais ainda.
—EU MATEI A ROSA!
—O quê...? -Ela pergunta se aproximando.
—Eu arranquei sua cabeça com minha espada... Ela fez isso tudo por dinheiro!!!
—Irina, você não é assim! Você não quer fazer isso! Quer mesmo conviver com essa culpa?
—EU QUERO ELA MORTA, ARYA!!!
—Não vale a pena! Pense no que seu pai faria, pense no que sua irmã diria!
—Meu pai não tinha piedade dos que não mereciam! E ela não merece!
—Irina, deve haver outro modo. Você quer mesmo ser a rainha que transborda ódio o tempo inteiro? Matar Lizzie, ao invés de perdoa-la só irá fazer com que você se torne uma pessoa fria, sem sentimentos, sem amor. Matar vai se tornar algo simples pra você, é isso o que quer? Ficar que nem Isabel?

Minhas mãos afrouxam do pescoço dela e meu corpo se joga pro lado. Arya da um passo pra frente e me segura. Eu choro, grito, sem parar. Eu fico ali sentada na cama daquela mulher, enquanto Arya me abraça e Luke, Skyler, Mieko, Athena e Eddy também. Meus irmãos se consolam entre si, tentando acudir minha mãe que é a mais abalada.

Arya me abraça e eu afundo minha cabeça em seu pescoço que abafa meus gemidos em meio àquele choro infinito. Eddy passa as mãos em minhas costas e Sky se ajoelha ao meu lado segurando minha mão. Os outros me observam mexendo em meu cabelo ou falando frases para me acalmar.

Aquele quarto escuro, iluminado pelos raios do lado de fora, se tornara um verdadeiro caos. Eu sentia um aperto no coração tão forte que era como se eu estivesse pronta para ter um infarto. Eu tremo sem parar, enquanto gaguejo balbuciando.

Ouço as tosses de Isabel e me seguro para não a enforca-la de novo. Logo minha mãe anda em minha direção e me abraça chorando em meu ombro desesperada e aquilo me partia o coração de uma forma inexplicável. Odiava vê-la chorando, e saber que a morte de meu pai, podia ter sido evitada, é doloroso demais.

Seu pescoço fica molhado graças as minhas lágrimas. Eu prendo minhas mãos nas costas de seu vestido amassando-o enquanto a abraço.

—Elizabeth...? Irina...? Está ficando tarde, acho melhor ambas irem dormir!- Fala Athena.

Todos meus irmãos estavam abalados, mas os que mais demonstravam éramos Lauren, eu e minha mãe. Minha mãe concorda com a cabeça para Athena e se levanta lentamente.

—Venha comigo!- Athena diz com sua voz doce e suave capaz de acalmar qualquer um. Ela segura minha mãe a envolvendo com seus braços e a leva para seu quarto. -Irei leva-la para seu quarto! Mieko, me ajude!

Mieko pela primeira vez não fala nada e apenas segue o pedido de Athena ajudando-a a levar minha mãe.

—Arya e Luke?!
—Eu!
—Sim?
—Sugiro que façam o mesmo com Irina! Skyler e Eddy, levem Lauren, e aos outros, vão para seus quartos e tentem dormir, vocês estão precisando.
—Não... Eu não quero dormir... Não com ela aqui dentro! — Digo em meio ao choro.
—Calma Irina, Isabel irá embora dessa palácio, mas para isso você precisa ser julgada como apta para tomar essa decisão. Então precisa dormir! Vamos! Luke vem!

Ele me carrega no colo até meu quarto enquanto as lágrimas correm de meu rosto. Ao chegar ele me deixa na poltrona e Arya pede para que ele saia.

A vejo ir para meu banheiro onde ela põe a água quente na banheira, e volta tirando a minha armadura, minhas roupas debaixo e por fim eu fico nua. O sangue secou e está grudado em meu rosto, meu pescoço e minhas mãos. Até em meu cabelo branco, ele está.

Ela me leva até a banheira e me ajuda no banho enquanto eu mantenho meus pensamentos vagos em outro mundo, outra dimensão. Estou completamente desolada. Eu tirei uma vida, descobri que a vida de meu pai poderia ter sido salvar, e quis acabar com a de Lizzie.

Arya esfrega minhas costas com a esponja, e molha meu rosto com aquela água tirando o sangue. A água transparente fica levemente avermelhada. Eu levanto e ela me seca com a toalha me vestindo com minha camisola de seda preta, como se eu fosse uma boneca.

Arrasto-me até a cama e deito ali. Ela fecha a janela por causa da tempestade e se deita ao meu lado.

—Antes que pergunte, ou fale algo, eu irei dormir aqui, bem ao seu lado para me certificar de que você nunca irá se esquecer de que ainda há pessoas vivas que te amam, que você pode confiar e que sempre farão de tudo pela sua segurança. Eu não falo isso pra muitas pessoas, mas, eu te amo, Irina...

Olho para ela conseguindo de algum jeito dar um pequeno sorriso grato por ela estar ali comigo, assopro a vela ao lado deixando o quarto escuro iluminado pela luz da lua do lado de fora. Então dormimos as duas ali, sobre as cobertas aquecendo-nos naquela noite fria que havia se tornado meu maior pesadelo.

~Dia seguinte~

Pela primeira vez em anos acordo sozinha. Abro meus olhos vagamente e sinto o corpo quente de Arya próximo ao meu e me lembro que ela dormiu comigo nessa noite. Como um flash recordo-me de tudo da noite passada e sinto novamente o aperto no coração.

Tive pesadelos com o rosto de Rosa. Com seus olhos me encarando, com o medo em seu olhar e a minha espada cravada em seu pescoço. Aquela imagem me arrepia.

Me arrumo sozinha, sem criadas nem nada. Ponho meu vestido branco simples e acordo Arya que põe seus trajes de costume.

Não sinto fome para almoçar, pois é, já está na hora do almoço. Apenas sigo para a sala de reuniões e convoco todo o parlamento. Não demora muito para aqueles 10 homens aparecerem, eles me olham com pena, com dó. Mas eu os olhos frivolamente.

—Por que nos chamou aqui, Majestade? O que podemos fazer por você?- Pergunta ele.
—Quero que providenciem o banimento de Isabel Lannister.
—Da realeza eu presumo.
—Não, meu senhor. Da Inglaterra. Eu quero que Isabel seja deportada para outro país.
—Majestade a senhora tem certeza do que...
—Meu caro senhor, eu tive uma noite difícil, posso ver que ja sabem o que aconteceu. Por favor, não torne a minha manhã pior, apenas providencie a papelada para que eu assine, eu quero ela fora desse país o mais imediato possível!
—É, sim, vossa graça! Providenciaremos! — Ele concorda e eu me retiro da sala.

Quando saio da sala vejo Arya parada ali em frente me encarando. Ela me olha de cima a baixo e eu continuo andando.

—Bom dia pra você também!- Ela diz irônica vindo atrás de mim. -A TEPCK estava pensando em fazermos um passeio, ou algo do tipo.
—Valeu a tentativa em me animar, mas não. Estou ocupada.
—E a sua ocupação tem a ver com o motivo de estar falando com o parlamento? -Abaixo a cabeça e saio andando. -Irina! O que você fez?

Tomo coragem e me viro olhando pra ela.

—Isabel será deportada do país!
—O quê...? -Ela me olha perplexa.-Irina você...
—Eu o quê? Eu ja fui boa o suficiente não a matando com minhas próprias mãos ou a enviando para uma tortura, ela matou um rei Arya, quero te falar que isso é considerado o maior dos crimes. Eu ja fui boa demais, chega!

Vou para o jardim e fico treinando meus movimentos de espada com os bonecos de madeira, descontando toda a raiva neles enquanto aguardo ao chamado de Alfred.

~1 hora depois~

Após decapitar um dos bonecos, uma voz fala meu nome me chamando.

—Khaleesi Irina! -Achava ser Alfred, mas é Janu.
—Al... Janu! Olá... Diga. -Falo secando o suor de minha testa com as costas das mãos.
—Alfred está organizando alguns papéis da senhorita e por isso, pediu para que eu lhe passasse um recado.
—Passe então.
—O parlamento ja preparou a papelada que a senhorita pediu, precisam que você assine.
—Ta, já vou!

Desenterro minha espada do tronco de madeira e sigo para dentro do castelo indo direto para a sala de reuniões novamente. Quando entro no quarto vejo os parlamentaristas juntos a minha mãe e Lizzie que é carregada por uma cadeira de rodas.

—Será que alguém pode me explicar porque eu estou aqui?- Pergunta Lizzie com dificuldade em falar.
—Lady Isabel Lannister, você foi acusada de cometer um crime contra o reino da Inglaterra assassinando o falecido rei Edward IV com veneno, por isso a atual herdeira, Khaleesi Irina, ordenou o banimento e a deportação da senhora para outro país.
—O que...?- Ela levanta a cabeça apoiada pela pescoço lentamente olhando com desespero.-Eu não matei rei nenhum! Eu não matei o rei!

Ela começa a ficar nervosa e olhar pra os cantor em busca de alguma ajuda. O marido dela, Jorge, não pôde entrar. Ela começa a falar com medo e desespero, acho que ela nunca pensou que esse dia chegaria.

—Irina, Irina eu sei que eu já cometi muitas atrocidades contra você, mas eu não matei seu pai! P-por que eu faria isso se você é a herdeira? -Pela primeira vez ela me olha nos olhos.
—Porque com meu pai falecendo, a escolha da próxima rainha seria antecipada e assim eu não teria tempo de me recuperar de minha suposta "doença" e assim você seria coroada mais rapidamente.- Ela começa a falar mais rapidamente:
—Irina, eu juro que não o matei! Eu confesso qualquer coisa, mas não me mande para outro país! Eu não fiz isso! O que você quer que eu fale? Qualquer coisa, eu confesso qualquer coisa! O colar de prata foi eu quem mandou Anne te dar, o tiro também foi ordem minha, mas eu não matei o rei!
—A senhorita acabou de admitir que tentou matar nossa Khaleesi. Isso já é prova o suficiente pra a senhora ser morta. Majestade?
—Não, Lorde Neel. Seria fácil demais. Eu quero que ela viva com a culpa em sua consciência.
—E que culpa?-Ela pergunta.
—A culpa de que mesmo após todas as suas tentativas de destruir a minha família, eu lhe dou meu perdão.
—A senhorita Isabel de Lannister, não poderá ir sozinha, com isso eu quero dizer que seu marido Jorge também irá com ela. Essa é sua decisão final, majestade?

Após 16 anos esperando por esse momento, desde que Jorge matou meu tio e meu avô, desde que Lizzie tentou me matar pela primeira vez, desde que eu escolhi me tornar uma Khaleesi, esse fora meu único pensamento, meu maior objetivo, livrar todo o mal de perto dos que eu amo, e finalmente eu tenho a chance de fazer isso.

Eu faço? Eu recuo? Eu deixo de lado?

Respiro fundo fechando com força minhas pálpebras, sem vontade ou força para olha-la nos olhos, então eu apenas pego o papel e a pena, e digo friamente:

—Sim, essa é minha decisão final.

Então ele passa o pedaço de papel com as regras e regulamentos por nós para que possamos assinar.

Primeiro minha mãe, a ex-rainha, era para ser meu pai, mas tudo bem, ela é como uma testemunha.

Segundo, Jorge que acabou de ser chamado e é segurado pelos seguranças pois ele está a ponto de avançar em mim.

Terceiro, Isabel, que chora sobre o pergaminho.

Quarto, e último, eu, que escrevo meu nome lentamente com a pena molhada pela tinta preta dando fim a todo aquele estresse e perturbação, a todo aquele medo que me persegue desde que nasci. Finalmente, depois de anos, eu consegui me livrar dela, e pela primeira vez na minha vida, Lizzie não é mais uma ameaça para mim ou meu reino.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.