A Fiandeira

1 O camelô - capítulo único.


A água da chuva que caíra recentemente ensopava a barra da minha calça enquanto eu andava. Não andei muito até reconhecer a menina loura que se encontrava parada na esquina, ao lado de sua bicicleta azul.

– Mas quanta demora! — Jessica faz uma careta, se queixando.

– Desculpe se eu não tenho uma bicicleta. — sorrio.

– Vamos, Cindy, a loja já abriu. — ela me segura pelo pulso e me puxa para a rua, enquanto empurra a bicicleta ao seu lado com a mão livre.

– Mas que coisa, Jessica. Os livros não vão acabar, lançaram hoje. — reviro meus olhos.

– Prefiro ter certeza de que não vão acabar antes que eu compre. Por isso gosto de ir logo no dia de lançamento.

– Tudo bem, mas eu quero parar para tomar sorvete depois, ok?

Não obtive resposta. Jessica havia parado de andar, e seu olhar se mantinha fixo em algo um pouco à frente.

Camelôs. Era o que mais tinha naquela cidade, mas ela prendia os olhos em um em particular. Todos os dias passávamos por lá, mas aquele camelô era peculiar. Era novo, com certeza; seria difícil não prestar atenção nele. Uma mulher com roupas leves e coloridas, extremamente magra e pálida costurava algo com longas agulhas, que pareciam ter muita afinidade com suas mãos ossudas, pelo modo que se movimentavam tão agilmente e com leveza, como se tivessem vida própria. Sobre a bancada, estavam lá, paradas, todas olhando para mim com seus olhos extremamente realistas e vidrados.

Bonecas.

Não eram bonitinhas e fofinhas como as que vemos em lojas de brinquedo quaisquer. Eram feitas de um material que eu não reconheci, e eram todas diferentes. Esquisitas, feias, todas diferentes e com um aspecto sombrio. Mas o mais estranho mesmo eram os olhos que, como eu já disse, eram extremamente realistas e vidrados. Depois de alguns segundos analisando a bancada, percebi que Jessica ainda não desviara o olhar, e eu vi o porque logo em seguida. Havia uma boneca, apenas uma que não possuia olhos. E ela era assustadoramente semelhante à Jessica. Mas não a Jessica que eu conheço, era uma Jessica deformada e obscura. Sem olhos.

Ela não disse nada durante todo o caminho até a livraria, nem no caminho da volta. Quando passamos novamente em frente ao camelô, Jess se esforçou para não olhar para ele, mas eu vi que ela não conseguiu se conter e deu uma espiada rápida. Ela estava assustada, eu podia ver em seus olhos.

Voltamos para nossas casas, e ela só abriu a boca para me dizer um até logo. Lá pelas nove horas da noite, eu estava em meu quarto quando o telefone tocou.

– Cindy? — era Jessica.

– Oi, fala. — respondo, enquanto reorganizo a playlist de músicas do meu Ipod.

– Cindy, eu... eu tô com medo. — a voz dela era fraca, quase um sussurro.

– Medo de que, Jess? — me curvo um pouco para frente largando meu Ipod, e presto mais atenção no que ela diz.

– Eu estou ouvindo uns... barulhos... — ela soluça baixinho.

– Que barulhos? Jess, o que está acontecendo?

– Cindy... é a... é a máquina de costura da minha avó. — ela diminuia cada vez mais o tom da voz, e eu tinha que me esforçar para entendê-la.

– Hã?! Sua avó não mora, tipo, em outro estado?

– É o mesmo... som. — ela soluça novamente. — Eu tenho que...

Então, ela desliga. Tentei ligar para ela, mas só dava ocupado.

Com isso martelando na minha cabeça, consegui dormir, mas fui acordada às seis horas da manhã com um toque de telefone.

Jessica tinha sido encontrada morta em seu quarto e sem os olhos. Eles não foram encontrados.

Não soube como reagir à aquilo. Apenas troquei de roupa rapidamente e meu primeiro gesto foi ir até a rua. Até o camelô do dia anterior.

Fala sério, que camelô abre às seis horas da manhã?

O das bonecas, é óbvio.

Lá estava a fiandeira, parada, movimentando apenas suas mãos com longos dedos ossudos que flutuavam sobre as agulhas, tamanha rapidez com que se moviam. Não me olhou nem por um instante, mas eu a olhei. E olhei as bonecas.

A boneca de Jessica estava lá, parada, me olhando com dois olhos extremamente realistas e vidrados.

Assim que me dei conta do que acontecera já era tarde.

Havia outra boneca sem olhos ao lado da de Jessica. E ela se parecia muito comigo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.