A Fera Amavel
18 A confissão de Kenai
P.O.V Kenai
O céu acordou . As luzes que tocam o chão estavam dançando sob as nossas cabeças. Yona estava tão distraída, tão alheia ao fato de que ia declarar meus sentimentos a ela. E continuou sorrindo para o céu , admirando aquele espetáculo silencioso lentamente .
Meus dedos de urso tremiam. Onde estavam as palavras quando mais precisamos delas?
Yona pegou em minha pata, um carinho terno e doce como um acalento. Meu coração estava batendo mais forte em meu peito.
—Eu devo muito a você e ao Koda. Muito obrigada. Se eu não tivesse te encontrado, não teria tido um dia tão divertido assim.
E apertou minha pata gentilmente, olhando fundo em meus olhos. E eu acabei me vendo através dos olhos dela. Ela me via apenas como uma fera amável e amiga. Como eu queria que aquele momento mágico e único não acabasse.
Inspirei para me acalmar, checando se estávamos sozinhos, mais uma vez. O Grande Espirito estava sendo complacente comigo. A floresta estava silenciosa. A neve havia parado de cair e o vento cessou seus gemidos.
Toquei em sua mão como forma de ter a atenção dela naquele momento.
—Yona, tem uma coisa que ...sabe a historia que eu te contei sobre meus dois irmãos mais velhos ?! –perguntei a ela, mergulhando fundo naqueles lindos olhos.
—Sim? – ela respondeu sorrindo.
—Ela ainda não acabou!
—Jura? E como ela continua? –perguntou curiosa.
—Bom, ela continua com eu e Koda vivendo juntos…e eu aprendendo como ser um Urso ... mas principalmente sobre um sentimento, um sentimento incomparável que o Grande Espirito fez com a sua Ventania, as Luzes e o Fogo Celestial do Sol transformado numa lança ... que desceu disparada em direção ao meu peito. E quando senti a lança atravessar em meu coração, esse sentimento fez ele palpitar mais forte.
—UAU!
—É, só que eu não soube como lidar esse sentimento. Como escutar e ficar calado, dar um abraço na pessoa que amo ...
—E só fazer assim. – e ela se jogou em meus braços.
Era uma reação que eu não esperava. Meu coração ficou aquecido, feliz com aquele abraço, que quando me dei conta do que estava fazendo, minhas patas estavam acariciando os sedosos cabelos negros dela.
—É. Para a minha sorte, eu encontrei você que me ensinou como fazer isso. E muito mais. Eu faria qualquer coisa por você. Uma garota que é como uma... uma...
—Uma amiga?
“Não, você é muito mais do que isso, pode ter certeza.”
—Yona, meu coração fez uma coisa muito ruim.
—O que ele fez, Kenai?
—Eu... eu estou apaixonado por você.
—Eu...
—Yona...
—Não gosto como essa história continua.
— Eu te amo, Yona. Te amo. Você é o ar que respiro, as cores dos meus olhos. Tudo. Você é a minha casa!
Lágrimas brotaram de seus olhos. Yona estava mordendo os lábios, tentando controlar os incontroláveis soluços. Controlar as palavras que queria dizer. Seu rosto estava da mesma cor da neve , que havia voltado a cair.
—Não!
Ela se afastou dos meus braços, se levantou da pedra rapidamente e começou a correr, se afastando de mim. Silenciosa como um pássaro.
—YONA! – gritei alto o seu nome.
E continuei chamando- a . Para a minha sorte, acabei sentindo seu cheiro no ar e segui seu rastro para dentro da floresta coberta de neve. Cada passo veloz que eu dava naquela floresta escura , me trazia o tormento e a infelicidade que me aguardavam sem Yona.
Mais uma vez, estava sem saída. A escuridão estava acenando e rindo diante de mim.
Vou viver sem ela...
Eu rezei ao Grande Espirito que meu coração não parasse de pulsar. Que esse pensamento não se tornasse realidade.
—Yona, eu imploro a você . Não faça isso comigo. Com o Koda. – seu egoísta! — Eu amo tanto você! – gritei bem alto para toda a floresta ouvir.
Eu odiava aquele silêncio. De não ter nenhuma resposta. Parecia como as minhas conversas com meu irmão mais velho. Aquela sensação de estar vazio. Queria tanto que ela dissesse alguma coisa. Qualquer coisa.
—Estou tão perdido... sem você. Eu não consigo. Eu não posso me libertar desse amor... eu quero você!
Minha garganta secou. Eu havia conseguido confessar meu amor para ela. Mas qual foi o preço de ter conseguido confessar ? Meu sangue gelou ainda mais conforme, inutilmente procurei por um sinal de seus cabelos ou sua silhueta. Um ruído de sapatos pisando na neve. Jamais havia visto a floresta tão quieta.
Pensei que ela tivesse me ouvido ali, ao meu lado. E de fato estava. Mas silenciosa, como se fosse parte de um tronco de árvore.
Queria tanto encontrá-la ....
Proteger seu corpo do frio que estava fazendo. Sussurrar para que não fosse embora para longe de mim e não me deixar preso a agonia de ficar sozinho e ter meu coração petrificado pelo frio.
Se eu estivesse na minha forma humana – com mãos e pernas – eu nunca teria notado um cheiro diferente no ar. Mas eu notei. Era um cheiro ruim. Cheiro de um caçador humano. Como eu havia sido há muito tempo.
Foi quando percebi algo estranho sair do meio das árvores: — uma sombra. Eu senti minha boca se fechar. Não. Isso não podia estar acontecendo.
Não era um urso. E não era o meu irmão Denahi.
Era o meu pior pesadelo. Eu queria tanto abrir e fechar os meus olhos para acordar do que estava acontecendo na minha frente.
O pai de Yona havia nos encontrado. E estava com Yona ,presa aos seus braços. Tampando a boca dela. Com uma adaga tocando levemente no pescoço de minha amada.
—Nãããão! – gritei, embora fosse impossível daquele homem entender o que eu havia dito.
— Agora que eu te achei, filha imunda. Você irá me levar até aquela árvore. E você, besta não se atreva em interferir porque se não...
Eu balancei minha cabeça , querendo que ele entendesse que não faria nada de irracional para salvar Yona .
Mas então ele havia sumido com Yona para a montanha acima. Indo para a árvore da vida.
Gritei para os espíritos me ajudarem mais uma vez.
Estava me sentindo perdido. Como se estivesse indo em direção ao abismo. E que não havia mais volta.
Foi quando a mãe de Koda apareceu para mim. Ela era tão imensa e forte, que a sua presença acabou espantando todo o meu medo embora.
— Por favor, você precisa me ajudar agora!
Sim, eu te ajudo. A voz dela era gentil.
—Vamos. – disse com a agonia subindo em meu peito enquanto corria em direção a montanha que nos levaria até aquela árvore.
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