Notas iniciais
Olá, anjos! Devo informar que a cada capítulo que se passa mal consigo me conter de ansiedade para postá-lo! Ah, como esta história tem mexido comigo.......... Espero que estejam tão animad@s quanto eu! rsrs Até o próximo ♥

O tempo parecia passar diferente naquele espaço, pois Adélia poderia jurar que a resposta vinda de Rafael havia sido imediata demais. Queria que ele não tivesse respondido tão cedo. Ou simplesmente queria que ele nem tivesse respondido.

Ainda estava se sentindo mal pelo que disse, e ao mesmo tempo orgulhosa por ter sido sincera com ele.

Queria ter dito mais naquela carta, queria ter deixado claro que queria partir – mas, ao mesmo tempo, não queria ter dito nada.

Ela queria que Rafael entendesse sua dor, de modo que a perdoasse por ter soado grosseira. Mas, também desejava que ele sentisse o impacto de suas palavras.

Aquela indecisão e as próprias regras que criara para conter os próprios sentimentos a estava sufocando tanto que Adélia se viu obrigada a erguer o rosto do travesseiro para respirar. Não conseguia mais suportar aquele tipo de coisa – aqueles sentimentos que vivia por reprimir inutilmente, Rafael e a saudade.

Ela até tentou se abrir com Jeniffer, mas era impossível confessar algo que ela mal sabia que sentia.

—Estou magoada – ela disse, e Jeniffer atentou os ouvidos enquanto bordava algo. – Com ele, com toda essa situação.

A mulher já estava a par de tudo o que havia acontecido, e as palavras saíram com mais suavidade pelo simples fato de Adélia não ter que explicar tudo para ela. Pelo menos, até aquele momento durante a tarde inteira, ela não derramou uma lágrima.

Era comum que as cartas de Rafael chegassem junto com suas refeições, mas aquela em especial deslizou por debaixo de sua porta no crepúsculo da noite. Estava intrigada com a aparente proximidade da lua quando o som abafado de passos chamou sua atenção, e logo depois algo branco voou até o meio do seu quarto.

Se não tivesse petrificada com aquela súbita resposta, teria corrido até a porta e teria visto-o em flagrante. E havia ficado tão atônita que demorara algumas horas antes de tomar coragem para ler as palavras de Rafael.

Ele não havia sido rude com ela, e Adélia não conseguia dizer o que aquilo significava. Na verdade, ele não disse nada mais do que “entendo que esteja chateada, mas posso explicar”. Será que ele estava perdoando-a ou era simplesmente sua boa educação? Suas palavras soavam com uma calma surpreendente, e aquilo de certa forma irritou Adélia.

Mas o que fez seu estomago se apertar fora a última frase da carta:

Me encontre na escadaria do jardim dos fundos, às 19 h.

Só isso.

Depois de tudo o que ela lhe disse, todas aquelas palavras raivosas, ele ainda queria vê-la?

Talvez Rafael fosse muito mais maduro do que Adélia esperava, e aquilo fazia com que um sentimento de inferioridade tomasse posse de seu coração. Ela não queria ser a descontrolada, a boba que chora por tudo. Não queria soar como uma criança mimada.

Mas se sentia tão perdida e sozinha, traída, triste e confusa que era quase impossível não esbravejar quando uma situação como aquela lhe exigia toda a sua energia. Por isso que, sem nem pensar mais de uma vez, aceitou silenciosamente encontra-lo.

Queria poder conversar com ele e testar a própria sanidade, queria também se desculpar por ter sido rude e exigir explicações, pois sabia muito bem que merecia aquilo.

Passou a madrugada inteira planejando diálogos, o que faria e o que diria se ele não lhe contasse nada. Repetiu diversas vezes para si mesma não cair no choro, controlar os nervos e, acima de tudo, ser paciente. Não estava em seus planos jogar em sua cara aquelas verdades; ela queria ouvi-lo. Poderia até perguntar se estava bem.

Os pássaros já iniciavam suas canções matinais quando as pálpebras de Adélia pesaram, obrigando-a a fechá-las e descansar o máximo que podia.

ஜ

Eram quase 18:30 quando Fordy irrompeu pela porta, trazendo consigo uma peça de roupa ridiculamente embrulhada em plástico.

Era um blazer escuro, novo e com cheiro de lavanda, que foi arremessado sem a menor delicadeza sobre o peito de Rafael.

—Que inferno – ele murmurou, afastando a peça de si, enojado.

Fordy estava com seu velho humor seco de sempre, e encarava Rafael como se ele fosse uma de suas artes preferidas. Ele não precisava dizer nada; sua postura ereta e aquele meio sorriso fantasmagórico denunciava sua euforia.

—Fui informado de que a senhorita Adélia está ansiosíssima para vê-lo, meu caro – o velho entoou.

Parecia que todos estavam se preparando para uma grande festa graças a animação de Fordy para ver o circo pegar fogo. O modo como debatia sobre o jantar, o clima favorável e sua preocupação com a iluminação do ambiente fazia com que o coração de Rafael se enchesse de uma expectativa puramente irreal.

Se o velho fosse seu inimigo, Rafael poderia jurar que toda aquela animação era por conta da desgraça que sua vida iria se tornar em menos de meia hora. Parecia ansioso demais por Rafael.

—Está chovendo – Rafael comentou, na esperança de que o clima desanimasse o velho. Fordy apenas deu de ombros, como se o clima desfavorável para o grande evento tivesse se tornado um fator insignificante. – Estou começando a acreditar que está torcendo pela minha desgraça, velho.

—Muito pelo contrário, meu caro Rafael — Fordy endireitou ainda mais os ombros, limpando a garganta. – Estou com fé de que as coisas possam melhorar cada vez mais, com o passar dos dias.

Rafael revirou os olhos e lhe deu as costas, escondendo as mãos nos bolsos. Quando o papel tocou sua pele, ele sentiu seus nervos pararem de funcionar durante dois segundos.

Queria ler aquelas palavras de novo. Pela milionésima vez, desde que a recebeu, no início do dia. A ideia de ter Adélia acordando e pensando nele fazia com que um prazer perverso se apossasse de seu coração, mas não podia evitar se sentir com a imagem.

Aquela nova carta não era simplesmente um pedido de desculpas – ele percebeu assim que leu as primeiras frases. Era Adélia tentando se reaproximar dele? Era difícil dizer.

Em outras circunstancias, Rafael ficaria feliz da vida por ler palavras tão doces e mansas vindas de Adélia. Coisas como “vamos ser amigos? ” ou “querido Rafael” abalavam suas estruturas, mas naquele momento ele não podia se dar ao luxo de ficar animado.

Estava irritado com ela por ter escrito aquela carta sem um pedido de desculpas e de forma tão calma, como se não estivesse mais irritada com ele. Talvez ela fosse tão ruim quanto ele em desculpar-se, mas Rafael não conseguia deixar de suspeitar daquele papel.

Não contou a Fordy o que tinha escrito, apenas deu-lhe a informação de que a mesma desejava vê-lo. Mal completou a frase e o velho já o encarava com expectativas novamente, como se Rafael já estivesse livre de tudo aquilo.

—Não me sinto confortável com essa situação – ele confessou, no momento, amolecido de receio. – Não acredito que ela tenha esquecido de tudo isso. Não acredito que ela já esqueceu de que eu a traí.

—Não seja ridículo – Fordy bufou, balançando a mão em frente ao rosto como se estivesse espantando um mosquito. – As garotas são assim. Uma hora dizem que nos odeiam, e na outra lembram que não podem viver sem o nosso amor.

Rafael se sentiu ofendido por Adélia graças aquele comentário, mas preferiu não dizer nada. Ele considerou a ideia de ela estar confusa nos próprios sentimentos para escrever de tal forma. Talvez ela realmente quisesse conversar com ele.

Mas ele não queria esquecer. Seu coração não lhe daria o luxo de esquecer-se do momento em que Adélia finalmente caiu em si e descobriu quem ele realmente era.

Quem ele realmente era...

Sim, agora Adélia finalmente sabia disso. Sabia quem era o monstro por debaixo da máscara, que mentiu e feriu seus sentimentos.

Como ela ainda queria vê-lo?

Como ela ainda queria compartilhar seus sentimentos com ele? Como ela poderia querer ser sua amiga? Como poderia afirmar que tinham tantas coisas em comum, como disse em sua carta?

Rafael buscou aquela irritação que sentira quando leu sua carta raivosa, mas nada apareceu. Ele havia se permitido ficar ofendido pela grosseria no momento, mas agora aquele sentimento havia se transformado em culpa.

Era culpa dele que ela o odiasse tanto; era culpa dele que ela perdesse o controle, que ficasse assustada demais e que o ofendesse. Era totalmente culpa dele ser o monstro que era.

Rafael pegou a carta novamente do bolso, relendo algumas linhas.

Ela mencionou que se sentia grata por poder vê-lo como amigo também, mas nada daquilo parecia ser real. Ela o odiava demais para ficar feliz por imaginá-lo como amigo, certo?

Aqueles pensamentos deprimentes faziam seus olhos lacrimejarem, e tudo o que ele menos precisava naquele momento era chorar – principalmente na frente de Fordy, que apontava o dedo indicador para o pulso, onde havia um relógio discreto e dourado.

—Já são dezoito horas e – ele pausou, repousando os olhos no rosto dele – quarenta e sete minutos. O que há de errado com você?

Rafael desviou sua atenção de Fordy para o par de janelas, evitando exibir seus olhos umedecidos.

—Você não deveria deixa-la esperando por tanto tempo – o velho cantarolou, se aproximando. – Não queira irritá-la ainda mais.

Era uma piada, mas Rafael só percebeu quando um som roco escapou da garganta do velho. Se ele tivesse apenas um décimo de seu humor...

—Como vou encará-la desta forma? – Rafael entoou, alto demais. Não era para aquele pensamento ter se transformado em palavras, que logo escapuliram de seus lábios.

— Você não precisa aparecer assim — Fordy respondeu rapidamente. – Coloque a máscara e vá.

Rafael sentiu um aperto em seu peito ao notar rapidamente que não era somente sua aparência asquerosa. Ele não podia encará-la abatido, tão fraco e doentio quanto um animal atacado diversas vezes por um predador feroz. Não sabia o que esperar daquele encontro, e se sentia tão indisposto que ir com ou sem sua máscara era irrelevante. Principalmente depois de tudo o que ela já havia visto.

Ele respirou fundo antes de tomar qualquer decisão.

Parecia que qualquer que fosse a resposta que desse naquele momento, nenhuma lhe traria a paz que buscava.

E se ele fosse?

Ambos poderiam conversar, discutir ou até mesmo chegarem ao ponto de brigarem. Adélia o odiaria ainda mais, ele se odiaria ainda mais e então nenhum dos dois se falariam novamente, porque era exatamente isso que ela lhe prometeu na carta raivosa.

E se ele não fosse?

Adélia nunca o perdoaria. Principalmente se estivesse falando sério sobre sentir uma ligação com ele, querer ser sua amiga e, acima de tudo, perderia a chance de se explicar.

Rafael desejou que as coisas fossem mais simples com a segunda opção. Ele poderia não ir, e então não precisaria vê-la nunca mais. Não que ela fosse embora; Adélia continuaria naquele mesmo lugar, magoada e reclusa como ele.

Como ele.

Rafael não poderia permitir que algo do tipo acontecesse.

Por um momento, ele se imaginou partindo, enquanto Adélia ficaria ali, presa e sozinha como ele ficara durante toda a sua vida. Não que se considerasse uma grande companhia, mas imaginá-la solitária como ele fez seu coração doer.

Também não sabia ao certo quanto a primeira opção – discutir, brigar e se odiarem não era nada animador. Mas a mínima esperança de vê-la, de conversar antes que ele partisse foi o suficiente para que conseguisse encaixar o objeto frio e dourado em seu rosto euforicamente.

Mal se importou quando a máscara fez sua pele quente esfriar repentinamente, ou no “boa sorte! ” animado que Fordy lhe desejou quando ele bateu a porta atrás de si.