A Fera
25 Tudo o que você precisa saber
Nem a própria Adélia conseguia explicar o que sentia naquele momento. Era tudo uma mistura de mágoa, ressentimento e, sobretudo, arrependimento por ter acreditado em Adam. Esteve tão esperançosa para ouvir a voz de seus pais novamente que mal pensou que, talvez, aquela atitude doce que vinha de Adam fosse só mais uma brincadeira de péssimo gosto.
Olhava para o visor daquele objeto, encarando-o com duas expectativas: a primeira, contando os minutos para às duas da manhã; a outra, a espera de uma mensagem, chamada ou qualquer sinal de sua mãe ou seu pai.
Mas não.
Estava agora com dor de cabeça, sentada em sua poltrona de costume, quando uma batida forte ecoou por todo o ambiente silencioso e angustiante. Não precisou de muita coisa para adivinhar quem batia em sua porta àquela hora. Instintivamente, escondeu o aparelho entre as almofadas da poltrona e abriu a porta.
Era Rafael.
E ele estava encharcado. Nu da cintura para cima com os fios pratas de seus cabelos pingando e grudando lhe tanto na face como nos ombros, pescoço, pele.
—-Oh— foi tudo o que Adélia conseguiu dizer diante daquela imagem que exalava angustia, solidão e abandono. Ela sentiu seu peito apertar diante dos olhos cintilantes e desesperados de Rafael, mas uma brisa quente fez suas bochechas corarem diante daquilo. – O que diabos houve com você?
—-Eu descobri, Adélia -- ele murmurou, sem ao menos encará-la. Parecia vidrado nos pés dela, na verdade. Olhava, cabisbaixo, para as meias amarelas dela.
Primeiro, ela engoliu em seco. Até os pelos de sua nuca se arrepiaram diante daquela revelação.
Adélia quis perguntar o quê ele tinha descoberto, mas teve receio da resposta. Será que ele estava se referindo aos seus encontros com Fordy e Adam? Um pânico leve fez seu coração bater ainda mais rápido.
—-Descobriu? – ela pigarreou, piscando várias vezes. – O quê, exatamente?
Rafael finalmente encarou seus olhos. Mas, quando o fez, sua expressão passou de desolada para confusão. Por um momento, Adélia se perguntou se ele a estava reconhecendo. Ele a encarava diretamente nos olhos, vidrado.
—- Rafael, você está bem? – Ela questionou, desconfortável com o olhar dele. – O que há de errado com você?
-- Você estava chorando? – Ele perguntou, parecendo incrédulo.
Instintivamente, Adélia enxugou o rosto. Mesmo que não houvessem lágrimas, ainda podia sentir seus olhos úmidos.
—- Sim – respondeu mais seca que o desejável. – Tenho chorado muito ultimamente. E você?
Rafael ergueu as mãos em um gesto involuntário e tocou o rosto de Adélia. Ficou surpreso por ela não ter recuado. Ao invés disso, Adélia seguiu suas mãos e as segurou contra sua pele.
—- Você está gelado – ela disse, tocando suas mãos pálidas e marcadas pela maldição com maestria. Ao contrário dele, Adélia estava quente, aquecida. – Deveria se aquecer.
Com isso, Adélia deu-lhe passagem para que ele pudesse entrar no seu ambiente. O quarto dela tinha um cheiro leve de lavanda e, mesmo fresco, era quente e reconfortante. Sequer parecia fazer parte daquela mansão amaldiçoada a qual Rafael crescera.
Adélia ofereceu-lhe logo em seguida uma toalha limpa para que ele se cobrisse, mas Rafael a ignorou. Pouco se importava com sua imagem agora, se Adélia estava enojada demais para encará-lo ou se estava sendo invasivo. Só precisava estar com ela naquele momento tão difícil.
—- Você disse que descobriu algo – ela murmurou, se aproximando dele novamente, mas sem a toalha. Estava com os braços cruzados sobre o peito de forma protetora. Seus olhos eram firmes, embora piscassem em sinal de desconfiança.
Estava escondendo algo?
Rafael queria saber, mas não soube como perguntar. Na verdade, estava sem voz alguma. Foi até ali para contar toda a verdade para Adélia, mas, de repente, não sabia como fazê-lo. Estava surpreendentemente ativo, mas não muito agitado. Sua mente parecia estar fervendo de ideias naquele momento, mas não conseguia explicar nenhuma delas.
—- Preciso lhe contar a verdade, Adélia -- ele disse, mas tão baixinho que ela quase não ouviu. – Preciso que saiba tudo sobre isso. Sobre mim, sobre a maldição.
Ela recuou um passo, batendo levemente a panturrilha na mesinha de centro atrás de si. Sentiu-se um pouco aliviada por saber que não se tratava de seus encontros com Fordy e Adam, mas não sabia ao certo se aquilo que ele disse a faria feliz.
—- Mas... – ela engoliu em seco. – Pensei que não pudesse me contar nada.
Rafael a encarou com um brilho no olhar.
—- Você pode me contar a verdade? – ela suspirou e se aproximou dele novamente. – Pode me contar sobre a maldição?
Foi a vez de Rafael recuar. Não foi muito longe, apenas o suficiente para fugir do olhar cheio de expectativa e medo que Adélia o encarava.
—- Eu quero lhe contar a verdade – ele disse. Sua voz estremecia de frio e medo. – Não é a melhor, não é a mais bonita. Mas você precisa saber, Adélia. Mesmo que...
Rafael estremeceu e se calou. Não conseguiria dizer em palavras o que sentiu naquele momento quando aquela ideia lhe passou pela cabeça.
—- O quê, Rafael? – Adélia insistiu. – Por favor, me diga!
Rafael se aproximou de Adélia até estarem face a face. Queria tocá-la, sentir sua pele quente aquecer a sua como em um abraço. Queria estar próximo a ela, mas próximo de uma forma transcendental, físico e psiquicamente. Queria tê-la, queria libertá-la. Queria amá-la em paz. Mas aquela verdade tinha o seu preço. Rafael sabia que não podia tê-la, que não podia estar próximo a ela. Aquilo doía tanto que o fazia perder o fôlego.
—- Mesmo que você vá embora – murmurou, encarando os olhos dela enquanto queimava por dentro. – Mesmo que eu possa perde-la para sempre.
Adélia ficou embaraçada e não disse nada imediatamente. Por um momento, apenas ficou pensando no que aquilo deveria significar tanto para si quanto para ele, no preço daquela verdade, se ir embora e nunca o ver fosse realmente partir seu coração.
—- Rafael, eu...
—- Não, Adélia – ele a interrompeu docemente. – Não podemos evitar isso. Sei que você quer ir embora e juro que tentei..., mas, não podemos mais continuar com isso.
Adélia o encarou com surpresa, desarmando completamente a face angustiada de Rafael. Ela mal percebeu que carregava um sorriso também.
—- Está terminando comigo? – disse, sua voz doce e risonha despertando uma luz no peito sombrio de Rafael.
—- Estou fazendo o meu melhor por você – ele respondeu sem nenhuma graça, embora afetado e empático. – Ainda quero fazer o melhor por você. Mesmo que isso me custe caro.
—- Eu também quero ser boa para você, Rafael. – Adélia respondeu. – E eu preciso que me ajude a fazer isso. Preciso que me ajude para que eu possa ajuda-lo também.
Rafael parou até de pensar por um momento. Pela primeira vez na vida ele realmente soube o que significava ter alguém com quem se importar. Mas, no fundo, seu coração doía pela angustia e pelo receio, de medo do que poderia acontecer com Adélia, de raiva de Adam por sua ganância e – agora que sabia de quase tudo – de raiva pela bruxa que o usou para acabar com a vida de outra pessoa.
—- Eu queria que tivéssemos nos conhecido de outra maneira – Adélia disse, mas sua voz saiu em um tom grave de confissão. – Eu adoraria sair com você. Iria a qualquer lugar da cidade para te encontrar – estava cabisbaixa, escondendo o rosto. – Se meus pais permitissem, é claro.
Rafael tentou imaginar aquilo, mas não conseguiu. Havia um bloqueio em sua mente que o impedia. As poucas vezes que estivera na cidade haviam sido quando ele ia para as consultas com Salvatore e estava sempre dentro do carro, durante a madrugada.
—- Eu nunca vou conseguir ser o que você merece, Adélia -- ele murmurou. Se sentia culpado por aquilo. – Nunca vou ser esse amigo que você deseja porque sou amaldiçoado.
Adélia ergueu o rosto só para encará-lo, sem dizer uma palavra. Não tinha mais energia para consolá-lo, ao mesmo tempo em que sentia vontade. Só não sabia mais como.
—- Fui amaldiçoado por uma pessoa que nunca conheci. Sou como um instrumento de destruição usado para ferir as pessoas que mais amo – ele disse, prendendo totalmente a atenção dela. – Adam me contou tudo sobre isso. Me contou o que aconteceu antes... – ele engoliu em seco -- ...antes disso tudo.
Jeniffer.
Adélia estremeceu com a imagem da mulher projetada em sua mente. Só de se lembrar de sua voz seu corpo inteiro estremecia.
Então Rafael sabia sobre ela? Sabia que havia sido ela quem o amaldiçoara?
—- Quem é ela? – Adélia perguntou com cuidado. – Você a conhece?
—- Uma mulher a qual Adam se envolveu há um tempo – ele disse com desdém, ao mesmo tempo em que se mostrava melancólico. – Minha mãe, eu acho.
-- Então você não a conhece? – A garganta de Adélia estava fechando a medida em que se aproximava mais daquilo.
—- Adam não me deu mais nenhuma informação.
Adélia estava eufórica por dentro. Aquele era um pedaço da história de Rafael que ela sabia bem. Por um momento, ela se imaginou contando para ele sobre Jeniffer, sobre tudo o que ela havia feito de ruim com a própria Adélia.
—- Ela teve o seu coração partido por ele – ele continuou. Sua expressão estava dura, impenetrável. – E, para se vingar, o amaldiçoou me trazendo ao mundo para atormentá-lo.
Ele encarou Adélia em busca de uma expressão de choque ou algo do tipo. O que encontrou, na realidade, foi um brilho nos seus olhos e vermelhidão em suas bochechas. Parecia mais curiosa do que chocada.
—- Eu sou a maldição, Adélia – ele disse, encarando-a nos olhos. – Eu represento tudo de ruim que acontece ou que já aconteceu na vida das pessoas que eu amo. Meu propósito aqui é destruir a vida de cada um de vocês.
Adélia se manteve em silêncio, o encarando de olhos arregalados e surpresos. Parecia assombrada com algo que Rafael não conseguia dizer, mas não parecia ser por conta de sua atual confissão.
Adélia, por outro lado, quis poder formular algo para dizer e fazê-lo se sentir espontaneamente bem. Não gostava de vê-lo sofrendo tanto, ao passo que ela própria sofria com tudo aquilo e sem consolo algum. Queria poder ajuda-lo... e contar o que sabia sobre Jeniffer.
—- Rafael, eu... – ela engoliu em seco. – Desculpe, mas não sei o que dizer para você.
—- Não diga nada – ele a interrompeu, se afastando dela. – Eu só queria que soubesse a verdade sobre tudo isso, Adélia. Queria ser justo com você e franco.
Adélia se sentiu um pouco culpada. Rafael estava sendo franco com ela, mesmo aquilo o matando, enquanto ela decidia entre contar ou não contar sobre algo que, de certa forma, pertencia a ele.
—- Eu sinto muito – ela disse, segurando as lágrimas. – Sinto muito sobre tudo isso, de verdade.
Rafael lembrou-se, então, do preço. Do preço que pagaria por amá-la e se ela não o amasse. Já havia aceitado a repugnância e rejeição de Adélia, mas saber que ela pagaria um preço alto por aquilo o deixava furioso.
—- Isso é tão injusto – ele murmurou, sentindo seus olhos lacrimejarem. – Me perdoe, Adélia. – Ele engoliu em seco. Naquele momento, seu corpo tremia tanto de frio como de raiva só de pensar que Adélia poderia acabar como Celine. – Me perdoe por tudo. Por todas as coisas que disse, por tudo o que eu fiz. Mas, acima de tudo, me perdoe por isso – disse, apontando para si mesmo.
—- Você não precisa pedir perdão por isso – Adélia rebateu com urgência. – Rafael, eu não acho que isso tudo é culpa sua. Você não tem que pedir perdão pelo mal que lhe causaram...
—- Se não fosse por mim, você jamais estaria aqui – ele retrucou, e Adélia sentiu a pontada de frustração em sua voz. – Acha que não preciso pedir perdão por isso? É por minha causa, minha maldição que você está aqui.
Adélia engoliu em seco, dando um passo para trás. Ela cruzou os braços de forma protetora ao redor de si, estremecendo pela crescente irritação nos olhos dele.
—- Por que eu estou aqui, Rafael? – ela perguntou cuidadosamente, engolindo em seco após se calar. – O que eu tenho a ver com tudo isso? Qual é o meu papel nessa maldição?
Rafael sentiu-se zonzo com aquelas perguntas. O tom de voz de Adélia passou de empático para inquisidor de uma maneira tremendamente intimidadora, o que o abalou violentamente. Não sabia como responder, não sabia o que dizer. Tinha medo de magoá-la, de que Adélia ficasse com tanta raiva e nojo dele... não. Não podia mais esconder aquilo. Já havia contado metade, agora precisava de coragem para continuar.
—- Você não vai gostar de saber – ele murmurou, cauteloso e atento.
—- Você pode me contar? – Adélia indagou, sentindo um fio de adrenalina acelerar seus batimentos cardíacos. – Por favor, Rafael...
—- Você é a cura, Adélia -- ele disse, fechando os olhos em seguida para não a encarar.
Adélia ficou em silêncio por um momento, tentando analisar o que aquilo poderia significar.
—- A cura?
Rafael não queria repetir, mas sabia que não podia mais voltar atrás. Enquanto nadava, havia pensado muito sobre contar tudo o que havia ouvido de Adam sobre a maldição. Queria que Adélia soubesse de tudo porque acreditava que ela merecia aquilo, merecia conhece-lo de verdade antes de tudo. No fundo, ele esperava que ela oferecesse seu ombro para ele, esperava que ela o compreendesse, o apoiasse de alguma forma.
Isso, claro, desconsiderando a verdade sobre o papel dela nisso tudo. Tudo o que ele menos queria era machucá-la ainda mais, enquanto ele próprio não aguentava os próprios ferimentos. Quis proteger ela, ao mesmo tempo em que queria coloca-la em alerta e expô-la sobre os perigos que corria.
—- Isso significa que – ele engoliu em seco, tenso – você é a única capaz de parar isso tudo.
—- Rafael, eu ainda não entendo...
—- Você é a única que pode quebrar a maldição, Adélia -- ele a interrompeu grosseiramente. Queria se livrar logo daquele bolo em sua garganta. – Você é a única que pode me salvar.
Adélia ficou tonta com aquela informação. Quis rir, quis chorar, quis protestar. Mas... aquilo simplesmente não entrava em sua cabeça. Era impossível! Ela?!
—- Mas, Rafael... Como eu faria isso? – indagou novamente, desta vez demonstrando mais curiosidade do que irritação. – Você acha que eu seria capaz de fazer algo do tipo? Não tenho nada...
—- Não é o que você tem, Adélia. É sobre quem você é! – Rafael a encarou apenas por um segundo antes de desviar o rosto para além dela. – É sobre a pessoa que você é, sobre o seu coração.
—- Certo – ela respirou fundo, puxando o ar com tanta força para dentro dos pulmões que sentiu que iria explodir. – E como eu tenho que fazer isso?
Rafael se calou. Era a parte da história que ele mais detestava e faria de tudo para nunca mais ter que ouvir. Não sabia como contar a Adélia que ela precisava destruir uma parte de si para salvá-lo. Na realidade, aquilo era algo que ele jamais teria coragem de dizer. Jamais a faria acreditar que ela precisava ser menos para se encaixar no mundo podre dele.
—- Eu não sei se consigo lhe contar, Adélia. Não há uma maneira simples de dizer o que tudo isso significa. – Admitiu, derrotado.
—- Rafael, -- ela disse – só me diga. O que eu tenho que fazer? Qual o preço disso tudo?
Rafael a encarou para valer dessa vez. Não desviou o olhar mesmo quando Adélia se aproximou dele e segurou sua face com as mãos, também encarando seus olhos prateados.
—- Por favor – ela murmurou, tão próxima que Rafael conseguia sentir seu cheiro maravilhoso e inebriante. – Me conte. Preciso saber a verdade, Rafael.
Rafael não queria. Ele esteve lutando contra seus instintos durante aquele momento, mas quando Adélia se aproximou e o tocou, parecia que havia desfeito todos os nós que ele mesmo havia pregado ao redor de si. As vezes ele achava curioso o modo como ela não precisava fazer muito esforço para desarmá-lo.
Bastava um olhar ou um toque para que Rafael virasse uma poça aos pés de Adélia. O modo como se contentava com o pouco que ela fazia – como naquele momento – era tão preocupante quando ensurdecedor. E ele queria muito mais daquilo porque até esse pouquinho o deixava apaixonado e louco por ela. Mais do que já era.
—- O sacrifício que precisa fazer... -- ele disse. Sua voz saiu fina como o canto de um passarinho bem novinho que tentava dar o seu primeiro pio. Mesmo vidrado em seu olhar, Rafael não conseguia enxergar o que ela sentia naquele momento. – ...é me amar, Adélia.
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