A Fera
1 Prólogo
Notas iniciais
A princípio, a escuridão do ambiente deveria ter lhe causado alguns calafrios. Ele mal conseguia enxergar os próprios dedos diante de si, que buscava desesperadamente no escuro. A brisa fria que tapeava seu corpo parecia chegar até os ossos, e cada suspiro parecia pesar.
Um típico pesadelo, ele notou rapidamente.
Estava exausto demais para ter pensamentos ruins antes do sono, e tranquilo demais para ter os bons. Sua mente tinha um jeito peculiar de representar o vazio que sentia em seu peito quando caía no sono sem sentimentos para tirá-lo do neutro.
Ele, no entanto, não queria que fosse um pesadelo comum.
Se ele não poderia enxergar um palmo em sua frente, então poderia senti-lo.
Sim, cada pedacinho de seu corpo pareceu responder aquela ordem.
A brisa fria que o fazia tremer pareceu sentir o efeito de sua força de vontade, e logo deu espaço para que algo quente se aproximasse perigosamente de seu corpo.
Algo não; alguém.
Aquele perfume doce lhe era tão familiar quanto o seu próprio, e o modo como aquele aroma o fazia se sentir fez seu rosto arder. Não precisava enxergar ou tocá-la; aquele simples perfume entregaria sua presença em qualquer lugar em que estivessem.
Todo aquele constrangimento que o fazia se revirar e embolar-se nos lençóis logo foi substituído por um toque, seguido de um sentimento de… Conforto? Era difícil dizer.
Primeiro, seus dedos estabeleceram uma leve conexão. Ele percebeu, subitamente, o quão quente eles eram. Não parecia haver obstáculo algum entre suas peles, na verdade. O calor que emanava de seus corpos parecia o suficiente para acender uma faísca quando se tocavam, como se estivessem com febre.
Suas mãos agora estavam entrelaçadas, e ele mal tivera tempo para processar o sentimento que aquele simples toque lhe causava quando sentiu seus corpos colidirem suavemente, se encaixando um ao outro quase tão perfeitamente quanto uma peça de um quebra-cabeças.
Ele podia sentir sua respiração em seu rosto, a pressão de seus dedos esguios em seus ombros trazendo-o para mais perto e seus lábios, colando suavemente nos seus.
Sua boca era tão suave e delicada que por um momento ele quase pensou que ela não estava de fato beijando-o. Um movimento de seus lábios denunciou a ação, e o arrepio que aquele ato lhe causou foi indescritível.
Cada toque suave de sua língua, as carícias em seus cabelos e o modo como seu corpo ardia em paixão o fazia se sentir mais dominado por um único sentimento até então desconhecido.
Aquilo era um vício. A cada toque, a cada passeio que suas mãos davam por seu peito e a cada arrepio que o fazia arfar, ele sentia que precisava de mais. Mais beijos, mais carícias, mais calor… Mais dela.
Aquilo era tão errado e tão certo… Tão perigoso, mas tão prudente.
Estava eufórico. Queria poder lhe dizer tudo o que sentia, o quanto queria que ficasse.
Mas não havia mais tempo.
Tateou inutilmente o escuro, em busca dela. Mas ela não estava mais lá; e nem ele.
A luz ofuscante que entrava pela janela fez sua mente doer, mas a dor que sentiu foi rapidamente deixada de lado.
Seu corpo inteiro ainda estava queimando em febre — e de carência.
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