A Fera
9 O Pesadelo
Assim que Adélia entrou no quarto e se deparou com uma Jeniffer muito preocupada, quis gritar e jogar algo muito pesado em sua cabeça.
A mulher se aproximou a passos lentos da garota, com uma das mãos no peito para mostrar que sentia algo por ela. Tinha aquele olhar compreensível, como se quisesse deixar óbvio que era uma pessoa que se preocupava com o bem-estar da garota.
Nada daquilo fez o coração de Adélia bater com menos fúria, mas foi o suficiente para manter-se em controle.
—Foi horrível – ela disse, caminhando pelo cômodo de forma pensativa. Estava fazendo o máximo de esforço para não perder o controle. – Não foi nem um pouco educado. Sinto que não tem mais nenhum apreço por mim.
—Oh, minha querida – Jeniffer disse, chocada. Ela se aproximou de Adélia e pegou suas mãos, apertando-as daquela forma consoladora de sempre. – Talvez ele apenas esteja estressado com tudo isso. Talvez ele sinta tanto sobre toda essa situação quanto você.
Adélia teve uma leve impressão de que seria impossível discutir com Jeniffer naquele momento. Mas estava tão furiosa que não conseguia evitar franzir os olhos ao encarar a mulher, e até mesmo aquele bilhete maldito que Rafael jogou para cima de si ardia em resposta em seu bolso.
—Tem razão – ela disse, dando de ombros e se afastando de Jeniffer. – Mas não consigo entender o que o levou a me tratar de tal forma, visto que em seu recado foi tão doce e afável. Quase parecia que ele não havia escrito tais palavras, de tão furioso que estava.
Adélia investigou cada traço do rosto jovial de Jeniffer, buscando algum vacilo em sua expressão que denunciasse sua interferência naquela história.
Não havia nada na mulher que a fizesse culpada e depois de toda aquela desconfiança, tudo o que Jeniffer dizia parecia ser puro cinismo, como Adam fazia.
—Não pense desta forma, querida. Talvez Rafael estivesse realmente confuso – a mulher insistiu, perseguindo Adélia com o olhar.
Pela primeira vez, Adélia conseguiu sentir aquela pressão que Jeniffer lhe impunha. Parecia que a mulher queria que ela o perdoasse a todo custo, ou faze-la entender que Rafael era imaturo o suficiente para não conseguir justificar os próprios atos.
Adélia sentiu tanto rancor de Jeniffer naquele momento que puxou o bilhete do bolso, pronta para armar uma discussão. Sua língua estava pesada dentro de sua boca, guardando palavras carregadas de um tom ácido que acabaria com qualquer confiança que ambas tinham uma pela outra.
Adélia apontou o papel para ela, irritada com o olhar intrigado que a mulher lhe lançou naquele momento. Estava prestes a gritar para que ela o pegasse quando uma sequência de batidas na porta fez com que as duas se desconcentrassem. Jeniffer praticamente correu para atender, como se quisesse fugir daquela situação.
Adélia lançou um olhar furioso para a pessoa na porta, que sussurrava algo para Jeniffer de forma apressada e urgente, antes de adentrar no quarto sem delongas.
—O que você está fazendo aqui? – Adélia vociferou quando um rosto enrugado e velho surgiu em sua frente. Ela quase se sentiu mal por gritar com Fordy, quando ele recuou um passo, encurralado pela recepção nada amistosa da garota. – Oh, Fordy! O que faz aqui?
Parecia meio tarde para um chá, Adélia pensou rapidamente – já que era a única ocasião a qual o senhor lhe propunha uma visita. Pela sua expressão, Fordy não parecia animado como de costume, e algo lhe dizia que aquela visita tinha a ver com Rafael.
Adélia sentiu um pingo de raiva inundar seu peito com aquele pensamento. Tudo naquele lugar tinha a ver com Rafael, o tempo todo.
—Receio que tenha chegado a hora de termos uma conversa, minha cara Adélia – o velho disse, naquele tom formal de sempre.
Adélia espiou por cima do ombro do velho enquanto Jeniffer saía discretamente do quarto, deixando-a sozinha com ele. Ela mal teve tempo de impedi-la ou de ficar frustrada por seus planos de ataque não darem certo no momento.
—É sobre ele? – Adélia retrucou, cruzando os braços de forma defensiva. Não queria saber de Rafael naquele momento; estava irritada com outras coisas. – Olhe, já conversamos hoje...
—Não é sobre Rafael, exatamente – ele respondeu, chamando sua atenção. – É sobre ele, sim. De certa forma. Mas não devemos focar apenas nisso, pois o que tenho para falar é muito mais extenso do que apenas ele.
Adélia assentiu, mostrando que tinha entendido. Um frio na espinha fez sua pele arrepiar, e uma sensação de náuseas a obrigou a se jogar em uma das poltronas atrás de si.
—Tem algo a ver com a minha família? – Não sabia o porque daquele pensamento lhe ocorrer no momento, mas a seriedade na voz do velho e o modo como parecia prestes a dar uma notícia ruim fez com que sensações de puro medo percorressem seu corpo. – O que aconteceu?
—Não é sobre sua família – ele continuou, aproximando-se discretamente dela. – Não tem nada a ver com sua família, Adélia. Mas sim com você.
—O que há de errado comigo? – O alívio que sentiu com a primeira notícia logo deu espaço para mais irritação. Estava cansada de ter aquelas pessoas sempre julgando-a, lhe dizendo o que fazer e como deve agir em qualquer situação. Não precisava que ele também lhe ditasse regras, ainda mais por nunca terem conversado com tal intimidade para chegar aquele ponto.
—Sei que não nos conhecemos muito bem, e me vejo obrigado a ser bem realista por isso – Fordy caminhou até estar diante da enorme porta de vidro que dava para a sacada, suspirando. Adélia o analisou por um momento, demorando o olhar sob os ombros largos que lhe lembraram Rafael.
—Realista? – Adélia indagou, voltando a ficar de pé. Suas mãos abraçavam com mais força sua cintura. – O que você quer aqui, afinal?
—Sei que Rafael têm feito coisas... – Ele fez uma pausa, encarando-a por cima do ombro. – Coisas que qualquer tolo faria, no estado dele. Mas parece que você não tem reagido da forma que esperávamos, afinal.
Adélia o encarou de olhos franzidos, sem entender a própria surpresa por ele saber aquele tipo de coisa. É claro que Rafael iria compartilhar aquele tipo de informação com as pessoas mais próximas que tivesse – primeiro Adam, e agora seu empregado.
Ela se sentiu ridicularizada, exposta e tola ao imaginá-lo contando tudo o que ela compartilhava com ele aos risos, enquanto zombava dela com Adam e Fordy – e quem sabe com mais quantas pessoas.
—Imagino que tenha lhe causado boas risadas o que ele tem feito comigo – ela reagiu, defensiva.
Fordy franziu a testa por um momento, deixando-a mais enrugada que o normal.
—Ora, sabe muito bem! – Adélia agitou os braços, tensa e nervosa. – Ele mentiu para mim! E ainda fez questão de contar tudo para Adam, que me ridicularizou pessoalmente!
Algo se iluminou no rosto de Fordy por um momento, como se ele tivesse se lembrado de algo importante.
—Temo que haja um engano em suas teorias, Adélia – ele disse, escondendo os braços detrás das costas, assumindo aquela pose ridícula de quem tem bons argumentos. – Longe de Rafael expor seus momentos mais íntimos para Adam. Não, ele não faria tal coisa.
—Não me faça de idiota! – Ela vociferou.
—Não estou, senhorita. Está fazendo isso por conta própria – Adélia lançou o olhar mais furioso que pôde, mas nada daquilo pareceu abalar o velho. – E o Sr.Blessed tem grande apreço pela senhorita, e jamais pensaria em ferir seus sentimentos de forma tão banal e desonesta.
—Adam não tem apreço nenhum por mim – ela retrucou, receosa. Por que ele estava dizendo uma coisa daquela? Fordy não conhecia Adam?
—Não, me refiro a Rafael.
Adélia sentiu seu estomago embrulhar. Aquela simples ideia, dita em voz alta e vinda de alguém tão mais próximo dele, a deixou desconcertada.
Rafael gostava dela?
Ela quis rir, a princípio. Mas então uma linha tênue e gelada se entrelaçou em seu peito, sufocando seu coração.
E se, talvez, Adélia não retribuísse tal sentimento?
—Isso não faz sentido para mim – ela desconversou, constrangida pela queimação em seu rosto. – Rafael não gosta nada de mim. Se gostasse, não teria mentido daquela forma.
—Ele não mentiu, na verdade – Fordy continuou, demonstrando os primeiros sinais de impaciência. – Adélia, tudo o que ele mais queria era que partisse. Tentou de todas as formas, desde o início, manda-la embora daqui.
—E porquê não o fez? – Todo aquele constrangimento deu lugar a mágoa. Adélia estava começando a se cansar daquela história.
—É muito mais complicado do que imagina – ele respondeu, virando-se para encará-la frente a frente. – Ele está passando por um momento muito difícil, e tudo o que menos precisamos no momento é que alguém o tire do sério.
Adélia recuou um passo, sentindo a pontada daquelas palavras em seu peito. Rafael estava passando por um momento difícil? O que aquilo significava?
—Eu sei o que está pensando – o velho se aproximou até estar diante dela. – Não posso contar o que está acontecendo, mas não duvido que vá descobri em breve. Tudo o que tenho a dizer é que você precisa se manter o mais longe possível dele.
Adélia abriu e fechou a boca, mas nada saiu. Ela estava amedrontada, suando de nervoso e receosa.
—Isso é uma ameaça, senhor? – Murmurou, tensa. Queria mostrar que era corajosa, e que não seria intimidada por ele de tal forma.
—Sim, se assim deseja – ele respondeu, e pela primeira vez até aquele momento Adélia pôde sentir o tom de cinismo em sua voz.
—Não sei se será possível, já que estou presa aqui...
—Providenciarei sua partida o mais rapidamente possível – ele continuou. – Não se preocupe com esse tipo de coisa Adélia. Sei que será tão fácil para você quanto será para ele, mas quanto mais distante você se manter, melhor para ambos.
Adélia não conseguia acreditar naquele tipo de coisa. Não conseguia acreditar que estava sendo ameaçada, e no quanto suas pernas tremiam. Era como estar diante de uma espécie de Adam, mas muito menos sinistra e muito mais próxima. Diferentemente dele, Fordy estava o tempo todo ali. Poderia fazer qualquer coisa com ela naquele momento, a qualquer momento.
Mas Adélia não tremia de medo. Ou pelo menos era isso o que parecia.
—Vai mesmo me mandar embora? É isso o que eu ganho por me manter longe dele? – Aquela ideia era tenebrosamente tentadora.
—Sim, e pelo visto não é grande coisa para você – Fordy sorriu um pouco ao ver nos olhos da garota um brilho extra.
—O quão longe eu deveria ficar? – Adélia o analisou, em busca de alguma pista que indicasse uma pegadinha.
—Ignore-o. – Fordy disse, sério demais para quem estava só brincando. – Qualquer convite, qualquer sinal que ele der. Como daquela vez, a poucos dias atrás. Deixe-o falando sozinho e então ele te deixará em paz.
Adélia assentiu, mostrando que havia compreendido bem o plano.
—Em troca, eu prometo, Adélia, que estará em casa o mais rapidamente possível – ele continuou, sentindo o coração bater mais forte a medida em que ela ficava cada vez mais atenta a suas palavras, concordando com tudo aquilo.
—E Adam? – Indagou, preocupada.
—Adam será o menor dos seus problemas – Fordy deu de ombros.
Adélia sentiu aquela sensação de alegria por finalmente poder rever seus pais inundá-la novamente. Mas algo parecia terrivelmente errado naquela ambiente e em tudo o que o velho lhe prometia.
—Como saberei que não está mentindo para mim?
—Não saberá, Adélia – Fordy se afastou dela, caminhando a passos largos até a porta. – Apenas faça, e logo terá sua resposta. Afinal de contas, não estará perdendo nada com isso.
Ela mal conseguiu assimilar quando o velho abriu a porta e Jeniffer apareceu quase imediatamente, como se não tivesse saído dali em momento algum. A mulher parecia furiosa ao encarar o velho.
—Espere! – Adélia correu até ele, que já estava no corredor. Passou por Jeniffer tão rapidamente que mal notou a mulher parada ali, encarando-a com um estranho brilho no olhar. – Estava dizendo a verdade quando contou que ele gostava de mim?
Fordy parou por um momento para encará-la com um olhar malicioso.
—Você se surpreenderia com as coisas que ele sente pela senhorita, Adélia.
Adélia tentou pensar no que aquilo significava, mas foi interrompida por Jeniffer, que a empurrou até ela estar diante de si.
—O que você tem na cabeça? – Ela vociferou, com os olhos avermelhados de fúria. Adélia observou a íris de Jeniffer se mesclar a um tom cinzento, que abria espaço entre sua pupila dilatada.
—Me solte! — Adélia retrucou no mesmo tom, embora muito mais assustada pela reação da mulher. Ela debateu-se para se livrar dos braços surpreendentemente fortes de Jeniffer, que a sufocava cada vez mais.
—Você vai partir o coração dele! – Jeniffer gritou, empurrando Adélia para trás.
Adélia se apoiou na poltrona, tonta com toda aquela agitação. Nem a dor no lugar onde Jeniffer a beliscou e arranhou pareceu chamar sua atenção do rosto da mulher.
Ela estava descontrolada. As lágrimas caíam de seu rosto com tanta fúria que Adélia sentiu as suas caírem com muita timidez em comparação.
O que havia de errado com ela?
—É isso o que mais queria, não é? – Ela dizia, rugindo. Sua voz saía entrecortada de sua garganta, e espetava o corpo inteiro de Adélia. – Partir o coração dele? Magoá-lo? – Jeniffer cuspia cada palavra com ódio, andando de um lado para o outro enquanto encarava fixamente Adélia. – Sua puta egoísta! Mentirosa! Traidora!
—Não! – Adélia gritou, tapando os ouvidos e caindo de joelhos no chão, para se proteger de todas aquelas ameaças. – Cale a boca! Me deixe em paz!
Jeniffer pulou em cima dela, agarrando um de seus braços e obrigando-a a encará-la. Aquele brilho acinzentado parecia muito mais intenso agora que Adélia estava cheia de pavor.
—Eu não te aguentei durante tanto tempo para você pôr tudo a perder, sua desgraçada! Não desperdicei meu tempo com você para tudo acabar assim! – Cada palavra de Jeniffer soava como um tapa no rosto de Adélia, e a mesma estava tão apavorada que mal sentia as unhas da mulher cravando-se violentamente em seu pescoço, enquanto se preparava para lhe dar um golpe no rosto. – Sua vadiazinha! Eu vou acabar com você!
Adélia fechou os olhos, deixando que todo o temor tomasse conta de seu corpo. Imagens de seus pais invadiram sua mente, e até o perfume das flores do Instituto Florence enalteceu suas lembranças.
Ela lembrou-se do último dia antes das férias, quando seus pais a levaram embora para sempre. Estava tão feliz por finalmente estar ao lado deles que mal conseguia pensar na possibilidade de alguma coisa dar errado – que sua vida viraria de cabeça para baixo.
Lembrou-se até do dia em que Adam aparecera na calçada de seu prédio, enganosamente charmoso e gentil com ela.
Lembrou-se do primeiro dia que passara naquele lugar, daquela rosa linda e farta que ganhara. Do jantar, das roupas e das joias que ganhara, do pânico que sentiu ao ver Rafael pela primeira vez.
Mal sabia quem ele era; parecia uma figura simplesmente sinistra, que assustava-a em seus pesadelos e a atormentava. Mas então, um dia, ele a salvara de Adam, e o momento em que seus corpos se chocaram quando ela o abraçou de alivio fez seu coração doer.
Doer mais do que aperto de Jeniffer em seu pescoço.
Adélia grunhiu e se debateu violentamente, até uma de suas mãos agarrarem algo fino e macio.
Quando abriu os olhos, deu-se conta de que era um dos ombros de Jeniffer. Estava começando a perder a consciência quando uma coragem arrebatadora lhe deu forças para acertar algo pesado e duro no rosto de Jeniffer, que se curvou de dor.
Era um livro, que Adélia não fazia a menor ideia de onde viera.
Mal teve tempo de pensar em seu próximo golpe quando Jeniffer foi arremessada violentamente para longe de Adélia, que aproveitou o momento para se levantar aos tropeços e recuperar o fôlego.
Ela mal teve tempo de ver quem era, pois seu peito ardia furiosamente em busca de ar, enquanto sua visão escurecia.
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