A Fera

5 Ferida Aberta


Notas iniciais
Olá! Cá entre nós, a coisa está ficando cada vez mais tensa entre Rafael e Adélia, hein? Adoraria soltar uns spoilers, maaas......... RSRSRS Boa leitura, querid@s!!

Rafael ficou genuinamente preocupado com a forte palpitação que sentiu ao receber uma resposta de Adélia. Tinha deixado seu jantar de lado para ler as doces palavras que ela lhe escreveu, tão ávido para toma-las como se fosse um remédio que iria curar todas as suas dores.

Bastou uma lida nas primeiras linhas para perceber que o problema era grave. Quase tão grave quanto seu estado de saúde atual. As palavras tinham o mesmo efeito que socos em seu estomago, e a fúria que elas traziam era tão palpável que Rafael se encolheu.

Estava envergonhado demais para reler as palavras de Adélia.

—Talvez possa me dizer como está o clima aí – Fordy comentou em algum lugar atrás dele, debochando. – Aqui está congelando.

Rafael desgrudou a testa do vidro frio da janela para encarar Fordy, que parecia alheio ao sofrimento dele. O velho estava estranhamente normal naquela noite, como se o mundo não estivesse desmoronando.

A dor que Rafael sentia em seu coração estava muito longe de ser graças ao seu estado de saúde. O que sentia era seu coração sendo partido e, por experiencia própria, não havia dor pior que aquela.

A queimação que começou em seu peito logo desceu para seu estomago, seguindo uma linha gelada em suas costas e mais um milhão de sensações que o fazia ir ao inferno e voltar.

Ele mal percebeu quando o papel dobrado caía de suas mãos até repousar no colo do velho, seguido por uma lágrima em seus olhos.

Fordy ergueu os olhos da revista sobre vinhos que estava lendo para observar o objeto e Rafael, sentindo uma estranha sensação de alarme ao encarar os olhos úmidos do garoto. Silenciosamente, ele pegou o papel e pôs-se a ler, encarando de vez em quando o peito de Rafael subir e descer rapidamente.

Ele não esperava que a garota desse uma resposta tão rápida ao que havia acontecido mais cedo, e pelo modo como o acusava, parecia estar muito além de irritada.

—O que aconteceu, Fordy? – Rafael murmurou, com a voz embargada. Seus olhos estavam cada vez mais úmidos e furiosos.

Fordy abriu e fechou a boca, buscando explicações. Deveria ter pensando antecipadamente que a garota iria atrás de explicações também.

— Rafael, eu não posso explicar isso – disse, indicando a carta.

—Então apenas me diga o que aconteceu – estava claro que ele estava forçando a voz para não explodir em fúria. Rafael fazia quase a mesma expressão que Adam quando tentava controlar sentimentos como aquele, embora nele fosse mais obvio que estivesse magoado.

—Seu pai – foi tudo o que conseguiu dizer, antes de desviar o olhar. – Eu sinto muito, filho...

—Não – Rafael o interrompeu, dando-lhes as costas para que o velho não visse seus olhos marejados. – Por que você não me contou?

—Eu não podia envolve-lo nisso – Fordy vociferou, angustiado. – Era para Adam contar a verdade, Rafael.

—E você achou mesmo que isso iria acontecer? – Rafael explodiu, apontando furiosamente para o velho.

– Acalme-se, garoto – Fordy ergueu-se, indo em direção a Rafael. Ele, no entanto, desviou-se do velho, furioso.

—Agora ela acha que sou um mentiroso. Viu a quantidade de vezes que me chamou de covarde?

Fordy percebeu a mesma coisa, mas preferiu não comentar. Ele observou, um tanto chocado, enquanto Rafael enxugava e escondia o rosto dele, como se estivesse furioso e envergonhado demais para encará-lo.

Tudo pareceu se encaixar lentamente quando o velho recordou rapidamente que Rafael havia feito algumas cartas de despedida para Adélia. No momento, achou a coisa mais idiota e inocente a se fazer, mas depois de presenciar a ridicularização daquilo, ele sentiu-se mal.

Mal podia acreditar no homem que Rafael havia se tornado, e durante dois segundos ele pôde entender um pouco do seu mundo.

As palavras tinham tanto pode para ele que bastou um punhado dela para dilacera-lo. Estava no sangue dele, aquele tipo de coisa. Estava até um tanto chocado com aquela semelhança, que vinha de sua família materna.

—Eu sei de tudo, Rafael – Fordy confessou, esperando que ele o encarasse com surpresa. Mas Rafael continuou o ignorando, assistindo a chuva cair através da janela. – Sei o que escreveu para ela, sei o que você sentiu. – Era uma tentativa inútil, mas mesmo que ele estivesse de costas, sabia que não era completamente ignorado. – O que você prometeu é muito nobre.

—Nobre? – Rafael zombou, lhe lançando um olhar rápido e furioso. – Sabia que não seria capaz de cumprir minhas promessas, e mesmo assim eu as fiz. Isso é nobre?

—Teria feito, se possível? – Fordy continuou. – Cumprir suas promessas?

—É claro que sim – ele murmurou, afastando-se da janela e caminhando a passos apressados até a porta.

—Rafael – o velho o interrompeu, aproximando-se. Por um instante quis apenas perguntar para onde iria. – É uma atitude muito nobre abrir mão da própria felicidade para entrega-la a quem amamos.

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Rafael se sentia um monstro. Um completo idiota.

Não era apenas pelo que fizera a Adélia, mas por também ter acreditado em si mesmo. Acreditado que poderia fazer algo bom para eles dois, principalmente para ela. Também havia acreditado em seu pai.

Ainda queria que ela fosse embora para que não presenciasse sua dor. Queria se livrar do fardo que era tentar agradá-la o tempo todo, evitar as esperanças de Fordy – e até mesmo as suas – e, acima de tudo, queria se livrar daquele medo que o perseguia.

Desde quando não pensava em Celine?

Mal se lembrava da última vez. Parecia que tudo aquilo havia desaparecido de sua mente durante longos momentos. Bastou umas poucas palavras furiosas para fazê-lo lembrar de sua ferida.

Todas aquelas informações faziam sua cabeça doer. O modo como Adélia estava brava com ele fazia com que todos os sentimentos de temor e insanidade que sentia sempre que Celine lhe falava algo carregado de rancor viesse à tona, e aquilo era, de longe, a pior coisa que poderia acontecer.

A diferença era que, ao contrário de Celine, Adélia ainda estava lhe dando uma chance ao escrever. Adélia fazia questão de deixar-lhe óbvio os motivos que a levava a odiá-lo, fazendo com que ele tivesse a mínima chance de enxergar a si mesmo.

Era tão errado comparar as duas que a culpa logo se instalou no meio das outras agonias que Rafael tinha que aturar. Sua pele chegava a arder em resposta, e toda a sua repugnância parecia fazer jus a seus sentimentos.

Não queria continuar pensando naquilo.

Estava cansado de todas aquelas guerras diárias que travava consigo mesmo. Estava cansado daquela infinidade de sentimentos que lhe provocava ânsias, e estava cansado de continuar com aquilo.

Estava, com toda a sinceridade que ainda existia em seu coração, irritado por Adélia ter razão ao chama-lo de covarde e ter sido tão grosseira. Por ela parecer ignorar qualquer esforço dele, ou por ele ser oco demais para deixar qualquer sentimento em uma linha de obviedades.

—Tente conversar – Fordy lhe sugeriu em uma tarde, um dia depois daquela carta. – Se você ao menos se explicasse, talvez ela pudesse entender.

Rafael ignorou todos os apelos do velho, pensando o tempo todo no modo como aquela situação chegou àquele ponto.

Há poucas semanas atrás ele mal sabia da existência daquela garota. Agora, algumas semanas depois, ele mal se lembrava de como era não a ter por perto, sempre à espreita de sua loucura. Mal se lembrava do que era sentir o conformismo dominar sua solidão.

—Estou preocupado – Fordy continuou, enquanto se balançava de um lado para o outro no espaço vazio em algum lugar detrás de Rafael.

Parecia que ele já estava morto. Não somente por sua falta de ação ou por ter ignorado todas as suas refeições naquele dia.

Era algo que vinha de dentro. Algo obscuro, que o apertava em um abraço sufocante e o empurrava para baixo. Ele conhecia bem aquela sensação – convivera com ela durante quase toda a sua vida. Agora, no entanto, ele compreendia aquela sombra, aquele vazio, aquele tipo de morte. Estava morto assim há muito tempo.

—Não irei conversar com ninguém, muito menos com Adélia – ele disse, em um momento. Talvez Fordy tivesse razão ao supor que uma conversa pudesse amenizar a situação, mas pensar no processo que aquilo levaria o deixava abatido.

Não queria discutir, brigar ou entender o lado de ninguém naquele momento. Pela primeira vez, não queria ver Adélia.