A Fera
3 Beba
Adélia mordia furiosamente o lábio inferior, enquanto apertava contra si um grosso manto feito de algodão para se proteger do frio cortante da madrugada.
Estava pensando naquela carta furiosa amassada entre seus dedos, e em seu possível destino. Não lhe parecia inteligente manda-la, mas estava pouco se importando se soaria agressiva ou mal-educada ao jogar algumas verdades na cara de Rafael.
Queria muitíssimo que ele lesse o que estava escrito ali, que sentisse toda a sua fúria e soubesse detalhadamente o que estava acontecendo longe de suas redondezas. Estava na hora dele descobrir algumas verdades vinda dela — de novo, para variar.
Todo aquele sentimento de rebeldia foi murchando à medida que algumas lágrimas mancharam o papel, enquanto Adélia escrevia suas mais cruéis palavras para ele.
Não, não eram as mais cruéis, e sim as que melhor demonstravam sua mágoa.
Estava no melhor sono que tivera dentro daqueles três dias sufocantes quando um pesadelo a acordou violentamente.
No sonho, Adélia estava sozinha no salão onde o encontrara pela primeira vez, dançando com ninguém em particular. Não conseguia controlar os próprios passos, muito menos adivinhar com quem dançava. Aquele medo típico a fez imaginar que fosse Adam, mas quando o sujeito ficou claramente visível o coração de Adélia parou de funcionar.
Era Rafael, afinal, mas sem sua máscara. Era um Rafael de verdade, puro e assustador. As poucas lembranças que tinha de sua face foram o suficiente para aterrorizá-la.
Ele era um monstro, em seu pesadelo. Não somente por sua aparência, mas o modo como a arranhava e rosnava baixinho em seu ouvido era o suficiente para encharcar seu travesseiro de suor.
Ela abraçou a si mesma, engolindo várias vezes para se livrar da bile em sua garganta. Até molhou o rosto com água fria antes de desabar em lágrimas.
Adélia se sentia de novo como a criança dormindo pela primeira vez longe dos pais, em um lugar desconhecido. O diferencial da situação era que, de fato, haviam monstros em sua nova realidade e que, dependendo de quem fosse, poderiam lhe fazer muito mal. Machucá-la de verdade.
Quando tomou o impulso de escrever para Rafael, tinha em mente o monstro que a atacou em seu pesadelo. Não queria, de fato, atingir o verdadeiro Rafael, aquele que — querendo ela admitir ou não — nunca lhe fez mal algum.
Algumas horas depois de escrever, e completamente desperta, tudo o que Adélia sentia era um vazio estranho em seu peito.
Um vazio que outrora foi ocupado por ele.
Normalmente, estaria pensando no quão ele era pateticamente assustador ou no quanto era culpado. Estaria tentando não o odiar ou gostar dele, muito menos se estressar ou manter-se sã.
Estava ficando perturbada com toda aquela confusão de sentimentos, estressada com aquela briga interna que a obrigava a não ter nenhum tipo de sentimento e toda aquela paz que sentia ao pegar-se pensando que daquela vez ela poderia realmente ir embora daquele inferno.
ஜ
Rafael atentou os ouvidos para as batidas suaves que ecoavam por todo o quarto, sentindo as melodias se mesclarem a seus nervos. Estava tentando gostar, mas era um pouco difícil – principalmente enquanto tentava dar um “xeque-mate”.
Diferentemente de Adam, que parecia sentir a música.
Seu pai estava sentado em sua frente, em uma poltrona escandalosamente alta e cara, vermelha e felpuda, em um dos quartos de hóspedes. Como ele mesmo dissera em certa manhã, “se fosse para permanecer naquele inferno, que fosse de uma forma confortável”. Por um momento, Rafael quis rir; no entanto, quando viu dois homens desconhecidos e idênticos carregando aquela coisa enorme e embrulhada em plástico pelas escadas, orientados por Fordy, sentiu seu estomago embrulhar.
Por instinto, ele quis se esconder. Mas, ao perceber que os dois homens pouco se importaram com sua presença, Rafael arfou de alívio.
-Quem eram aqueles homens, afinal? – Perguntou, enquanto analisava o tabuleiro de xadrez em sua frente. Adam estava pouco entretido no jogo agora, embora a ideia fosse dele.
—Funcionários meus – respondeu, despertando de seu transe. Tirando um mini controle do bolso, apertou um botão e a música melodiosa e suave se transformou em uma batida forte e repetitiva, incomodando ainda mais os ouvidos de Rafael. – Não seja sujo.
Após analisar algumas peças, Adam venceu o jogo. Rafael mal havia processado direito quando seu pai puxou seu rei para sua série de peças brancas – que pertenceram a Rafael – e o eliminava pela segunda vez naquela manhã.
—Xeque-mate – Adam triunfou, puxando dois copos e uma garrafa de uísque para cima do tabuleiro.
Rafael tentou fingir que não percebeu quando ele encheu os dois copos e empurrou um para perto dele, oferecendo-lhe a bebida com um olhar desafiador.
—Beba – ele disse, quando Rafael o ignorou. – Beba tudo.
Não era de seu feitio beber aquele tipo de álcool, pois estava mais acostumado com as coisas suaves que Fordy lhe servia no jantar. Sabia o que aquilo causava, e a rapidez com a qual Adam ficava bêbado ao consumi-la não o atraía.
—Não – respondeu, seco. Fingiu estar ocupado demais arrumando as peças do jogo para prestar atenção em seu rosnado baixinho, para intimidá-lo. – Eu não bebo.
—Beba – Adam repetiu, entre dentes. Rafael pôde perceber que ele não estava verdadeiramente irritado por sua resistência graças aos cantos suspensos de sua boca, num meio sorriso.
— Álcool e analgésicos não fazem bem para a saúde. – Rafael justificou-se, em uma tentativa de desarmá-lo. Mas Adam sorriu cinicamente, enchendo seu copo com mais bebida. – Do que você está rindo?
—Na minha época, — ele disse, bebericando enquanto falava – eu era bem mais novo que você e secava um litro desses por dia. – Quando Adam terminou, empurrou novamente o copo cheio em direção a Rafael. – É muito mais velho agora do que eu, quando comecei realmente a curtir a vida.
—Curtir a vida? – Rafael repetiu, involuntário. Estava quase rindo quando Adam o encarou com um olhar sério e emburrado. – Se curtir a vida significa passar o dia inteiro bêbado e fedendo a cigarro, então você ainda está indo muito bem.
Adam estava tão petrificado que Rafael achou difícil a possibilidade de uma rocha ser mais dura que ele.
Não estava habituado a ter encontros como aquele, onde ambos tinham a oportunidade de conversarem sem despertar o ódio ou o ressentimento que sentiam um pelo outro. Mas Rafael não conseguia deixar aquela rixa estúpida de lado, aquele peso que o impedia de ser empático.
Desde que passara mal, Adam não havia saído do seu lado – exceto quando estava trabalhando em seu atual quarto ou dormindo. Por um momento, Rafael quis acreditar na indiferença de Adam e quase a desejou de volta, pois não estava habituado com toda aquela simpatia.
Sentia que seu pai estava agindo daquela maneira por algum motivo — motivo o qual Rafael sabia estar ligado diretamente a Adélia — e que ele buscava a todo custo impedi-lo, fosse o que fosse.
—Estava curtindo a vida quando a conheceu? — Rafael soltou, surpreendendo tanto a si mesmo quanto seu pai.
Adam o encarou com um olhar confuso, que se transformou logo depois em uma expressão dura, rígida.
—Não sei do que está falando — ele respondeu, levantando-se rapidamente. Quase derramou sua bebida sobre si mesmo quando saltou para longe de Rafael, já com a respiração pesada de… fúria? Rafael não soube dizer.
—Sabe do que eu estou falando, sim — ele continuou, desta vez um tanto mais receoso. Deveria ter ficado calado. — No entanto, não irei insistir no assunto. Tenho outros mais importantes.
Adam o ignorou enquanto caminhava até a cabeceira de sua cama e pegava um objeto, muito mais interessado nele do que em Rafael.
Estava voltando a se fechar, a ser rude.
—Adélia precisa partir de volta para casa — ele disse, controlando sua voz para não soar tremida. Quando ficou nervoso tão rápido? Mal havia falado e sua garganta já estava fechada.
O silêncio que se seguiu naquele momento agarrou o pescoço de Rafael com dedos crus, o obrigando a prender a respiração. Ele levantou-se vagarosamente, tentando ignorar as pontadas de dor em seu peito.
—Para início de conversa, Adélia não deveria nem estar aqui, portanto, nenhum dos dois deveriam obrigá-la a permanecer. — Estava determinado a convencer seu pai a mudar de ideia em relação aquela história toda, mesmo se ele não estivesse disposto a ouvi-lo. Adam ainda o ignorava completamente, mexendo em seu celular para não ter que lhe dar atenção alguma. — A princípio, a mesma já pediu para ir embora diversas…
—Não se preocupe com isso — Adam o interrompeu, abrupto, ainda interessado em seu celular.
Rafael piscou.
—O que isso significa? – Quis saber, preocupado. Não parecia que Adam estava cedendo à sua ideia.
—Vou resolver isso – ele respondeu, seco. Estava vestindo um casaco grosso quando Rafael se deu conta de algo.
—Não vá atrás dela – disse, eufórico. Não poderia permitir que seu pai fosse atrás dela mais uma vez. Não poderia permitir que as coisas acabassem como da última vez.
Adam, no entanto, lançou lhe um olhar inflexível, como se tudo o que Rafael dissesse fosse insignificante.
—Adam – ele sussurrou, arrancando de seu pai um suspiro impaciente. – Não precisa convencê-la a nada. Ela já escolheu.
—Ela não tem escolha – Adam respondeu, se preparando para sair.
A cada objeto que ele colocava no bolso e a cada passo mais perto da porta, o coração de Rafael ia ficando mais lento. Assistir a seu pai se preparando para encontrá-la fazia todo o seu corpo doer.
—Adam! – Ele tentou gritar, mas sua voz saiu rouca; estava caindo lentamente de joelhos. Mal teve tempo de processar o que estava acontecendo quando sentiu seu corpo sendo erguido do chão de forma brusca.
Adam o estava sustentando debilmente, enquanto Rafael recuperava lentamente os sentidos.
—Você só pode estar brincando comigo – seu pai vociferou em seu ouvido, empurrando seu corpo dormente até sua cama. – Merda!
—Não... – Rafael murmurou, caindo sobre o espaço vazio e macio como uma fruta podre. – Não vá... até ela.
Ele não fazia ideia de como aquilo tudo tinha acontecido. De repente, uma dor entorpecente tomou conta de seu peito, fazendo com que até sua respiração soasse como uma facada.
Talvez imaginar seu pai fazendo algum mal a Adélia o afetasse muito mais do que o esperado.
—Me responda! – Adam agarrou seus ombros com força, despertando-o violentamente. – O que há de errado com você?
Rafael ficou encarando o rosto dele por longos segundos, procurando uma prova de que o mesmo o estivesse ouvindo. Adam estava vermelho, arfando e com o olhar fixo no rosto do filho, tentando entender aquela situação toda.
—Eu não sei – Rafael respondeu, sentindo aquela fusão de dores diminuírem aos poucos. Seu coração estava palpitando dolorosamente rápido agora. – Acho que foi apenas um mal-estar.
—Óbvio – Adam respondeu, irônico. Mas seu rosto indicava algo muito acima de alívio com a resposta de Rafael. – Vou pedir para Fordy cuidar de você.
Como se ele não fizesse isso sempre, Rafael pensou rapidamente. Mas sentiu-se estranho com a ideia.
—Não – ele respondeu, seco. – Eu vou com você.
Primeiro, Adam lhe lançou um olhar indiferente, mas quando percebeu a determinação de Rafael, seu rosto se fechou.
—Para onde você pensa que eu vou? – Adam analisou cada detalhe no rosto dele, formando uma expressão irritada. Já estava tão acostumado aquela aparência que mal tinha tempo de sentir o nojo comum.
Rafael pensou por um momento, desconfortável. Adam o encarava como se ele fosse burro demais para entender o que quer que se passasse dentro de sua cabeça.
Não se deu conta de seus próprios movimentos até parar diante da porta e lançar um último olhar para Adam, que o encarava de forma alarmada enquanto dava ordens pelo telefone.
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