A Feiticeira
22 Grito Silencioso
Notas iniciais
Alex estava se preparando para ir embora, terminando de arrumar sua mochila com as coisas de que julgava ser extremamente necessária: duas peças de roupa, morfina, um pouco de comida, água, um vidrinho com um certo liquido para cura que Apolo havia feito especialmente para ela, e uma carteira com dracmas, libras, dólares e havia ainda uma foto extremamente antiga dela com a mãe dela.
Ela estava terminando de dobrar suas roupas quando ouviu uma batida na porta.
— Pode entrar.
Arthur abriu a porta e entrou no quarto.
— Ally, acho que tenho uma boa notícia para você.
— Estou ouvindo. — Disse a garota sentando-se na cama.
Arthur pegou uma cadeira e se sentou na frente dela.
— Sabe Ally, eu tenho bastante gente aqui que pode me ajudar. Sabe, fazer o que você vai fazer. Eles podem ir atrás dos nossos antigos aliados. Você acabou de perder a mãe, e ter que ir atrás de vários deuses mal humorados não é um bom modo de... você sabe, superar.
— O que? Não Arthur, eu aprecio mesmo sua proposta, mas não precisa fazer isso. Você sabe que Hécate pediu que eu fizesse este trabalho justamente por que eu viajo rápido. Eu iria simplesmente saltar de um Shadowrealm para outro, de uma cidade para outra, sem perder tempo na viagem. Seus homens demorariam semanas para fazer o que faço em dias.— Ela deixou então de encarar o rei e passou as peças de roupa da cama para a Mochila.
Arthur se levantou, foi até a cama, tirou a mochila e as roupas da mão de Alex, e sentou-se ao seu lado.
— Ally, por favor. Deixe-me fazer isso por você. Saiba que eu também tenho meus meios de passar a informação rapidamente. Alem de que eu posso mandar uma mensagem para os outros Shadowrealms, pedindo que eles se preparem e que também reunam o máximo de pessoas, deuses e criaturas que conseguirem. Enquanto meus homens vão atrás das divindades terrenas da Europa.
— Arthur, não. Hécate me pediu para ir conversar com nossos aliados e-
— Ah, pelas barbas de Merlin, Alexandra! Pare de ser tão orgulha — Disse o rei irritado ao levantar-se de súbito, interrompendo a garota, que ficou extremamente surpresa com o tom de voz agressivo de Arthur — Não é nada essencial que VOCÊ faça este trabalho. Essa guerra já aconteceu antes, mesmo que tenha sido em dimensão menor e você não estava nela! Ainda assim, tudo ocorreu perfeitamente bem! — Alex se preparou para retrucar, mas foi impedida de falar — Alex, querida, não interprete errado. Em momento algum eu quis dizer que você não é importe! Muito pelo contrário, creio que seja uma das humani que mais nos faria falta. Apenas digo que você deve aceitar ajuda.
— Eu não preciso de ajuda!
— Conte-me outra! — Ele sentou ao lado dela na cama de novo e abaixou o tom de voz, falando calmo e delicadamente — Seus olhos silenciosamente imploram por ajuda. Se você realmente quisesse fazer isso sozinha, você teria ido ao encontro de seres mais importantes que eu, que a única coisa que eles tem em comum com você é a ideologia. Mas não, você veio até mim, um amigo, e ao invés de chegar, falar o que precisava ser dito e ir embora, já que você se preocupa tanto com a velocidade de entregar a informação, você resolveu ficar aqui por quatro dias. Então deixe-me ser o mais claro possível: Eu vou ajudar, você querendo ou não.
Alex viu que ela não tinha saída. Teria de aceitar a proposta de Arthur. E refletindo sobre o que ele disse, viu que ele estava certo, queria ajuda. Queria poder se livrar de todas as responsabilidades que agora estão sobre seus ombros. Queria simplesmente desaparecer. Agradeceu aos deuses por ter um amigo como Arthur, que a entende sem que ela diga uma palavra sequer.
— Artie... obrigada. — Ele simplesmente sorriu em resposta.
Ele se levantou e foi à a porta, mas parou com a mão na maçaneta, pensativo.
— Ally... Eu estou pensando aqui... Por que a Clare?
Ela se surpreendeu com a pergunta.
— Como assim? Hécate me mandou uma mensagem pedindo que eu fosse até o acampamento e treinasse ela.
— Ta... — Ele voltou e sentou-se na cadeira que estava na frente da cama — Mas por que ela?
— Por que ela tem potencial, é forte por natureza. — Ela respondeu como se fosse totalmente óbvio.
— Alex, pensa bem. Tem alguma coisa errada. Hécate tem vários filhos, se o único objetivo fosse treinar para a guerra, por que não treinar todos? Seria muito mais eficiente. Mas não, ela pediu para você treinar apenas ela.
— Nada a ver, Arthur!
— Vai garota, você é bem mais inteligente que isso. Você sabe que isso é estranho. Alias, você anda estranha, diferente.
— Eu? Não mudei nada. Estou exatamente igual de jeito do que estava antes.
— De certo... Mas não é isso que eu quis dizer. Não é algo visível, é algo que eu sinto. Eu sinto que você não está bem. Não sei... talvez por te conhecer há mais de 700 anos eu criei um certo tipo de empatia com você. — Ele deu uma risada fraca.
— Te odeio... Mas você tem razão. Às vezes eu me pego juntando alguns fatos... Hécate pediu para eu ir para o Acampamento Meio-Sangue e eu fui no mesmo dia. Depois de mais ou menos uma semana eu descubro que minha mãe morreu. Aí descubro então que a informação chegou duas semanas atrasadas. Então ela teria morrido mais ou menos quando Hécate me pediu para ir para Long Island. E ainda tem os pesadelos...
— Pesadelos? — Perguntou ele preocupado.
— Sim... eu não consigo me lembrar nunca da imagem, apenas da sensação. E eu estou sempre apavorada, fraca, ofegante. Sei que algo horrível está acontecendo. Aí de repente tudo para e eu fico tranquila, na verdade... eu não sinto mais nada. Então eu acordo. Acho que Hécate sabe de algo, mas ela não quer me contar. Às vezes eu sinto como se tivesse treinando Clare para ser... — Ela parou no meio, olhou para as mãos e começou a brincar com seus próprios dedos. Respirou fundo e terminou a frase — Para ser minha substituta.
Um silencio mortal tomou conta do ambiente por vários minutos. Nenhum sabia o que falar. O silêncio foi cortado por uma batida na porta entreaberta.
— Estou pronta! — Disse Clare sorridente ao entrar no quarto. Percebeu o clima tenso e sentiu como se estivesse atrapalhando algo. — Ta tudo bem por aqui?
— Uhum, tudo ótimo. Nós teremos uma mudança de planos. Me espere no hall de entrada. Desço em um minuto. — Clare assentiu, e se retirou do quarto.
Arthur pegou na mão de Alex e deu um beijo suave.
— Vai dar tudo certo querida, você vai ver. Fica tranquila. — Dito isso ele saiu do quartos, deixando Alex livre para terminar de arrumar suas coisas.
Assim que estava tudo pronto, ela pôs a mochila nas costas, deu uma ultima olhada no quarto, e saiu. Desceu rapidamente as escadas que levavam ao saguão, e encontrou Clare conversando descontraída com Arthur.
Ambas se despediram de Arthur, e agradeceram pela estadia. Assim que puseram o pé fora do palácio, Alex "saltou" levando Clare consigo.
Se encontravam agora em uma pequena cidade no norte da Escócia, e fazia um frio tremendo e nevava. Clare pegou um sobretudo que tinha na sua mala — mala que Alex julgava extremamente exagerada e não prática, pois era difícil de carregar — e a feiticeira simplesmente controlou a temperatura de seu corpo aquecendo sua aura.
— Quem vamos encontrar aqui? — Disse Clare batendo os dentes.
— Arthur vai cuidar de falar com os deuses por mim, então eu resolvi dar um oi para alguns amigos que eu fiz nos últimos séculos. Está vendo aquela casa ali, em cima da colina? — Alex apontou para um lugar bem a frente delas.
Clare procurou o que ela estava apontando e se deparou com uma casa de aspecto gótico e sombria no topo de uma colina. Era uma casa escura, praticamente preta, contrastando com o branco do local.
— Aquela é a casa de um antigo amigo. Lord Byron.
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