A Feiticeira
19 Avalon
Notas iniciais
George estava no campo de treinamento do Acampamento, enquanto o Sol nascia no horizonte. Há um mês Alex desaparecera, sem mais nem menos, assim como Clare e Percy. Quíron disse que elas estavam juntas e a salvo, mas ele não acreditava muito nisso. Presentia que algo ruim estava para acontecer.
Tinha uns sonhos loucos todas as noites. Sonhava com uma árvore quase que do tamanho do Empire State Building, se não maior, e então ela se desfazia em pedaços de gelo. Então vinha a guerra. Parecia uma festa não fosse os gritos de dor e agonia. Luzes iam para todos os lados até que ele via ela, Alexandra. Sempre que ele chegava perto dela, acordava e não dormia mais.
Por tal motivo estava ali às quinze para as seis da manhã, o mesmo horário em que costumava treinar com Alex. Durante as semanas que ela ficou no acampamento ele se aproximou muito dela, embora ela nunca contasse nada para ele, ela contava com ele. No começo achava ela um pouco metida e arrogante, mas gostou dela mesmo assim. Talvez pela atmosfera misteriosa que atraí os garotos.
Queria falar com ela, mandar uma mensagem de Íris, qualquer coisa. Queria vê-la.
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–- Onde nós estamos agora? – Perguntou Clare para Alex, assim que “pousaram”. Estavam em uma praia rodeada por uma floresta densa, e a brisa da manhã carregava o aroma agradável de pinheiro e carvalho, junto com o cheiro de água salgada. Havia uma neblina na orla que não permitia que enxergasse mais de cinco metros de distancia.
–- Estamos na Inglaterra. – respondeu Alex – Estamos tentando chegar a Avalon.
–- E... por que você não pode fazer como fez da última vez? Simplesmente aparecer no Shadowrealm? Avalon é o Shadowrealm, não é?
–- Sim, é. — Respondeu Alex — E… Não! Claro que não! O de Hécate é quase minha casa. Apareço lá quando quiser. Já nos outros... não dá. Se aparecêssemos em Avalon do nada, era capaz de que nos matassem. – Disse cada palavra com o olhar distante, procurando por algo. Ou alguém.
Ela estreitou os olhos e então começou a andar. Avistara algo. Da neblina saia um homem de pele branca, cabelos tão loiros que pareciam de prata na neblina, alto e com orelhas um tanto mais pontudas que o normal. Não tinha mais que vinte anos e era incrivelmente bonito. Um elfo, deduziu. Na mão direita carregava uma lança, na esquerda, um escudo. Ele parecia flutuar, mas ela então percebeu que estava em uma canoa.
Alex se virou para Clare e fez sinal para que esperasse. Seguiu em frente e ficou parada na beira do mar, esperando que o elfo descesse. Assim que o fez, reverenciou em direção às duas garotas.
–- Saudações. Chamo-me Perltrill, que desejais aqui senhoritas? – Disse ele em Gaélico.
Clare não havia entendido nada. Pelo jeito ela só entendia se fosse feitiçaria, não em uma conversa normal.
–- Saudações! Sou Alexandra, filha de Sapphira, e aquela é Clare, filha de Hécate. Estou aqui para falar com Arthur, e para isso preciso de permissão para entrar em Avalon. – respondeu Alex na mesma língua.
Perltrill ponderou durante vários segundos, e disse por final:
–- Filhas de Hécate e Sapphira han? Muito bem, subam a bordo.
As duas subiram no barco, e Perltrill levou-as para dentro da neblina. Esta era tão densa que as deixava cegas e desnorteadas, mas a sensação não durou por muito tempo.
Logo a neblina que as encobria se dissipou e deu espaço para o céu azul e limpo, assim como o mar, calmo e cristalino. A frente havia uma ilha de tamanho explendor que deixa difícil a tarefa de descrevê-la. Apenas imagine o lugar mais bonito do mundo. Era melhor.
Suas árvores de folhas verdes, todas tão floridas, davam um ar extremamente alegre para o local. Parecia que o Sol brilhava apenas para aquele local. Era o paraíso na terra. Simplesmente PERFEITO.
Havia ébanos, pinheiros, e tantas outras árvores que não sabiam o nome, mas o que realmente chamavam atenção eram os carvalhos e macieiras enormes. Não eram comuns, mas da altura de um prédio de 15 a 20 andares. Eram mágicos.
Atracaram a canoa e desembarcaram. Assim que pisaram em terra foram levadas floresta adentro. Lá deram de cara com um enorme portão de mármore, decorado com ouro. prata, bronze e pedras preciosas. Perltrill fez um sinal com as mãos e proferiu algumas palavras silenciosas, apenas movendo os lábios sem emitir o som, e então, o portão se abriu.
— Fáilte to Avalon! — Disse Perltrill. “Bem vindas à Avalon”.
Se era dificil descrever como Avalon era por fora, por dentro nem se fala. Como é possível um lugar ser tão bonito assim?
Fadas, elfos, ninfas, dríades, humanos e outras divindades únicas se misturavam nas trilhas e campinas do Shadowrealm. Clare estava com a boca aberta, e apenas se ligou disso quando ela começou a ficar seca. Alex admirava o lugar e o analisava ao mesmo tempo.
Os olhos dela se encheram de lágrimas como se memórias estivessem voltando à tona. E de fato estavam. Memórias de sua infância, que um dia foram as melhores lembraças que guardava, e que hoje apenas a torturava.
Perltrill foi falar com um elfo de mesma vestimenta que a dele (provavelmente era um uniforme) e este, após ouvir o que Perltrill tinha a dizer, se virou e foi embora, em direção à um castelo de mármore.
Perltrill disse umas palavras, que depois Alex traduziu para Clare: “Ele foi chamar Arthur, esperem aqui”. Logo depois, foi embora.
— Esse lugar é maravilhoso! E… Nossa! É tudo feito de mármore neste lugar? — Disse Clare maravilhada.
Alex riu.
— De fato, é maravilhoso sim. E bem, é. Avalon é o Shadowrealm mais próximo do plano etéreo que há, por isso, para a maioria aqui, criar uma barra de ouro apenas imaginando e materializando-a é a coisa mais fácil do mundo. Isso aqui, não vale nada.
Aquilo para Clare foi bizarro. Ouvir que ouro não vale nada é estranho seja onde você estiver.
— E... se importa em me contar um pouquinho mais? Avalon parece... interessante. — Disse Clare sentando na raiz exposta de uma árvore, apoiando o cotovelo no joelho e pousando a cabeça entre as mãos.
— E como Avalon é interessante. Passei cinco anos aqui, um dos melhores períodos da minha vida. Avalon é o meu Shadowrealm preferido, depois do de Hécate é claro. Avalon… a terra dos Deuses, a ilha das maçãs... Reino perfeito de amor e beleza, a busca constante de todo o ser humano que, apesar de tudo, ainda cultiva a esperança de fazer deste mundo uma lenda real, ou seja, um lugar melhor para se viver. E que de fato é real, mas apenas para aqueles que merecem que seja real. A ilha da juventude, onde o tempo não passa, onde todas as suas feridas, físicas e espirituais poderão ser curadas.
— Para mim Avalon será sempre a terra de todos, dos seres mortais e imortais ou feéricos, assim como os Tuatha Dé Danann, Morgana, Nimue e Merlin. Um lugar de eterna beleza e felicidade. Sempre será minha casa. — Disse um homem por trás das duas com um ingles tão antigo que Clare não entendeu algumas palavras, devido ao sotaque principalmente. Ele tinha cabelos loiros e olhos tão azuis quanto o céu.
— Arthur! — gritou Alex, pulando em cima dele e o abraçando.
— Alexandra, há quanto tempo! Você não mudou nada. Está mais nova, mas igual. E sua mãe?
Alex congelou, e o clima ficou pesado e desagradável na hora. Arthur percebeu que algo havia acontecido.
— Aconteceu alguma coisa não foi? Grave. — Alex concordou. — Ela morreu? —
Ela concordou novamente. Com esta última ele a abraçou novamente, mas para consolar a si mesmo, não a ela. Tinha secretamente uma paixão por Sapphira, que tentava superar por anos, mas não conseguia.
— Sinto muito Ally. — Disse se afastando dela. — E… quem é ela?
Apontou para a garota que acompanhava Alex.
— Ah, meu nome é Clare.
Arthur sorriu e levantou uma sombrancelha.
— Americana, hãn! Prazer Clare, sou Arthur, o Cavaleiro da Távola Redonda, governante de Avalon. — Clare já ia perguntar como ele sabia que era Americana, mas a resposta era obvia: o sotaque — Bem vinda.
Arthur se voltou novamente para Alex com preocupação.
— Sabe Alexandra, estou realmente feliz em vê-la, mas se bem lhe conheço essa não é uma visita casual. Você quer alguma coisa, não quer?
Alex abaixou a cabeça em sinal de nervosismo.
— Sim, eu quero. —levantando a cabeça, ela continuou —Todos sabemos que há uma guerra por vir, e não podemos lutar essa guerra sozinhos. Precisamos de você, e de todos os guerreiros que você chamar de aliado. Será que tem como—
— Irei convocá-los, não se preocupe. —Interrompeu ele graciosamente — Vocês não querem descansar? Comer alguma coisa? Para você minha cara — disse para Clare — é opcional, mas para você Alex, não. Você acabou de conjurar Instantanea Trinus. Mas nunca que eu deixaria você sem descansar depois disso.
Arthur estava exagerando um pouco, mas realmente cansava conjurar aquele feitiço, ainda mais com “peso extra” (carregar Clare com ela), e Alex não iria recusar alimento e um lugar para descansar. Ela aceitou.
Clare acabou aceitando a oferta também e comeu com Alex, mas não queria descansar. Ao invés disso Arthur se propôs a apresentar Avalon a ela.
Ele mostrou o palácio dos deuses, os templos, as macieiras (que eram sagradas naquele lugar), os carvalhos, as trilhas, as casas das fadas, tudo!
No caminho de volta já estava escurecendo, e Arthur começou a conversar com Clare para quebrar o silencio.
— E então, por que você está nisso com ela?
— Com ela? Ah, Alex? Ela me convidou para isso. Ela disse que precisava de ajuda para a tarefa de proteger os portais.
— Alexandra pedindo ajuda? Estranho. Ela sempre foi do tipo que trabalha sozinha. Certeza que é só isso? — perguntou desconfiado.
— Sim. Foi o que ela me disse, e eu confio nela.
Arthur riu, o que deixou Clare desconfortável. Ele sabia sobre Alex. Coisas que ela nem imaginava.
— Ela é confiável não é? — perguntou preocupada.
— Alex? Sim, e muito. Mas é… dificil. Ela sempre deixa uma parte das coisas ocultas, e normalmente é a parte mais importante de tudo. Na segunda guerra mundial ela fez isso. Ela sabia que Hitler era filho de Nemesis e que ele buscaria vingança pela primeira guerra, e não disse nada. Ela achava que ele não iria conseguir fazer nada, pois era apenas um mensageiro, mas as coisas mudaram. Se ela tivesse dito, a história do mundo poderia ter sido bem diferente.
Clare ficou perplexa ao ouvir essas palavras. E confusa. Muito confusa.
— Calma… segunda guerra mundial? Como assim? Ela tem quatorze anos, isso é impossivel!
Arthur parou de andar e olhou para ela com os olhos arregalados, como se percebesse que falou coisa que não devia.
Como que por mágica, Alex apareceu no final da trilha e veio correndo até eles.
— Procurei vocês por todo lugar! Onde estavam?
— Arthur foi me mostrar Avalon. — Respondeu Clare.
Alex olhou para Arthur e riu.
— Que cara é essa Art? Parece que viu um fantasma!
— Ele disse que você estava viva na segunda guerra mundial. — Ineterveio Clare. — E eu disse que isso era impossível porque você tem quatorze anos. E aí, o que me diz Alexandra O’Connol?
Alex gelou.
Ela sabia que teria que contar a verdade para ela mais cedo ou mais tarde. E como Arthur já havia contado um segredo, ela achou que agora seria mais apropiado. Sem contar também que logo ela teria que ir embora, e precisava deixar alguem em seu lugar.
— Clare, precisamos conversar.
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