A Família Olimpiano e suas nações - Parte 3
30 A punição extra.
Notas iniciais
Após perder a batalha em Berlim, Delayoh foi presa. Berros eram ouvidos no hospital, Apolo e um outro enfermeiro, traziam Delayoh. Ela se debatia, gritava esperneava, fazia ameaças a todos que estavam ali, mas nada adiantou. Seus poderes voltaram gradativamente quando os aparelhos, que os inibiam, foram retirados.
O rosto de Delayoh refletia tudo o que estava sentido, estava furiosa, possessa, brava, queria acertar todos ali com algum de seus poderes e fugir daquele lugar, mas não deu certo, depois da foto a jogaram na cela e a trancaram. Delayoh gritava, batia nas grades, as chutava, jogou o travesseiro, a coberta, o lençol, o colchão e a cama no chão, além dos outros móveis e objetos. Apolo se aproximou da cela.
— Parabéns, Delayoh. No primeiro dia, já arrumou um serviço para você. Deixe a sua cela em ordem. Olha a bagunça que você fez. — Disse Apolo com uma expressão séria.
— Me tira daqui, Apolo. Me tira daqui. — Pedia Delayoh. — Eu não fiz nada de mais, só dei aos judeus a lição que eles mereciam. Não é assim que falam? Cada um recebe o que merece? Então. Me tira daqui.
Apolo riu com o que acabou de ouvir.
— Deu aos judeus o que eles mereciam. Ora, Delayoh. Você mandou seis milhões de judeus para a morte, para se vingar de apenas dois homens. Para nós isso foi um crime gravíssimo e é por isso que está aqui, presa mais uma vez. Agora, deixe de enrolação e arrume sua cela.
— Quando eu sair daqui, Apolo, se prepare. — Disse Delayoh com uma expressão furiosa.
— Está me ameaçando outra vez, Delayoh? Isso é péssimo para a sua pena. — Disse Apolo dando as costas para ela e saiu.
Delayoh respirou fundo, olhou para sua cela toda bagunçada, e começou a arrumar. Enquanto fazia a sua tarefa, ela escutou a voz de Apolo e depois escutou a de sua mãe.
— Mutter? — Se perguntou Delayoh.
— Se acalme Hera, a Delayoh acabou de chegar aqui. Aliás, devo lhe aconselhar a ensinar bons modos para sua filha, já chegou aprontando um escândalo, ameaçou os enfermeiros, me ameaçou e fez uma bagunça na cela dela. — Disse Apolo.
— Não ouse falar assim de meine tochter, eu sei cuidar dela. Agora me deixe vê-la. — Disse Hera.
“ Cuidou tão bem, que ela está presa aqui novamente”, pensou Apolo. Ele permitiu Hera ver a filha e a levou até a cela. Ao se aproximar, Hera olhou para Delayoh arrumando a cama e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Tochter. Delayoh. — Disse Hera, emocionada.
Delayoh se virou e disse:
— Mutter.
A deusa alemã se aproximou da cela e passou sua mão pela grade para pegar na mão de sua mãe, que a pegou, beijou, fez carinho.
— Apolo, abra a cela para que eu converse com meine mutter, por favor. — Pediu Delayoh.
— Agora está pedindo por favor, Delayoh? — Perguntou Apolo com certo sarcasmo.
— Apolo, não seja mesquinho e rancoroso, deixe os rancores de lado e me permita que converse e dê um abraço na Delayoh. — Hera também pediu.
Apolo permitiu. Assim que abriu a cela, Hera correu para os braços da filha, as duas estavam emocionadas. Apolo percebeu que deveria deixar as duas a sós e saiu sem que elas o notassem.
— Meine tochter. Como temi tanto que isso acontecesse, não queria me separar de você. — Disse Hera, enquanto fazia um carinho no rosto da filha.
— Não fique triste, mutter. Eles não entendem, o que fiz, tudo que fiz, foi pelo bem da Alemanha, para fazer dela uma grande potência e se livrar de pessoas indesejadas. Mas acham que só prejudiquei, que cometi maldade, nunca irão entender. — Delayoh disse tentando tranquilizar a mãe. — Mas não fique triste por mim, a senhora tem que ficar forte para cuidar da Alemanha, da nossa Alemanha.
— Mas sem você, não terei forças, não vou conseguir ficar longe de você por muito tempo. Se eu sofri quando ficou presa por dez anos, não irei suportar a sua ausência por um longo período. Sinto que isso irá acontecer.
— Mutter, você precisa ser forte pelos alemães, a Alemanha não pode ficar abandonada, a mercê daqueles que se dizem os vencedores. Não pode deixar isso acontecer.
— Mas e se acontecer? — Perguntou Hera. — Depois de tudo que aconteceu na guerra, não me darão ouvidos e eu não estarei forte o suficiente para os enfrentar.
— Você precisa, mutter. — Disse Delayoh firmemente. — Não se deixe abater, pois, assim aqueles quatro vão se aproveitar e fazerem o que bem entenderem com a Alemanha. Tire forças de algum lugar, não sei como, mas faça isso pelos alemães.
Hera secou as lágrimas, pegou as mãos de Delayoh e disse:
— Eu prometo, meine Tochter. Cuidarei da Alemanha e dos alemães, eles são os nossos maiores bens. Farei isso até que você possa voltar.
— Acabou a visita. Comecem a se despedirem. — Avisou Apolo.
Hera deu um abraço em Delayoh, que disse:
— Fique bem, mutter. E lembre-se: A senhora é forte e determinada, conseguirá cuidar da Alemanha.
Depois de dar um beijo no rosto da filha, Hera, chorosa, saiu da cela com medo de nunca mais ver Delayoh outra vez.
...
Se passaram 10 anos após o julgamento. A rotina de Delayoh no hospital era a mesma dos outros prisioneiros: trabalhar no jardim, fazer artesanato e faxina nos quartos. Na hora do almoço, os prisioneiros comiam juntos, então, a deusa alemã encontrava com pessoas indesejáveis. Ivana e Stanley estavam sentados na mesma mesa, porém, cada um em uma ponta.
— Sentarei em outra mesa. Me recuso a sentar ao lado de traidores. — Disse Delayoh, com olhar de desprezo para os outros dois.
— Allora vai. Quem disse que eu queria que você sentasse na mesma mesa que eu? — Disse Ivana rispidamente. — Assassina.
— Eu que jamais sentaria na mesa de uma traidora como você, Ivana. Aliás, arrumaste um bom amigo, o Stanley, que é tão mentiroso e traíra quanto você.
— Eu estou querendo fazer minha refeição em paz. — Stanley se mostrou incomodado.
— Concordo com o americano, vocês duas queiram parar de falar? — Esbravejou Sarah.
— Ainda bem que eu vou embora deste lugar amanhã. — Elisabeth falou ao se retirar do refeitório.
Delayoh se retirou e sentou em uma mesa mais afastada.
...
No dia seguinte, Apolo havia preparado uma porção azul brilhante, olhou para a pequena cumbuca de barro e disse:
— Espero que isto dê certo.
Ele procurou Delayoh e a encontrou indo em direção ao jardim, estava na hora do serviço de jardinagem. Apolo a chamou e com uma expressão tediosa, ela foi até ele.
— Trouxe essa porção para ti, tens que tomar. — Disse Apolo.
Delayoh olhou para a porção azul e a achou estranham a cheirou, e o cheiro era insuportável de tão ruim.
— Que cheiro horrível. — Disse Delayoh, coçando o nariz. — Por que está me oferecendo essa porção repugnante? Qual é a função dela?
— Sem questionamentos, Delayoh, apenas tome. É uma ordem que recebi. Tens que tomar tudo.
Delayoh pegou a cumbuca, respirou fundo e tomou a porção. Quando terminou, fez uma cara ruim e disse:
— Se o cheiro é horrível, o gosto é pavoroso.
A deusa alemã colocava a língua para fora, tentando tirar o gosto da porção, logo depois, foi liberada para ir ao jardim. Assim que saiu, Apolo ficou a observando.
...
A pena de Elisabeth terminou, Anfitrite e Poseidon foram buscar a filha. A deusa inglesa assinou alguns papeis, se despediu de Stanley e Sarah, não falou com Ivana, pois, a deusa italiana ainda tem rusgas com ela. Elisabeth saiu abraçada aos seus pais. Ao saírem, passaram pelo jardim onde Delayoh estava trabalhando, o vestido branco simples estava com algumas manchas de terra.
— Eu estou indo embora. Logo Sarah, Stanley e Ivana também vão sair e tu ficarás sozinha aqui, Delayoh, pagando pelos teus crimes. — Provocou Elisabeth, antes de sair com os pais.
Os três passaram por um portal, Delayoh nem se importou com o que a prima lhe falou, para ela, Elisabeth sempre teve inveja dela e da Alemanha e continuou a fazer seu serviço. De repente sentiu um mal-estar, pensou que estava ficando cansada, parou um pouco, mas não melhorou. Se levantou e ficou um pouco zonza, começou a ter dificuldade para respirar, tentou chamar alguém, mas não conseguiu. Delayoh não conseguiu se manter em pé e caiu na grama, desmaiou enquanto sua respiração ficava cada vez mais curta. Um enfermeiro cor de jambo e alto, a viu caída e chamou por Apolo. Ele pediu ao enfermeiro que levasse Stanley, Sarah e Ivana para as celas deles, o enfermeiro atendeu ao pedido, os dois deuses e a semideusa obedeceram, porém, não entenderam o motivo.
...
Em um outro lugar do hospital, Apolo colocou Delayoh sobre uma mesa e todos ficaram a observando.
— O que está acontecendo? — Perguntou uma enfermeira.
— Delayoh está entrando em inércia. — Respondeu Apolo. — Dei a porção da inércia para ela, a punição extra será cumprida. Mas essa inércia não durará muito tempo.
— Quanto tempo irá durar? — Tornou a perguntar novamente a enfermeira.
— 15 ou 16 anos. — Respondeu Apolo.
De repente, Delayoh parou de respirar, as enfermeiras colocaram um tubo nela e uma pequena luz vermelha indicava que não havia mais respiração, Delayoh havia entrado em inércia pela segunda vez. Apolo ordenou que ninguém falaria sobre isso, era um segredo e que jamais seria revelado.
...
Usando a mesma túnica que usou na batalha contra os aliados, Delayoh foi para mundo inferior, sem entender o que estava acontecendo.
— Por que voltei para cá? — Delayoh olhou para suas mãos, braços e pernas e percebeu que estava um pouco transparente. Ficou assustada. — O que aconteceu comigo?
— Seja bem-vinda, outra vez, ao mundo inferior, minha sobrinha. — Hades saudou Delayoh.
— Como vim parar aqui? Estava no jardim do hospital e agora estou aqui. Por que estou quase transparente?
— Você entrou em inércia. — Disse Hades, calmamente. — Além da pena que recebeste, você terá que cumprir essa pena extra.
Delayoh se desesperou.
— Eu não vou ficar aqui. Vou voltar, como fiz da outra vez.
Delayoh fechou os olhos, apertou as mãos e ficou na ponta dos pés, como fez quando tinha quinze anos. Mas ao abrir os olhos, não tinha voltado para o hospital, ainda estava no mundo inferior.
— Não adianta, sobrinha querida. — Hades se aproximou dela. — Enquanto não cumprires, ou seja, não se arrepender do que fez, não irá voltar.
— Me arrepender? Jamais! Persegui e matei ou mandei para a morte cada um daqueles judeus. Fiz questão de trazer um por um para cá. Estou satisfeita com o que fiz, afinal, sou uma deusa da morte. — Delayoh foi segura em sua resposta.
Hades levou Delayoh para o interior do mundo inferior. Só haviam sombras, espíritos agonizantes e fogo. Chegaram a um enorme buraco, Delayoh reconheceu o lugar.
— Estais a brincar comigo, onkel Hades? — Perguntou a deusa alemã.
— Não. Vais ficar aqui, junto com suas seis milhões de vítimas. — Respondeu Hades. — Foi me recomendado fazer isso, lamento, minha sobrinha.
Hades pediu a atenção dos judeus e disse que Delayoh ficaria com eles enquanto a pena dela durasse. Mas, ao vê-la, eles ficaram apavorados, gritavam e até queriam fugir dali, para que ela não os torturasse de novo. E havia um bom motivo, Delayoh os aterrorizou tanto, que mesmo depois de estarem mortos, ela os assusta.
— Até depois de mortos, eles têm medo de mim. Adorei saber disso. — Disse Delayoh satisfeita.
Hades teve que pensar em um outro lugar para Delayoh ficar.
— Não posso te mandar de volta e não há como ficar aqui com os judeus. — De repente, Hades teve um estalo. — Já sei onde pode ficar, tornarei a sua estadia aqui a mais confortável.
Os dois caminharam pelo mundo inferior e chegaram ao castelo de Hades. O castelo era imenso, escuro e com torres pontiagudas, o portão de ferro se abriu e eles entraram.
— Onkel Hades, o que estamos fazendo em casa? — Perguntou Delayoh.
— Você vai ficar aqui. — Respondeu Hades. — Vais dormir no antigo quarto de Perséfone. — Hades se aproximou de Delayoh e fez um carinho em seu rosto. — Tu és a minha sobrinha preferida, Delayoh, quero que fique bem. Deixarei você fazer o que quiser, aliás, tem uma certa alma que vais gostar de torturar, guardei especialmente para você.
Delayoh abriu um largo sorriso, talvez um tempo no mundo inferior não será tão ruim, ela deu um abraço em Hades e agradeceu pela hospedagem.
...
Apolo preparava uma porção para reverter a porção da inércia, ele chamou seus enfermeiros, foi até o quarto em que Delayoh estava, se aproximou dela e aplicou a porção. A porção funciona imediatamente após ser aplicada, porém, não foi o que aconteceu, Delayoh continuava desacordada. Apolo estava confuso, coçava a cabeça de cabelos marrom escuro, tentava entender se fez algo de errado ao preparar a porção, consultou o livro mais de uma vez e não encontrou erro algum. Uma enfermeira trouxe uma notícia, que deixou Apolo com os olhos azuis elétricos arregalados, um muro foi construído em Berlim, dividindo a capital e o país. O desespero de Apolo era evidente, ele colocou as mãos na cabeça e disse:
— O que foi que eu fiz?
...
Apolo foi para o mundo inferior contar para Hades que Delayoh não poderá sair. O deus do submundo se espantou com a visita do sobrinho.
— Saudações, tio Hades. Preciso falar com o senhor. — Disse Apolo, com uma expressão.
— E o que seria, meu sobrinho? — Perguntou Hades.
— É sobre Delayoh, ela ficará por mais um longo período por aqui.
— Was? — Perguntou Delayoh, surgindo na sala. — Eu não vou voltar? É isso que está querendo dizer, Apolo?
— Ao que tudo indica, isso mesmo que você ouviu, não poderá voltar. Um muro foi construído em Berlim, dividindo a capital e o país. E quando acontece um evento assim, um deus entra em inércia permanente.
— Quem construiu esse muro?
— Foi a Sarah. Os motivos, eu não sei, mas Sarah tomou essa atitude drástica.
— Semideusa desgraçada.
Delayoh ficou desesperada, pensando nela, que nunca mais voltará a vida e em seus alemães, que sofrerão com o país dividido.
— A CULPA É SUA! — Gritou Delayoh, que tentou pular em cima de Apolo, mas Hades a segurou. — Você provocou tudo isso, me colocou em inércia, me dando aquela porção asquerosa, para que uma maldita punição extra fosse cumprida. E agora, os meus alemães vão viver em um país dividido, sem mim, pois, eu não vou voltar. Está feliz, Apolo?
Apolo ficou sem graça e sem reação diante de Delayoh. Hades desceu a sobrinha, que saiu correndo pelo mundo inferior. Parou um cômodo pobre de terra e pedras, a deusa alemã fez algo que nunca imaginou fazer, se permitiu chorar. Toda a tristeza era extravasada através de soluços e lágrimas, enquanto na Alemanha, uma chuva repentina e torrencial caía sobre o país.
Fale com o autor