A Family Affair
5 Capítulo 5
⌘ Zoey ⌘
Estava no meio de um momento mãe e filha quando Tony me ligou e pediu pra comprar Whey Protein, eu o amaldiçoei por isso. Fui da minha casa até o mercado xingando ele e todos os motoristas que cruzavam meu caminho. No fim encontrei o que ele queria, e outras coisas que ele pediu apenas para me encher o saco. Então fiquei por quase 1h andando pelos corredores narrando para Tony Stark como os supermercados evoluíram desde a última vez que ele pisou em um.
Na manhã seguinte, aproveitei a ida ao apartamento da Ashley pra passar no trabalho de uma amiga, que é roteirista. Sherry está trabalhando como personal stylist, aqui em Hollywood é bem comum que as profissões tenham um hífen antes que você deslanche, por exemplo, Ashley, a ex do Tony, é atriz-modelo, Sherry é roteirista-personal stylist e eu sou assistente-produtora-filha da minha mãe.
—Sei lá, Zoey, sou roteirista, mas não gosto da ideia de reescrever algo começado por alguém— Sherry me informa.
—Já foram seis roteiristas, preciso de alguém que arrume aquilo.— explico ao experimentar um par de óculos.
—Não quero ser a número sete.— ela diz.
—Ele vai pagar muito bem, você não quer dinheiro?— pergunto, realmente, Tony paga um salário acima da média.
—Não, organizar os closets dos ricos tem sido altamente satisfatório.— ela responde, enquanto eu experimento várias peças de alguém que não faço ideia de quem seja.
—Conserta o roteiro do Tony?— eu suplico —Você faz, ele te paga, e com a grana você investe no seu filme.
—Zoey, eu não sei escrever ação.— Sherry me informa, eu tenho certeza que qualquer coisa que ela escrever ficará melhor do que o que temos, porém, me dou por vencida, temporariamente. Estou atrasada, Tony já me ligou várias vezes.
Minutos mais tarde, paro meu carro diante da mansão do meu chefe, digito o código de abertura do portão e ele não abre. Repito o processo mais uma e outra vez e nada, aperto o interfone.
—Mudei a senha, Tiffany me ajudou.— ele informa.
—A sua massagista?
—É, você não vai entrar a menos que me peça desculpas por chegar atrasada.— ele diz —Escreva uma carta.
Ele só pode estar brincando com a minha cara, saio do carro, jogo as sacolas sobre o portão e o escalo. Um paparazzi faz fotos do momento. Quando desço do outro lado percebo que Happy estava vindo abrir, podia ter poupado a humilhação e isso me deixa ainda mais furiosa. Entro na mansão e vou direto para a academia.
—Ah, não, quem abriu pra você?
—Pulei o portão.— revelo.
—Uau.— ele parece realmente surpreso —Alcançou um novo nível de desespero. Mas então, trouxe as minhas coisas ou não?
—Estou fora.— aviso, ele para seu exército de pernas, glúteos ou sei lá para me dar a devida atenção —Eu pulei o portão, porque achei que era mais decente dizer isso na sua cara. Eu estou fora. Me demito.— saio o deixando pra trás.
—Espera. Zoey, espera um pouco…— Tony vem atrás de mim —Você não pode se demitir hoje, começo a filmar na semana que vem.— o centro do universo me lembra —Temos que passar as minhas falas.
—Não vai ser muito difícil achar alguém pra bater o texto com você.— digo ao tirar o roteiro da bolsa e jogo contra o peito dele.
—Por favor, Srta Zoey?— Mila, a empregada diz —Sr Stark, por favor?— percebo que ela está chorando ao assistir a cena deprimente.
Enquanto junto minhas coisas explico que não dá mais, que cansei das ameaças de demissão e dele ficar me enrolando com a promessa de que terei um cargo maior em sua empresa.
—Zoey, você não tinha experiência nenhuma com produção…— Tony tenta argumentar.
—E depois de dois anos ainda não tenho! Porque tudo o que eu faço é buscar o seu café e comprar joias quando você cansa de alguém.— acuso —Tony, eu te disse pra fazer aquele filme do Reymond Philips, mas você não me ouviu, e o ator que fez o papel que deveria ser seu ganhou o Oscar.
Devia ter me demitido naquela ocasião, inclusive, ele não acreditou no meu feeling e recusou um papel incrível, com uma desculpa de merda, a mesma que está me repetindo agora.
—Meu Deus, como você é estupido!— eu grito —Seus olhos seriam vistos, eu te falei, não é como se você fosse interpretar o Ray Charles.— Continuamos gritando um com o outro até que decido perguntar —Você nunca iria me promover, né?— Tony me ignora, pois está olhando a sacola que joguei na cara dele no início da nossa discussão.
—Tá de brincadeira, né? Você colocou meu Shahtoosh numa sacola plástica junto com um par de tênis sujos? Isso aqui é uma camiseta raríssima, feita com pêlos de antílopes tibetanos. O tecido mais macio do mundo, ela é única!— sua observação me faz revirar os olhos.
—Você se veste com uma espécie em extinção, Tony?! Depois não quer ser cancelado.— digo incrédula.
—Foi um presente!— ele justifica —É insubstituível! Você está demitida!— eu
passo por ele —Sayonara, babaca. Divirta-se curando sua frustração com mulheres com a metade da sua idade!— digo antes de bater a porta.
A primeira coisa que faço ao deixar a casa do, agora meu ex-chefe é mandar mensagem pra minha irmã. Deborah é minha amiga desde a infância, por isso somos como irmãs ela sabe tudo da minha vida e eu da dela. Inclusive temos um encontro em casa, pois ela vai conhecer os sogros e precisa de uma roupa pra impressionar.
“Pedi demissão”
“Uhull, finalmente. Estou indo até a sua casa, vai me emprestar aquele vestido, né?”
“Claro”
Chegamos em casa praticamente juntas, mas eu entro na frente dela, mamãe está na cozinha, me esquivo de seu interrogatório ao dizer que estou cansada, pego uma água na geladeira.
—A Debs está lá fora estacionando, ela veio pegar uma roupa. Malcolm vai levá-la pra conhecer os pais, num evento super formal.
—Que maravilha!— ela parece entusiasmada, pelo menos uma de suas filhas não está dando trabalho com relacionamento ou vida profissional —Você talvez não tenha nada no seu armário, mas eu tenho, vocês podem pegar o que quiserem no meu quarto.
—É sério?
—Claro!
—Oi, mãe, cheguei.— Debs a cumprimenta —Aaah, a gente tem que comemorar!— ela diz pra mim, também pega uma água e brinda comigo, fico sem graça.
—Comemorar o quê?— mamãe fica curiosa.
—Minha noite de folga.
—Eee— Debs comemora.
—Faz tempo que não tenho uma noite de folga, não é?
—Acho que sim.— mamãe responde e morde uma vagem da salada que está preparando.
—Pode fazer espaguete em vez de salada?— peço ao lhe dar um beijo.
—E pão de alho?!— Debs pede antes de deixarmos a cozinha —Você ainda não contou pra ela?
—Shii, claro que não.— aviso enquanto subimos pro quanto —Ela nunca quis que eu trabalhasse pro Tony, com certeza vai jogar isso na minha cara.
—E Deus nos livre de uma mãe estar certa.— Deborah ironiza.
—O lance não é ela estar certa, sou eu estar errada e ter perdido dois anos da minha vida.— digo ao entrarmos no quarto da mamãe —Sou uma perdedora!— me jogo na cama dela.
—Ah, qual é. Ter se livrado dele é uma coisa boa, ele era um lixo com você.— Debs tenta me animar, eu a amo tanto.
—É, mas ele está estressado com essa coisa do filme…
—Para de passar pano pra ele. Olha o que eu trouxe pra você!— ela me mostra um broche que é uma estrela rosa escrito Super Bitch.
—Eu não mereço.
—Ah, cala a boca, você é poderosa pra caramba!— ela põe a estrela em minha mão.
—Tenho 24 anos, estou desempregada, moro com a minha mãe. Nem tenho roupas de adulta pra te emprestar…
—Falando nisso, porque estamos no quarto da sua mãe?— ela pergunta.
—Você sabe que mamãe escreve artigos pra Vogue de vez em quando, né?
—Sei.
—Além de pagarem muito bem, eles mandam vários vestidos incríveis!— informo ao abrir o guarda-roupas —Eles a enchem de estilo e ela quase nunca usa essas belezinhas.
—O quê?— ela está muito surpresa —A mamãe tem corpo de modelo, nada dela vai servir em mim.
—É o que nós vamos ver.
Passar a tarde com a Debs vasculhando o armário da minha mãe me encheu de nostalgia, experimentamos várias roupas, parecia que éramos crianças de novo. Depois da manhã péssima, a tarde foi uma delícia, mas a noite nem tanto. Antes da minha amiga ir embora ela me aconselhou a conversar com a minha mãe, coloquei um filme pra adiar o momento, até que decidi começar a falar.
—Ô, mãe, o que eu tô fazendo da minha vida?— questiono, minha mãe me encara esperando que eu faça o mínimo sentido —Deixei o Tony. Larguei meu emprego.— anúncio , esperando que ela me dê um sinal divino e maternal.
—Ah não, querida. Achei que você iria insistir com ele.— ela diz e eu percebo que fiz a coisa errada em falar pra ela.
—Insistir?— pergunto perplexa —Ele não me leva a sério, não me respeita.
—Você se leva a sério?— ela contrapõe.
—Pelo seu tom, estou vendo que você também não me leva a sério.— observo irritada.
—Filha, eu tenho muita fé em você, ok? Mas percebo que você tem uma tendência em desistir quando as coisas ficam complicadas…
—Eu?— mostro-me claramente ofendida.
—Lembra das aulas de roteiro de tv?— ela indaga. As aulas de roteiro estavam na grade curricular do segundo semestre da faculdade, mas adiei o quanto pude.
—Foi você quem…— titubeio, talvez não haja defesa —Você sempre soube que pra mim é difícil escrever.
—Zzy, não foi só essa matéria, foram várias…
—Sim, várias, todas as que envolviam escrever, sabe que não sou tão boa nisso quanto você.— justifico.
—Não desconte em mim…
—Não estou te culpando, eu estou me justificando, te pedindo um pouco de compreensão, mas você só me julga. E tá implicando comigo.— estou fora de mim, comecei essas conversa esperando um pouco de compreensão, mas não tive nada disso —Você não me ajuda!
—Tentei te ajudar quando pedi que você me enviasse a proposta de trabalho com a minuta do seu contrato e enviei pro meu advogado analisar, mas você não me ouviu.
—Ah, fala sério, mãe. Então é isso? Você quer ouvir que tinha razão?— questiono perplexa —Você tinha razão, eu perdi 2 anos da minha vida com um completo narcisista.
—Eu nunca quis estar certa, filha. Só quero o que é melhor pra você!
—Então me fala, por favor, me diz o que é o melhor pra mim?— suplico, sinto meu olhos encherem d'água.
—Isso apenas você pode responder.— ela responde, respiro pesadamente, estou frustrada.
—Eu vou tomar banho.— anúncio, minha noite acabou, que se dane o filme passando na tv.
Depois de alguns dias sem saber o que fazer da minha carreira voltei a procurar a Sherry, propus trabalharmos juntas no roteiro que ela tinha, era uma dramédia onde os personagens principais eram pai e filha, a princípio, o Tony era nossa opção para o papel do pai, mas eu não queria mais saber dele.
—Se ele não vai mais fazer, vamos pedir dinheiro pra outras pessoas?— Sherry perguntou, ela estava sendo arrastada por cachorros, esse era seu outro hífen, roteirista-passeadora de cachorros, e caso não consiga convencê-la a embarcar comigo neste projeto logo terei que encontrar uma nova profissão também.
—Tony nem saberia interpretar um pai. Ele seria péssimo.— desdenho —Eu levanto os fundos para o filme, sempre fui boa em pedir dinheiro pra caridade.
—Caridade?— ela levanta uma sobrancelha —Eu sei que terminei esse roteiro por pressão sua e agradeço tudo o que tem feito, mas é meu primeiro projeto…— ela está reticente —...A rica do closet que eu estava arrumando aquele dia, lembra? Disse que eu preciso de um produtor de verdade.
—Sherry, não faz isso comigo.
—Eu só andei me informando. Afinal de contas é a minha carreira também.— ela diz —Me desculpa.— Sherry é arrastada pelos cachorros e eu sou deixada pra trás.
Não podia voltar pra casa e encarar minha mãe, então fui passar o tempo. Enfrentei a fila gigante do Randy Donuts e comprei uma caixa de rosquinhas, eu as estava comendo no carro quando minha vó me ligou para perguntar como estavam as coisas. Quando destrinchei todo o meu dilema ela me disse…
—Então escreva você, Zzy.
—Eu não posso escrever, mamãe já é escritora, esse é o lance dela.— argumento —Embora ainda não tivesse publicado, ela já tinha um livro pronto na minha idade e eu tô aqui devorando donuts.
—Ai, meu Deus, como você é reclamona. Para!— ela me dá uma bronca —E para de se comparar com a sua mãe!— sinto o puxão de orelha mesmo a quilômetros de distância, então depois ela me fez uma pergunta —O que te faz feliz, garota?
Trabalhar com arte é o que me faz feliz, e escrever faz parte disso. Estava na hora de parar de deixar o talento da minha mãe me bloquear. Voltei pra casa e ao chegar passei pela cozinha para deixar a caixa de rosquinhas, bebi água, peguei algumas uvas, não achei a dona da casa em canto algum, então subi.
Chamo do corredor, a porta do quarto dela está fechada então eu abro —Mãe?
—Aaahhh.— minha mãe grita, ela está na cama com alguém —Zoey?!
—Aaah!!!!— meu grito me faz engasgar com a uva, cuspo a fruta e tento correr dali, mas acabo dando com a cara na parede, então eu caio tonta.
—Que merda.— o homem que está com ela xinga, eu posso estar quase inconsciente, mas reconheceria a voz do meu ex-chefe em qualquer lugar. Minha mãe estava trepando com Tony Stark.
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