A Family Affair
23 Capítulo 23
Notas iniciais
⌘Pepper⌘
Acordo primeiro que meu noivo e decido preparar um café especial. Noivo. Eu, Virginia Potts, 45 anos, mãe, avó e noiva. A vida parece perfeita, mas decido adoçá-la com mel. Waffles com mel e frutas. Queijo branco, torradas, ovos mexidos, suco de laranja e café preto. Estou faminta. Ajeito tudo na bandeja e volto pro nosso quarto.
—Café da manhã especial, é meu aniversário?— ele brinca ao sair do banheiro —Estava pronto pra descer, mas voltarei pra cama.
—Por favor, né?— digo, antes de sentar ele me beija, seu hálito fresco e mentolado, nos acomodamos.
—Babe, você espera que eu coma tudo isso?
—Metade disso.— respondo —Sei que dá conta.— estamos sentados frente a frente, a bandeja entre nós, ele não tira os olhos de mim —Amor o que foi?
—Estou pensando que você vai ser a noiva mais linda.— ele sorri —E eu quero que todo mundo saiba que você disse sim. Posso postar uma foto sua que fiz mais cedo?
—Mais cedo que hora, se acordei primeiro?— pergunto intrigada.
—Lembra que me fez levantar pra fechar as cortinas porque esquecemos a varanda aberta ontem à noite?— me lembro do sol invadindo o quarto, de cobrir o rosto com o lençol, de resmungar pedindo pra ele levantar e da demora dele voltar pra cama.
—Me deixa ver?— peço e ele pega seu telefone e me entrega. Estou deitada sobre o travesseiro, a roupa de cama branca, meu cabelo preso num coque frouxo, que fiz quando tomamos banho de madrugada após as três vezes que fizemos amor, meu rosto sequer aparece, pois está coberto parte pelo lençol, parte pela minha mão, claro que seu foco era o anel em meu dedo. Amei a foto, não vou negar, embora não revele nada demais, acho tão íntima ainda assim. Olho pra ele, seu olharzinho pidão implorando pra que eu autorize —Vá em frente, publique.— autorizo.
E então 58 milhões de seguidores verão a minha foto com a seguinte legenda: “Acordei noivo! Sou o homem mais feliz do mundo, meu amor disse sim”
Durante o nosso delicioso desjejum fiquei pensando “Coitada da nossa assessoria tendo que lidar com a notícia de um noivado em pleno domingo”, mas eu não tinha me dado conta de que seria o caos pra nós também. Depois do café, me vesti pra sair pra correr e já tinham dezenas de paparazzi na nossa porta, mas isso não me impediu. Ao contrário do meu noivo, que sempre preferiu fazer sua série de exercícios na academia perfeitamente equipada que possui em casa, eu sempre preferi correr ao ar livre e aulas de Pilates.
Ninguém me fez qualquer pergunta, tudo o que queriam eram mais fotos, e claro que conseguiram. Quando voltei pra casa, quase 1h depois, havia algumas ligações e mensagens da minha assistente Joanna, da Jackie, da Zoey e da minha outra filha, Debs. Fui abrindo aleatoriamente enquanto tomava um isotônico.
“Oi, mamãe
Primeiramente, parabéns. Aaaah, estou tão feliz por você ❤️
Segundamente, vocês poderiam considerar me conceder uma exclusiva, né?” — Deborah Bernardi.
Debs foi direto ao assunto, faz quase um ano que ela entrou para o time de jornalistas da Revista People, talvez conceder uma entrevista a alguém que já nos conhece não seja ruim.
“Como assim, fico sabendo do noivado pelo Instagram? — Jackeline Ford, minha sogra, ex-sogra, age como se eu já não tivesse contado que havia aceitado me casar de novo e só estava esperando pelo anel, sua segunda mensagem me faz rir —“Certeza que estava sem roupa sob aquele lençol. Parabéns, filha”
“Parabéns, Virginia.
Embora você nunca tenha me dado tanto trabalho quanto nos últimos 2 anos. Vamos alinhar estratégias como nas turnês de vocês? Escolher uma única publicação para falar seria o ideal, talvez uma matéria com a família toda. Zoey toparia aparecer com o bebê? Qualquer revista daria a capa pra vocês. Posso alinhar com Stewart, se preferir. Beijo”— Joanna Moore.
A mensagem da Zoey havia chegado bem cedo, então com certeza não tinha nada a ver com os últimos acontecimentos, não foi por isso que a deixei por último, mas ao abri-lá minha única reação foi um sonoro “Puta que pariu”, mesmo que quem a tenha parido fosse eu. Embora surpresa, fiquei emocionada com a coincidência.
“Meu amor, confesso que fui pega de surpresa, mas fiquei muito feliz. Aliás, que coincidência fantástica! Kyle tem muito bom gosto, é uma joia lindíssima. Baby Zzy da mamãe vai se casar, aaah”— embora ela não goste de áudio, clico em enviar.
Talvez fosse o dia das revelações através de fotos. Na imagem a mão gordinha do meu neto segurava o dedo indicador da minha filha, ele tem o costume de fazer isso enquanto mama. Mas o anel de brilhante em seu dedo anelar era uma novidade.
—Stewart está me aporrinhando…— Anthony reclamou ao vir da academia, foi direto à geladeira pra pegar a sua bebida pós-treino —...Falando não sei o quê de feed, como se eu fosse a porra de um produto…
—Amor, não está diferente aqui e, sim, somos um produto, infelizmente vivemos em Hollywood. Somos marcas.— eu digo e ele suspira, embora eu tente levar a vida mais normal possível, não há como negar, e estar nesse relacionamento me deixou ainda mais exposta —Mas mudando de assunto e permanecendo no mesmo tema, olha isso.— mostro a foto de Zoey, ele me olha confuso —Não entendeu? Kyle pediu a mão da Zoey.
—No mesmo dia que a gente?— seu questionamento não tem o tom de quem ficou feliz com a novidade, parece indignado.
—Qual o problema? Achei uma coincidência fofa.— eu digo.
—Muito fofo, mas em hipótese alguma vou dividir meu casamento com outro casal, ok?— não sei que bicho o mordeu —É meu primeiro casamento.
—Absolutamente ninguém cogitou um evento comunitário, Anthony, você terá exclusividade total no seu primeiro casamento, apenas se lembre que pra ele acontecer você precisa de uma noiva.— o deixo na cozinha.
—Babe…— ele chama, mas não olho pra trás —Babe, por favor?— seu telefone toca, mas ele continua no meu encalço, segura a minha mão e me faz parar no meio da escada. Me sento pra espera-lo concluir a ligação —Chega, Stewart, demite o social media, vou postar o que eu quiser, porra, me deixa ser espontâneo, que inferno! Hoje é domingo, deixa publicarem o que quiserem. Descanse, amanhã conversamos na produtora.— ele desliga —Amor, eu não quis…
—Claro que quis.— o interrompo, ele senta no degrau ao meu lado —Eu também quis dizer o que disse, o problema não foi o que dissemos, mas a maneira como dissemos.— digo a ele.
—Estou feliz pela Zoey, amo aquela garota.— ele diz —Mas estou odiando o Kyle…
—Vocês são tão ridiculamente sintonizados que escolheram a mesma data pra noivar.— observo. —Mas o noivado deles não tem nada a ver com o nosso, a cerimônia deles não tem nada a ver com a gente, porque assim como você, é o primeiro casamento deles também.
—Odeio a sua sensatez.
—Não odeia, não.— digo.
A última vez que peguei no telefone no restante do dia foi pra informar Joanna sobre a reunião na Stark. No dia seguinte, além de chegarmos com um plano pré-traçado, Anthony deixou claro que postaria o que quisesse.
—Quando a minha vida era só trabalho e relacionamentos vazios eu deixava vocês decidirem o que postar nas minhas redes, mas agora tenho uma família e vou publicar o que me der na telha.— ele deixou claro —Se eu fizer um carbonara horrível todo mundo vai saber, chega de feed arrumadinho.— jamais deixaria que ele postasse a massa que comemos ontem, estava deliciosa, mas a aparência era horrível.
Stewart o encara impassível, olhos verdes, barba cerrada e os fios de seu cabelo loiro perfeitamente alinhados com pomada, parece uma versão engomadinha de Charlie Hunnam. Já Joan é solar, ela sempre usa terninhos, mas em tons quentes, vivos, seu cabelo cacheado escuro num corte long bob, segundo ela, lida com Stewart porque minha relação com Anthony “a obrigada”. Eles exalam uma energia Enemies to lovers, que daria um ótimo livro.
—E a sra, alguma observação sobre as suas redes?— Joanna indaga, seu tom é jocoso, afinal nunca tivemos esse problema, movo a cabeça em negação —Ok, ainda não tínhamos divulgado sobre a aquisição dos direitos da adaptação de Manhattan pela Stark, vamos aproveitar o anúncio do noivado?
—É uma boa ideia.— digo —Amor, o que acha?
—Acho uma boa também.
—Já pensaram numa data para o casamento? Mês que vem você estará em Toronto para gravar a participação naquela série, lembra, Tony?— Stewart questiona.
—Não há qualquer possibilidade de organizarmos um casamento em um mês.— respondo —Mesmo que não queiramos nada grande.
—Desde ontem já pipocaram várias matérias, mas nenhuma entrevista com vocês, há alguma revista que queiram priorizar?— Joan questiona.
—People, daremos uma entrevista em casa para Deborah Bernardi.— Anthony informa.
—Aliás, sobre a entrevista, podemos falar da Zoey e do Noah, mas ela não quer aparecer.— aviso Joanna e Stewart.
Dois dias após a conversa com a nossa assessoria havia uma equipe da People na nossa casa. Falamos de tudo, como nos conhecemos, do convite que ele me fez pra auxiliar no roteiro de seu filme, do período que passamos separados, embora tivéssemos omitido o motivo, do nosso reencontro, das nossas carreiras, do apoio que Anthony sempre me deu pra escrever, de como eu sou sua maior fã e ele meu. Que apesar de não gerarmos um filho juntos, temos uma família incrível, uma filha, um genro e um neto que amamos mais do que qualquer coisa. Por fim, falamos do que talvez venha a ser o projeto mais desafiador das nossas vidas, onde a arte dele vai casar com a minha quando adaptarmos o meu livro.
Foi uma entrevista boa, leve, e isso refletiu nas fotos, fizemos três trocas de roupas, ambientamos o ensaio na nossa sala, que há meses deixei mais com a minha cara, no escritório que, por escrever, uso mais que ele, e no jardim.
Na sala, usei um vestido branco, de saia rodada e mangas bufantes, ele um terno cinza clarinho, despojado, camiseta branca e um par de tênis azuis estilosos. No escritório, ele vestiu um terno xadrez em tons de marrom, camiseta terracota no mesmo tom das minhas roupas, que eram uma camisa e saia plissada, claro que nessas fotos fizeram questão de evidenciar a estatueta do Oscar na estante. No jardim, estávamos mais despojados, embora usasse uma regata de seda azul-marinho e uma saia longa, marfim com uma fenda enorme, estava descalça, assim como Anthony, que usava calça jeans larguinha de lavagem clara e quando sugeriram que usasse uma das camisetas de banda, que eram meio que uma de suas marcas, ele surgiu com uma camiseta do Blondie. Ninguém entendeu, mas eu entendi.
E, na semana seguinte, quando a entrevista foi lançada, a capa era linda, estávamos lado a lado sentados em nosso sofá, minha cabeça em seu ombro. Mas a minha imagem favorita na matéria toda, registra o meu sorriso de surpresa ao vê-lo vestindo a camiseta que eu usava pra fazer faxina no dia em que o conheci, o seu beijo em minha testa e meu anel de noivado em evidência uma vez que, morrendo de vergonha, fiz aquele gesto de colocar o cabelo atrás da orelha.
—Gosto do título “Doce sabor de pimenta.”— Anthony diz ao chegar na sala de tv, estou sentada, ele se acomoda ao sofá e deita a cabeça em meu colo —Livros, quadrinhos e prêmios…
—O icônico, Tony Stark, fala sobre sua incrível jornada até o amor, e como sua futura esposa, Virginia Potts, e sua família, o mantém com os pés no chão.— leio o pequeno resumo ainda na capa.
—Eu sou “icônico” e você é o que? Não gostei.— ele faz bico —O título segue sendo o meu favorito ao brincar com a forma como nos conhecemos.
—Amor da minha vida, você me enaltece tanto, acho um máximo, mas lembra que falamos sobre sermos marcas?— ele move a cabeça em afirmação —Você é uma marca muito maior que eu, por isso seu destaque.— esclareço —Mas nós, juntos, somos uma marca enorme, embora não ligue pra isso.
—Também não ligo.— ele lança a revista pra longe, afinal de contas já vimos a matéria antes de rodarem a versão impressa —Minha definição de sucesso, não é o quanto os meus filmes arrecadaram ou o prêmio que ganhei, mas o que estou construindo com você.
—Por falar no que temos juntos, será que com o lançamento da entrevista vão nos deixar em paz?— pergunto afagando seu peito —Não consigo ir na Zoey, ela não vem até aqui por causa dos paparazzi e meu castigo é ficar longe do Noah.
—Também estou morrendo de saudade, ele deve ter crescido tanto.— ele observa. Realmente, duas semanas longe de um bebê quase equivalem a dois anos —O que é esse sorrisinho?— Anthony pergunta.
—Me lembrei de quando começamos a namorar, o segundo começo.— deixo claro —Não foi fácil assumir um namoro com Tony Stark, não está sendo nada tranquilo ter sido pedida em casamento por ele também.
—Mas e quanto ao Anthony?— ele indaga.
—Anthony…— suspiro —Anthony é a minha pessoa favorita, o melhor presente que o universo poderia ter me dado. Porque embora nunca tivesse assumido, meu maior medo era nunca mais sentir, não acreditar mais nas coisas, parar de sonhar. E agora estou sonhando com uma cerimônia de casamento, como se fosse a minha primeira vez. Não vejo a hora de ser a Sra Stark, que loucura.
—Aquela Pepper de Amsterdam não reconheceria esta Pepper.— ele comenta.
—Tem um texto de uma autora brasileira que gosto muito, que fala sobre isso… é assim “Eu devo reconhecer que ninguém me conhece. Não realmente. Os que mais sabem não sabem da metade. Não deixo todos os segredos escaparem de mim, não mesmo. Uma delicadeza com os outros, eu diria, pois não quero assustar as pessoas com meu passado. Em especial aquelas que continuaram gostando de mim após o pouco que souberam. Mesmo porque aquela, que fez aquilo, não está mais aqui. Eu sou literalmente outra”.
—Uau.
—O nome dela é Fernanda Young. É genial, não é?— ele aquiesce, suas feições ficaram sérias, e sinto seu corpo tenso, mesmo que a apenas sua cabeça esteja apoiada em meu colo —O que é essa ruga?— encosto meu indicador no centro de sua testa —No que está pensando?— ele se levanta e ajeita sua postura virando-se pra mim, faço o mesmo —Diga?
—Aquilo sobre ser a Sra Stark…— ele hesita —Está falando sério? Porque você não tem o nome do Charlie…
—Mas já tive.— revelo, ele me olha confuso —Não profissionalmente, porque Potts Ford não é nada sonoro, acho que isso também foi um dos motivos pra ele nunca ter apoiado minha carreira.— constato —Enfim, quando fiquei viúva removi o sobrenome.
—Nunca conheci alguém que já tivesse feito isso, nem sabia que era possível, na verdade.— ele me diz surpreso.
—É possível, embora pouco divulgado.— digo —Mas acho que fiz mais por estar ferida, sabe? Por saber que ele me deixaria se não estivesse doente.— Anthony continua um pouco espantado —Te deixei horrorizado?
—Estou pensando no texto que você recitou…
—Está assustado com o meu passado, Sr Stark?— minha pergunta é mais uma constatação do que indagação.
—Um pouco, e continuo gostando de você, aliás, te amo ainda mais pela coragem.— ele diz e se aproxima, segura meu rosto em suas mãos e beija minha testa, depois descansa sua testa na minha —Sabe…— ele pondera —Potts Stark é sonoro.
—Muito.— sorrio —Mas meu CNPJ continuará sendo Virgina Potts, ok? Assim como o seu é Tony Stark.
—Ok.— ele concorda e me beija brevemente —Sra Pepper Potts Stark.
—Não poderia amar mais o meu nome de casada.— eu o beijo.
—É perfeito.— ele me beija —E saiba que me separar de você não está nos meus planos.— me beija de novo e impede que eu me pronuncie —Morrer muito menos.
—Que bom. Isso me deixa muito feliz.— digo e ele me beija. Me puxa em seus braços, me enlaça e aprofunda nosso beijo. Devora meus lábios com tanta fome que já quero que tire minha roupa e continue me devorando. Por Deus, nunca usei drogas, mas talvez este homem seja a minha.
—Babe…— ele se afasta, estamos ofegantes —Antes de continuarmos…— ele diz, mas não para de dar pequenos beijinhos na minha boca, no meu rosto, pescoço —Há pouco você disse “Estou sonhando com a cerimônia como se fosse meu primeiro casamento”, quero que me conte com que tem sonhado.
—Tenho imaginado muitas coisas que talvez você ache brega ou piegas.— digo.
—Aceito todas as coisas piegas, afinal de contas é seu último casamento.— ele diz, mesmo sem saber o que estou imaginando pra nossa cerimônia.
—Quero que a gente case onde nos conhecemos…
—Na sala da sua casa?— ele para com as suas sessões de micro beijos e arqueia a sobrancelha me encarando, movo a cabeça em negação —No restaurante?
—Em Nova York.— afirmo o surpreendendo.
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