A Family Affair

14 Capítulo 14


⌘ Zoey ⌘



Cumprindo o cronograma, terminamos as gravações de Me and You faltando uma semana para o natal. Gravar é apenas uma das fases, depois das festas entraremos no processo de pós-produção e edição, sendo assim, nossa estrela entra em férias, mas eu, nós da equipe continuamos trabalhando. Ver o filme que fizemos, ainda que sua forma bruta, nos deixou muito orgulhosos, por isso fechamos um bar para comemorar.

—Um brinde às nossas indicações ao Oscar.— Sherry toca sua taça de gin com a minha. Ela ficou muito entusiasmada quando decidimos que o filme seria lançado no final de setembro, assim teremos tempo hábil para inscrevê-lo como candidato à premiação.

—Vamos nos inscrever, concorrer é outra coisa.— ressalto, mesmo sabendo que temos chance, a Academia adora um drama existencial. O roteiro da Sherry é incrível, a direção de Melora é espetacular, Maya Thomas, a jovem atriz que interpreta a filha do personagem do Tony é fantástica, e ele está fabuloso nesse papel mais sério e cheio de camadas.

—Independente do que acontecer, estou tão feliz que conseguimos tirar esse projeto do papel.— ela diz, seus olhinhos puxados estão radiantes —Espero nunca mais precisar arrumar guarda-roupas ou passear com cachorros de gente rica.

—Tenho certeza que não vai mais precisar.— digo a ela, meu telefone vibra no bolso da minha jaqueta, o pego para ver se é a Debs que está chegando.

—Vou dançar, você vem?



—Já vou.— informo, ela me deixa no balcão do bar, olho pra pista, mamãe e Tony estão lá há bastante tempo, eles estão muito felizes desde que ela voltou pra L.A.

Sis, posso levar um amigo?”— Debs pergunta via mensagem.

“Já era pra você estar aqui, sua vaca”

Estava saindo de casa, e esse carinha chegou, por favor?”

“Que porra, Debs. Vem logo!”— respondo com um emoji de careta.

Obrigada. Prometo que ele não é desses deslumbrados, ele vai se comportar”— ela responde. Aviso na porta que Debs vem com acompanhante para que eles não sejam barrados.

Desde que terminou com Malcolm, Debs está vivendo loucamente. Nunca havíamos ficado solteiras ao mesmo tempo, no final do ensino médio eu namorava e ela estava solteira, antes de entrar na faculdade terminei meu namoro e logo nos primeiros meses de aula ela conheceu Malcolm. Agora, depois de um ano, acho que, novamente, perdi a minha dupla.



—Cadê a sua irmã?— Tony pergunta quando vem ao balcão buscar outra vodca martini pra minha mãe.

—Está chegando. Mas não vem sozinha.— completo quando ele pergunta porque estou emburrada.

—Zoey, a sua vida profissional está incrível, não está?

—O que isso tem a ver com a minha amiga estar atrasada pra algo que combinamos há semanas?— questiono.

—Agora que o profissional está ótimo, você deve se dedicar ao sentimental.— ele me diz —Acho que está na hora de você arrumar alguém…

—Quem vai arrumar alguém?— mamãe chega pra completar a conversa de coach do meu chefedrasto.

—Zoey.— Tony afirma —Babe, não está na hora dela arranjar um namorado?

—Ou namorada.— ela arqueia a sobrancelha.

—Namorada?— Tony parece confuso, é engraçado, me faz lembrar de um dos diálogos que filmamos —Ok, namorada, namorade, alguém…

—Isso não é uma cena do nosso filme, tá?— digo irritada —Aproveitando que o casal 20 saiu da pista, eu vou dançar, e vou levar esse drink comigo.— pego a vodca martini que seria da minha mãe, mas a minha saída triunfal termina quando vejo quem é o date da minha amiga.

Nesse exato momento descubro que não sirvo pra ser uma pessoa pública de Hollywood, uma dessas famosas que se separam e convivem super bem entre si e seus novos relacionamentos. Quero matar a Deborah por estar saindo com Kyle, e ainda ter a audácia de aparecer com ele aqui. Quero socar os dois, mas em vez disso corro para o banheiro.

—Zoey, pelo amor de Deus, não é nada disso que você está pensando abre a porta, por favor?— Debs pede, claro que ela veio atrás de mim —Ele me procurou porque disse que não conseguia falar com você, tenho visto as curtidas dele em todas as suas fotos, ok? Você tá ignorando os directs e as mensagens dele…

—E quem você acha que é pra trazer ele aqui, a porra de um cupido?— abro a porta nervosa.

Kyle e eu namoramos nos três últimos anos do ensino médio, pareceu maduro terminar porque ele estava indo cursar direito em Harvard e eu ficaria na Califórnia, já que havia sido aceita em Berkeley. Tudo o que eu não precisava era deixar que o cara que destroçou meu coração voltasse pra minha vida.

—Não entendi muito bem como Kyle veio parar aqui na companhia da Debs, mas ele está tão lindo.— mamãe diz ao surgir no banheiro —Você quem convidou?

—Não. Ele está sendo a porra de um stalker, que tem a minha melhor amiga como cúmplice.— digo, estou debruçada à pia, e diante do espelho vejo os reflexos da morena e da ruiva atrás de mim, elas sempre foram Team Kyle por isso não contei pra nenhuma delas sobre as mensagens que ele anda mandando.

—Margot não me avisou sobre sua volta, ele vai ficar pra sempre?— mamãe comenta, ela e a mãe do meu ex são relativamente próximas, mas atendendo ao meu pedido o nome dele era impronunciável, até agora.

—Nao sei…

—Sim.— digo sobre a resposta da Debs —Ele me disse que sim…

—Isso é bom, não é? Vocês podem…



—Não quero.— eu a paro —Não vou dar nenhuma chance pra que ele se canse de mim de novo e decida ir pra longe.



(...)

Acordo no dia seguinte com a cabeça doendo como se tivesse bebido demais, antes fosse isso. Deixei o bar assim que tive coragem de sair daquele banheiro, mas não falei com ninguém e vim pra casa chorar. Debs já ligou e enviou um monte de mensagens, dela consigo fugir, mas da minha mãe, não, a menos que eu saia antes dela acordar.

O meu plano de fuga cai por terra quando ao sair do banho dou de cara com Virginia Potts sentada em minha cama, pelo menos ela preparou uma bandeja de café pra me agradar.

—Precisamos conversar.

—Se for sobre Kyle, não precisamos, não.— digo ao abrir meu guarda-roupa, sei que ela não vai sair, então começo a me vestir enquanto ela fala.



—Margot sempre me disse que ele perguntava sobre você, não houve uma única vez esses anos todos, que ao encontrá-la eu não tivesse que falar por horas sobre você.— ela me revela —Claro que ela falava muito dele também, sempre muito orgulhosa, mas eu não podia falar pra você.

—Você podia continuar mantendo o seu segredinho de mães.— digo ao me enfiar num short —O que mudou?

—A gente nunca havia se metido na vida uma da outra quando se trata de relacionamentos, certo?— aquiesci ao sentar na cama diante dela —Quando terminou com Kyle, te consolei, então veio a faculdade, outros meninos, algumas meninas, que só soube porque você se sentia segura pra me contar. Não te julguei, nunca vou te julgar, faculdade é a melhor época pra experimentar, por isso, também nunca fiquei brava com o Kyle por vocês terem terminado. Achei sensato, inclusive.

—Você fala como se todo mundo que entra na faculdade precisasse viver loucamente, o papai…

—Ah, filha, eu não coloco as mãos no fogo pelo seu pai, embora estivéssemos casados, ele estava lá sozinho.— ela revela —E depois que você estava maiorzinna, quando eu fui pra universidade foi um inferno, a desconfiança e o ciúme dele foi tão grande que não terminei meu curso naquela época, acho que seu receio era que eu me comportasse como ele se comportou.

—Estou começando a odiar natais.— revelo ao passar as mãos pelo rosto —Há um ano ouvi a sua conversa com a vovó dizendo o quão tóxico o papai foi quando você lançou seu primeiro livro, agora isso. Odeio ter sido criada numa bolha.

—Você não foi criada numa bolha, só era pequena demais pra perceber e depois que o Charlie se foi não tinha porque eu ficar o vilanizando. E quero que fique claro que não estou fazendo isso agora.— ela diz —Eu não fazia ideia que você tinha ouvido a minha conversa com a Jackie…

—Eu idealizava vocês.— revelo pra ela —Quando Kyle me disse que havia decidido por Harvard fiquei ainda mais furiosa porque, na minha cabeça, poderíamos ser como você e papai, só que sem um bebê.

—Ainda bem que você não cogitou um bebê.— ela sorri aliviada —Você foi e ainda é a melhor coisa da minha vida, não me arrependo, mas…

—Mas eu existir não era garantia do papai ficar pra sempre.— eu disse, ela aquiesceu —E atrasou a sua vida.

—Você nunca foi um empecilho pra mim, eu sabia que poderia ser brilhante, mesmo com um bebê. O problema foi casar cedo demais.— ela informa —Novamente, não culpo seu pai.— ela reitera —Talvez os meus pais, autoritários, religiosos e ideológicos demais, casar foi o jeito “fácil” de me afastar, ainda trato isso na terapia…

—Se seguirmos assim, eu nunca vou conseguir deixar a terapia.— ironizo.

—Isso é bom.— ela diz —Foi conversando com a minha analista que me dei conta de que nós, seu pai e eu, éramos muito jovens, Zoey, uma hora acabaria.— ela revela —Mas se dependesse de mim, seu pai estaria vivo e descobrindo a felicidade ou feliz com outra pessoa, como estou agora.

—Eu quase destruí a sua felicidade.— digo e ela suspira.

—Eu só conheci o Anthony por sua causa, meu amor. Ok, você se meteu.— ela diz —E depois se meteu novamente e hoje estamos bem, então obrigada. Mas se você quer saber, quase o perdi, não por causa de tudo o que aconteceu, mas por medo, de me entregar, me frustrar e sofrer no final. Por mais que a gente se trate, e tenhamos ótimas profissionais com quem falar, o medo do fracasso está ali, rondando. Mas pode acontecer tanta coisa incrível até o final, e às vezes alguém precisa intervir se a gente não tem coragem de arriscar.

—Foi o que fiz por vocês depois daquela confusão toda. E o que a Debs fez por mim.— concluo.

—Sim, e é o que eu vou fazer se você não pegar esse telefone e responder aquele garo… Aquele rapaz.— ela corrige —Vocês não são mais dois adolescentes achado que a vida é um conto de fadas, são adultos, e a minha intuição de mãe sente que vai dar muito certo.

—A sua intuição está louca pra não ter mais que se preocupar comigo, tenho certeza.— eu brinco.



—É aí que se engana, eu sou sua mãe, sempre vou me preocupar com você.— ela se aproxima, me abraça e beija meus cabelos —Mas sim, saber que você estará com alguém que te ama será um alívio quando eu não estiver tão perto.

—Como assim quando você não estiver tão perto?— meu corpo tensiona, saio de seu abraço para encará-la. E então ela me conta sobre o pedido de Tony, a casa e tudo mais —Eu não acredito que você vai casar e está há semanas me escondendo isso?

—Não é um casamento, são duas pessoas maduras que se amam e querem ficar juntas.— ela justifica, me parece um casamento, mas não vou dizer isso a ela —E estávamos esperando as filmagens terminarem.— ela informa —Você acha que esse café da manhã pra te agradar é por causa do Kyle? Ah, por favor.

Eu não podia prever que o meu chefe babaca, na verdade era só um cara, um tanto amargo que nunca havia amado ninguém, até minha mãe aparecer.

—Que loucura vocês dois, hein? Uma vez a Mila colocou pimenta demais no chili e ele ameaçou demiti-la, já você… Um monte de declarações públicas de amor e uma mansão em Laguna Beach.— comento e ela ri.

—Adoro a Mila, mas ela não tem os meus encantos.— mamãe graceja.

—Adoro que Tony Stark tenha encontrado alguém que ame mais do que a ele mesmo.— rio —Ele só não é mais seu fã do que eu. Estou muito, muito, muito feliz, ainda mais depois de saber que papai nunca soube compreender que você é gigante. Que bom que você não desistiu, nem de escrever, nem da faculdade, nem do amor e encontrou alguém que te ama e te apoia.

—Obrigada, meu amor.— ela beija a minha testa —Agora me diz que vai deixar o Kyle se aproximar pra saber o que de fato ele quer.

—Ok, vou conversar com ele.

—Ótimo.— ela sorri pra mim —Mas me prometa que só vai ficar nessa relação, ainda hipotética, se estiver muito claro que não precisará abrir mão de nada, que você tenha ou queira conquistar, por causa dele.

Claro que prometi e que cumprirei a promessa.

Notas finais
Resolvi desenvolver algo mais pra Zoey, porque sim, amo um clichê Gostaram?