A Falsa Princesa e o Dragão Amaldiçoado
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Havia sido alguns dias ocupados para Caelta. Muitos comerciantes estavam de passagem pela vila e sua taberna estava mais movimentada que nunca. Com o excesso de trabalho ela não conseguia encontrar tempo para acompanhar a amiga e tentar colocar algum juízo na cabeça de Madra. Mesmo assim, Caelta continuava preocupada com Madra. Ela sabia que a amiga deveria estar em alguma confusão, mas temia procurar a causa daquilo. Temia até mesmo que o temível dragão tivesse devorado Madra. Mil possibilidades passavam pela cabeça dela antes que ela visse a fonte de suas preocupações passar pela porta da taberna. Em uma demonstração exagerada de afeto, correu até a amiga e a abraçou.
— Pelos deuses, Madra!
— Aconteceu algo, Caelta? — disfarçou enquanto ficava livre do abraço da amiga.
— Nada de importante, apenas a minha amiga que some por dias e nem pensa em me dar nenhuma explicação. Em que você se meteu agora?!
— Acredite em mim, você não vai querer saber.
— Eu me preocupo com você.
— Você pode se preocupar comigo na cozinha. Tem alguma sobra? Eu estou faminta! — reclamou caminhando em direção à cozinha sem esperar por uma resposta.
Caelta seguiu apressada atrás da amiga que rapidamente começou a comer alguns pedaços de pão endurecido enquanto os molhava no resto de um prato de sopa que encontrou sobre a mesa para ficar mais fácil mastigar.
— O que você fez dessa vez, Madra? Você não roubou ninguém, não é? Da última vez você quase terminou com seu pescoço da lâmina de uma espada.
— Não. Dessa vez não fiz mais nada de errado.
— Então você sumiu porque quis?
— É complicado...
— Madra!
— Mas eu estou bem! Eu acho. — acrescentou fracamente.
— Isso não tem haver com aquele cavaleiro que veio aqui, não é? Ele falou algo sobre vir resgatar a tal princesa, mas acabou se apaixonando por uma moradora e dizem que os dois fugiram juntos. Eu pensei por um momento que pudesse ser você.
— Não fui eu, quisera ter sido, mas não.
— Você não vai mesmo me falar, não é?
— Eu prefiro que você não saiba de nada.
— E aquela sua ideia louca? Os pobres homens estão sendo massacrados por aquele dragão!
— Mas não estão sendo mortos. — falou e ganhou um olhar reprovador da amiga. — Tudo bem, podem ficar meio quebrados, mas a maioria sobrevive.
— Você desistiu daquela ideia? As pessoas estão falando que o dragão tem andado mais calmo. Quase não é mais visto sobrevoando por aí.
— Não, aquela ideia está mais viva que nunca.
Caelta suspirou enquanto observava a amiga comendo avidamente qualquer coisa que achasse nas panelas.
— Você não vai mesmo me contar, não é?
— Eu sinto muito, Caelta, mas é para sua segurança.
— Apenas não faça nada que te mate e dê notícias. Esses dias você me deixou muito preocupada.
— Eu prometo aparecer sempre que possível.
***
Larster olhava distraidamente para as suas terras sobre o telhado de seu castelo. Tinha acabado de comer um cervo e se sentia satisfeito e mesmo um pouco sonolento. Bocejou enquanto olhava em direção à pequena Vila. Seu olfato aguçado era capaz de distinguir cheiros novos no ar. Sacudiu a cabeça em desaprovação. Ele queria novamente a vida pacata que levava até ser arrastado para uma confusão a que não pertencia. Um lado dele ainda estava ávido por matar Madra, mas no momento ela era a melhor opção que ele tinha para ser capaz de voltar a ser o que tinha sido um dia. Sem pensar muito, ele levantou a cabeça e rugiu alto em frustração fazendo com que vários pássaros da redondeza voassem assustados para longe daquele barulho.
— Isso não irá dar certo. Eu nunca serei capaz de concluir meus planos se tiver que ficar espantando esses cavaleiros...
Ele olhou novamente e viu a figura conhecida de Madra ao longe. Sem pensar, lançou-se do telhado e voou em direção a ela. Com uma de suas patas frontais a agarrou, sem pousar e voou para dentro do castelo para a colocar no chão e se acomodar confortavelmente deitado no grande salão.
— Eu podia andar com minhas próprias pernas. — Ela protestou ao ser colocada no chão.
— Voar é mais rápido. Pegue o livro para continuarmos.
— Suas vistas não cansam não? Eu estou cansada apenas de olhar para os livros. — reclamou enquanto pegava um grande livro e o abria na frente do dragão.
— Não teste minha paciência hoje. — advertiu enquanto começava a ler.
— Chegaram novos cavaleiros hoje na Vila.
— Eu já sei.
— Há um lá que parece interessante. Talvez devêssemos parar nele.
— Eu apenas me renderei quando achar o que quero nesses livros.
— E quando será isso?
— Se tivermos sorte, logo.
— E se o que procura não estiver aqui?
— Está. Eu já li isso uma vez, mas não consigo me lembrar em qual deles está.
— Pode estar em qualquer um.
— E é por isso que você está aqui. Após acharmos o que eu quero, você poderá escolher o seu príncipe de armadura brilhante ou o que quer que você queira.
— Mas eu gostei desse que vi lá na Vila.
— Pois terá que aprender a gostar de outro. Agora preste atenção no que está fazendo e vire a página.
Madra apenas bufou antes de obedecer. Ela continuou a virar as páginas sem prestar atenção a isso. Pensando no cavaleiro que tinha visto. Ele era tudo o que ela tinha sonhado quando começou com aquele plano maluco. Agora esse sonho estava a apenas algumas horas de ter seus ossos quebrados. Suspirou ao pensar em como aquilo era um desperdício. Não eram todos os cavaleiros e príncipes que eram bonitos e aquele era uma exceção. Estava tão absorta em seus pensamentos que deixou o livro cair no chão quando o dragão soltou um urro.
— Cuidado com o meu livro! — reclamou apontando para o objeto.
— Se você não me assustasse assim, isso não iria cair no chão! — pegou o livro e voltou a abrir novamente na página em que estava. — Qual o motivo desse rosnado agora?
— Achei algo interessante, mas vou precisar de um lagarto vivo.
— Era o que você estava procurando?
— Não, mas é algo que também será útil e é algo que eu não faço já há muito tempo. Anda, vá lá pegar um lagarto para mim, mas não o machuque.
— O quê?
— Eu preciso de um lagarto vivo.
— Eu não vou correr atrás desses bichos e você é mais rápido que eu.
— Mas não sou capaz de capturar um sem machucar ele com as minhas garras.
— Esse não era o acordo...
— Será rápido se você fizer logo. Eles não são as criaturas mais inteligentes e será fácil capturar um. Há muitos na parte de trás do castelo.
— Se eu capturar um, você irá deixar que o meu cavaleiro te derrote?
— Apenas se acharmos o que eu preciso. Ainda há muitos livros para procurar. Vamos lá, se capturar logo o meu lagarto poderemos voltar a isso.
— E se eu me recusar?
— Eu acho que você não será das melhores carnes, mas um dragão com fome pode sempre fazer um pequeno lanche. — ameaçou enquanto tentava um sorriso para mostrar todos os dentes.
— Esse não era o trato... — reclamou, mas colocou o livro aberto delicadamente sobre uma mesa antes de começar a caminhar para fora.
Larster sorriu enquanto seguia ela. Tinha o pressentimento de que aquilo seria divertido.
— Pegue o maior, se conseguir. — falou apontando para um lagarto que descansava tranquilamente sobre uma pedra.
— Como eu irei pegar esse bicho?
— As mãos seriam minha primeira opção, mas como pode ver, tenho garras.
— Também não precisa zombar... Que os deuses me ajudem.
Ela se aproximou do lagarto e tentou pegar o animal, mas ele era muito mais rápido e, com o rápido movimento dela para virar, perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Larster deu um pequeno bufo de riso. Ele sabia que aquilo seria divertido.
— Enganada por um lagarto...
— Faça melhor. Esses bichos são rápidos.
— Pegue um pedaço de pano e fique preparada.
— Preparada para...
Sem dar a chance dela terminar a frase, o grande dragão saltou por cima de Madra e caiu com um estrondo no chão. Rapidamente os lagartos começaram a correr, mas ele fechou suas enormes patas frontais e criou uma espécie de barreira entre um lagarto e a parede. Empurrando o animal para baixo sempre que ele tentava escalar suas garras.
— Rápido, mulher!
Madra rapidamente correu até ele e, mesmo sem o pedaço de pano, foi capaz de agarrar o lagarto. Segurando na base de seu pescoço para imobilizá-lo, mas mesmo assim recebendo alguns arranhões no processo.
— Viu, não foi tão difícil, não é? — Larster zombou.
— Você poderia ter feito isso sozinho. O que faremos com o bicho?
— Leve-o para dentro e o segure bem. Eu preciso ler algumas coisas no meu livro.
Ela obedeceu e logo estavam de volta ao grande salão. Larster caminhou até o livro e gesticulou para ela se aproximar.
— Aconteça o que acontecer, não o solte ou isso não irá dar certo. — advertiu enquanto descansava uma garra delicadamente sobre as costas do lagarto que Madra segurava e começava a murmurar palavras em uma língua que apenas poucas pessoas conheciam.
Madra podia sentir o bicho se agitando antes de ficar estranhamente calmo quando Larster começou a falar aquelas palavras estranhas. Logo o lagarto começou a ficar mais pesado e ela percebeu como o réptil começava a se esticar, crescendo de tamanho e alongando. Ela estava tentada a largá-lo, mas lembrou-se das palavras do dragão e se obrigou a ficar quieta. Logo as patas do animal alcançavam o chão enquanto ele continuava a crescer. Quando finalmente o murmúrio de Larster parou, o lagarto era do tamanho de um cavalo e sua estrutura tinha mudado para uma que mais se assemelhava a um pequeno dragão com garras e espinhos pelo corpo que antes não existiam.
— Você pode soltá-lo agora. — Larster falou um pouco sem fôlego.
— O que você fez?
— Criei um guardião lagarto.
— Você criou outro dragão!
— Ele está mais para um cão. Corpo de dragão, mas inteligência e lealdade de um cão. Ele obedecerá apenas aqueles que estavam presentes na sua transformação, ou seja, você e eu.
Antes que Madra conseguisse formar uma palavra, o cão-lagarto saltou na frente dela e começou a lamber o seu rosto e a abanar sua cauda.
— Tire esse bicho de perto de mim! — protestou.
— Não se preocupe, conosco ele será inofensivo. Aqui, garoto!
O grande lagarto saiu de cima dela e se sentou na frente de Larster enquanto ofegava com a língua para fora babando.
— Eu preferia ele pequeno. — resmungou limpando o rosto na gola do vestido que usava.
— Será mais útil assim, não é Lagarto? — esfregou o focinho sobre a cabeça do lagarto guardião para ganhar ainda mais a confiança do animal.
— Por que ele não te pula em cima?
— Porque eu imponho respeito nele. — falou e se aproximou um pouco mais do animal antes de falar mais algumas palavras na língua estranha.
Madra ficou abismada quando o cão-lagarto começou a andar calmamente para fora.
— O que você disse para ele?
— Apenas pediu para que ele ficasse de guarda e protegesse o castelo contra invasores.
— Ele não irá matá-los, não é?
— Talvez...
— Por favor, não faça isso. Você nunca os matou antes.
— Eu apenas pedi para que ele os afastasse, sem grandes danos. Um comando simples.
— Obrigada.
— Agora de volta ao trabalho. Vamos continuar naquele livro de onde paramos.
Madra obedeceu e voltou a pegar o livro, virando a página sempre ao comando de Larster. O dragão era capaz de ouvir alguns gritos ao longe e um pequeno sorriso apareceu em seus lábios. O guardião estava realizando o trabalho para o qual tinha sido destinado.
O lagarto guardião, longe dali, rosnava e atacava um cavaleiro errante que tentava salvar a princesa inexistente. Ele não era tão eficaz quanto um dragão, mas o animal era capaz de mandar seu inimigo longe com apenas uma rabada e furar a armadura dele com seus dentes e garras. O cavaleiro tentava o espetar, cortar com a espada, mas era ineficaz. Suas escamas eram muito grossas e permitiam uma proteção satisfatória contra a afiada lâmina de uma espada ou lança.
Continua.
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