A Face do Fauno
1 Capítulo 1: A Decisão de Alegrete
Notas iniciais
II - Spoilers do livro "As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa".
Contam essa história de antes da Era de Ouro de Nárnia, onde dois Reis e duas Rainhas reinaram com muita sabedoria. Quando eles chegaram em Nárnia, desconheciam a profecia que dizia serem eles a libertar o reino do “Inverno de Cem Anos”, como ficou conhecido o período de reinado da Feiticeira Branca. Os narnianos de verdade conhecem toda essa história, e sabem do papel importante que um pacato fauno desempenhou nela.
Já estava bem tarde quando a nossa história começa — tarde da noite. Mas ainda havia um pequeno esquilo na escuridão do bosque, por entre a neve que caía, procurando por nozes ou castanhas. Desde que nascera, o esquilo só conhecia aquele inverno. Neve para todo o lado representava comida escassa. Então, assim como aos outros esquilos, passava os dias, até bem tarde, a procurar alimentos. Para ele teria sido o fim de mais um dia comum — frio e sombrio, sem boas notícias, até que avistou dois vultos correndo ao longe. Achou um tanto estranho, afinal de contas, o bosque era bem calmo, mesmo quando a Feiticeira estava próxima. Estreitou os olhos para tentar ver melhor e acreditou ter visto um de seus amigos. Tanto estava certo que correu na direção dos dois misteriosos para saber mais, esquecendo o motivo de estar ali.
Logo que chegou mais perto reconheceu Tumnus, um fauno que era o seu melhor amigo, mas não sabia quem era aquele que o acompanhava. \"Talvez seja um anão de fora\", pensou ele. Notou que os dois estavam ao lado do histórico lampião de Nárnia e se despediam como grandes amigos. Mas como? Não havia um conhecido de Tumnus que o esquilo não conhecesse. Será que o fauno escondia alguma coisa? Resolveu esperar para saber o que era. E quando aquele estranho se afastou do fauno, o esquilo ficou em dúvida. Iria falar com Tumnus ou iria atrás do suposto anão? Olhando na direção do estranho, depois na direção do fauno, resolveu pela primeira opção — falaria com Tumnus. Mas, tão logo ele se resolveu, o fauno desatou a andar apressado. \"Certamente vai para a casa\", pensou o esquilo. E então decidiu pegar um atalho que conhecia para a casa do fauno. Esperaria pelo amigo na porta e saberia o que aconteceu no bosque.
Alguns minutos depois, no meio da escuridão, o fauno já estava de volta na fachada de sua confortável caverna. Já estava com a chave em mãos e levando-a na direção da pequena fechadura quando foi surpreendido com uma visita.
- Tumnus!
- Ahh... — o fauno deu um pequeno pulo, quando se assustou com o esquilo que estava escondido. — Alegrete, é você? Me assustou...
- Também é bom ver você. Escute, Tumnus. Quem era aquele estranho que estava com você agora há pouco?
- Estranho? De que... — enquanto abria a porta, o fauno olhou para o esquilo e viu que não adiantaria mentir para seu melhor amigo. — Está bem. Entre. É uma longa história. Precisamos ser discretos.
O esquilo tentou não dar atenção a essa última frase do fauno e entrou na caverna do amigo. Logo que Tumnus trancou a porta, o esquilo correu e pulou para uma das cadeiras próximas a lareira que tanto gostava. Se sentia muito bem na casa de Tumnus, em verdade. Era bem aconchegante e tranquila. Mas assim que o fauno se sentou na outra cadeira, o esquilo notou o ar de preocupação no rosto do amigo.
- Está tudo bem, Tumnus?
- Sim. Está... — abaixando a cabeça, o fauno pegou um lenço guardado no cachecol e suspirou fundo. — Não. Não está.
Alegrete olhava com atenção. Mas antes de formulasse uma pergunta, o fauno começou a contar o acontecido.
- Aquela “estranha” que você viu... Sim, não era “ele”, mas “ela” — completou o fauno, percebendo o olhar de confusão do esquilo. — era uma filha de Eva.
- Co... como...
- Ela apareceu no bosque do nada. Aconteceu quando eu estava voltando do Beco, com minhas coisas. Estava perto do lampião quando me encontrei com ela. Me assustei no início, porque logo vi que não era de Nárnia. Foi quando ela veio até mim, me ajudando a pegar meus embrulhos e fomos nos conhecendo. Lúcia...
- É o nome dela?
- Sim. — respondeu o fauno com um sorriso alegre e um suspiro abafado.
Tumnus contou com detalhes o que aconteceu com a chegada da menina. Contou do encanto de Lúcia e de como ele resolveu seguir as ordens da Feiticeira quando viu que a menina era uma filha de Eva. Contou também de como mudou de idéia e ajudou a menina a ir embora. Alegrete ouviu tudo com atenção, tentando deixar as perguntas e comentários para depois. Sabia que o amigo precisava de atenção.
- E o que fez você mudar de idéia?
- Não sei bem. Acho que usei todas as minhas lembranças boas quando toquei aquela música para enfeitiçá-la, mas acabou que percebi o quanto errado estava sendo.
- Isso é remorso – emendou o esquilo.
- Pode ser. — disse o fauno pensativo – Mas você não vai acreditar em como aconteceu.
- Conte-me então.
- Enquanto estava tocando, eu vi Aslam em uma imagem feita no fogo.
- Tem certeza disso?
- Sim, tenho. Era para apenas aparecer aquelas brincadeiras que eu faço sempre, mas Ele também apareceu. Eu vi.
- Você deveria estar bastante perturbado, não?
- Não, não estava. Estou certo que era Aslam, porque depois eu chorei muito. Sabia que Ele não iria gostar disso.
Tumnus contou mais sobre o acontecido e depois contou mais um pouco sobre Lucia, tudo o que ela contou sobre si mesma. O esquilo não pôde deixar de notar as coincidências da história.
- Tumnus, sabe o que isso significa? A profecia.
- Também pensei nisso. Mas não acredito. Ela é só uma criança. Além do mais, ela estava sozinha. Não havia os outros três.
- Mas eles podem vir também.
- Duvido muito. Ela fala que um deles implica muito com ela.
- Implica? Como assim?
- Que ele está sempre complicando a vida dela. Fica fazendo brincadeiras de mal gosto, essas coisas. Me contou até umas coisas que aconteceram com ela em... Como chama mesmo... Englaterra. Acho que é isso.
- Englaterra?
- É o país de onde ela veio.
O esquilo guardou esse nome porque sabia que havia escutado algo parecido de algum lugar. Deixou para pensar nisso depois. Por enquanto se preocupava em dar atenção ao fauno, que continuou contando com uma certa ternura tudo o que sabia da menina. Os dois demoraram horas naquela conversa, mesmo sem ligar para o quanto tarde já era. Quando Tumnus terminou de contar, começou a chorar novamente. Já estava triste demais, e Alegrete se penalizou da situação do amigo.
- Escute, Tumnus. Isso não pode ter sido apenas uma coincidência. Eu acredito na profecia. Você também acredita, oras.
- Sim... mas... — o fauno esfregou o nariz com o lenço dado por Lucia. — Não acredito que sejam eles. Sempre acreditamos que os dois filhos de Adão e as duas filhas de Eva fossem guerreiros, sabe? Que viessem com espadas e arcos e nos libertariam da Feiticeira Branca.
- E porque não podem ser eles?
- Porque são crianças.
- Você só conheceu uma delas.
- O suficiente para acreditar que ela não pode ser um deles.
- E ser for? Sabe o quanto mal você poderia ter feito se a entregasse para a Feiticeira? — perguntou o esquilo, mas o fauno apenas balançou a cabeça dizendo que sim, engolindo em seco o que não teve coragem de responder com palavras.
- Tumnus, sabemos que a Feiticeira tem poderes que nós não podemos vencer. Mas com os filhos de Adão tudo será diferente.
- Alegrete, não.
- Não? Porque Tumnus? Acha que Aslam apareceu na sua lareira à tôa? É um aviso. Acho que ele vai aparecer logo.
O fauno levantou os olhos encarando o pequeno esquilo, como tentando compreender as palavras do amigo. Alegrete olhou a pequena janela e ainda via muita escuridão. Resolveu que era o momento de ir embora para a árvore onde morava.
- Preciso ir.
- Mas está tarde... e... fica comigo. Dorme aqui. Preciso de companhia esta noite. Estou com medo de ficar sozinho.
O esquilo entendeu a tristeza do amigo, e resolveu ficar. Tumnus preparou uma pequena cama em uma das cadeiras na sala com uma coberta e um pequeno travesseiro para o conforto do esquilo. De certa forma, o esquilo sabia que estava fazendo algo bom, permanecendo naquela noite para companhia de Tumnus, que foi para seu quarto ainda chorando abafadamente. Mas enquanto não tinha sono, o esquilo olhava a lareira, ainda com poucas chamas, e estava pensando nas coisas que Tumnus contou. Sabia que na manhã seguinte precisaria convencer Tumnus a contar aos outros sobre a filha de Eva que apareceu, porque o fauno não contaria por si só. Sabia que o fauno não poderia tomar essa decisão sozinho. Isso era uma decisão importante, que iria mudar o rumo das coisas em Nárnia.
Notas finais
Espero que gostem da história.
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