A Face Oculta Da Lua
8 Uma Conversa Franca
Notas iniciais
Uma claridade estúpida atravessava teimosamente a fina cortina que protegia a janela, chegando até os olhos de Alice com tamanha intensidade. Não eram exatamente raios de sol, mas sim o reflexo de toda a neve branca que cobria todo e qualquer espaço do lado de fora.
Ela levantou as pálpebras preguiçosamente assim que se deu conta de que não poderia mais ignorar a luminosidade alta, tapando os olhos com a mão assim que aquela luz branca os fez arder. A hippie franziu a testa ao ver que sua posição estava invertida em relação à cama. Seus pés ocupavam o espaço em que sua cabeça deveria estar – junto aos travesseiros – enquanto a sua cabeça sentia apenas a maciez do colchão do lado oposto.
_ O sonho deve ter... – parou de falar quando não conseguiu conter um enorme bocejo que fez a sua mandíbula se abrir ao máximo – ... sido bom... – concluiu, sentindo uma satisfação boba ao alongar-se ainda em cima da cama, como se apenas isso fosse capaz de renovar as suas forças tão esgotadas ultimamente.
Encarou o seu relógio de pulso apenas por curiosidade, mas os números não pareciam fazer o menor sentido enquanto os fitava. Até que os olhos de Alice se arregalaram ao finalmente conseguir traduzir a posição dos ponteiros.
_ Seis e meia? – sua voz saiu rouca e surpresa – Eu fiquei quase um dia inteiro dormindo? É hoje que aquele ninja me suicida... – resmungou exageradamente, sem muita coragem de sair da cama.
Soltou um gemido baixo antes de resolver levantar... sabia que não conseguiria pegar no sono novamente com aquele estranho e forte reflexo esbranquiçado invadindo o seu quarto, até mesmo porque Ducard a mataria se soubesse que ela tinha dormido tanto. Talvez ele estivesse ocupado demais para ter notado...
Não havia qualquer sinal de Baguera no quarto... pelo jeito a gata parecia bem à vontade passeando pela Liga, e isso arrancou o primeiro sorriso do dia de Alice. Pelo menos alguém parecia sentir-se em casa.
Olhou com nojo para a túnica molhada pelo suor e com alguns vestígios de sangue que ainda a vestia, e sem nem precisar se dar ao trabalho de pensar no que fazer com ela, tirou-a do corpo e jogou no lixo antes de entrar embaixo do chuveiro.
Procurou não passar muito tempo no banho, embora quisesse profundamente gastar a segunda metade do dia apenas sentindo a água quente escorrer pelo seu corpo sem qualquer pressa, mas duvidava muito de que o bom humor de Ducard permitisse mais um atraso seu...
Saiu apressada de dentro do box, escorregando algumas vezes em seus próprios pés molhados enquanto praguejava alguns resmungos incoerentes. Foi em direção ao armário em seu quarto e fitou pela centésima vez o espaço interno do guarda roupa, esforçando-se para encontrar algo discreto.
_ Talvez essa aqui me dê sorte hoje – revirou os olhos, decidindo-se pela túnica roxa e verde e repetindo a mesma sapatilha do dia anterior.
Seu estômago reclamou alto enquanto Alice caminhava apressada para fora do quarto, avisando-a mais uma vez o quanto ele estava vazio e ligeiramente faminto.
Encarou o relógio em seu pulso mais uma vez enquanto fechava a porta num estalo alto e apressado... Seis e cinquenta e oito. A hippie ainda não conhecia muito bem os costumes da Liga das Sombras, mas aqueles ninjas deviam se reunir em algum lugar para as refeições, isso era certo... Alice já estava perigosamente atrasada, se atrasar mais um pouco para comer não parecia algo tão ruim! Afinal, de qualquer forma a bronca seria inevitável, então que pelo menos ela enfrentasse a raiva de Ducard com a barriga cheia.
_ Você acordou... – um homem carrancudo, que a hippie simplesmente não fazia ideia da onde saiu, comentou casualmente, tão sério quanto era possível – Finalmente! – bufou, demonstrando um estoque nulo de paciência.
A hippie sentiu o corpo inteiro enrijecer com o susto da repentina aparição daquele homem, e soube no mesmo instante que seu rosto adquiriu um tom pálido patético. Aquele parecia ser o preço a se pagar por conviver com ninjas altamente treinados enquanto você mesma não passava de um zero à esquerda: ser constantemente surpreendida de uma forma não muito agradável...
O ninja vestia uma túnica clara, que destacava ainda mais sua pele morena pelo simples contraste de tons. O cabelo extremamente preto caía um pouco acima de seus ombros em forma de pequenos cachos apertados e despenteados. Os olhos castanhos eram uma versão mais escura de sua pele, emoldurados por grossas sobrancelhas que lhe davam um ar ainda mais sério e rígido, também sobressaído pela barba curta e tão negra quanto o seu cabelo.
_ Quequéisso! – arfou, levando a mão ao peito como se pudesse abafar o volume escandaloso de seu coração – Vocês fizeram algum tipo de aposta entre os ninjas para ver quem consegue me matar de susto primeiro? – perguntou, irritada pela sua própria paranoia que sempre a deixava tão susceptível a sobressaltos.
O homem ao seu lado pareceu resmungar alguma coisa parecia com “Tão fraca...”, mas Alice achou melhor não perguntar, e apenas esperou que ele esclarecesse por que começou a segui-la tão subitamente, mas como o silêncio se prolongou, ela mesma o cortou.
_ Quem é você, afinal? E mais, por que você estava escondido na porta do meu quarto? – arqueou uma única sobrancelha.
_ Eu não lhe devo qualquer satisfação, garota! – respondeu mal educado, apressando o passo – Apenas me siga.
_ Seguir um completo estranho que mais parece um psicopata com intenções homicidas? Nem pensar, eu já passei dessa fase! – parou de andar, cruzando os braços de forma birrenta sobre o peito – Se pelo menos você tivesse uma cicatriz no rosto e pintasse o cabelo de verde, quem sabe... – ponderou, entortando os lábios e franzindo o cenho, como se pensar fosse um enorme esforço.
_ Eu não gosto de você! – o ninja virou-se de forma brusca na direção de Alice, aproximando o seu rosto do dela de forma ameaçadora – Não gosto do modo como despreza nossos costumes e muito menos da sua infantilidade ao lidar com assuntos sérios.
_ Hum... é um prazer conhecê-lo também...
_ Não faço a menor ideia do que o Ra’s Al Ghul viu em você – continuou sua enxurrada de acusações, como se Alice sequer tivesse se manifestado –, mas infelizmente ele viu alguma coisa, e agora todos nós estamos fadados a aturar sua presença inútil aqui dentro, roubando-nos um tempo que podia ser melhor aproveitado, mas que ao invés disso acaba sendo desperdiçado com você.
_ Sabe, eu costumo ficar envergonhada quando me elogiam tanto assim... – avisou, dando alguns passos para trás enquanto o homem ainda insistia em se aproximar com um dedo acusador apontando para o rosto da hippie.
_ E eu não vou aturar ser o alvo de suas infâmias que só você acha graça – o rosto do ninja estava escarlate, e seus olhos praticamente pulavam para fora de suas órbitas, de tão saltados que estavam – Para o nosso recíproco azar, o Ra’s Al Ghul ordenou que eu a conduzisse até a Ala Sudoeste da Liga quando você acordasse, então vamos tornar isso o menos insuportável possível para nós dois, porque infelizmente eu não posso desobedecer a uma ordem direta de meu Mestre, então apenas me siga em silêncio!
_ Silêncio... claro, eu sou completamente capaz disso – bufou, sentindo seus lábios tremerem conforme o ar passava rápido por eles, como se o pedido do ninja fosse um tanto ridículo por ser desnecessário.
_ Ótimo – o homem disse parecendo satisfeito pela primeira vez desde a sua aparição, virando de costas para Alice e começando a mostrar o caminho. Ela o seguiu.
_ Porque afinal, não é nenhum desafio ficar em silêncio! Basta manter a boca fechada e nada sairá dela... – concluiu brilhantemente – Nenhum som, nenhum mísero sussurro. Como é dito naquele velho e sábio ditado: “Em boca fechada, espeto de pau” – franziu a testa – talvez não seja exatamente com essas palavras, mas a essência é a mesma.
O ninja mantinha os pulsos bem fechados, como se pudesse descontar toda a sua raiva em si mesmo ao sentir suas unhas aparadas pressionando dolorosamente a palma da própria mão. Permaneceu quieto, temendo que, se falasse, acabaria perdendo o controle.
_ E também é fácil evitar qualquer tipo de pensamento que possa ser verbalizado – Alice continuou tagarelando, sem se importar com a veia perigosamente saltada no pescoço do ninja que apenas caminhava à sua frente – Eu suspeito até mesmo de que poderia ficar meses sem falar uma única palavra – gabou-se – nem mesmo um sussurro, sabe, o meu autocontrole é realmente incrível! Eu tenho absoluta certeza de que nem o ninja mais bem treinado daqui consegue ser tão contido quanto eu nesse ponto! Agora, por exemplo, você deve estar pasmo pela forma tão eficaz com que eu consigo me controlar e...
_ Chega! – interrompeu-a – Apenas caminhe. Não é algo difícil, nem mesmo para você.
_ Pois é, era justamente o que eu estava dizendo! – assentiu – Não é nenhum desafio ficar quieta, é algo até natural para mim, se você quer saber – fez uma pausa, soltando um riso abafado – Sabe, teve uma vez que...
_ Não me interessa! – o ninja interrompeu-a de forma brusca, deixando claro que Alice já havia ultrapassado há muito tempo o seu limiar de tolerância – O que você quer para calar essa maldita boca enquanto eu tiver que aturá-la?
_ Como assim? Eu fiquei quieta o caminho todo! – protestou, mas logo balançou negativamente a cabeça ao ver o olhar fatal que o ninja lançou em sua direção – Homens... – reclamou – Tudo bem, você pode começar me dizendo o seu nome. Eu adoraria saber o nome do cara mais simpático que já conheci – sorriu.
_ Se eu falar qual é o meu nome você cala a boca? – rendeu-se, aceitando a negociação.
_ Oh, com certeza, senhor ninja! – levou os dois indicadores até a boca, cruzados perpendicularmente entre si e beijando-os assim que eles alcançaram a altura de seus lábios, selando assim a sua promessa.
_ Sayid – respondeu secamente.
_ Árabe? – Alice semicerrou os olhos, arriscando o palpite. Ela traduziu a ausência de resposta como uma confirmação silenciosa – Na boa, a Liga das Sombras mais parece uma sede da ONU com toda essa variedade de nacionalidade concentrada num único lugar – riu baixinho com a comparação – Aposto que você é amargo desse jeito porque seus pais eram homens-bombas, acertei? – seus olhos brilharam de expectativa com a teoria recém-criada.
_ Calada, lembra? – rugiu, sempre com o mesmo tom azedo e impaciente.
_ Ah, é, tudo bem... – concordou, e os dois continuaram caminhando envoltos por um silêncio constrangedor, até que Alice começou a cantarolar desafinadamente alguns tons agudos de uma melodia qualquer, e no mesmo instante as feições irritadas do ninja reapareceram, ainda mais potentes.
_ Só pode estar brincando comigo – Sayid disse em mais um rosnado, como se aquele tom ameaçador pudesse realmente intimidar alguém... talvez desse certo com aquelas pessoas que possuíssem um mínimo de sanidade, mas a hippie definitivamente não se encaixava nesse quadro.
_ Eu só tenho mais uma pergunta, depois eu juro que fico quieta.
_ Hum... – soltou mais um de seus resmungos, e Alice interpretou aquilo como uma rendição por parte do homem.
_ Só quero saber para onde Vossa Simpatia está me levando – disse inocentemente.
_ Você vai saber quando chegar – encarou-a de canto de olho, com um sorriso enviesado.
_ Mas aí você vai ter que manter uma conversa civilizada comigo durante o caminho inteiro, porque eu não vou sossegar enquanto não souber para onde eu estou indo, e pode acreditar em mim, eu fico um demônio quando não satisfazem a minha curiosidade e quando fico muito tempo sem chocolate! E no caso em questão, para o seu azar, essas duas coisas estão coincidindo, por isso a minha crise de ansiedade me faz falar que nem uma louca e eu duvido que você queira isso...
_ O refeitório – ele a interrompeu com sua resposta curta e grossa, passando a mão pelo cabelo em um sinal claro de impaciência, naquelas mesmas feições carrancudas – o Ra’s Al Ghul ordenou que eu a conduzisse até o refeitório assim que você acordasse, enquanto o jantar ainda está sendo servido – explicou, aumentando a velocidade de seus passos, como se estivesse ansioso para se livrar daquela tarefa.
_ Jura? – a hippie sentiu a confusão evidente em seu rosto – Quer dizer que o Barbicha me deixou dormir por todo esse tempo e ainda vai me dar a mordomia de uma refeição antes do treino?
_ Insolente! – Sayid arfou, exasperado – Como ousa se referir ao Ra’s Al Ghul nesses termos? Você não tem o menor respeito pelos nossos costumes e por aquilo que eles representam, devia voltar para o lugar de onde veio ao invés de envergonhar as nossas tradições com a sua presença!
_ Me poupe do Segundo Round, ok? – revirou os olhos – Já chega de elogios por hoje, ou então eu vou acabar me acostumando mal com tanta gentileza em uma pessoa só! E eu não gosto de me gambar...
_ Ao menos honre a sua palavra e mantenha-se quieta pelo resto do caminho!
_ Mas que absurdo! Eu me comportei muito bem durante o percurso inteiro, como se atreve a colocar a minha credibilidade em dúvida? Se eu disse que ficaria em silêncio, então eu fiquei em silêncio! – disse, indignada – E você ainda vai arder no mármore do inferno se continuar caluniando as pessoas assim...
_ Você é louca... – o ninja balançou lentamente a cabeça, como se achasse difícil acreditar no desequilíbrio daquela mulher.
_ Espere mais algumas semanas de abstinência pelo meu chocolate e você vai desejar nunca ter me conhecido! – berrou, sem saber exatamente o que a irritava – E insolente é a senhora sua avó-bomba!
_ Acredite, garota, eu não preciso de semanas extras para desejar nunca ter te conhecido – bufou, praguejando mentalmente por Ducard ter designado justamente ele para aquele serviço aborrecedor.
_ Ridículo... – riu – Eu já estou cheia de ser apontada por vocês e de ser obrigada a aturar olhares hostis por onde quer que eu passe! E mais ainda de sentir que os meus motivos para estar aqui são ridicularizados por cada um de vocês – exaltou-se – Pode me achar fútil e atrevida, Senhor Fodão, mas não pense que pode me julgar sem saber nada ao meu respeito – parou de andar, tendo que levantar a cabeça para conseguir encarar o ninja – E faça um favor para nós dois: me diga aonde fica esse maldito refeitório que eu mesma vou sozinha até lá!
_ Você está gritando no meio dele – avisou, dando um sorriso irônico ao notar a expressão desconcertada de Alice fitando o enorme refeitório e todos os olhares curiosos dos ninjas que encaravam a discussão. Alguns até mantinham a colher a meio caminho da boca, parecendo nem notar a própria comida.
Maravilha! Mais um motivo para que aqueles ninjas estúpidos apontassem para ela enquanto cochichavam a seu respeito...
_ Ah... – pigarreou, parecendo finalmente voltar a si – Bom trabalho, Miss Simpatia! – deu as costas para Sayid, procurando por um lugar vazio no meio daquela pequena multidão que acompanhava os seus passos apenas com o olhar.
O rosto de Alice estava vermelho, ainda enfurecido pela discussão. A hippie sentia-se completamente farta e sem a menor paciência para aturar aquele tipo de comportamento invasivo e agressivo que ela percebia em praticamente todos os membros da Liga ao redor de sua presença. Parecia que sempre existiria alguém para fazer pouco caso de suas decisões ou mostrá-la o quanto ela era inútil e incapaz ali dentro.
Não deixaria que ninguém a fizesse se sentir assim de novo, não permitiria que aqueles ninjas arrogantes conseguissem o seu objetivo de fazê-la desistir! Ela precisava ser capaz disso... falhar não era uma opção, simplesmente porque falhar a reduziria à mesma pessoa fraca que ela sempre desconfiou que era, ainda mais depois de suas experiências passadas em Gotham.
Alice ocupou o primeiro lugar vazio que viu em uma das várias mesas compridas, servindo-se de um generoso copo com água e do conteúdo ainda quente dentro da panela. Sopa de novo, que ótimo! Bufou para si mesma, despejando raivosamente duas conchas do líquido grosso em seu prato, ignorando completamente aqueles que ocupavam o lugar ao seu lado. Teria que ensinar umas receitas novas para Tony antes de deixar a Liga...
_ Seu comportamento aqui dentro é simplesmente inaceitável – a voz feminina e dura ao lado de Alice a fez encarar sua dona, incrédula. Parecia ser um daqueles dias em que a hippie não devia ter levantado da cama!
_ Não é possível, eu colei chiclete embaixo da mesa da Santa Ceia! – resmungou, enfiando uma colherada na boca. Talia parecia tão incomodada com a presença de Alice ao seu lado quanto a hippie com a presença da filha de Ducard.
_ Esse lugar definitivamente não é para você... – Talia continuou, mexendo distraidamente sua colher em seu prato quase vazio. Sua voz parecia forçadamente suave, como se apenas desse um conselho amigável para Alice – Você não tem as qualidades adequadas para concluir o treinamento, pode apostar. Eu reconheço um incapaz quando vejo.
_ Você não tem se olhado muito no espelho ultimamente, não é? – virou o rosto, encarando-a com pouca paciência – Porque se tem alguém incapaz aqui, eu garanto que esse alguém não sou eu – diminuiu o volume de sua voz ao continuar falando – Pensa que eu acreditei naquele seu teatrinho ridículo quando seu pai e eu chegamos? Eu sei que você está tramando alguma coisa, puTalia, então nem se dê ao trabalho de tentar me derrubar jogando a minha auto estima lá embaixo – avisou, tomando mais um gole da sopa quente – Essa tática é velha, e há um bom tempo não funciona mais comigo!
A mulher estreitou os olhos de um jeito ameaçador, usando o mesmo tom baixo para respondê-la.
_ Cuidado aonde pisa, Alice! Você está andando em um terreno perigoso, pode acabar tropeçando em seus próprios pés se continuar por esse caminho – deu um sorriso falsamente simpático, levantando-se da mesa e sumindo de vista a passos apressados.
_ Sebosa... – a hippie fez uma careta na direção de Talia, voltando a sua atenção para o prato.
_ PuTalia? – um homem que ocupava o outro lado à mesa perguntou, rindo baixo.
_ Xinguei mesmo, e daí? Ficou ofendidinho por ela? – perguntou, grossa – Já vou avisando, não estou com o menor saco pra ouvir mais críticas por hoje, então se não for falar nada de útil melhor nem começar.
_ Mau dia? – ele pareceu não se abalar em nada com o tom ofensivo de Alice – Eu sei como é isso, não é muito fácil ser um novato aqui dentro... mas não se preocupe, com o tempo melhora! – sorriu, e Alice notou que o lábio inferior do homem parecia um tanto inchado – Steve – ele apresentou-se, estendendo a mão para um cumprimento.
A hippie olhou por um momento para aquele braço suspenso no ar ainda esperando pela sua resposta, e suspirou, envergonhada por ter insultado o homem de graça, o único que foi gentil com ela naquele dia que já parecia ter um enorme potencial para ser nada menos do que conturbado.
_ Alice – cumprimentou-o com o aperto de mão esperado e com um meio sorriso – deixa eu ver se adivinho: você é russo?
_ Errou feio – sorriu – Se ao menos o meu nome terminasse com “Ówisky”... – brincou.
_ O cabelo ruivo e as sardas me deram uma falsa pista – explicou-se, retribuindo ao sorriso – mas e então, de que parte inóspita do planeta você é? – perguntou, gostando de finalmente manter uma conversa saudável com alguém.
_ Ohio... – levou uma colherada à boca depois de responder.
_ Você é americano? – franziu a testa, surpresa – Como é possível que Ducard consiga recrutar pessoas de todas as partes do mundo?
_ O Ra’s Al Ghul é uma espécie de caça-talentos, e muito eficiente por sinal... Ele sempre viaja em busca de novos alunos quando julga necessário, mas no meu caso, eu vim até a Liga – contou.
_ Por quê? Ohio é tão ruim assim?
_ Na verdade é, mas isso não vem ao caso – riu – Meus pais eram iniciados na Liga, mas quando a minha mãe engravidou, eles decidiram... se aposentar para me criar. Depois de alguns anos eu descobri o que eles realmente faziam, e eu resolvi seguir os mesmos passos – deu de ombros.
_ Não me leve a mal, mas você não parece muito com um ninja – Alice franziu as sobrancelhas, encarando o físico extremamente magro e frágil de Steve. Seu rosto pálido e doente era ofuscado por óculos de armaduras grossas e escuras, óculos grandes demais para aquele rosto tão fino, o que parecia deixá-lo ainda mais raquítico. O corte fundo e parcialmente cicatrizado sobre os seus lábios avermelhados deixava o seu rosto ainda mais chamativo em meio aos traços incomuns que atraíam a atenção para si, numa comparação injusta com todas as feições endurecidas e robustas dos ninjas.
Ele riu.
_ De fato, eu não sou um ninja – virou o corpo sutilmente para o lado, de forma a encará-la melhor, apoiando o cotovelo direito em cima da mesa – Mas a Liga das Sombras não pode sobreviver apenas com o auxílio dos músculos de quem faz o trabalho braçal – explicou – Eu cuido do faturamento, da burocracia da Liga. Sou uma espécie de contador particular – disse, ajeitando os óculos para mais perto dos olhos azuis.
_ Que tipo de burocracia pode haver em uma instituição secreta?
_ Muitas, acredite! – levantou as sobrancelhas ruivas, como que para comprovar suas palavras – Mas você não deixa de ter razão... por se tratar de uma instituição secreta, essa burocracia não é para os outros, é para o nosso próprio controle – Alice tomou mais um pouco da sopa, ouvindo atentamente às palavras de Steve – Qualquer estabelecimento precisa de planejamento e controle para sobreviver, e eu cuido disso, basicamente.
_ É como se a Liga fosse uma espécie de crime organizado – refletiu – não parece existir diferença alguma entre as duas – comentou, encarando um ponto fixo qualquer como se refletisse sobre o assunto.
_ Existe apenas uma... Uma única diferença que por si só é capaz de formar um abismo entre a Liga das Sombras e o crime organizado – fez uma pequena pausa para produzir um suspense, dando um sorriso torto causado pela falta de simetria de seu lábio inferior mais grosso na região do corte – A diferença é que a Liga combate o crime organizado.
_ É, parece relevante considerar isso – assentiu – É bom encontrar alguém normal por aqui, além de mim, é claro – soltou o ar num riso baixo – eu até me sinto em casa agora, conversando com o nerd rejeitado pelo bando e que... apanha dos fortões? – apertou os olhos, referindo-se ao machucado em sua boca.
_ Ah, isto... – levou um dedo com cuidado até o lábio inchado – Não foi nada. Pode não parecer, mas o meu trabalho também é perigoso! Alto risco – piscou, fazendo a hippie rir e encerrando o assunto de forma sutil e educada.
_ Alto risco... sei... – deu um meio sorriso antes de tomar sua água em um único gole.

Alice sentia a neve sobre seus pés, mas o frio não chegava a incomodá-la. Sabia que bastariam alguns poucos minutos de treino com Ducard para a temperatura de seu corpo se elevar de um segundo a outro. O ninja a encarava com uma expressão serena, já segurando as espadas. Aqueles olhos tranquilos intrigaram a hippie.
_ Você não vai me dar um sermão? – finalmente deixou a pergunta escapar, com um sorriso confuso tomando conta de seu rosto.
_ Como? – Ducard perguntou, parecendo não compreender ao que Alice se referia, mas a hippie já o conhecia bem o suficiente para saber que o ninja estava se fazendo de desentendido.
_ Eu dormi mais do que o Garfield depois de se entupir de Lasanha, eu sei que estou encrencada – acusou-se, tentando desvendar o que havia por trás do bom-humor atípico de Ducard.
O ninja apenas sorriu.
_ Eu julguei prudente deixá-la descansar o quanto fosse necessário para que você se recuperasse – disse calmamente, arrancando uma expressão chocada e descrente de sua aluna – Eu quero ver até aonde o seu potencial pode chegar quando você está em suas perfeitas condições – explicou –, quero ver do que você realmente é capaz!
_ Vai por mim, a minha capacidade continua se resumindo apenas a ser cortada por você, estando descansada ou não... – resmungou, insatisfeita.
Ducard entortou seus lábios em um sorriso desafiador, e em resposta Alice estreitou os olhos em uma linha fina, aceitando a provocação com um arrepio de ansiedade. Tirou uma das espadas das mãos do ninja, e logo reproduziu a posição que podia tanto dar início a um ataque quanto a uma defesa. O ninja ampliou o sorriso, satisfeito ao ver a fina lâmina suspensa no ar diagonalmente pela sua aluna.
_ Cai dentro, Barba-Grisalha! – provocou-o.
Ducard saltou agilmente na direção da aluna, despejando total força àquele movimento assim que sua espada ficou próxima o suficiente de seu alvo. Ela respondeu bem ao golpe, parando a espada do ninja a quinze centímetros de seu rosto em um som agudo provocado pelo tilintar das lâminas.
Alice era obrigada a admitir, estava começando a gostar muito daquilo!
_ Me fale mais sobre as suas visões – Ducard pediu, antes de remanejar seus golpes.
_ Visões? E por acaso eu tenho cara de Raven?
_ As alucinações que o Gás do Medo produziu – explicou, revirando os olhos – Eu quero os detalhes.
A hippie se livrou da pressão que o ninja exercia em sua espada, segurando o cabo de sua própria arma com maior firmeza e determinação, sem se importar com o esforço que infligia às articulações de seus dedos ao fazê-lo.
_ Acho que não é uma boa hora para conversas – rebateu, concentrando-se em arriscar um ataque ousado pelo flanco do ninja. Girou o corpo cortando o ar em um círculo aberto, numa tentativa de golpear a lateral de suas costelas. Ducard apenas posicionou a arma no ponto do impacto, sem qualquer esforço em evitar o choque com a espada. Ele girou o punho, fazendo o braço de Alice acompanhar aquele movimento até quase deslocar o ombro da hippie. Antes que Alice pudesse se dar conta, estava com os braços imobilizados atrás das costas e com uma lâmina encostada logo abaixo de seu queixo.
_ Eu já perdi a conta de quantas vezes poderia ter te matado – o ninja riu zombeteiramente perto do ouvido da aluna, afrouxando de leve o aperto na garganta da hippie quando voltou a falar – E agora é uma ótima hora para conversas... – afastou-se dela, deixando que a ponta de sua espada deslizasse por cima da camada de neve enquanto andava.
_ O que você quer saber? – rendeu-se, irritada, massageando o pescoço e segurando a arma com ainda mais força, sem nem ao menos notar o esforço do gesto. Ela recompôs sua posição defensiva, tendo plena consciência de que Ducard não abriria mão do treino enquanto aquela conversa ainda durasse.
_ Quais foram as diferenças entre as alucinações e o que de fato aconteceu no dia em que seu filho morreu? – ajeitou o cabo da espada um pouco mais confortavelmente em sua mão, ansioso pela resposta. Como Alice esperava, ele logo investiu contra ela em um golpe pouco elaborado, mas ao mesmo tempo preciso.
_ Nenhuma – engoliu em seco, recuando e defendendo-se desajeitadamente da investida –, só que tudo aconteceu da perspectiva certa.
_ Como assim? – incentivou-a, mantendo sua atenção perfeitamente dividida entre a luta e a conversa, enquanto a hippie parecia completamente incapaz de realizar o mesmo feito – O que exatamente seria a perspectiva certa e a errada?
_ A forma como tudo aconteceu, sei lá... as verdades que eu tive que ouvir, o modo como meu filho acabou morrendo de novo, por minhas próprias mãos. Foi uma visão bem mais realista do que aquilo que de fato aconteceu no galpão – tentou explicar em meio aos ataques sem trégua do ninja, mas nem ela mesma parecia ver sentido no que dizia – A questão é que toda a minha culpa foi jogada em cima de mim naquelas ilusões – arfou, já sentindo a respiração irregular por fazer aquele esforço sobrenatural de tentar falar com coerência e ao mesmo tempo se defender dos movimentos sempre ágeis do ninja.
_ Isso porque você acredita que é culpada pela morte do menino – falou, com uma voz levemente interessada e calma – é apenas uma questão de ponto de vista, aonde você pode escolher se quer conviver com o sentimento de culpa ou não.
Ducard mirou um golpe perpendicular à barriga de Alice com o ápice da espada, num movimento tão acelerado que qualquer segundo de hesitação por parte da aluna poderia fazê-la ficar com a lâmina atravessada em seu corpo. Ela pulou para o lado e aparou o golpe com a própria arma, obrigando o braço de Ducard a se desviar do alvo, porém não foi rápida o suficiente... A lateral cortante e bem afiada da espada do ninja acertou dolorosamente a cintura da hippie, arrancando-lhe um rugido de dor. Sua mão desocupada foi em direção ao corte, tentando conter o sangue que já escorria e despistar o latejar incômodo. O corte não chegava a ser profundo, mas também estava longe de ser considerado superficial. Precisaria de um curativo para estancar o sangramento.
_ Mas eu sou a culpada, não posso simplesmente ignorar isso – retrucou, fazendo o possível para ficar inconsciente ao formigamento doloroso e manter-se firme às abordagens do ninja.
_ Sim, você é a culpada – concordou – Você confiou a vida do seu filho a um psicopata que não quer nada além de ver o circo pegar fogo, e não foi capaz de fazer coisa alguma para evitar que um policial mentalmente perturbado tirasse a vida daquele que você mais amava...
_ Eu sei de tudo isso – interrompeu-o, impaciente –, e não preciso que ninguém me lembre! – avisou.
_ Eu ainda não acabei! – disse, ríspido – A questão é que nada pode mudar o que aconteceu, o passado não pode ser alterado, apenas remoído ou superado – enterrou aproximadamente um décimo da espada no gelo, encarando Alice de forma intensa – Cabe apenas a você agora decidir se vale a pena passar o resto de sua vida se culpando por algo que jamais terá conserto, ou tirar proveito de seus erros e aprender com eles. Conviver com o passado é muito mais lógico do que tentar enfrentá-lo! – apontou o indicador em direção ao rosto entristecido da aluna, desenterrando novamente a espada.
_ Ainda não acabou? – fitou desanimada Ducard ajeitar o corpo em uma nova posição de ataque.
_ Nem chegou perto! – sorriu, sem qualquer vestígio de cansaço na voz perfeitamente controlada.
Algumas horas mais tarde e Alice já era dona de mais alguns arranhões e roxos, mas mesmo assim sentia-se satisfeita consigo mesma. Não estava nem perto de se comparar à habilidade de Ducard no manejo da espada ou em qualquer outro tipo de luta, mas somente o fato de conseguir evitar parte de seus golpes a motivava.
Ele era realmente um grande mentor... fazia muito bem para a hippie passar aquele tempo em sua companhia, mesmo que esse tempo se convertesse a cortes e sangue, porque alguma coisa em Ducard era suficientemente persuasiva para que Alice sempre quisesse ultrapassar seus próprios limites, se superar, se moldar aos ensinamentos do ninja. E jamais decepcioná-lo por ser incompetente.
Ela sentiu-se muito mais leve depois do treino de hoje, seu coração se acalmou com as acusações de Ducard, por mais insano que isso pudesse parecer à opinião alheia.
Todos sempre haviam tentado convencer Alice de que ela não era culpada pela morte de Krusty, que tudo não passou de um terrível acidente... ninguém nunca foi leal o suficiente para lhe dizer as verdades que ela precisava ouvir, apenas tentavam excluir a culpa de si e convencê-la a esquecer o passado. Mas ela jamais poderia esquecer, e isso ninguém parecia ser capaz de entender.
Porque não existia qualquer meio de superar o passado sem aceitá-lo primeiro, agora Alice podia ver isso claramente. Tudo o que fez até então foi rejeitar e evitar a verdade por ser dolorosa demais, porém a hippie nunca havia se dado conta que tal fuga da realidade só a deixava mais propensa à dor, por ser imposta ao inaceitável diariamente.
Mas admitir o fracasso e principalmente permiti-lo, era infinitamente mais consolador do que sentir-se na obrigação de alterá-lo de alguma forma...
Ducard caminhava ao lado de Alice, mostrando-lhe o caminho até a enfermaria e parecendo completamente alheio à gratidão silenciosa que a hippie sentia por ele naquele momento. Ela deu um sorriso discreto e sincero, apertando um pouco mais o corte sangrento na lateral dolorida de seu corpo apenas por reflexo, pois parecia um pouco alheia ao desconforto da ferida.
Silenciosamente, o ninja abriu uma porta e logo o local se iluminou completamente quando os dois entraram ali, sem qualquer intervenção de nenhum deles para explicar a claridade repentina. Talvez as lâmpadas fossem ativadas por sensores de movimento, porque em lugar algum da Liga Alice via interruptores, exceto em seu próprio quarto. A luz excessivamente amarelada do recinto revelou uma miniatura de farmácia provida dos mais diversos remédios nas várias prateleiras.
_ Você precisa de ajuda com os curativos? – Ducard perguntou, pegando linha, agulhas esterilizadas e um pouco de gaze.
_ Acho que eu posso me virar sozinha... – respondeu sorrindo – Afinal, a maior ambição da minha vida é costurar a mim mesma – rolou os olhos, num sarcasmo divertido – Eu só preciso de um pouco de algodão, álcool e morfina – arriscou, tentando parecer convicta e persuasiva.
_ O álcool e o algodão estão naquelas prateleiras de cima – apontou para o lugar indicado, logo atrás da hippie – Quanto à morfina, eu nem vou me dar ao trabalho de responder... – levantou uma sobrancelha, já com metade de seu corpo sendo ocultado pela porta.
_ Bom, não custava tentar, né... – deu de ombros, já separando todo o material que precisaria para aquele curativo. Ducard deu um riso abafado, deixando apenas um pedaço de seu rosto à mostra por um pequeno vão entre a porta e o batente. Antes que o ninja pudesse sair, Alice chamou a sua atenção, fazendo-o voltar – Ducard... nós vamos... quer dizer, eu vou... você sabe, ter mais uma daquelas sessões com o Gás do Medo? – perguntou, esperando pelo pior.
_ Hoje não – disse, fazendo o alívio percorrer o corpo da aluna – Pode ser perigoso submetê-la a uma dose diária do Gás do Medo, por isso a continuação dessa parte do treino terá que ocorrer a intervalos mais espaçados – avisou.
_ Então... eu estou liberada por hoje? – arriscou, sem esconder a satisfação.
_ Por hoje sim – assentiu, parecendo divertir-se com o alívio no rosto da aluna. Mais uma vez todo o seu corpo e parte do seu rosto foram ocultados pela porta, e logo Alice já podia ouvir os passos de Ducard se distanciando corredor afora, deixando Alice completamente sozinha na pequena e bem provida farmácia.
Ela levantou a túnica na altura do corte e encharcou um pedaço generoso de algodão no álcool, passando-o o mais suavemente possível pelo corte feio. Um gemido escapou de seus lábios levemente abertos ao ser submetida àquela ardência provocada pelo contato do álcool com o ferimento. Usou mais quatro tufos de algodão para limpar o excesso de sangue das proximidades do corte, e logo se preparou para o pior.
Alice levou alguns segundos extras para conseguir passar a linha escura no buraco da agulha, praguejando brevemente por causa do tremor inconveniente em seus dedos que atrasava o inevitável. Nesse pequeno meio tempo, mais sangue já havia escorrido da lateral de sua cintura, mas a hippie ignorou o novo sangramento e ateve-se apenas à costura. Encostou a ponta afiada da agulha logo abaixo do corte, respirando fundo.
_ Cara, isso vai doer! – disse, como se verbalizar aquela verdade pudesse diminuir a dor de algum modo – Então tá, no três eu começo! – fez um trato consigo mesma e começou a contar, demorando-se exageradamente em cada sílaba – Um... Dois... – hesitou – Dois e um quarto... Dois e meio... Dois e três quartos... Ah, merda! Três... – disse rápido, transpassando de uma vez a agulha por sua pele – E eu nem posso dizer: “Isso vai doer mais em mim do que em você...” – resmungou, mantendo constante o ritmo da agulha entre seus dedos, unindo a carne que se separava por entre todo aquele sangue.
Conforme a linha escura – e agora avermelhada pelo sangue – fundia novamente o rasgo na cintura de Alice, a hippie fazia uma careta e apertava ao máximo o nó que segurava a ferida, tentando deixá-lo o mais resistente possível aos movimentos que se seguiriam aos próximos treinos.
Assim que terminou de dar os pontos, limpou mais uma vez o sangue que já havia se acumulado novamente ali e protegeu o corte prendendo um pouco de gaze por toda a sua extensão.
_ Beleza! – arfou – Quem é a hippie foda? – sorriu, abaixando a túnica mais uma vez rasgada e embebida com o seu próprio sangue e indo para fora daquele ambiente enfermo.
~*~*~*~
O céu já estava completamente coberto pelo negro denso da noite, mas Alice não sentia o menor sono ou vontade de dormir. Ignorou o caminho até o seu quarto e saiu da Liga, fechando os olhos ao apreciar o ar gelado que tocou o seu rosto com um sopro delicado. Sorriu, sentindo-se melhor do que nunca, mais livre do que nunca.
Chutou a neve enquanto se afastava do enorme e elegante prédio, dominada por um arrepio que nem de longe era por culpa do frio. Era... alívio! Como se um enorme fardo finalmente deixasse seus ombros.
Não que o assassinato de seu filho tivesse perdido o impacto para ela, Alice sabia que em momento algum de sua vida seria capaz de superar completamente o ocorrido, mas algo parecia mudar dentro dela... era como finalmente permitir o recomeço tão esperado dentro de si.
A hippie sentou-se sobre a neve, alisando brevemente a túnica, como se ela fosse um lençol protetor, e deitando naquela cama branca, macia e gelada. Pousou os braços confortavelmente em cima da barriga e assim ficou, admirando o céu brilhante sem nenhuma nuvem.
Sua pele, apesar de branca, parecia infinitamente mais morena com o mero contraste do bege de seu corpo com a neve excessivamente alva. Um de seus braços escorregou até o chão, deixando que seus dedos deslizassem desenhos incongruentes sobre o gelo que se derretia parcialmente ao seu toque.
_ É um pouco tarde para observar estrelas, não acha? – Nureen disse, ocupando um dos espaços ao lado da hippie e encarando-a com aquele seu sorriso sempre gentil.
_ Vocês ninjas sempre têm essa mania de aparecer quando a gente menos espera? – riu – Custa pelo menos tossir pra dar uma dica da aproximação?
_ É um hábito que acabamos adquirindo... sempre sorrateiros e invisíveis – explicou, deitando-se também e encarando as incontáveis estrelas acima deles, como se os pontos brilhantes dessem o recado do quanto eles eram insignificantes em sua pequenez.
_ Um hábito assustador, por sinal... – complementou, virando o rosto na direção do ninja.
_ Você se acostuma! – piscou para ela, ainda sorrindo.
Eles desviaram novamente o olhar na direção do céu, que mais parecia um enorme tapete negro encrustado de pequenos diamantes cintilantes por todos os lados, teimosos à escuridão que engolfava tudo à sua volta.
A Lua ocupava exatamente o centro do céu, e sua luz imponente se estendia até os dois halos fortes que a circundavam majestosamente, como se ensinasse às estrelas à sua volta o jeito certo de brilhar.
_ Problemas para dormir? – Nureen cortou o silêncio.
_ RÁ, você não me conhece, colega! – debochou, rindo – No dia em que eu tiver problemas para dormir o Papa vai doar todo o ouro do Vaticano para os pobres – disse, fazendo o ninja rir – Na verdade eu só queria um tempo para pensar, e essa paisagem realmente me pareceu o cenário perfeito...
_ Bom, deve ser um assunto importante para não poder esperar até a luz do dia – concluiu, ajeitando-se sobre a neve.
_ Importantes, corrosivos, sei lá... ou talvez sejam só os fantasmas do meu passado voltando para me assombrar mais um pouco.
_ É engraçada a forma como você se prende ao que já passou, ao que não pode ser mudado – riu – É tão mais simples deixar para trás o que ficou para trás...
_ Deveria ser pelo menos, mas algumas lembranças são marcantes demais...
_ Mas não passam de memórias – retrucou, fixando sua atenção em uma estrela que brilhava mais forte – Não devemos gastar nosso tempo com aquilo que está fora de controle como o passado e o futuro. Essa é uma das coisas que aprendemos por aqui – avisou – Nós descobrimos que o ontem se resume apenas a lembranças, que o amanhã esconde o incerto, mas o hoje... – fez uma pausa, fitando o rosto curioso de Alice – O hoje é uma dádiva, por isso se chama presente!
A hippie sorriu para o ninja com o trocadilho bem feito, e naquele instante Nureen se distraiu diante do intenso par de bolas negras que o fitava, refletindo o brilho de várias estrelas acima deles. Era como se um pedaço do próprio céu estivesse dentro dos olhos de Alice naquela combinação tão díspar entre o escuro e o cintilante.
"I'm not afraid of anything in this world
There's nothing you can throw at me that I haven't already heard
I'm just trying to find a decent melody
A song that I can sing in my own company
I never thought you were a fool
But darling, look at you
You gotta stand up straight, carry your own weight
These tears are going nowhere, baby
You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and now you can't get out of it
Don't say that later will be better now you're stuck in a moment
And you can't get out of it
I will not forsake, the colours that you bring
But the nights you filled with fireworks
They left you with nothing
I am still enchanted by the light you brought to me
I still listen through your ears, and through your eyes I can see
And you are such a fool
To worry like you do
I know it's tough, and you can never get enough
Of what you don't really need now... my oh my
You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and now you can't get out of it
Oh love look at you now
You've got yourself stuck in a moment and now you can't get out of it
I was unconscious, half asleep
The water is warm till you discover how deep...
I wasn't jumping... for me it was a fall
It's a long way down to nothing at all
You've got to get yourself together
You've got stuck in a moment and now you can't get out of it
Don't say that later will be better now
You're stuck in a moment and you can't get out of it
And if the night runs over
And if the day won't last
And if our way should falter
Along the stony pass
And if the night runs over
And if the day won't last
And if your way should falter
Along the stony pass
It's just a moment
This time will pass"
Stuck In A Moment You Can't Get Out Of — U2*
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