A Face Oculta Da Lua

5 Quem É Morto Sempre Aparece!


Notas iniciais
Ana Luisa e Júlia, suas lindas mais lindas de todas as lindas! =D Obrigada pelas recomendações incríveis, vocês não têm noção do bem que fizeram ao coração dessa boba aqui! rsrs Vocês nem podem imaginar a minha cara quando eu abri o Nyah e vi as duas recomendações! :O Ainda estou em choque... heheheheh Espero que vocês continuem gostando desse "trem" aqui, e que eu possa continuar merecendo essas recomendações com o desenrolar da história! ;D

Ninguém se moveu por segundos que pareceram intermináveis, quase incontáveis. Até mesmo Alice era capaz de sentir a tensão que fazia com que todos ali segurassem a respiração sem nem ao menos se dar conta da falta de ar em seus pulmões por aquele tempo indeterminado.

Talia foi a primeira a recompor sua expressão cética, demostrando o mesmo autocontrole característico do pai. Ela deu um largo sorriso radiante, pondo-se de pé de forma graciosa e ágil. Movimentos suaves típicos de uma verdadeira ninja.

– Meu pai! – exclamou, com a voz engasgada pela emoção, indo ao encontro de Ducard com os braços extremamente abertos – o senhor está vivo! – concluiu, apertando-o em um abraço que não foi correspondido. Foram necessários apenas alguns poucos instantes de rejeição para que Talia desfizesse o contato, encarando-o com olhos marejados e incrédulos – o que houve?

– Eu estava prestes a lhe fazer a mesma pergunta – sorriu de um modo pouco amigável, mas falso o suficiente para passar essa impressão – Mas vamos esquecer as conversas fúteis e nos ater ao que de fato interessa! – propôs – Por exemplo, a razão de você ter espalhado a notícia falsa da minha morte pela Liga... – disse, como se apenas sugerisse debater sobre aquele assunto – Interessada em ocupar um lugar que, por direito, não é seu? – arriscou, ainda com aquele sorriso contraditório no rosto.

– Como? – a mulher de coque alto perguntou, parecendo confusa, mas logo a sua expressão se encheu de entendimento. E com a compreensão, veio a perplexidade – Não! – arregalou os olhos, tão azuis quanto os de Ducard – como o senhor pode pensar isso, meu pai? – uma lágrima desceu lenta pelo seu rosto enquanto ainda o encarava, parecendo não entender as acusações camufladas em seu tom quase gentil – tudo indicava que Batman havia matado o senhor naquela noite em Gotham...

– Engraçado como você se persuadiu disso tão rapidamente, não é mesmo, Talia? – riu, dando passos em volta do corpo da filha enquanto ainda desenvolvia o seu raciocínio impecável – parece-me muito conveniente que você se desse por convencida tão rápido da minha suposta morte, e no dia seguinte ocupasse o meu lugar na Liga das Sombras – refletiu, terminando de falar no mesmo instante em que voltou a encarar a mulher de expressões vacilantes.

– Isso vai ser melhor do que eu pensei... – Alice sussurrou na direção de Nureen, ainda ao seu lado, também observando a cena atentamente.

– Eu não tive escolha! – defendeu-se, exaltada – Batman estava caçando todos os membros da Liga envolvidos com o atentado em Gotham, eu precisava agir antes que a situação acabasse saindo do controle!

– Louvável! – Ducard sorriu novamente, parecendo não se abalar nem um pouco com os argumentos da filha – uma atitude muito nobre de sua parte, mas ainda existe um furo difícil de entender nessa sua versão... – fez uma pausa antes de continuar, deixando o sorriso morrer em seu rosto, dando lugar a uma linha apertada e endurecida – depois que a ameaça se foi, por que você não voltou para Gotham, por que não buscou por notícias minhas?

– Responde essa agora, otária! – Alice deixou escapar, alto demais, fazendo com que todos parassem para encará-la, e de repente as feições de Talia não pareciam mais tão amigáveis – Ehh... tudo bem, Maria do Bairro? – acenou.

– Talia! – Nureen a corrigiu pelo canto dos lábios num sussuro, parecendo confuso.

– Vai por mim, Nureen, tanto faz! – Alice cochichou de volta para o ninja, voltando sua atenção para o rosto enfurecido da filha de Ducard – sinto muito ter interrompido a reunião de família... – sorriu numa falsidade descarada, programada para ser irritante – podem voltar a discutir e, por favor, finjam que eu não estou aqui! – cruzou os braços, esperando pela retomada do acerto de contas.

– Quem é essa garota? – Talia perguntou com desprezo.

– Essa garota é aquela com coragem o suficiente para fazer aquilo que você deveria ter feito há muito tempo! – Ducard rosnou, e Alice o encarou completamente surpresa por ele defendê-la daquele modo... jamais esperaria uma demonstração de gratidão tão direta vinda de alguém como aquele ninja durão e teimoso – Ela é a responsável por me libertar da prisão, enquanto você permaneceu escondida às sombras da Liga usufruindo de um posto que não lhe pertence!

Talia umedeceu os lábios, com uma expressão constrangida pelas palavras duras do seu pai. Ela virou o rosto na direção da hippie, parecendo um cachorrinho com o rabo entre as patas.

– Muito obrigada por trazer o meu pai de volta, querida – sorriu de forma contida – É um enorme prazer conhecê-la e poder recebê-la aqui!

– De nada, querida! – imitou o tratamento tosco com desprezo, apertando os olhos – e o prazer é todo seu! – retribuiu ao sorriso, ampliando os seus lábios da forma mais simpática e dissimulada que o deleite daquele momento lhe permitiu – mas de forma alguma eu quero fazer parte dessa discussão familiar, melhor não deixar o seu pai esperando pela resposta que você ainda não deu, certo? – riu – então chega dessa viadagem e diz logo: Por que você não voltou para resgatar o seu Velho? – reproduziu a pergunta de Ducard à sua maneira, atenta a qualquer reação da filha do ninja, e parecendo tão ansiosa pela resposta quanto o próprio Ducard.

Talia voltou sua atenção para o rosto aparentemente imparcial de seu pai, que ainda esperava por aquela explicação. Ela suspirou pesadamente antes de responder.

– Eu não voltei simplesmente porque nem cheguei a cogitar a hipótese de que o senhor ainda pudesse estar vivo – passou a mão pelo próprio rosto, cansada daquelas acusações. Sua mão pousou-se em seu pescoço alvo, como se tentasse dispersar a tensão fazendo uma massagem em si mesma – eu jamais o abandonaria se soubesse que ainda havia qualquer esperança de trazê-lo de volta! – novas lágrimas desceram de seus olhos aflitos.

– Então eu devo supor que, se tudo realmente não passou de um lamentável mal entendido, não haverá qualquer empecilho que a impeça de devolver o título de Ra’s Al Ghul para mim, não é mesmo, filha? – disse de forma afável, mas de longe era possível ver o Xeque Mate naquelas palavras.

– Não... mas é claro que não! – falou bem mais rápido do que gostaria, ainda ereta demais para alguém confortável com aquela conversa – eu só tentei fazer o melhor para todos da Liga ocupando o seu lugar, mas nunca foi a minha intenção tirá-lo do senhor.

– Por que você parece tão atormentada, Talia? – Ducard questionou, ainda mesclando gentileza à hostilidade, de uma forma que tornava impossível saber qual era o verdadeiro sentimento – se você realmente não sabia que eu estava vivo, não tem nada a temer – comentou, quase maldosamente.

– Não é o temor que move a minha aflição, pai, mas as suas desconfianças – disse, desviando o olhar do rosto de Ducard para o chão, e pareceu que ela ainda chorava silenciosamente.

– Não se trata daquilo que você diz, mas daquilo que você faz para conquistar a confiança, e as suas ações nunca me inspiraram a acreditar nas suas intenções – retrucou, num tom um pouco mais paternal, como se apenas a aconselhasse.

– Espero que o senhor ainda mude de ideia ao meu respeito...

– Isso depende apenas de você, Talia! – replicou, parecendo pouco convencido da tristeza de sua filha, e ao mesmo tempo dando um fim àquela conversa – Nureen, acompanhe Alice até o aposento mais alto da Ala Norte, e lhe arranje roupas apropriadas para esse frio montanhoso.

– O aposento da Ala Norte, senhor? – Nureen pareceu desconcertado com a ordem, como se não a tivesse ouvido direito – mas este quarto era...

– Eu sei muito bem o que estou fazendo – Ducard o interrompeu, desconsiderando todas as expressões meio confusas que o fitavam – Não questione minhas ordens, apenas leve-a para lá.

– Sim, Ra’s Al Ghul! – o ninja usou o título com uma satisfação visível, fazendo Talia estreitar os olhos e morder a ponta da língua com a ira de ver o seu posto passado para outra pessoa, sem poder fazer nada. Alice e Nureen se distanciaram, até que Talia os perdeu de vista.

– Os outros podem retomar os seus respectivos postos e cuidar das próprias vidas – disse aos olhos curiosos dos ninjas que ainda fitavam a cena, entorpecidos. Assim que a ordem foi dada, eles se retiraram aos poucos, até que sobraram apenas Ducard e Talia ainda se encarando – foi bom vê-la de novo, filha – Ducard disse, saindo numa direção contrária ao que os outros faziam, provavelmente a caminho de seu quarto.

Talia praguejou baixinho assim que se viu sozinha, caminhando pensativa até uma enorme varanda com vista para as várias montanhas do lado de fora. Fechou as portas de vidro ao entrar e apoiou os cotovelos nas pilastras simples, aspirando com força o ar gelado, sentindo a baixa temperatura revigorante esfriar o seu corpo. Sempre foi amante do inverno. O frio sempre lhe deu a impressão de organizar seus pensamentos, de colocá-los no seu devido lugar quando tudo parecia querer bagunçá-los de vez. Os ninjas eram perfeitamente capazes de entender e apreciar os efeitos que a natureza podiam proporcionar, e esse foi um conceito que Talia absorveu muito bem. Assim como aprendeu que a paciência daqueles que sabem esperar é sempre recompensada com o sucesso... E Talia sabia esperar pelas coisas que ela queria!

Um homem grande e musculoso ocupou um dos espaços livres ao lado da mulher, fitando sua expressão serena com atenção e interesse. Ela mantinha os olhos fechados, como se pudesse saborear melhor a calmaria daquele silêncio que ela mesma quebrou.

– Você sabe o que precisa fazer agora, Bane! – disse, ainda envolvida pela escuridão de suas pálpebras abaixadas, sentindo um ar gelado tocar-lhe o rosto.

– E quanto à garota nova? – sua voz, assim como sua respiração, saiu sibilada por conta da máscara de metal que prendia fortemente a porção central de seu rosto atrás da cabeça – Você acha que ela pode ser um problema?

– Esqueça a garota – bufou, abrindo os olhos com irritação – ela não passa disso: uma garota! – passou a encará-lo com urgência – Agora, mais do que nunca, você precisa manter-se anônimo na Liga. Ninguém deve saber que você está aqui, muito menos o meu pai! – avisou – Então continue longe dos olhos de todos... cada deslize, por menor que seja, pode acabar de vez com os nossos objetivos. Todo o cuidado agora será pouco.

– Qual é a dessa impostora afinal? – a hippie sacudiu teatralmente os braços, tentando demonstrar toda a sua indignação – ela acha mesmo que alguém foi imbecil o suficiente para acreditar naquelas lágrimas falsas e naquela historinha ridícula de “Eu só estava esquentando o trono pra você, papai!”?

– Cuidado com o que diz, Alice! – Nureen a advertiu, parecendo cauteloso, como se as paredes realmente pudessem ouvi-los – Apesar de tudo, Talia ainda é filha de Ducard e ainda possui poder aqui dentro, já você é só uma novata. Para o seu próprio bem, não a irrite – aconselhou.

– Desde quando você se importa com o meu bem-estar? – levantou as sobrancelhas, desafiando-o – Há alguns minutos você estava rasgando o meu pescoço como se brincasse de açougueiro – dramatizou –, e agora me dá conselhos como se fosse um irmão mais velho...

– Eu só a ameacei por uma questão de segurança para a Liga das Sombras, por não saber se você representava uma ameaça... não foi nada pessoal, eu até gostei de você. Mas aqui dentro, todos nós nos consideramos membros de uma família, e agora você faz parte dela, então sim, você pode pensar em mim como um tipo de irmão mais velho.

– Você nem me conhece... – contestou, sem saber exatamente por que estava fazendo aquilo – como pode me considerar parte disso se nem sabe quais são as minhas intenções por aqui? E se na verdade eu estiver espionando a rotina de vocês para achar pontos fracos e usá-los contra a Liga depois? – questionou-o, com um sorriso divertido no rosto.

– O Ra’s Al Ghul deposita muita confiança em você, e isso já basta para mim – explicou, como se aquele argumento por si só encerrasse o assunto.

– E por que vocês têm essa adoração pela figura do Ducard? – perguntou, realmente curiosa, lembrando-se da veneração que tingia suas feições ao ficar de frente com o homem que ele pensava há muito tempo estar morto.

– Ele acreditou em mim quando nem eu mesmo conseguia confiar em meu próprio julgamento. E foi assim com praticamente todos os membros da Liga – sorriu, talvez ao recordar-se de alguma lembrança distante que parecia gravada nitidamente em sua mente – eu não era nada além de um batedor de carteiras sem objetivos, e uma pessoa sem propósitos na vida é uma pessoa digna de pena! Ducard foi o homem que me fez encontrar razões para justificar os meus atos, e eu serei sempre grato a ele por fazer com que eu me descobrisse dentro de mim de novo. Porque às vezes nós nos sentimos presos em um caminho sem volta, mas na verdade só precisamos que alguém nos estenda a mão e nos aponte as opções...

– Que romântico! – brincou, tentando camuflar o choque que sentiu ao perceber o quanto havia se identificado com tudo aquilo. O quanto ela também sentia necessidade de uma mão estendida para se reencontrar – eu posso ser a madrinha do casório? – perguntou com cara de inocente, arrancando uma risada baixa e rouca do ninja – Uau! Vocês têm permissão para rir? Agora eu realmente fiquei surpresa... – disse, acompanhando Nureen em sua risada agradável.

– Esse será o seu novo quarto – avisou, parando diante de uma porta escurecida de madeira, simples, porém linda, assim como tudo ali. O ninja girou a maçaneta, escancarando a porta para que Alice passasse, e assim que ela entrou, Nureen fechou a porta atrás de si.

O quarto era simples, pouco elaborado na sua decoração, mas não haveria beleza material que não fosse ofuscada por aquela vista incrível através da porta envidraçada, que dava para uma varanda. Uma pequena cama de casal estava encostada à parede com lençóis claros que a cobriam impecavelmente. Outra porta dava entrada para um banheiro, e um armário feito da mesma madeira escurecida embutia-se ao concreto bege.

– Por que você pareceu surpreso quando Ducard ordenou que me trouxesse para esse aposento? – Alice franziu o cenho – por acaso esse não é um quarto assombrado por algum ninja defunto que se recusa a seguir a luz, né?

– Quase... – riu – na verdade, eu fiquei surpreso simplesmente porque este era o antigo quarto de Ducard – contou, parecendo indiferente àquela informação agora, parecendo já ter superado a surpresa e a curiosidade de saber os motivos que levaram o seu Mestre a ceder o quarto para a hippie – e eu imaginei que ele o quisesse de volta, porque é o melhor aposento da Liga. Não é luxuoso, mas é um dos únicos com banheiro particular...

– Então eu vou dormir no quarto do ex-falecido? – a hippie estranhou aquela informação – e por que a filha dele não ficou com o quarto quando assumiu a liderança? Não é um tipo de tradição que o novo líder se aposse de tudo o que foi deixado pelo anterior?

– Na verdade não. Nós temos algumas superstições aqui dentro, ou manias excêntricas, chame como preferir – sorriu no meio da explicação – o quarto, assim como as armas e os demais pertences do último Ra’s Al Ghul, deve se manter intocável pelo período de uma geração, até que o próximo líder que ficou em seu lugar também já tenha morrido. Somente após esse processo de luto, seus pertences podem ser reaproveitados e o luto se volta para a morte do líder mais recente. É como um ciclo que nunca termina, e que pela primeira vez foi quebrado pela volta daquele que nós acreditávamos que já tinha partido.

– Então é a primeira vez em séculos que vocês não se focam na perda de algum líder?

– Basicamente sim... – concordou com um meio sorriso.

– E como você se sente sem precisar fingir que se importa com o luto? – perguntou rindo.

– Aliviado, mas não por ter que fingir que me importava. Aliviado por ter o verdadeiro Ra’s Al Ghul de volta, ocupando o lugar ao qual jamais deveria ter deixado – fez uma pausa, encarando Alice com interesse por um breve momento – Bom, você encontrará roupas limpas, cobertores, toalhas e tudo do gênero nesse armário – deu um tapa suave na madeira, fazendo-a ranger brevemente – qualquer coisa que precisar, basta dizer – prontificou-se, já se retirando do aposento.

– Você parece ser um bom homem, Nureen – a hippie disse, surpreendendo-o com aquele comentário, e fazendo com que ele refizesse alguns passos para mais perto de Alice – É bom ver que o treinamento imposto pela Liga das Sombras não destrói aquilo que você realmente é... – deu um sorriso aliviado por ver que tinha uma chance de continuar sendo ela mesma após todas as dificuldades prometidas.

– Sim, você tem razão – o ninja assentiu, sorrindo de volta de um jeito fraterno – o treinamento não destrói aquilo que você é, mas fortalece! – piscou, voltando-se novamente em direção à saída. A porta se fechou, deixando apenas Alice e Baguera no quarto.

– Obrigada... – agradeceu tardiamente, encarando o lugar por onde o ninja desapareceu.

A gata saltou preguiçosamente em direção à cama, aconchegando-se ao travesseiro macio, parecendo adormecer instantaneamente. Alice sorriu para ela, passando de leve o dedo indicador por cima de seu focinho gelado e úmido, tomando cuidado para não despertá-la. Baguera realmente merecia um descanso e uma bela refeição depois de passar pelas loucuras das últimas horas.

A hippie sentou-se ao seu lado, reparando por um momento na esplêndida vista da varanda com portas de vidro. Aquela paisagem era estonteante, era capaz de mostrar o quanto ela e os seus problemas pareciam pequenos diante da grandiosidade de todas aquelas montanhas. Era estranho pensar que Alice estava mais perto do céu do que jamais esteve antes, em cima daquele pico gelado, mas ao mesmo tempo nunca se sentiu tão próxima do inferno.

Abaixou a cabeça com pesar, sem entender realmente por que, de um segundo a outro, começou a experimentar aquela sensação depressiva e sufocante... tirou a rosa branca de dentro do bolso do sobretudo, analisando as pétalas já meio amassadas, porém ainda aveludadas e lindas... tão lindas quanto o gesto do homem de deixá-la ali, de mostrar que se importava quando ela mesma parecia não ligar mais para si mesma.

Pousou a flor diagonalmente sobre um pequeno criado mudo retangular posicionado na lateral da cama, também encostado à parede. Sua mão retornou ao bolso interno do casaco, tirando de lá a carta coringa. Alice passou a mão sobre a carta, sentindo a aspereza de alguns grãos de terra que ainda estavam impregnados ali, e que logo caíram em seu colo e no chão.

A hippie virou a carta algumas vezes entre seus dedos, distraindo-se com o intercalar da imagem do bobo da corte e do breve recado deixado ali por Coringa. Até que ela fez a besteira de olhar o recado com mais atenção. Antes não o tivesse feito! Tudo o que estava escrito era “Au revoir, Docinho!”, mas Alice acabou mergulhando naquelas palavras bem mais profundamente do que gostaria, imaginando o momento em que Coringa as escreveu, imaginando se ele mesmo teria ido até o seu túmulo e enterrado a carta ali.

Mas o pior foi tentar decifrar que tipo de emoção se traduzia no meio daquela grafia apertada. Será que Coringa escreveu aquilo com pesar, com remorso, com qualquer sentimento que fosse? Ou o mais provável, como um meio de fazer uma última piada às custas da hippie... talvez houvesse frustração naquele conjunto de letras, por não ter sido ele o responsável direto por causar a sua morte.

A cabeça de Alice foi para trás bruscamente, parando o movimento apenas quando encontrou a parede como apoio atrás de si. Olhou novamente para a paisagem montanhosa e esbranquiçada pela neve, deixando que a consciência da enorme distância que a separava de sua antiga vida recaísse sobre o seu entendimento. Gotham, a cidade ensolarada e muitas vezes chuvosa, agora estava do outro lado do mundo, abrigando todas as pessoas que a hippie queria desesperadamente manter por perto, mas que ficavam cada vez mais longe à medida que Alice dava continuidade ao seu plano.

É engraçado como a mente humana é capaz de se tornar a sua pior inimiga nas horas em que mais precisamos de conforto, jogando-nos verdades inconvenientes impossíveis de serem digeridas ou ignoradas... Alice estava morta para as pessoas que mais amava, e continuaria assim para sempre. Ela seria apenas uma lembrança na memória dessas mesmas pessoas, uma lembrança que seria superada a cada dia, e que simplesmente acabaria sumindo em alguma manhã qualquer, podendo aparecer esporadicamente por breves momentos de nostalgia que logo seriam apagados, ou substituídos por pensamentos mais relevantes. Contudo, essas pessoas estariam sempre vivas para Alice, sempre presentes em cada pensamento diário. Lembranças pulsantes, que seriam cada vez mais fortalecidas pela própria imagem daqueles que ela amava, apenas por serem elas as responsáveis por dar coragem à Alice naquele plano louco em que ela mesma se colocou.

Parecia um castigo cruel por tudo de errado que ela fez... ser apagada, aos poucos, da vida de todos, enquanto ela se manteria sempre ligada a eles, não importava o rumo que sua vida acabasse tomando, eles estariam gravados em Alice, sempre. Cada sorriso, cada pequena expressão reveladora, cada olhar, cada piada infame, cada desapontamento, cada beijo... cada conjunto de emoções! Todas aquelas sensações sempre a assombrariam, sempre caminhariam ao seu lado independente de sua vontade.

A hippie abraçou as pernas, encaixando a cabeça no vão formado entre os seus joelhos, sentindo que ela já havia conseguido ir muito além do fundo do poço. E como não chorar? Como ser capaz de sufocar o fardo maior do que seus ombros?

Seu peito tremia violentamente, intercalado a soluços intensos e lágrimas grossas e volumosas – que encharcavam a ponta do casaco que ainda a cobria. Ela apenas entregou-se à tristeza das verdades que ela tanto quis evitar, se permitindo extravasar como há muito tempo não fazia. Apertou com mais força aquele abraço que dava em si mesma, tendo plena consciência de que chorava feito uma criança, sem qualquer controle de seus soluços e tremores.

Sua garganta já ardia, mas parecia impossível parar. Ela finalmente estava deixando escapar a dor de meses, que há tanto tempo ficou presa querendo sair, mas que Alice não deixou, talvez como um meio pouco eficaz de tentar provar a si mesma que ela era forte. Uma tentativa falha, que por algum tempo funcionou, mas que agora reduzia a sua imagem à pessoa fraca que ela sempre desconfiou que era.

Ela sentiu a cabeça felpuda de Baguera se colocando entre seu peito ainda vacilante e sua perna, lutando por abrir um espaço que a permitisse chegar até o seu colo.

– Não, bichana – Alice virou o rosto, soluçando e fungando ao mesmo tempo – eu não quero que você me veja assim! A minha cara está mais inchada do que as bochechas do Quico...

Baguera continuou, teimosa, estreitando o seu corpo até alcançar um espaço que a encaixasse no colo de Alice, conseguindo colocar-se no meio do abraço que a hippie dava em suas próprias pernas. A gata equilibrou-se com as duas patas traseiras no quadril da hippie, apoiando as duas patas da frente no ombro de Alice, sempre ronronando de um jeito reconfortante.

A hippie encarou os olhos amarelos da gata, que estavam na altura de seu rosto, tão penetrantes e intensos quanto hipnotizantes. Baguera passou sua língua áspera pelo rosto inchado e vermelho de Alice, como se quisesse tirar as lágrimas dali, como se fizesse o favor de secá-las...

– O que seria de mim sem você, sua bolinha de pelos? – um riso trêmulo saiu em meio aos soluços ainda persistentes, porém não tão indomáveis quanto antes. Dessa vez, ao invés de circundar as pernas com os braços, envolveu Baguera em um abraço gentil e completamente grato, fazendo o caminho de seu pelo grosso com uma das mãos, em um carinho doce.

Alice passou grande parte de sua vida sozinha e conformada com aquilo, mas não era nem um pouco fácil retornar a essa condição depois de tudo o que passou, depois de finalmente perceber-se viva novamente. Agora teria que esquecer o quanto era bom sentir que suas artérias pulsavam, e buscar em sua memória a apatia de saber que apenas o seu corpo ainda estava saudável. Talvez a exaustão do treinamento a ajudasse a não pensar muito naquilo... ela só precisaria dedicar-se ao máximo aos ensinamentos de Ducard e esvaziar a sua mente de todo o resto, por mais impossível que aquela teoria pudesse parecer na prática.

Liberou Baguera daquele abraço, levantando-se da cama e indo em direção ao armário, em busca de uma toalha. A gata logo tornou a se aconchegar em volta do próprio corpo, parecendo ainda estar sonolenta. Alice sorriu, sentindo inveja de Baguera pela facilidade com que ela adormecia e se livrava da realidade, tão rápido quanto um mísero fechar de olhos...

A hippie encontrou várias toalhas dobradas metodicamente em uma das gavetas, todas muito brancas e impecáveis. Ela pegou qualquer uma, desarrumando um pouco a perfeição daquela pilha áspera, e assim que alcançou o banheiro, trancou a porta em seguida... logo regulou o chuveiro para a temperatura mais quente possível, satisfazendo-se ao ter os sentidos invadidos pelo vapor denso que já formava pequenas gotículas no teto. Um banho certamente a renovaria, ou pelo menos amenizaria a inconveniente angústia que se manifestou um pouco tarde demais em seu consciente sacana.

Finalmente tirou aquela roupa, molhada pela neve e pelo suor da adrenalina dos últimos acontecimentos, entrando embaixo da água quente de uma única vez, sem se importar com o choque térmico entre sua pele gelada e a água fervente. Conforme a água caía por seu corpo, Alice gemia ao sentir a ardência da quentura em cima de seus novos cortes, que tinham um grande potencial para resultar em futuras cicatrizes para a sua extensa coleção.

A hippie passou a mão através do corte em seu pescoço feito por Nureen, sentindo o sangue seco se tornar novamente líquido com o vapor quente saído do chuveiro, além da água igualmente quente que escorria por ele. Seus dedos desceram até os vários arranhões avermelhados em alto relevo que Baguera deixou no momento em que saltaram do Caça. Também havia um pouco de sangue ali, mas eram cortes bem superficiais.

– Eu saí de Gotham querendo evitar novas marcas de homicídio e olha só pra mim agora... – zombou de si mesma – até tu, Baguera, filha minha! – riu, sentindo que seu humor estava um pouco melhor, bem menos suicida, apenas por conta da sensação agradável de limpeza.

Assim que se sentiu totalmente limpa, Alice enrolou o corpo com a toalha e saiu do banheiro, sentindo grossos pingos caírem de seu cabelo encharcado até o chão. Abriu novamente a porta do armário e viu os cabides ocupados por vários tipos e cores de túnicas, e praticamente todas as combinações pareciam extravagantes...

Ela fez uma careta ao segurar uma das roupas orientais, uma bela combinação colorida de... roxo e verde? Ok, isso só podia ser uma piada de muito mau gosto!

– O que acha dessa aqui, Baguera? – Alice jogou a túnica berrante em cima da cama – E depois de vestir isso eu tinjo o cabelo de verde e faço uma cicatriz em forma de sorriso, que tal? Eu seria a primeira Palhaça-Ninja – revirou os olhos, voltando a fuçar suas opções, até que acabou escolhendo um modelo azul turquesa mais discreto.

Ela se vestiu rapidamente, surpreendendo-se com a textura grossa do tecido que já a impedia de sentir frio. A hippie se jogou na cama ao lado de Baguera, grata por finalmente poder descansar depois de todo o esforço das últimas horas. Mas bastou fechar os olhos para se ver obrigada a abri-los novamente com as batidas histéricas em sua porta.

– Conspiração, Baguera! – Alice resmungou antes de se levantar – esses ninjas farejam pelo momento mais oportuno em ser inconvenientes, e então finalmente BAM! Eles atacam – praguejou, escancarando a porta – Não fui eu! – defendeu-se sem saber do quê, assim que viu Ducard parado à sua frente com um sorriso meio psicótico.

– Pronta para se tornar uma ninja? – ele sorriu.

– Quem sabe depois de um lanche e um cochilo? Sério, eu estou bêbada de sono, volte daqui a uns dois dias e aí a gente conversa... – disse, já fechando a porta, mas Ducard segurou firmemente a madeira, impedindo que ela se deslocasse mais um centímetro sequer.

– Você tem três minutos para descer e me encontrar na entrada principal da Liga – avisou, com aquele tom irredutível que sempre acabava deixando Alice sem escolha. Simplesmente porque sua voz exalava uma autoridade tão nata que chegava a ser irritante...

– Mas por que você sempre faz questão de dificultar o que deveria ser simples? Qual é, Ducard, eu estou exausta e você também não parece nada descansado... me dê algumas horas de sono e aí então damos início a toda essa bagaça... — tentou convencê-lo, gesticulando amplamente com as mãos — nem existem motivos capazes de justificar essa pressa doentia que você sempre demonstra – argumentou, escorando-se à porta.

– Não conteste as minhas ordens, Alice! Essa lição já foi dada – lembrou, dando-lhe as costas em uma caminhada apressada para longe do quarto da hippie.

– Ei, você não é “O Último Samurai” do pacote, sabia? – gritou irritada, antes que o ninja sumisse de vista.

– Mas ainda sou o melhor – falou por cima do ombro enquanto já se afastava, um tanto convencido.

– Pior que é... – Alice resmungou baixo, sem evitar o sorriso frouxo que surgiu em seu rosto absurdamente cansado.

Notas finais
Bom, antes que alguém diga que essa temporada está sendo patrocinada pelo TDKR, eu digo: NÃO, NÃO ESTÁ! Eu já tinha a intenção de colocar a filha do Ducard na história bem antes de ver o filme, mas admito que o Bane acabou vindo por influência do filme, porque eu achei interessante a interação dos dois... Então é isso... espero que estejam gostando!