A Face Oculta Da Lua
30 Epílogo – Nem Toda Noite É Escura
Alfred vagava pelas conhecidas colinas esverdeadas e quase elísias do funesto cemitério de Gotham, deixando que seus pensamentos vagueassem a esmo pela sua mente atormentada e cansada.
A culpa foi minha! Se ao menos eu estivesse presente... – lamentou tristemente aquelas palavras mudas que não lhe saíam da cabeça desde que encontrou o corpo do patrão em meio aos destroços da mansão, que levava um nome agora extinto.
No dia da explosão, Alfred recebera um falso chamado de Bruce, levando-o a se ausentar da mansão por algumas horas. Ele nem mesmo julgou necessário verificar a autenticidade do chamado por conta da urgência com que fora feito e, principalmente, porque o autor da chamada – que ele erroneamente atribuiu ao patrão – demonstrava conhecimento sobre a outra identidade de Bruce, o que provavelmente facilitou o atentado que se seguiu. Ao descobrir a duvidosa idoneidade da emergência, o mordomo retornou às pressas à mansão, porém seus esforços se mostraram inúteis, como ele chegou a temer. Quando enfim conseguiu retornar, o lugar já estava irreconhecível, e toda a beleza de sua arquitetura não passava de um amontoado de blocos de alvenaria espalhados, junto aos dois corpos que ali jaziam.
E após este infeliz episódio, nada mais restou para si.
Continuou seguindo o caminho traçado pelos túmulos, ainda desacostumado à visão da terceira lápide que se erguia ao lado das outras duas que também carregavam o nome Wayne. Um nome que, agora, estava perdido em existência, condenado apenas à história da cidade e às lembranças de seus habitantes, até que ela – eventualmente – se apagaria no esquecimento certo.
Mas não para aquele senhor que ainda caminhava lentamente.
Por muitos anos ele dedicou a própria vida a prestar seus serviços àquela ilustre genealogia, abençoada e amaldiçoada na mesma proporção pela importância do sobrenome que carregavam e, por mais que parecesse pretensão de sua parte, por várias vezes Alfred se sentiu como um integrante da família, e não apenas um mordomo...
...Em especial quando se viu sozinho com o menino Bruce, de expressões assustadas e perdidas, tendo que entender cedo demais a respeito das dores da vida.
Criou-o como faria a um filho, dedicando-se ao máximo ao assombrado menino que não tardou a tornar-se um homem feito, que, Alfred sabia na mais irrevogável certeza, verdadeiramente orgulharia os seus pais.
O mordomo cessou a caminhada ao afinal chegar ao destino que desejava, passando levemente os dedos pelo nome de Bruce – que se destacava por conta do alto relevo e do tom ligeiramente mais escurecido sobre cada letra –, até que seu coração não mais aguentou vê-lo ali, gravado sobre a elegante pedra branca como o mais cruel dos golpes que já recebera. Virou o rosto marejado para as lápides de seus antigos patrões, imaginando se seria possível que seu peito explodisse da forma como ameaçava.
_ Me perdoem! – Alfred chorou como nunca antes se lembrou de ter feito, despejando na forma de lágrimas toda a angústia que o assolava – Eu falhei com os senhores. Não fui capaz de cuidar do menino como deveria! Fui um tolo! – lamuriou-se, permitindo que o pranto corresse livremente por seu semblante fatigado e idoso, soluçando como uma criança desolada.
Escondeu o rosto entre as mãos, intensamente machucado ao pensar que fora compelido a enterrar todas aquelas pessoas que mais prezava, até o último Wayne.

Uma mulher se debruçava sobre a precária grade de contenção que cercava sua sacada, encarando com pesar o céu enevoado e negro como só a noite era capaz de delinear. O negrume pouco estrelado que se firmava sobre a cidade era quase melancólico, repleto dos mais diversos desentendimentos aos olhos daquela mulher, e de toda Gotham.
O reflexo teimoso e persistente de um morcego se mantinha desenhado numa densa nuvem, um chamado que se estendia por semanas, e até então parecia não ter tido resposta. A cidade se mantinha num silêncio sepulcral à espera do retorno de seu soturno guardião, aquele que velava por Gotham em troco de nada, aquele que sempre os protegia de uma forma que as autoridades jamais seriam capazes...
...Mas que se mantinha ausente, mais silencioso do que lhe era habitual.
Era estranho pensar em uma Gotham que não podia contar com Batman, o maior dos trunfos que essa impiedosa cidade já tivera. O único sinal de esperança, que agora parecia ter se apagado em sua inexplicável ausência.
Agora que tudo indicava que o Cavaleiro das Trevas de fato abandonara esta vida de combate ao crime, Gotham parecia fadada ao extermínio.
A cada noite que Batman permanecia omisso, a cidade era assolada por novas remessas de criminosos, que pareciam cada vez mais convencidos de que seus atos ilícitos permaneceriam impunes, sem o julgamento impiedoso do Morcego para frear suas maldosas investidas. E com essa crescente saturação de delitos, nunca antes a polícia de Gotham parecera tão despreparada e impotente quanto agora. O caos parecia ter se instalado como lei vigente, atroz como só ele é capaz de ser quando se instala.
A cidade estava condenada, esta era a implacável e única realidade que se mostrava à frente de todos... Agora as esperanças para aquele subúrbio cada vez mais alastrado e cruel se reduziam a nada. Porque, sem Batman, tudo estava perdido, até mesmo as menores e mais insignificantes perspectivas.
Selina voltou os olhos para o chão, incapaz de deixar de se perguntar por que foram abandonados por aquele que já se provara o único apto a protegê-los. Fitou a rua com um sentimento desconsolado de desesperança, até que percebeu um olhar brilhante e amarelo fixo nela.
_ Baguera? – perguntou baixo, tão desacreditada quanto surpresa – É você? – sussurrou enquanto percebia-se inclinar em direção à gata, até notar o quão ridículo era esperar por uma resposta. – Não saia daí! – avisou, alcançando com pressa as precárias escadas do degradado prédio, e descendo dois degraus por vez. Empurrou a porta vermelha e desbotada que rangia ao menor movimento, chegando finalmente à rua, aonde a gata de olhar intenso ainda a encarava, sentada no meio do asfalto bem em frente à construção repleta de rachaduras e dona de um aspecto frágil. Seu rabo dançava lentamente ao redor do corpo lustroso, como se experimentasse algum tipo de inquietação.
Assim que a mulher saiu ao frio da noite, Baguera imediatamente levantou-se e começou a caminhar na direção oposta, seu andar marcado pelo típico rebolar felino, tão majestoso que só poderia ser atribuído àquele animal. Selina limitou-se a segui-la, sentindo-se invadir pela curiosidade e cedendo a ela.
Baguera esgueirou-se por dois quarteirões, virando à esquerda em seguida, de modo tão ligeiro que Selina quase a perdeu de vista. A mulher apressou-se em dobrar a esquina também, e quase tropeçou na gata, que novamente estava sentada de frente para ela, exalando intensidade no risco preto que parecia rasgar seus amarelos olhos exatamente ao meio.
_ O que é isso? – seu cenho se franziu. Ela abaixou-se, erguendo uma roupa negra que estava jogada de qualquer jeito no chão e, ao fazê-lo, uma máscara igualmente escura rolou pelo cimento umedecido e sujo, parando a apenas alguns centímetros de Selina.
A mulher segurou a máscara com certa relutância, como se desconfiasse de algo. Percebeu com fascinação os detalhes precisos que lhe davam a forma de uma cabeça de gato. O material reluziu lindamente ao comando da fraca luz dos postes que piscavam acima de sua cabeça, fazendo-a engolir em seco com a mera sugestão que a situação lhe trazia.
Selina rolou os olhos para onde antes a robusta gata estava, porém não havia mais qualquer sinal do pomposo animal. Ela então encarou o céu, vislumbrando mais uma vez os largos traços que desenhavam um morcego sobre uma vasta nuvem. Um pedido de socorro suplicante que ainda se mantinha sem resposta...
Deixou que seus olhos magnetizados se atraíssem novamente para a peculiar máscara, imaginando com curiosidade os termos que a trouxeram àquele lugar. Um arrepio percorreu o extenso caminho de sua espinha dorsal, e quase sem perceber, ela segurou o titânio com mais firmeza entre os dedos, tomando a sua decisão.
_ Já está na hora de algumas mudanças – seu timbre despontou solene, assim como o novo brilho que repentinamente surgiu ao fundo de seus olhos.
Hoje, o chamado seria atendido.
May it be an evening star
Shines down upon you
May it be when darkness falls
Your heart will be true
You walk a lonely road
Oh! How far you are from home
Mornië utulië (darkness has come)
Believe and you will find your way
Mornië alantië (darkness has fallen)
A promise lives within you now
May it be the shadow's call
Will fly away
May it be your journey on
To light the day
When the night is overcome
You may rise to find the sun
Mornië utulië (darkness has come)
Believe and you will find your way
Mornië alantië (darkness has fallen)
A promise lives within you now
A promise lives within you now
(Enya – May It Be)
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