A Face Oculta Da Lua

1 Enterrando O Passado


Notas iniciais
Vortei!!! xD Prontos para me aturar mais um pouquinho??

Alice mantinha as mãos dentro dos bolsos daquele enorme casaco, caminhando sempre com a cabeça levemente dobrada para baixo, apenas encarando o chão. Seu longo cabelo estava escondido embaixo da gola do sobretudo, apenas poucos fios se projetavam para frente, devido à inclinação do pescoço da hippie.

Ela meramente caminhava, na esperança de que o gesto iluminasse seus próximos passos, esperando que uma lâmpada se acendesse em sua cabeça assim como nos desenhos animados. Mas no final das contas, eram apenas passos, e eram vazios, pois pareciam não querer levá-la a nenhum lugar específico...

Começou a chutar distraidamente uma pequena pedra pontuda à sua frente, distraindo-se com o modo obediente com que ela rolava sobre o asfalto ao ser submetida àquela pressão exercida através de seu pé, interrompendo o movimento apenas ao encontrar algum obstáculo que a fizesse parar...

Foi exatamente assim que Alice se sentiu quando acabou tomando parte naquela batalha interminável entre Batman e Coringa. Como aquela pedra, que não tinha a menor escolha sobre seus próprios movimentos, apenas obedecia a estímulos externos totalmente fora de seu controle. Mas agora era diferente! A hippie sentia que finalmente podia moldar seu destino a partir de suas próprias escolhas, e esse pensamento a fez sorrir.

Não sabia como deveria agir agora que as correntes haviam se soltado de seus pulsos, não tinha a menor ideia de como conseguiria refazer sua vida sob aquelas novas circunstâncias. Apenas sabia que deveria deixar Gotham o mais depressa possível, antes que algo fizesse seu plano dar errado.

Alice sentou-se no meio fio da calçada, tirando os sapatos de saltos enormes de seus pés, sentindo um enorme alívio ao se desfazer do calçado apertado. Massageou brevemente seus dedos amassados e permaneceu sentada, apenas admirando a escuridão da noite dar lugar aos primeiros raios luminosos. Surpreendeu-se ao notar que já amanhecia...

Deixou que suas costas se apoiassem em um grosso poste que estava bem atrás de si, reparando no céu cada vez mais alaranjado e menos escuro.

Uma enorme gata de pelagem preta e brilhante caminhou graciosamente em sua direção, como se desfilasse pela rua, mantendo os enormes olhos amarelados o tempo todo sobre a hippie de um jeito intenso. Alice endireitou sua postura, prestando atenção no comportamento da dona daquela bela pelagem. A conduta felina sempre foi algo que a fascinou... o modo impetuoso com que caminhavam, a autoridade no olhar, a postura sempre elegante, como se estivessem acima de qualquer criatura viva...

Alice foi trazida de volta daquele pequeno devaneio ao sentir o pelo extremamente macio e aveludado da gata em contato com a sua perna, acariciando-a como se fossem velhas amigas. Sorriu para ela, encostando levemente a mão na orelha atenta do majestoso animal.

– Como vai, bichana? – sussurrou num tom quase inaudível, tomando um susto ao vê-la saltar de forma precisa para o seu colo – eu acho que você está me confundindo com alguém – riu, mas a gata apenas espreguiçou-se em seu peito, aconchegando-se ao calor do sobretudo – sabe, você não devia se envolver comigo, eu sou chave de cadeia... – comentou, acariciando o seu focinho enquanto falava – sabia que eu já tive um caso com o Coringa? – arqueou uma sobrancelha, como se esperasse que esse fato a amedrontasse – se alguém sequer desconfiar de que você é minha cúmplice, você pode até acabar parando em Arkham por isso! – avisou, mas a gata nem se mexeu – bom, depois não diga que eu não avisei! – levantou os ombros – agora é por sua conta em risco!

Aquelas unhas felinas fincaram-se superficialmente ao casaco de Alice, como uma tentativa para deixá-la mais macia, e assim que a gata deitou-se novamente, a hippie pôde sentir o ronronado baixo que fazia sua garganta tremer.

– Você não devia confiar assim em estranhos! Por acaso você não tem acompanhado os jornais? Eu sou uma criminosa perigosa – tentou usar um tom ameaçador que não enganou nem a si mesma – sem contar que todos os vilões dessa cidade querem a minha cabeça em uma bandeja – desabafou, dando um longo e pesado suspiro – logo, você corre um sério risco se for vista comigo dessa forma.

Alice parou de falar ao perceber que sua companhia havia adormecido profundamente em seu colo. A hippie continuou acariciando a gata com movimentos suaves, reparando agora que o céu não tinha mais qualquer resquício de sombras ou penumbras. Estava completamente claro, com entonações gradativas de laranja e azul, mas ainda era possível ver a Lua ocupando o alto do céu, como um último vestígio da noite que já se fora.

Aquela era a hora em que Gotham começaria a despertar. Logo as ruas estariam cheias de pessoas apressadas e focadas em seus próprios objetivos, e tudo o que Alice menos queria era correr o risco de ser reconhecida por alguém.

Ela levantou-se do meio fio de forma brusca, arrancando um miado indignado da gata pelo despertar ríspido ao qual foi submetida.

– Foi mal, bichana, mas já está na minha hora – despediu-se, entre uma passada e outra, quase correndo graças à súbita pressa que a dominou. A hippie decidiu não calçar novamente os sapatos escandalosos de Roxanne, sabendo que andaria muito mais rápido sem eles.

Ela estava em uma parte completamente degradada de Gotham, totalmente abandonada pelos políticos e pelos próprios habitantes... era difícil acreditar que a cidade tinha dois extremos tão distintos. Uma parte dela esbanjava dinheiro e prosperidade, enquanto a outra não passava daquilo que os esnobes chamariam de “A Escória da Sociedade”, sem qualquer meio termo entre as duas, sem nenhuma fase de transição entre o absurdamente rico e o miseravelmente pobre... talvez porque a minoria dos ricos somente pudesse sustentar essa condição social se fosse capaz de manter o maior número de adversidade econômica possível. O meio termo parecia não ser capaz de sobreviver, e este acabava absorvendo a mesma condição cruel da indigência. Apenas os mais fortes seriam capazes de resistir àquela selva.

Aquela era uma razão pela qual realmente valia a pena revoltar-se! Parecia um tanto absurdo que uma mesma cidade abrigasse tanta injustiça, e que ainda fizesse questão de manter os olhos bem fechados a todas elas, em um pouco caso mais do que irritante, como se elas não existissem ou não fossem importantes o suficiente para despertar o senso de justiça daqueles habitantes mesquinhos.

A hippie estancou de repente, dominada pela terrível sensação de que estava sendo seguida. Cobriu o rosto da melhor maneira que pôde com a gola do sobretudo, encarando os lados com uma atenção alerta no olhar. Seu coração deu um salto desgovernado com o seu repentino estado de alarme. Alice virou lentamente o corpo, e foi quando ela viu...

... a gata!

Alice fechou suas pálpebras e respirou fundo por causa do susto, e quando tornou a abri-las, olhos amarelos e curiosos a encaravam.

– Quer me matar de verdade? – perguntou, em tom de bronca – eu só estou fingindo que morri, não pretendo passar por isso tão cedo, obrigada – resmungou, satisfeita ao perceber que seu coração já se acalmava – agora seja uma menina boazinha e vá caçar algum rato por aí – disse, sacudindo as mãos como se a despachasse. A gata nem sequer se moveu – eu tenho cara de bruxa para ser seguida por um gato preto, por acaso? – Alice fitou bem aquela expressão despreocupava que ainda a encarava, e deu um longo passo para trás, como que para confirmar a sua teoria. A gata diminuiu novamente a distância entre elas, dando dois passos na direção de Alice e voltou a se sentar, lambendo a pata direita – então é guerra? – a hippie sentiu seus olhos faiscarem.

Alice apressou o passo, entrando nas mais variadas vielas e caminhos alternativos, sem deixar que a curiosidade acabasse fazendo-a virar o rosto para conferir se a gata ainda a seguia ou não, apenas andava, quase correndo. Avistou um muro baixo e tão deteriorado quanto tudo naquela parte mórbida da cidade. Pulou-o, com mais agilidade do que acreditou ser capaz, equilibrando-se triunfante do outro lado.

A hippie procurou por qualquer sinal da bela gata atrás de si, e como não a viu, sorriu, preenchida pelo triunfo de ter conseguido despistá-la, por mais que parecesse ridículo competir com um animal.

– É por essas e outras que você é um animal de estimação enquanto eu sou a dona – virou-se, dando um grito inconformado ao ver a gata sentada à sua frente, como se esperasse entediada que a hippie a visse ali – Como você fez isso? – perguntou, incrédula – Ah, esquece! – voltou a caminhar, sabendo que aquele tufo de pelos ainda a seguia.

Tentou ignorar a presença do animal, fazendo o possível para espantar aquela sensação incômoda de estar sendo seguida, mesmo sabendo que se tratava somente de uma gata. Por alguns minutos teve sucesso, mas aquele silêncio irritante nas passadas do animal estava enlouquecendo-a... simplesmente por saber que, assim como aquela enorme bola de pelo, Coringa também seria capaz de ser extremamente sorrateiro se quisesse! Ele podia estar seguindo-a da mesma forma, sem jamais se deixar notar pelas percepções falhas da hippie, e isso a incomodava.

– Você não pode me seguir, eu estou morta, ok?! – virou-se bruscamente para o animal, falando de modo exaltado, alto o suficiente para atrair a atenção de um homem idoso que já caminhava pela rua agora semi deserta, ocupada apenas por ele, por Alice e pela bola de pelo.

Os olhos do homem pousaram assustados sobre a hippie, e logo ele recomeçou sua caminhada, num ritmo bem mais rápido do que o necessário. Ela revirou os olhos diante da própria criancice, percebendo naquele instante o quanto os seus sentidos estavam alterados e apavorados. Riu, como se pedisse desculpas ao animal pelo seu comportamento estranho.

– Olha, você pode me seguir se quiser, está bem? Afinal, esse é um país livre... – disse, com a voz bem mais suave agora – Aliás, acho que vou te chamar de Sombra – ajoelhou-se, acariciando o seu pescoço e sentindo-o tremer mais uma vez com um ronronar baixo – eu realmente preciso de uma companhia – disse para si mesma, levantando-se novamente e recompondo os passos apressados, à procura de algum lugar escondido que a abrigasse momentaneamente.

Sombra, ao invés de continuar seguindo Alice, começou a caminhar na sua frente, olhando para trás algumas vezes, como uma garantia de que a hippie traçava o mesmo caminho que ela fazia.

– Que ótimo, agora quem está seguindo a gata sou eu – fez uma careta, mas em momento algum se desviou do destino traçado por ela. Não tinha nada a perder mesmo... estava literalmente morta, exausta, faminta e sedenta por um descanso, mas qualquer caminho que tomasse seria desconhecido aos olhos de Alice, então, por que não?

O brilho intenso daquele pelo negro continuava esgueirando-se a lugares cada vez mais escondidos e estreitos, sempre parando por um momento para conferir se Alice ainda a seguia. A hippie reparou em toda a sujeira que a rodeava, aumentando o fedor do ambiente conforme ele se afunilava cada vez mais.

Manteve o ritmo, tendo que abaixar a cabeça algumas vezes ao passar por pedaços tombados de uma madeira podre, que servia de residência para enormes teias de aranha, e dava ao lugar uma decoração meio sombria. A gata parou, a vários passos de distância de Alice, esperando que ela diminuísse novamente a distância que se formou entre as duas.

– Posso saber para onde a senhorita está me levando? – perguntou, assim que Sombra decidiu que já era hora de continuar mostrando-lhe o caminho. Elas passaram por mais alguns entulhos largados no asfalto imundo, até que a gata hesitou diante de uma porta suja, fitando a hippie uma última vez antes de sumir de vista ao entrar naquela cabana deteriorada – eu só posso estar bêbada – reclamou, balançando negativamente a cabeça enquanto ultrapassava a entrada.

O lado de dentro era infinitamente melhor do que o lado de fora, disso não restava dúvida. O lugar não era tão imundo quanto o espaço que o rodeava por fora, e até parecia aconchegante se você desconsiderasse o número de ratos que devia cercar o lugar... mas talvez essas pragas não fossem um problema, não com aquela enorme gata por perto, vigiando o local.

O ambiente era pequeno, e praticamente todo o espaço era ocupado apenas por um fogão enferrujado que devia ser mais velho do que Alice e uma mesa baixa e quadrangular, que também contribuía para o aspecto rústico do local. No canto oposto ao fogão, uma geladeira beje parecia camuflar-se à cor neutra da parede, destacando-se apenas por sua maçaneta grossa e escurecida.

– Sua pestinha! – Alice encarou o animal que andava rebolando pelo piso, inconformada ao se dar conta de que alguém devia morar ali – você vai acabar destruindo o meu disfarce – sussurrou, irritada, imediatamente pronta para dar no pé, mas pelo jeito já era tarde.

– Você trouxe uma visita para cá, minha querida? – uma voz fina e surpresa veio de não muito longe, e como resposta recebeu um miado mimado.

– Ehh... me desculpe, eu pensei que esse lugar estava abandonado – explicou-se, tentando esconder o rosto e não vendo a hora de ir em direção à saída, mas quase tropeçou ao notar que a gata estava deitada em cima dos seus pés, completamente largada naquela posição.

– Ela nunca se mostrou tão sociável assim com ninguém – a mulher comentou, parecendo pensativa enquanto se aproximava da hippie. Agora Alice pôde ver melhor os traços da mulher, que caminhava em sua direção com o mesmo rebolado felino que marcava o andar do belo tufo de pelos encaixado sobre os seus pés. Ela era um pouco mais alta do que Alice, dona de uma pele pálida e feições harmoniosas que combinavam muito bem com seus riscos suaves – muito pelo contrário, ela sempre evitou as pessoas – a moça de traços delicados a encarou, como se buscasse uma explicação – Posso perguntar quem é você?

– Ninguém importante – respondeu rápido demais – sinto muito se eu a incomodei – desculpou-se, tirando delicadamente a gata de seus pés e se virando para ir embora.

– Você parece estar exausta – comentou – devia descansar um pouco – disse, colocando um pouco de água para ferver no precário e escandaloso fogão cinza – Posso lhe oferecer um café? Eu realmente adoraria conhecer de alguma forma a visita da minha pentelha – sorriu.

– Desculpe, eu estou com um pouco de pressa...

– É só um café – insistiu, apoiando-se na parede ao lado do fogão com os braços cruzados e ainda sorrindo para Alice, incentivando-a a aceitar o seu convite.

– Hum... – ponderou por um momento, até sentir o seu estômago se revirando de fome – tudo bem, acho que eu posso ficar para uma xícara de café.

– Ótimo! – aprovou, satisfeita, voltando sua atenção à água quente no fogão, já separando umas torradas para acompanhar.

As duas estavam sentadas, e Alice encarava a sua xícara, pouco à vontade naquela situação em que se sentia totalmente analisada pela mulher à sua frente. E se acabasse sendo reconhecida e estragasse tudo? Tentou espantar o pensamento dando um longo gole no seu café, que imediatamente pareceu revigorá-la. Recolocou a xícara sobre a mesa, envolvendo-a com as mãos frias, que imediatamente foram aquecidas pelo calor concentrado na porcelana.

– E então... – a hippie começou a puxar assunto, disposta a desviar a atenção da mulher de si – Você mora há muito tempo aqui? – enfiou um enorme pedaço de torrada na boca, praticamente engolindo sem mastigar. Deu-se conta do quanto estava faminta ao dar outra mordida afobada e engolir com a mesma rapidez...

– Há mais tempo do que eu gostaria – riu, tomando um gole curto do líquido quente – acho que eu acabei irritando as pessoas erradas, e isso me obrigou a me esconder do mundo que eu conhecia – explicou vagamente, mas em nenhum momento o seu tom pareceu triste. Alice não pôde deixar de pensar que provavelmente o seu destino seria exatamente esse, mesmo que deixasse Gotham para sempre... – prazer, meu nome é Selina – estendeu a mão para um cumprimento, e Alice a apertou – Selina Kyle.

– Eu realmente queria poder dizer o meu nome, mas eu seria obrigada a te matar depois – brincou, fazendo-a rir no meio de mais um gole enquanto Alice limpava rapidamente alguns farelos em seu rosto.

– Não se preocupe... as pessoas por aqui não são muito chegadas a revelar o próprio nome – comentou despreocupadamente, com uma expressão conformada.

– É muito injusto que essa parte de Gotham não possa ter vida própria... – disse, como uma resposta ao comentário de Selina – que as pessoas tenham que sobreviver ao invés de viver... matar um leão por dia sem nenhuma expectativa de melhora – listou suas indignações, cada vez mais revoltada ao presenciar o descaso dedicado àquelas pessoas, pessoas esquecidas no submundo de Gotham, trabalhadores que acabavam se tornando criminosos por falta de oportunidades decentes, uma maioria desprezada da população que deveria ser encarada como o alicerce da cidade, e não como uma parte dispensável desta.

– Nós compartilhamos essa mesma raiva – seus olhos brilharam, e Selina mirou brevemente a gata deitada perto de Alice – você nunca me decepciona com as pessoas que traz aqui, não é mesmo, Baguera?!

– O nome da sua gata é Baguera? – perguntou, achando graça.

– É assim que eu a chamo, mas nem de longe ela é a minha gata – explicou, admirando o animal encolhido em suas próprias patas – ela é como uma alma livre, não pertence a ninguém, mas sempre acaba aparecendo quando dá na telha... é um animal fascinante! – concluiu, levando novamente sua xícara até a boca enquanto ainda fitava a gata com um entusiasmo extra no olhar.

– Pessoalmente eu sempre gostei de gatos – fez uma pausa, tomando o último gole de seu café – eu me sinto bem sabendo que existe uma criatura mais preguiçosa do que eu... – as duas riram.

– Você não faz muito o perfil de quem mora por aqui – reparou, com um ar curioso – o que a trouxe até o inferno de Gotham?

– Eu só estou por aqui de passagem – explicou da melhor forma que podia – não pretendo ficar em Gotham por muito tempo, mas ainda tenho umas coisas para resolver antes de ir embora... e assim como você, eu irritei algumas pessoas que não devia, por isso acabei parando na parte esquecida da cidade.

– Pode ficar aqui pelo tempo que quiser – convidou, parecendo animada com um pouco de companhia.

– Obrigada – sorriu – mas eu realmente preciso ir embora! O meu tempo está meio apertado...

– Você quem sabe... – deu de ombros, parecendo decepcionada – mas não se esqueça, qualquer amigo da Baguera é meu amigo também, por isso, pode aparecer sempre que precisar.

– Obrigada! – agradeceu – e obrigada pelo café também – levantou-se, apertando novamente a mão de sua breve anfitriã – foi um prazer conhecê-la!

– Digo o mesmo – sorriu, acompanhando a hippie até a saída, e Baguera as seguiu.

Alice levantou a gola do sobretudo, ciente da claridade alta iluminando as ruas, e mesmo que ainda confiasse em seu disfarce, tentou esconder seu rosto o máximo possível. Não deu mais do que cinco passos até perceber que Baguera estava atrás dela, seguindo-a da mesma forma que fizera mais cedo.

– Ei, você está em casa agora... volte para a Selina, sua cabeçudinha!

– Ela vai para onde deve ir – Selina disse, com um sorriso meio triste no rosto ao ver que a gata seguia a hippie – você não vai se arrepender de tê-la como companhia, apenas aceite que ela pode sumir quando bem entender, e que talvez não volte... – despediu-se da bola preta e rechonchuda apenas lançando-lhe um olhar de afeto, que pareceu ser correspondido.

– Se é assim, sim... – concordou, simplesmente achando inevitável não se sentir internamente grata pela sua mais nova companhia, por mais que a solidão fizesse parte de seu plano original quando resolveu fingir-se de morta.

Continuou caminhando, dessa vez sem se opor uma única vez à presença da gata bem ao seu lado, caminhando fielmente junto com ela.

E agora, assim como a cidade, suas ideias pareciam ter se iluminado melhor com o nascer do Sol. Já tinha em mente o seu caminho traçado até que finalmente deixasse Gotham de vez. Precisava fazer duas coisas antes de partir e se sentir capaz de refazer sua vida bem longe dali.

Alice não sabia muito bem onde estava, mas não teve grandes dificuldades para encontrar o seu destino. Pelas suas contas, a hippie já havia sido dada como morta há quase um dia, e isso indicava que o seu funeral ainda devia estar ocorrendo, ou quase acabando...

Ela até podia imaginar a corja de jornalistas lutando por uma matéria exclusiva de sua morte como um urubu que sobrevoa uma carcaça, sem o menor respeito pela sua imagem. Mas aquele era o menor de seus problemas! Com o tanto que já havia sido caluniada em vida, pouco importava o que diriam dela depois de sua morte. Alice apenas torcia para que House tivesse conseguido camuflar a falta de cadáver de alguma forma, sem que ninguém se desse conta ou desconfiasse daquela mentira.

A hippie não sabia exatamente qual o destino que dariam ao “seu corpo”, se o enterrariam ou o cremariam, mas mesmo assim ela foi em direção ao cemitério de Gotham, e na mesma hora que se aproximou do local, soube que estava no endereço certo, somente ao observar a aglomeração de câmeras e filmadoras profissionais nos arredores do lugar.

– Vê só, Baguera? – bufou de indignação, mesmo que já esperasse encontrar a mídia de plantão para noticiar a sua morte com todas as desonras possíveis – agradeça por não precisar fazer parte dessa espécie podre, que nem ao menos pode deixar em paz um defunto.

O cemitério era todo coberto por uma grama baixa revestindo as sutis colinas ao redor e a planície onde os corpos eram enterrados, repleto de árvores frutíferas em alguns pontos estratégicos. Seria um ambiente agradável, se não fossem todos aqueles túmulos para lembrar o real objetivo do lugar. Alice escolheu um ponto alto em uma das elevações do cemitério, e ali ela teve uma ampla visão do ambiente.

Sentou-se na grama ainda úmida pelo orvalho, acariciando distraidamente o dorso de sua mais nova companheira. Não demorou nada para avistar ao longe os rostos conhecidos que pareciam abatidos por sua morte. Um aperto incômodo se formou em sua garganta ao presenciar essa cena...

Bruce parecia cansado... mesmo de longe Alice foi capaz de detectar a exaustão em seu belo rosto, marcado por traços tristes e inconformados, como se ele se culpasse por alguma coisa. Alfred estava de pé ao seu lado, com uma mão pousada no ombro do patrão, em uma tentativa de reconfortá-lo. O mordomo também parecia abatido... na realidade, sua expressão estava entre chocada e triste.

Seu irmão também estava ali, e a hippie o reconheceu no mesmo instante em que viu o seu tradicional cabelo despenteado despontando rebeldemente de sua cabeça. Seu rosto estava endurecido enquanto ele encarava a lápide com o nome da irmã, parecendo sentir remorso.

Mas foi Logan quem realmente chamou a atenção de Alice naquela cena fúnebre.

O psiquiatra estava afastado de todos, por volta de uns dois metros distante, e seus olhos estavam inchados e inconformados. Sua cabeça mantinha-se abaixada, encarando o chão com uma espécie de derrota. Suas mãos se fechavam em torno de sete coleiras... e aquele foi simplesmente o gesto mais lindo que Alice já viu.

Os sete cachorros de Alice estavam sentados de forma extremamente ereta, o mais próximos que a guia presa na coleira os permitia ficar, e todos eles pareciam encarar um ponto fixo. A hippie podia dizer com toda a certeza que aquela foi a única vez em que viu Satanás realmente quieto, sem intenções visíveis de destruição.

Odiou presenciar aquela cena. Odiou ser testemunha daqueles olhares entristecidos, e odiou mais ainda ser a causa deles! Alice secou uma lágrima silenciosa que escorreu pelo seu rosto, incapaz de acreditar no quanto era fria e cruel ao permitir aquele espetáculo. Mesmo sabendo que suas escolhas foram movidas por intenções nobres, simplesmente sentiu nojo de si mesma.

– Eu sabia que a encontraria aqui! – uma voz simplesmente surgiu ao seu lado, mas a hippie nem sequer afastou o olhar daquela cena hipnotizante que se passava a vários metros.

– Não é todo mundo que pode dizer que assistiu ao próprio enterro – sorriu, encarando o rosto do Doutor House, que se sentava com dificuldade ao seu lado.

– Você ainda não conseguiu se desvincular do seu passado – aquilo não foi uma pergunta, mas Alice respondeu mesmo assim.

– Eu estou fazendo isso nesse exato momento! – comentou, e percebeu que aquelas eram palavras sinceras – Acha que existe meio mais eficiente para deixar o passado para trás do que ver o próprio enterro?

– Não... imagino que não – o médico assentiu, acompanhando o olhar distante de Alice. Alguns minutos de completo silêncio se arrastaram entre os dois, minutos em que eles apenas se focavam ao falso enterro, perdidos em seus próprios pensamentos.

– Como você conseguiu isso? – a hippie perguntou, de testa franzida.

– Isso o quê?

– Fazer com que todos acreditassem que o meu corpo está lá... – desviou o olhar do enterro, encarando House intensamente.

– Não foi difícil – disse, retribuindo o olhar de Alice – o problema seria se você tivesse família.

– Como assim? Aquele é o meu irmão – retrucou, apontando na direção de Will.

– A cidade inteira poderia ter algum parentesco com você e mesmo assim seria fácil ocultar o seu corpo, desde que nenhum desses parentescos fosse reconhecido judicialmente. Aquele garoto até pode ser seu irmão, mas é um laço informal – explicou – caso algum parente realmente registrado aparecesse, eu seria obrigado a prestar contas do que fiz com o seu corpo, ou então deixar que os seus parentes cuidassem dele, o que é mais comum. Mas como esse parente simplesmente não existe, eu pude tomar todas as decisões sem acabar me colocando em alguma situação séria por conta disso.

– Quer dizer que eu fui tratada como uma indigente? – perguntou, bem humorada.

– Basicamente isso – riu – eu mandei um corpo qualquer para a cremação como se fosse seu, e assim que o playboyzinho reclamou pelo direito de enterrá-la, você já era um amontoado de cinzas. Mas o cara é tão mimado que resolveu enterrá-la mesmo assim – balançou a cabeça ao fitar a cerimônia à sua frente.

– Espera, mas se você mandou um corpo que não era meu para a cremação, como você vai explicar o sumiço desse outro corpo?

– O médico responsável por esse outro corpo que se preocupe em justificar! Ele que foi incompetente em não vigiar melhor o cadáver da própria paciente, então ele que arque com as consequências... – rolou os olhos.

– Pela espada do He-Man! – Alice levou a mão à testa – você realmente roubou o corpo de algum paciente e incriminou um colega de trabalho por conta disso? – perguntou, pasma.

– Não me olhe com essa cara de espanto, eu fiz isso para te ajudar, o que, aliás, não foi fácil... você pode imaginar o quanto aqueles dois se irritaram por eu ter decidido cremar o seu corpo? – perguntou, referindo-se a Bruce e Logan – o mínimo que eu mereço é um pouco de gratidão! Se eu não tivesse tomado essa iniciativa, com certeza essa mentira não teria ido adiante nem por algumas horas – defendeu-se.

– Você não tem jeito mesmo – a hippie riu – você realmente se empolga com uma boa mentira, hein? – empurrou o ombro do médico com a lateral de seu próprio corpo.

– Transformar mentiras em verdades é uma arte que apenas os melhores dominam – riu junto com ela, com um ar prepotente e sarcástico.

Alice balançou a cabeça com um breve sorriso de divertimento enquanto voltava a fitar o seu próprio enterro, que já parecia estar no fim. Deu uma última olhada em todos aqueles rostos queridos que estavam presentes, sabendo que provavelmente aquela seria a última lembrança deles que guardaria em sua memória.

Deixou que sua mão se perdesse no pelo macio de Baguera, pensando em como poderia parecer insignificante aos olhos alheios que apenas quatro pessoas e sete cachorros demonstrassem que se importam com a sua morte. Mas para a hippie, era mais do que suficiente! Eram poucos rostos, mas eram os rostos que, um dia, souberam lhe proporcionar uma alegria sem tamanho ao fazer com que ela se sentisse parte de uma família.

Notas finais
Estou ansiosa pela opinião de vocês, como sempre!!! ^^ E então, o que me dizem do primeiro capítulo?