A Face Oculta Da Lua
4 A Trilha De Gelo
Notas iniciais
Alice tremia violentamente embaixo do sobretudo que a cobria até um pouco abaixo dos joelhos. Seus lábios estavam completamente roxos, um roxo evidenciado ainda mais por conta da palidez excessiva de sua pele arrepiada pelo frio insuportável, e seus dentes batiam um no outro sem o menor controle.
– A gente... já... chegou? – sua fala era interrompida por sucessivos e incontroláveis tremores, que faziam os seus dentes se trincarem um no outro de uma forma dolorosa. Pequenos e delicados flocos de neve se acumulavam em seu cabelo, deixando-o úmido e ainda mais gelado.
– Ainda não – Ducard disse, e foi possível ver uma fumaça espessa sair de sua boca conforme ele falava – mas não estamos muito longe!
Alice apertou o casaco em torno do próprio corpo ao se dar um abraço, mas o tremor nem sequer deu sinal de que cederia. Estava insustentável suportar aquele frio cortante apenas com as roupas curtas de Roxanne e o sobretudo de House... seus movimentos se mostravam cada vez mais duros e lentos, não sabia quanto tempo mais seria capaz de manter-se consciente naquele estado evidente de hipotermia.
Cada passo se tornava mais pesado, como se uma enorme barreira fizesse a hippie se arrastar em cima dos próprios pés... ela podia sentir seus tendões enrijecidos e resistentes em obedecê-la, tornando os seus movimentos cada vez mais lentos e os seus comandos fracassados.
– Agora a gente já chegou? – fez uma nova tentativa, encarando-o com um tipo de súplica nos olhos.
– Nesse passo em que você está, nós só chegaremos amanhã! – Ducard resmungou, impaciente com a lerdeza cada vez maior da hippie.
– Sinto muito se eu tô te atrasando – bufou, e uma densa névoa saiu de sua boca arroxeada – mas fica difícil caminhar na neve com roupas de verão, já você, parece bem confortável embaixo de toda essa proteção... – comentou – bem que você podia fingir que é um cavalheiro e doar algum dos seus casacos pra mim.
– Não espere que eu facilite as coisas para você – o ninja disse secamente – um dos princípios do meu treinamento é torná-la capaz de lidar sozinha com a dor, de suportá-la, de uma forma que poucos são capazes. E é somente enfrentando-a que você poderá vencê-la, e até mesmo dobrá-la ao seu próprio favor.
– N-ninjas m-maldit-tos – gaguejou com o tremor violento e irregular de seus dentes.
– Quando você me libertou da prisão, disse que queria ser capaz de enfrentar sozinha as suas próprias batalhas – lembrou-a, como se apenas refletisse em cima daquelas palavras ditas pela hippie – como você espera ser capaz disso se não se mostrar auto suficiente nem mesmo em confrontar-se com um clima extremo?
– Cara, e-eu só pedi um casaco... – mexeu o nariz, dando-se conta de que não podia mais senti-lo – eu podia estar roubando, podia estar matando, mas só estou querendo uma fonte de aquecimento... é pedir demais? Daqui a pouco eu vou virar a fêmea do P-Pé Grande... – comentou, ciente de que suas feições endurecidas nem lhe permitiriam esboçar um sorriso com a piada.
– Isso é um problema seu, e não meu – avisou, cobrindo o rosto com um enorme capuz de um dos seus vários casacos – ache um jeito de resolvê-lo sozinha, e ande mais depressa se não quiser ficar para trás e acabar se perdendo na neve! – disse, apertando o passo e se distanciando da hippie.
– “Isso é um p-problema seu, e n-não meu!” – resmungou baixinho, imitando a voz grossa de Ducard – Eu devia ter dito exatamente isso quando você estava preso naquela c-cadeia imunda e eu tinha meios para libertá-lo... – fungou, tentando ignorar o vento gelado que fazia pequenos flocos de neve encontrarem o seu rosto. A muito custo, ela aumentou a velocidade de seus passos, fazendo o possível para ignorar o quanto as suas pernas estavam desobedientes.
Baguera caminhava firmemente ao seu lado, com uma fidelidade que desde o começo a hippie não soube explicar de onde veio. Seu pelo, que antes era totalmente negro, agora estava coberto por vários pontos brancos, e alguns deles derretiam suavemente, dando lugar a um brilho escuro e úmido.
– B-Baguera! – Alice exclamou o nome como se fosse a sua salvação. E de fato era – vem aqui, g-garota... – chamou, ajoelhando-se o máximo que suas articulações travadas permitiram. A gata imediatamente foi em sua direção, formando pequenas pegadas graciosas pelo caminho que fazia. O frio extremo parecia não incomodá-la tanto, ela parecia completamente protegida por aquela camada grossa e comprida de pelos – que tal uma c-carona? – a hippie perguntou sorrindo, pegando-a no colo e encaixando o corpo gordo da gata dentro do seu sobretudo.
No começo, ficou ainda mais frio, por conta dos pequenos flocos gelados depositados nas extremidades do pelo de Baguera em contato com a sua pele praticamente nua embaixo do casaco. Parecia que a própria Alice acabaria se fundindo à neve, como se elas fossem uma só... a palidez excessiva de seu rosto fazia com que ela parecesse um cadáver há muito tempo sem qualquer vestígio de sangue.
– Oh, minha n-nossa, agora eu s-sei como os passageiros do Titanic se s-sentiram! – disse, entre os próprios tremores intensos, apertando a gata em um abraço, na tentativa de controlar aquele movimento involuntário e irritante de seus músculos.
Tudo ainda estava frígido demais, mas aos poucos, a quentura aconchegante do contato entre Baguera e Alice foi acalmando a respiração desregulada da hippie, tornando um pouco mais fácil suportar o ar congelante que a envolvia.
– Eu te devo mais essa, bichana – sorriu para os enormes olhos amarelos da gata, beijando carinhosamente a ponta de seu focinho, e aumentando o ritmo de sua caminhada para alcançar o ninja que já estava a incontáveis passos de distância, sem nem ao menos olhar para trás para garantir que a hippie ainda o seguia.
– Você não vai se livrar de mim assim tão fácil – ela avisou quando conseguiu alcançá-lo, ainda agarrando Baguera entre os braços como se ela fosse o último salva vidas de um navio prestes a naufragar.
– Vejo que você conseguiu dar um jeito de amenizar o seu problema – o ninja encarou-a de canto de olho, dando um discreto sorriso de aprovação.
– Mas não vai durar muito – disse, arfando e tremendo ao mesmo tempo – eu realmente preciso me esquentar de verdade, senão vou acabar virando uma estátua de gelo...
– Nós estamos bem perto agora! – Ducard a tranquilizou, esbanjando a expectativa do reencontro no brilho safira de suas duas gemas.
– Sei... – revirou os olhos – você está dizendo isso há umas duas horas, e nada dessa Liga aparecer – ofegou, aconchegando Baguera um pouco mais em seu peito.
– Se você não estivesse tão focada em encarar o chão, já teria visto a sede da Liga das Sombras há um bom tempo – retrucou, e a hippie notou os olhos do ninja vidrados em um ponto fixo.
– Aonde? – perguntou afobada, mas logo a sua empolgação se perdeu ao perceber a distância que ainda os separava de seu destino – você só pode estar brincando... a gente vai ter que escalar aquilo ali? – apontou para a barreira consideravelmente íngreme logo à frente.
– Não é tão ruim quanto parece... – abriu um largo sorriso, ainda mirando atentamente o seu verdadeiro lar. A sua casa, que quase fora destruída por Bruce na época em que Ducard o treinou, mas que ainda estava de pé, grandiosa e altiva, exatamente como na sua memória.
– Eu tenho que admitir: não dá pra se sentir entediada andando com você! – disse, ainda lançando um olhar desanimado para o caminho que a esperava.
– Um passo de cada vez! – o ninja disse, dando início à caminhada em volta da enorme colina – siga essa trilha em torno da montanha – disse, referindo-se a um enorme caminho de gelo que dava inúmeras voltas pela montanha, terminando no topo – escalar provavelmente seria mais rápido, mas nós não temos nenhum equipamento aqui – praguejou.
– Finalmente uma decisão sensata – suspirou, tentando concentrar-se em cada passo isolado, e não no enorme conjunto de passadas que teria que dar para completar aquela “escalada” até o pico da montanha. A trilha era bem estreita, tão apertada que não permitiria que Alice caminhasse ao lado de Ducard.
– As decisões de seu Mestre sempre são sensatas, mesmo que você não as compreenda... – começou aquele tradicional discurso, fazendo Alice revirar os olhos.
– Sei, eu já entendi... – interrompeu Ducard – é todo aquele papo de obedecer às ordens sem reclamar e blá, blá, blá! – disse, curvando o corpo levemente para frente para compensar a inclinação ao qual já era submetida.

– Sério, como você faz quando precisa comprar um barbeador? Simplesmente faz todo esse caminho todas as vezes que precisa de alguma coisa? – a hippie perguntou, ofegante.
– Os membros da Liga nunca saem de seu posto, a menos que seja estritamente necessário. Nós temos funcionários para nos abastecer com os suprimentos que julgamos essenciais.
– Que dó desses caras! – comentou, sentindo-se exausta com a caminhada que, para o seu desespero, ainda estava pela metade – vocês não podiam ter escolhido um lugar menos complicado para fundar a Liga?
– A dificuldade serve exatamente como um meio de despistar os curiosos que eventualmente podem acabar aparecendo. E em contrapartida, é uma forma eficiente de selecionar quem realmente merece ser treinado.
– Que saudade daquele Caça agora... – balançou a cabeça, acariciando Baguera brevemente, que parecia sonolenta sobre o casaco de Alice. Os braços da hippie já estavam dormentes por carregar a enorme e pesada gata no colo durante todo aquele tempo, mas estava infinitamente grata por tê-la ali para amenizar o frio cortante, por mais que soubesse que os seus braços ficariam doloridos mais tarde.
Eles continuaram marchando sobre o gelo, aderindo agora ao silêncio, porém os dois se calaram por razões diferentes. Ducard estava completamente entretido com as próprias certezas que permeavam sua mente, temendo as respostas que acabaria encontrando ao chegar à Liga, e ao mesmo tempo ansiando-as. A hippie, no entanto, calou-se como uma forma de poupar a energia para o seu real objetivo de chegar ao topo da montanha, aonde o seu novo e escurecido destino a esperava. Aonde de fato a sua nova vida começaria...
Alice levou a mão livre que não segurava Baguera para dentro do enorme casaco, sentindo as pétalas aveludadas da flor branca que ela guardou em um dos vários bolsos internos do sobretudo... não seria fácil rejeitar essas memórias que pareciam gravadas a ferro em sua mente, mas ao mesmo tempo sabia que o esquecimento era a sua melhor e única defesa. Seus dedos foram descendo devagar pelo caule espinhento da flor, e seu coração batia cada vez mais forte conforme ela se aproximava do fim do bolso... mesmo sabendo o que encontraria ali, era como se fosse a primeira vez. Como se a pegasse de surpresa novamente.
Seu tato identificou a carta coringa antes mesmo que Alice a alcançasse de fato. E seu estômago se revirou de borboletas afiadas... Coringa ainda representava uma mistura de sentimentos contraditórios dentro da hippie, e ela simplesmente não sabia dizer qual deles prevalecia. Obsessão, ódio, curiosidade, desejo, nojo, admiração... todos eles simplesmente se apossavam dela com uma intensidade amedrontadora, de um jeito tão forte que sempre a deixava sem reação diante de seu vício, seu predador, seu parasita, sua salvação.
Sua memória guardava lembranças fortes demais para que ela simplesmente fosse capaz de esquecê-las... sabia que nem de longe seria capaz disso, mas esperava ao menos conseguir evitá-las, não ser tão susceptível ao mal que elas lhe faziam a cada vez que surgiam em sua mente.
Em meio àqueles pensamentos, Alice esqueceu-se completamente do cansaço que quase a fez desistir de prosseguir com o seu plano. Suas pernas apenas se mexiam de uma forma mecânica enquanto a sua consciência estava bem longe de seu corpo. A hippie só retornou àquela realidade quando sentiu-se chocar acidentalmente com o ninja, que havia cessado bruscamente a caminhada e parecia estático, incapaz de dar um único novo passo à frente.
– Parou por quê? Já vai pedir arrego? – sorriu, mas logo parou ao sentir os seus lábios rachados e ressecados se abrirem em alguns cortes por conta do leve repuxar que formou aquele sorriso dolorido.
– Chegamos – disse simplesmente, sem desviar sua atenção da bela arquitetura oriental que ocupava grandiosamente o espaço. O queixo de Alice despencou ao vislumbrar o quanto a simplicidade daquele lugar era majestosa, e nem mesmo o frio pareceu incomodá-la tanto diante daquela distração bem vinda.
– Essa é a sede da Liga das Sombras? – a pergunta óbvia simplesmente escapou, antes que Alice se dessa conta do quanto ela era estúpida.
– Exatamente do jeito que eu a deixei – o ninja assentiu, com um sorriso escondido pelas sombras em seu rosto formadas pelo grosso capuz de seu casaco.
– É... Linda! – deixou-se deslumbrar pela imagem do lugar, contemplando com cuidado o jeito sedutor com que alguns flocos de neve caiam delicadamente sobre o telhado pontudo e sobre o chão levemente esverdeado. Paz, era o que envolvia a atmosfera calma da Liga, a última sensação que Alice esperava encontrar ali, mas estaria mentindo se dissesse que não foi invadida por uma peculiar serenidade, apenas ao pousar os olhos na arquitetura simples e ao mesmo tempo majestosa do recinto.
– É de tirar o fôlego, não é mesmo? – Ducard riu ao notar os olhos arregalados de sua mais nova aluna, e ao mesmo tempo surpreso por ele mesmo não conseguir desviar por muito tempo a sua atenção da Liga, como se também a visse pela primeira vez.
– É difícil acreditar que um berçário de assassinos possa parecer tão pacífico – comentou distraidamente.
– Como é? – Ducard a encarou pela primeira vez, parecendo alerta àquele comentário da hippie.
– Você pensa que eu não sei o que a Liga de fato representa? Pensa que eu não entendo que tipo de serviços esses ninjas fazem? – Alice riu baixo, correspondendo ao contato visual de seu acompanhante – pensa que eu não sei qual foi o motivo da sua prisão?
– Você está falando de coisas que não conhece, Alice – Ducard a advertiu, usando um tom urgente – a Liga nasceu com um propósito, que há séculos vem sido cumprido com êxito...
– O propósito de dizimar cidades e civilizações? – Alice arqueou uma sobrancelha – eu não me surpreenderia nem um pouco se essa entidade fosse a culpada pelo sumiço dos Maias... – brincou, mas logo reatribuiu à sua voz o tom sério que aquela conversa pedia – da mesma forma que você e os seus ninjas tentaram destruir Gotham em um passado não muito distante. Seus propósitos são esses?
– O propósito de dar um fim às mazelas da corrupção, de afundar o crime junto com os seus instituidores. Livrar a terra dos males do homem... Delinquência, fraude, sabotagem, assaltos, homicídios, dor. É isso que a massa da humanidade representa.
– E vocês tentam combater tudo isso sem nem ao menos considerar os inocentes que acabam pagando o preço junto com os delatores?
– Uma maçã saudável nunca sobrevive em meio a uma cesta de maçãs podres. Nosso dever é para com a justiça, e não para com os injustiçados – frisou.
– É por essa razão que eu faço questão de me manter o mais longe possível da Liga assim que o meu treinamento acabar! Sacumé, né, conflito de gerações e opiniões... isso não ia dar muito certo – Alice deu um sorriso contido para Ducard, e foi quando tudo aconteceu, rápido demais.
Alice sentiu-se puxada por mãos ásperas de uma forma brusca, e a oscilação provocada em seu corpo, à medida que o aperto daquelas mãos pesadas aumentavam, deixou-a inteiramente atordoada com o movimento inesperado e súbito que a desequilibrou com tamanha facilidade. Baguera miou indignada, pulando de seu colo para o chão.
Seus punhos se imobilizaram de um jeito doloroso atrás de suas costas, e Alice pôde notar que a aspereza excessiva das mãos que a prendiam vinha na verdade de um tecido bem rígido. Provavelmente luvas. Uma lâmina afiada e fria depositou-se em seu pescoço, fazendo o seu coração se acelerar ao sentir a conhecida sensação do metal tocando ameaçadoramente a sua pele desprotegida.
A hippie virou levemente o rosto, percebendo que Ducard estava na mesma condição que ela, porém completamente relaxado naquela posição. Ele parecia até estar... sorrindo? O capuz ainda cobria o rosto do ninja, mas Alice reconheceu instantaneamente aquele repuxar em seu rosto formando um sutil sorriso de contentamento.
– Parece que temos visitas indesejadas aqui! – uma voz abafada sibilou perto do ouvido de Alice, tão ameaçadora quanto baixa. As mãos do homem ainda estavam firmes em seu pulso, imobilizando-os com uma competência espantosa, e principalmente dolorida – o que devemos fazer com os bisbilhoteiros, Yal?
– O que acha de levá-los à presença da Ra’s Al Ghul? – o homem que imobilizava Ducard riu sombriamente, parecendo satisfeito com aquela possibilidade – afinal, não cabe a nós designar o destino amaldiçoado desses dois, não é mesmo, Nureen? – sorriu largamente.
– Talvez... – ponderou – mas não acredito que seja apropriado incomodá-la com isso! Nós mesmos podemos cuidar dos intrusos – a lâmina no pescoço de Alice ficou ainda mais apertada com a expectativa do homem, e pela sua vasta experiência em relação a objetos cortantes prestes a lhe furar, dilacerar, multilar, ou qualquer coisa do gênero, a hippie sabia que qualquer pressão extra acabaria rasgando a sua pele.
– Posso dar uma sugestão? – Alice se manifestou, abusada – pelo o que eu percebi, vocês estão em um dilema sobre o que fazer com nós dois! Um quer resolver tudo sozinho e o outro quer nos levar para uma tal de “Rasa Gula”... Bom, enfim, já que deu um empate, nós podemos deixar as diferenças de lado e conversar amigavelmente como gente civilizada sem essas facas, que tal?
– A bonequinha quer falar... – o homem chamado Yal cantarolou, debochando – nós até podemos te ouvir, gracinha, mas seriam suas últimas palavras!
– Gracinha?! – a hippie fez uma careta – baixou o espírito da Hebe, foi? Se você cismar em dar um selinho no meu amigo me avise, porque eu não vou querer ver isso! – avisou, rindo um pouco, mas logo parou ao sentir a faca penetrar superficialmente a sua pele, e aquela ardência tão conhecida misturada ao sangue a fez gemer baixo – Saco! – resmungou – Por que eu sempre acabo com o pescoço cortado?
– Que tal deixar os adultos resolverem os assuntos de gente grande, pirralha? – o homem que imobilizava Ducard rosnou, parecendo irritado com a ousadia da garota – mais uma piadinha idiota e eu mesmo corto a sua língua. Siga o exemplo do seu amigo caladão aqui, e quem sabe eu não lhe conceda a misericórdia de uma morte rápida e indolor...
– Tudo bem então, uma última sugestão – Alice disse, e os dois homens reviraram os olhos – por que não resolvermos isso lá dentro? Está um gelo aqui...
– Ah, mas nós vamos resolver isso lá dentro, com certeza! – Yal lançou-lhe um olhar faiscante e sombrio – e pode apostar que você vai desejar nunca ter entrado...
– Pelo jeito eu não lhe ensinei nada, Yal – Ducard falou pela primeira vez desde a emboscada, girando agilmente o braço do homem com os seus pulsos ainda presos, e um sonoro estalo indicou que Ducard havia deslocado o ombro do homem que há pouco tempo parecia ter tudo sob controle com o seu desconhecido prisioneiro. Ele gritou de surpresa e dor ao sentir o osso deslizando para fora do lugar, e tão rápido quanto um piscar de olhos, Ducard já apontava ameaçadoramente a ponta da faca que antes estava colada ao seu pescoço para o rosto do homem, que caiu pateticamente de joelhos no chão, segurando o ombro luxado – Desde quando vocês ameaçam aqueles que se provam dignos de receber o treinamento?
– Quem é você? – ofegou, tentando decifrar as feições por baixo da escuridão do capuz.
– Eu... – Ducard disse, deslizando o pano para longe de seu rosto com uma das mãos, enquanto a outra ainda o ameaçava com a faca – ... sou o seu Mestre! – disse, encarando Yal com ferocidade. O homem arregalou os olhos ao reconhecer a figura de seu antigo Mestre, o responsável por lhe ensinar tudo o que ele sabia sobre ser um ninja. Sua boca entreabriu-se de surpresa, e seus olhos, antes hostis e arrogantes, agora passaram a exalar uma fonte infinita de respeito e submissão.
Alice sentiu a mesma surpresa vinda de Nureen, pelo modo tenso com que ele a segurava agora. Não podia ver sua expressão, mas sabia que ela devia ser tão pasma quanto à do homem ajoelhado em frente a Ducard. A faca pareceu ainda mais apertada sobre sua garganta, tamanha a rigidez com que ele a agarrava, sem a menor consciência daquela força exagerada.
– Eu tô com ele, cara, você já pode me soltar também! – a voz da hippie saiu engasgada, porém alta o suficiente para despertar o homem, que ainda a prendia, do transe. Ele largou Alice bruscamente, afastando-se alguns passos dela em seguida, como se tivesse encostado acidentalmente em uma cerca elétrica e se assustado com o choque.
Assim que se viu livre, levou a mão até a garganta, apertando um pouco o ferimento como uma forma de tentar aliviar a ardência aguda em sua pele.
– E mais uma vez, sangue... – Alice resmungou, encarando sua mão manchada de vermelho.
– Ra’s Al Ghul... – Nureen aproximou-se devagar de Ducard, deixando que a faca presa em sua mão caísse no meio do caminho. Ele parou a cerca de um metro e meio de distância, incapaz de chegar mais perto, como se suas pernas simplesmente se recusassem a terminar aquela simples aproximação.
– Não se preocupem comigo, eu tô legal! – Alice disse, revirando os olhos ao notar que ela parecia invisível.
– O senhor está... vivo! – Nureen exclamou, tentando dar crédito às próprias palavras que não pareciam fazer o menor sentido para ele.
– Não graças a vocês, isso eu garanto – Ducard respondeu, ríspido – posso saber por que vocês me deixaram apodrecer em Gotham por todo esse tempo? Por que, em momento algum, foram fiéis ao seu Mestre? – ele questionou lentamente. Seu semblante estava perfeitamente controlado, isento de qualquer emoção que denunciasse a sua real fúria, apenas o brilho intenso dos seus olhos parecia capaz de mostrar uma parcela do que ele realmente sentia. Mas não deixava de ser uma demonstração impecável de autocontrole!
– Nós acreditamos que o senhor estava morto, Ra’s Al Ghul – Yal falou com pesar, temendo profundamente ter que enfrentar a fúria de seu Mestre – por todo esse tempo, a única notícia que chegou aos nossos ouvidos a respeito do senhor foi a sua morte.
– Eu pareço morto pra você? – Ducard franziu a testa, ainda apontando a faca bem no meio do rosto do homem.
– Não... não, meu senhor – respondeu respeitosamente, baixando a cabeça e encarando as próprias mãos suadas.
– Quem espalhou a notícia da minha morte? – Ducard perguntou, parecendo inquieto pela resposta, que não veio. Yal e Nureen apenas trocaram um olhar rápido e permaneceram em silêncio, incapazes de quebrá-lo – Quem? – indagou novamente, num tom bem menos amigável.
– Sua filha, senhor – Nureen respondeu prontamente, simplesmente não sabendo ignorar uma ordem direta vinda do próprio Henri Ducard – agora ela ocupa o seu lugar como líder da Liga das Sombras – explicou – ela deu para si o título de Ra’s Al Ghul, alegando para isso a sua morte...
– Talia...? – Ducard estancou, abaixando a faca. Pela primeira vez Alice o viu sem reação, parecendo perdido. E uma batalha silenciosa passou a ocorrer dentro dele por algumas frações de segundo, até que suas expressões voltaram a desconhecer as emoções breves que se instalaram ali por um curto momento – Eu quero vê-la.
– Sim – a hippie aprovou, empolgada – alguém aí tem uma câmera para filmar o barraco e mandar pro “Casos de Família”?
– Nureen, acompanhe a Alice para algum dos aposentos livres – Ducard ordenou, parecendo lembrar que ela ainda estava ali – Yal, você me leva até a minha filha...
– De jeito nenhum! – Alice protestou, livrando-se do novo aperto de Nureen em seu braço para que ela o seguisse – eu não perco isso nem que a Rachel tussa! Eu vou com você, Ducard! A minha alcova pode esperar.
– Não, Alice... – Ducard começou, mas a hippie o interrompeu.
– Escuta aqui, Barbicha – disse, atraindo olhares espantados de Yal e Nureen pelo modo com que se dirigiu a Ducard – Em menos de trinta horas eu te livrei do xadrez, quase morri em uma explosão a uma velocidade grotesca, fui obrigada a praticar bungee jump sem corda, cheguei bem perto de virar um picolé sabor hippie, dei voltas e mais voltas naquela maldita trilha de gelo que rodeia essa droga de montanha até chegar ao topo, fui ameaçada por dois ninjas sádicos e mais uma vez tive o meu pescoço rasgado, e tudo isso por sua causa! Então, não me negue a alegria de ver o desfecho dessa história, porque eu acho que mereço algum tipo de compensação por tudo o que você me fez passar nessas últimas horas – Alice puxou uma longa arfada de ar e cruzou os braços, inflexível. Ducard apenas suspirou, revirando os olhos como se pedisse paciência a uma força divina superior.
– Se você faz tanta questão, então que seja! – cedeu, parecendo estar disposto a qualquer coisa para que Alice calasse a boca.
– Alice, Alice, RÁ, RÁ, RÁ! – comemorou baixinho, seguindo um Ducard apressado para dentro da bela estrutura arquitetônica oriental e tradicional, que a fez perder um bom tempo com divagações sobre a beleza peculiar e rústica do lugar, antes de ser atacada por aqueles dois ninjas.
Assim que atravessaram a porta, Alice soltou o ar, em completo alívio! Simplesmente porque não via a hora de despistar o frio glacial do lado de fora, porque o ar aconchegante e quente que a envolveu foi capaz de trazer novamente a sensibilidade parcialmente perdida de seus membros, e ela se arrepiou, por puro prazer, ao sentir o calor retornar ao seu corpo. O lugar certamente devia ter algum aquecedor que tornasse a temperatura ali dentro mais agradável...
Nureen caminhava compassadamente ao seu lado, como um verdadeiro guarda-costas, pronto para tirar Alice de cena caso Ducard ordenasse. Baguera ocupava o outro lado da hippie, ainda fiel a todos os seus passos, e essa lealdade da gata a confortava, apenas por fazer com que ela não se sentisse tão sozinha em meio àquela multidão de estranhos...
Ducard parecia completamente à vontade realizando um caminho que certamente deveria ser tão conhecido para ele. Seus olhos transbordavam satisfação por estar de volta, mas havia algo mais... um tipo de determinação pouco convencional, que propulsionava os seus passos tendo como combustível um tipo novo de frieza.
– Essa tal de... Marimar? – Alice cochichou na direção do ninja que caminhava ao seu lado.
– Talia! — Nureen a corrigiu, sem desviar os olhos do caminho que Ducard traçava.
– Isso, Talia! – a hippie assentiu, ainda sussurrando – ela é mesmo a filha do Ducard? – perguntou, e sentiu na mesma hora a resistência do homem em lhe responder.
– Sim... – disse finalmente, após uma longa hesitação, usando o mesmo tom baixo que a hippie adotara.
– E você acha possível que ela tenha traído o próprio pai para ficar no lugar dele?
– Não cabe a mim fazer esse tipo de julgamento – retrucou, mas seus olhos faiscaram com aquela mera possibilidade – Até que se diga o contrário, Talia ainda é a líder da Liga das Sombras, e isso faz de sua palavra uma lei incontestável.
– Ah, vá! – rolou os olhos diante daquele fanatismo descompensado – não é possível que a lavagem cerebral aqui seja tão boa assim...
– Ducard sempre será o meu líder e meu Mestre, independente do que se decida a partir de agora, mas ainda assim eu devo respeito àquela que nos governou durante todos esses anos – ele tentou usar um tom neutro, mas Alice pôde notar o leve desprezo em sua voz ao se referir à filha de Ducard.
– Já entendi! A garota deve ser uma megera – concluiu, e Nureen permaneceu quieto, mostrando à hippie que o seu silêncio era um tipo de comprovação ao que ela acabara de concluir.
As atenções se voltaram para uma espantosa e elegante cadeira acolchoada, ocupada por uma mulher de enormes olhos azuis e cabelos castanhos presos em um coque apertado. Ela usava uma espécie de túnica vermelha com adornos dourados, que caía folgada pelo seu corpo. Encarava um ponto qualquer, parecendo alheia à aproximação dos três ninjas e de Alice.
– Como vai, Talia? – Ducard chamou a atenção da filha, que imediatamente após reconhecer aquela voz, virou o rosto chocado na direção do pai, endireitando-se um tanto ereta em cima de sua cadeira confortável para encará-lo.
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