A Face Oculta Da Lua
2 Última Despedida
Notas iniciais
Alice observava ao longe o final de seu próprio enterro, portando uma expressão endurecida pela incômoda tristeza que aquela imagem lhe transmitia. Mirava com pesar cada uma das poucas pessoas presentes deixando, aos poucos, o seu túmulo solitário, retirando-se cabisbaixas... a hippie ainda estava acompanhada pelo Doutor House e pela gata, mas ela se sentia cada vez mais sozinha à medida que o número de pessoas ali se aproximava do zero. Se ao menos pudesse se despedir direito...
O primeiro a se retirar foi Will. Ele andava devagar e mantinha os olhos focados ao chão, parecendo aprisionado em sua própria mente. Era impossível ver a expressão de seu rosto, mas Alice foi capaz de perceber a tristeza de seu irmão através de sua postura cansada. Suas mãos se escondiam nos bolsos da calça enquanto ele parecia chutar a grama com seus passos lentos e firmes.
Alice deu um meio sorriso, causado por uma lembrança que sequer existia... um tipo de realidade alternativa que invadiu sua mente, falsa, porém forte.
Imaginou-se criança, rindo alto e correndo, brincando com o seu meio-irmão caçula em um dia qualquer de inverno, enquanto sua mãe preparava uma xícara de chocolate quente para os dois. Em sua breve fantasia, Alice perseguia o irmão pela neve, e ele corria com um largo sorriso no rosto, desafiando-a a alcançá-lo. A pequena Alice sorria de volta, aceitando o desafio e aumentando a velocidade de sua perseguição.
Aquela lembrança – que de fato nem deveria ser considerada como tal, já que nunca chegou a acontecer – poderia parecer estúpida em sua essência, mas foi ela a precursora daquele sorriso sutil que ainda preenchia o rosto da hippie. Ela passou a ponta de seu dedo indicador pelo focinho de Baguera, que mais uma vez estava adormecida em seu colo, e não pôde deixar de pensar como sua vida podia ter sido diferente de tudo aquilo... em como ela deveria ter sido diferente! Um pouco mais gentil e menos brutal do que a realidade que agora a cercava.
Agora restavam apenas Bruce, Alfred, Logan e os sete cachorros ali. Bruce parecia hipnotizado pela pedra cinza com o nome grafado de Alice, como se ainda tentasse compreender o seu real significado, como se aquela verdade não fizesse o menor sentido... o mordomo encostou gentilmente a mão em seu ombro, e Alice notou os lábios de Alfred se moverem próximos ao ouvido do patrão. Ela sorriu mais uma vez, sabendo reproduzir mentalmente exatamente o mesmo tom reconfortante que Bruce ouvia naquele momento...

– Mestre Wayne – Alfred chamou, baixo demais, preocupado ao reparar nas feições intensamente tristes e distantes que marcavam o rosto de seu patrão, que ainda mirava fixamente as inscrições no túmulo –, sinto muito perturbá-lo com essa questão fora de hora, mas em breve o senhor terá uma reunião com o senhor Fox – lembrou-o.
– O que foi que eu fiz, Alfred? – Bruce pareceu não ouvir uma única palavra dita pelo mordomo, sussurrando tão baixo que parecia mais um pensamento um pouco alto demais, que acabou escapando de sua mente por acaso – Eu pude escolher entre Rachel e Alice, e acabei não conseguindo salvar nenhuma das duas... – desabafou.
– Tudo isso não passou de um lamentável acidente, patrão... uma fatalidade deplorável.
– Acidente... – Bruce repetiu aquela palavra com um riso abafado, desacreditando piamente que seu fracasso em salvar as duas pudesse ser interpretado como um simples contratempo do destino.
– O senhor está insinuando que se julga culpado pela morte da senhorita Alice e da senhorita Rachel? – Alfred perguntou, fitando-o com toda a perspicácia de seus reluzentes olhos azulados, tão azuis quanto o céu em seu dia mais límpido, porém hoje nublados pela significância daquela perda.
– Como não se culpar, Alfred? – Bruce riu, mas o som nem de longe parecia alegre – Coringa fez o que fez para atingir ao Batman, porque ele percebeu o quanto as duas eram importantes para ele – disse, passando a encarar o mordomo de olhos gentis – essa máscara de morcego serve para proteger aqueles que eu amo, mas até nisso eu me provei incapaz – concluiu, sentindo uma pontada de frustração vazar em sua voz.
– Jamais repita isso novamente, patrão... – Alfred aumentou de leve a pressão no ombro de Bruce ao reviver aquele filme, como se estivesse diante da mesma criança assustada e inconformada que presenciou o assassinato dos próprios pais – o senhor não pode ter controle sobre tudo, por mais que tenha absorvido essa missão absurda para si mesmo. O senhor não teve culpa pela morte de nenhuma das duas, assim como não teve culpa pela morte dos seus pais!
– Por mais que eu tente lutar contra isso, parece que eu sempre acabo atraindo esse destino para aqueles que se aproximam demais de mim – balançou a cabeça numa negativa exausta – eu queria conseguir acreditar nas suas palavras, Alfred, mas elas perdem o sentido quando eu penso nas causas que levaram a todas essas mortes...
– Por que caímos, patrão Bruce? – Alfred fez aquela simples pergunta, sabendo que ela chamaria a atenção de Bruce apenas pelo fato de serem palavras saídas da boca do pai do Bilionário, quando o pequeno Wayne caiu no poço da mansão. Bruce sorriu para o gentil mordomo, sentindo uma enorme gratidão em tê-lo por perto. Alfred era um segundo pai, o principal responsável por sempre lembrá-lo como se levantar, quando o próprio Bruce parecia esquecer-se.
– Você ainda não desistiu de mim, Alfred? – Bruce perguntou, e o mordomo sorriu antes de responder.
– Nunca...
Agora Bruce e Alfred se afastavam do túmulo de Alice, e ela apenas os acompanhou com o olhar, como um último adeus silencioso... dessa vez não foram necessárias lembranças falsas para trazer à sua mente momentos felizes e preencher o seu peito com a nostalgia daqueles dias. Seu curto relacionamento com Bruce foi regado por várias decepções para ambos, mas ainda assim era uma época que realmente valia a pena recordar. Talvez fosse um dos passados mais felizes, um dos mais completos que a hippie possuía.
– Você já sabe o que vai fazer agora? – House a puxou novamente para o presente, e Alice não pôde deixar de sentir o conhecido vazio alojar-se em si ao se dar conta de que aquele tempo de sua vida se resumia apenas ao passado. Nada além de recordações, tão distantes quanto belas...
– Sei... mais ou menos – fez uma careta ao sentir a dúvida aumentar a incerteza em sua voz.
– E eu suponho que você não possa me dizer... – o médico arriscou, e Alice sorriu para ele, confirmando aquela verdade.
– Não, eu não posso, seu médico fofoqueiro – acusou-o, num tom divertido, imensamente grata por ele existir e tê-la ajudado tanto.
– Foi a melhor mentira da qual eu já participei – deu de ombros – você não pode me culpar por querer saber o desfecho dela.
– Eu mando um cartão contando... – zombou, rindo.
– Muito gentil! – o Doutor House sorriu um sorriso breve, e logo suas atenções foram novamente desviadas para o lugar em que, teoricamente, Alice estava enterrada. Era como se seus olhos fossem metais atraídos pelo ímã daquela visão.
O único que restou foi Logan, acompanhado dos sete cachorros. Somente ao ficar sozinho, o psiquiatra permitiu-se aproximar de modo relevante do túmulo de Alice, reparando bem na elegância da pedra de pontas afiadas que tinha o nome da hippie como inscrição. O psiquiatra passou a extremidade dos dedos no mármore, sentindo-o mais frio do que ele realmente era. Sua outra mão segurava firmemente as sete coleiras, como se o seu subconsciente lhe afirmasse que aqueles cachorros eram o único elo palpável que o ligava à memória de Alice.
Ela engoliu em seco, sem saber exatamente o porquê, talvez pela intensidade com que Logan se despedia silenciosamente dela, sem nem desconfiar o quanto a hippie estava próxima e bem viva. Satanás, por um momento, olhou diretamente para o lugar em que Alice estava, e seus olhos se fixaram naquela direção por longos segundos.
A hippie sorriu ao ver de longe aquelas duas gemas brilhantes focando-a, e mais ainda quando Satanás levantou a pata sem qualquer pudor e urinou bem na base de seu túmulo. Ele nunca deixaria de ser a peste incurável que era...
– Seu demoniozinho – riu – só não te dou uma porque...
– ...porque você está morta – House completou antes de engolir alguns comprimidos, quase entediado, munido de uma pontada de ironia.
– Você realmente não acredita que eu seja capaz de me desvencilhar de todo o meu passado, não é? – indagou, quase o desafiando pela sua visível falta de fé em Alice.
– Isso eu só vou descobrir acompanhando o noticiário – piscou, levantando-se com o auxílio de sua bengala, soltando um gemido baixo de dor ao sentir o peso de seu corpo sobre a perna ferida – espero não encontrar nenhuma novidade sobre você nele – deu um meio sorriso, levemente contorcido por causa da dor causada pelo seu esforço recente – Até mais, garota! – despediu-se, caminhando lentamente e com dificuldade pelo cemitério, até que finalmente Alice o perdeu de vista.
– Até mais... – respondeu baixinho, sem nenhuma convicção de que um dia chegariam a se ver novamente. Encarou a gata totalmente jogada em seu colo, sorrindo para ela – parece que agora somos só você e eu, Baguera – acariciou a barriga estufada de sua mais nova companhia, ciente pela primeira vez de que Logan já havia ido embora com os sete cachorros, sem que ela nem ao menos se desse conta.
A hippie respirou fundo, sabendo que já perdera tempo demais naquele cemitério. Precisava pôr um fim de uma vez a tudo aquilo, e deixar que o seu passado fosse enterrado junto àquele corpo que não era seu, mas que até então fora o responsável por manter Alice segura diante daquela farsa.
Já havia se levantado para ir embora, já se sentia estranhamente pronta para abdicar de toda aquela etapa da sua vida e trabalhar por um recomeço. Mas ao invés de se mover, ela estancou. Ficou parada, em pé, vendo um novo rosto se aproximar da lápide acinzentada e plana, e tudo pareceu desabar dentro de si, dizimando toda a curiosa força de vontade que a faria dar o próximo passo para longe de seu passado.
Um senhor alto, de cabelos grisalhos e olhos extremamente azuis, dono de uma postura majestosa e um ar que exalava sabedoria, parou por um momento diante do túmulo de Alice. Ele segurava um único botão de rosa, de pétalas alvas e totalmente abertas. Era a flor mais simples, e ao mesmo tempo a mais delicada dali.
A hippie sabia que reconheceria o dono daqueles olhos intensos mesmo se os visse sem o conjunto de suas feições.
Aldo vestia um enorme casaco preto, que contrastava de forma linda com a flor branca que ainda carregava próximo ao peito. Ele se curvou apenas sobre um de seus joelhos, apoiando o seu peso na outra perna, pressionando-a com a mão, e pousou gentilmente a rosa sobre a grama verde, levantando-se em seguida.
O professor já se retirava do local, indo embora tão rapidamente quanto chegou, mas antes, seus dedos hesitaram um pouco sobre a pedra cinza, e Alice viu seus lábios se movendo em uma despedida que ela daria tudo para ser capaz de ouvir...
Aldo deu uns tapinhas de leve na lápide antes de se retirar, percorrendo exatamente o mesmo caminho que fizera para chegar ali, e sua imagem foi gradativamente sumindo, até se perder de vez atrás de uma das suaves colinas.
Alice ainda ficou alguns segundos parada, mirando fixamente o ponto exato pelo qual o professor desapareceu, como se ainda fosse capaz de vê-lo se afastar. Baguera contornou suas pernas ao som de altos ronronares, fazendo Alice despertar de seu breve transe enquanto a gata ainda se esfregava carinhosamente na pele nua de seu calcanhar.
– Certo, você tem razão! Vamos acabar logo com isso... – Alice assentiu para a gata, como se aquilo fosse uma mensagem para a hippie se apressar.
Ela desceu a colina quase correndo, desajeitadamente, vítima de seu próprio desequilíbrio, enquanto Baguera parecia flutuar de forma ágil sobre a grama baixa ao seu lado. Finalmente chegaram à parte plana do cemitério, e agora Alice realmente corria até sua tumba florida, freando bruscamente ao ficar de frente a ela.
Bruce devia ter gastado uma nota com aquele mármore branco, levemente acinzentado. A sua superfície era extremamente lisa, nenhum atrito se opunha ao escorregamento dos dedos de Alice, apenas o alto relevo da inscrição escurecida do seu nome parecia resistir ao deslizamento tão fácil, tão natural, pela pedra repleta de manchas... era lindo! Uma despedida típica de Bruce...
Ela continuou explorando a própria lápide com os dedos, ajoelhando-se na grama. Sua mão apenas dançava pela elegante pedra, tentando convencer-se de que aquilo não era um fim, mas sim a oportunidade de um novo começo.
Alice parou, intrigada, ao sentir uma estrutura fina enterrada parcialmente na frente do mármore. Assim que percebeu a textura do material entre seus dedos, sentiu que seus olhos se arregalaram de surpresa, e seu peito retumbou num martelar alto... parecia muito com uma carta de baralho...
– Mas o quê...? – a hippie franziu a testa, puxando a carta e tirando o excesso de terra que havia se depositado ali. Sim, sem dúvida era uma carta coringa, e atrás do desenho do bobo da corte, havia um pequeno recado escrito à mão, com uma grafia apertada e quase ilegível:
“Au revoir, Docinho!”
– Que cretino! – Alice exclamou, os lábios entreabertos numa mescla de surpresa e confusão, sentindo seu peito tremer em um riso baixo. Guardou o baralho ainda sujo e úmido em um dos bolsos do sobretudo, e pegou para si a rosa branca que Aldinho depositou tão carinhosamente no chão, como uma última lembrança que levaria consigo de sua antiga vida. Talvez, quando aquela flor secasse e perdesse a brancura altiva de suas pétalas, Alice finalmente se sentiria completamente livre das sombras passadas que certamente a rodearia por algum tempo – Pronta para ir à desforra, Baguera? – levantou-se, já encarando o horizonte com seu próximo destino em mente.
Ainda havia uma última coisa que precisava ser feita antes de Alice sentir-se pronta para fugir.
A delegacia de Gotham ainda era exatamente a mesma desde que Alice escapou de Arkham com Logan. Nada havia mudado... as paredes ainda eram recobertas por várias imperfeições ao longo da pintura, o letreiro também era o mesmo – só que um pouco mais gasto pelo tempo – e certamente a maioria dos policiais devia ocupar o mesmo cargo, ou funções semelhantes. Menos um... o policial Smith, que Alice tanto queria poder reencontrar, agora não passava de um amontoado de carcaça irreconhecível pela explosão.
– Você me espera aqui, tudo bem? Eu não quero que você me veja fazendo o que eu estou prestes a fazer... – Alice se agachou, fazendo um carinho rápido na cabeça da gata – a não ser que queira ir embora – disse, na dúvida, lembrando-se das palavras de Selina.
Baguera apenas encarou Alice com seus olhos grandes e amarelos enquanto sentava-se na calçada, como se assentisse apenas com aquele gesto.
– Boa menina – a hippie sorriu – quando tudo isso terminar, me lembre de te recompensar com um peixe bem gordo! Fica de olho na flor por mim? – pediu, deixando a rosa no chão e fazendo um último carinho na gata.
Alice levantou-se, suspirando ao encarar novamente aquela maldita delegacia. Ela ergueu a gola do seu sobretudo o máximo que pôde, abotoando o casaco até o final, de modo que a metade de seu rosto abaixo do nariz ficasse escondida. Finalmente os seus golpes de Kung Fu serviriam para alguma coisa...
Caminhou até a entrada, com a cabeça baixa e as mãos dentro dos bolsos, sentindo que elas suavam frio pelo que estava prestes a fazer. Sabia que era uma loucura e tanto se arriscar daquela forma, mas ela simplesmente precisava fazer aquilo.
Ajeitando uma última vez o grosso casaco, Alice empurrou a porta do distrito policial, e seus olhos se depositaram friamente sobre um policial gordo sentado em frente a uma mesa repleta de migalhas de rosquinha, que rodeavam uma caixa cheia dos doces. Ela teve que sorrir por baixo do pano... Típica cena! Um policial gordo e desocupado se fartando de rosquinhas em pleno horário de trabalho. Um estereótipo difícil de fugir à regra.
– Boa tarde – ele cumprimentou ao vê-la entrar, passando rapidamente a mão pela boca para espantar os farelos impregnados em sua barba – sinto muito, mas a senhorita terá que voltar mais tarde, nós estamos fazendo um breve recesso – avisou.
– Eu sei! – Alice respondeu com um sorriso largo, porém escondido pela gola que ainda cobria parte de seu rosto – devo supor que os policiais estejam ocupados demais com aquela homenagem militar ao policial Smith, estou certa? – sua voz saia abafada pelo obstáculo à frente da sua boca, mas isso a satisfez. Gostou de perceber que seu timbre estava camuflado pelo casaco, e logo passou a sentir mais confiança quanto aos seus intuitos.
– Isso mesmo, devo pedir que a senhorita se retire por ora. Em breve retornaremos com o atendimento normal – disse, entediado, depositando os pés sobre a mesa e distraindo-se com uma revista qualquer.
– Eu acho que não... – disse, baixo demais para que ele pudesse ouvir. Antes que o policial percebesse, Alice já estava bem atrás dele, imobilizando seus punhos gordos.
– O que diabos você tá fazendo, sua louca? – bufou de raiva e surpresa ao sentir o corpo sendo inclinado para trás à medida que os movimentos de seus braços iam se perdendo por causa daquela simples garota.
– Cala a boca, seu projeto de toucinho! – sussurrou, tirando um revólver preso no cinto que envolvia a enorme cintura do policial, enquanto a outra mão mantinha o aperto inflexível sobre os pulsos do homem fardado – eu vou te soltar agora, e você vai me dar as chaves das celas, entendeu? – perguntou, posicionando a arma um pouco acima da orelha do policial – Qualquer gracinha e eu juro pelo molho especial do Big Mac que aperto esse gatilho! – ameaçou.
O homem apenas assentiu de leve com a cabeça, ficando tenso ao perceber o cano do revólver roçando incomodamente pelo seu cabelo ralo. Ele abriu uma das várias gavetas embutidas na mesa de madeira à sua frente, revirando o conteúdo por poucos segundos e entregando o enorme molho de chaves para Alice, passando-o por cima de seus ombros.
– Agora, me passe aquela algema ali, por gentileza – apontou para a gaveta ainda aberta, onde era possível ver as pequenas correntes cinzas brilharem, refletindo cada ângulo da luz forte da delegacia – e tente fazer isso ainda hoje – resmungou, irritada com a lerdeza do policial.
Assim que pegou a algema, Alice largou a arma no chão e levou o pé esquerdo na altura dos ombros do homem, mantendo sua perna perfeitamente esticada enquanto pressionava o pescoço do policial para frente com a planta do pé e prendia os seus pulsos atrás da cadeira com a algema.
– Você se comportou muito bem, merece uma recompensa – elogiou num tom falsamente animado, inclinando o corpo para perto da mesa e pegando três rosquinhas açucaradas que estavam dentro de uma exagerada caixa branca de papelão sobre a mesa desorganizada do homem – Tome – enfiou, sem qualquer delicadeza, as enormes rosquinhas de uma só vez na boca do policial, que grunhiu alguma coisa ininteligível e ficou imediatamente vermelho de raiva. Metade de uma rosquinha ainda se projetava para fora de sua boca – não precisa me agradecer, só maneire com o açúcar! Se você estivesse um pouquinho em forma, teria sido ágil o suficiente para impedir essa cena grotesca... de verdade, você está parecendo um daqueles porcos assados com uma maçã na boca... lamentável! – comentou, ouvindo-o grunhir um pouco mais alto agora.
Alice abaixou o cap ridículo do policial em seu rosto inflado pelas rosquinhas, de modo que o chapéu impedisse a sua visão. Foi em direção à ala dos prisioneiros, girando o molho de chaves de forma triunfante sobre seus dedos. Ignorou todas as investidas dos presidiários, focando-se apenas ao caminho que ela conhecia tão bem.
A hippie livrou o rosto do casaco que ainda o cobria, sorrindo para Ducard ao encontrá-lo sentado no mesmo canto escuro que sempre se mantinha. Ele ainda não havia notado a presença de Alice, apenas mirava um ponto fixo na parede enquanto parecia submerso em pensamentos que o levavam para longe.
– Acho que você já passou tempo demais aqui – Alice disse, sorrindo ao ver a surpresa preencher seus olhos pasmos – e então, vai ficar me encarando feito um pateta ou vai me ajudar a encontrar a chave certa para abrir a sua cela? – arqueou uma sobrancelha.
– Você deveria estar...
– Morta? – completou, rindo – Para o seu próprio bem, é bom que eu continue morta, senão eu volto para puxar seu pé – disse, concentrada em experimentar a primeira chave. O trinco sequer se moveu...
– Você vai mesmo me soltar? – Ducard perguntou, seriamente intrigado. Alice parou de fazer suas tentativas em abrir a cela, encarando-o por um momento.
– Não, eu só estou aqui arriscando a minha identidade falsa porque descobri que sou viciada em adrenalina e não posso viver sem riscos – revirou os olhos, descartando a última chave e tentando outra – aliás, eu sei que você faria o mesmo por mim... – riu, um pouco alto demais, com a sua própria piada. Sabia que Ducard jamais se arriscaria por ela daquela forma insana, mas mesmo assim, a hippie sentia-se estranhamente comprometida a fazer isso por ele.
Até porque, Alice queria a sua ajuda!
– E qual vai ser o preço por esse resgate? – Ducard se aproximou das grades, estreitando os seus olhos perspicazes na direção da hippie, tentando decifrá-la.
– Assim você me insulta! – ela deu um passo para trás e levou a mão ao peito, fingindo exagerada ofensa, porém era incapaz de esconder o divertimento estampado no brilho de seus olhos – Acha que eu vou cobrar por isso? – falou a palavra com um nojo exagerado – Você não pode acreditar na minha pureza de querer te soltar simplesmente por eu ser uma pessoa virtuosa e bondosa?
– Essa seria a minha segunda opção – ele riu com o teatrinho tosco da hippie, e ela acabou rindo também, voltando a testar as intermináveis chaves... aquilo parecia não ter fim.
– Já que você se recusa a acreditar nas minhas intenções nobres, nós conversamos sobre o preço mais tarde, tudo bem? – sorriu, finalmente conseguindo deslizar a chave certa pela tranca, escancarando a porta da cela para que Ducard saísse.
Ele a analisou por alguns segundos, sem se mover, parecendo colocar na balança se valia a pena assumir aquele compromisso desconhecido em troca de sua liberdade.
– Vamos logo, Ducard – Alice bufou – você é um ninja, esqueceu? Se não quiser me ajudar depois de fugir daqui, é só desaparecer e me deixar falando sozinha, que nem você ensinou ao Batman como fazer...
– Eu vou te ajudar – disse ao dar o primeiro passo para longe daquele inferno que o abrigou por tantos anos, e sorriu por finalmente se ver livre daquelas incômodas grades.
– Maravilha, vamos cair fora daqui então! – puxou sua mão, andando com pressa.
Todos os demais presidiários batiam em suas celas e berravam ao se dar conta da isolada fuga, fazendo um escarcéu digno de uma rebelião. Contudo, os dois apenas corriam para a saída, desprezando a revolta dos outros por serem deixados para trás. Ducard riu maldosamente ao ver o guarda preso na cadeira e cheio de pedaços de rosquinha saltando de sua boca.
– Obrigada pela sua ajuda tão espontânea, colega! – Alice agradeceu ironicamente ao guarda, jogando o molho de chaves em sua direção enquanto ainda corria. O metal caiu no chão, provocando um som agudo ao encontrar o piso – E da próxima vez, tente não morder mais do que você consegue mastigar – gritou por cima do ombro em referência às enormes rosquinhas que o impediam de falar, já saindo da delegacia com Ducard logo atrás.
Eles se entreolharam com um meio sorriso quando finalmente pararam de correr, começando a rir descontroladamente. Alice ainda podia sentir todo o corpo tremer com o nervosismo de que algo pudesse dar errado nesse improvável resgate, e só agora seu coração parecia se normalizar aos poucos, à medida que sua respiração ofegante também se estabilizava.
– E então, você não vai me explicar o porquê de tudo isso? – Ducard perguntou, analisando cada expressão de Alice, que ia do alívio ao contentamento.
– Agora não, e muito menos aqui – disse, olhando brevemente para os lados – por mais que eu ache que aquele policial inútil ainda vai ficar um bom tempo preso, é melhor não nos arriscarmos ficando tão próximos da delegacia – comentou, pegando uma flor branca do chão e passando a mão carinhosamente em uma gata negra, que começou a segui-los assim que eles retomaram um ritmo mais calmo dessa vez.
Eles caminhavam despreocupadamente pelos becos de Gotham, escolhendo os caminhos alternativos por se sentirem mais seguros em meio à escuridão, acolhendo de bom grado as vielas desertas. Alice segurava com força a rosa perto de si, encarando-a com um tipo de adoração entristecida.
– Sabe... – ela começou a falar depois de vários passos em completo silêncio – eu te tirei da cadeia por dois motivos – explicou casualmente, hesitando um pouco – o primeiro, e menos relevante, foi porque eu quis te dar a mesma chance que eu recebi, a de recomeçar – parou de falar, ainda fixando o seu olhar nas pétalas.
– E o segundo...? – Ducard a incentivou a continuar ao perceber que o silêncio se arrastou entre eles.
– O segundo motivo desmente o primeiro – riu – e é o motivo verdadeiro... eu quero ir com você até a sede da Liga das Sombras – lançou, reparando no brilho azulado de seus olhos, sem saber exatamente como traduzi-los.
– E qual o seu interesse na Liga? – perguntou, sem esconder o quanto aquele assunto o instigava.
– Na verdade, nenhum... eu não tenho intenção alguma de entrar para essa sociedade de guerreiros ninjas ou sei lá o quê – disse, gesticulando amplamente enquanto falava – o meu foco é receber o treinamento que você dá àqueles que querem fazer parte da Liga, mas sem assumir qualquer tipo de compromisso com essa instituição – explicou.
– Ninguém que não tenha intenção de se juntar à Liga pode receber o treinamento.
– Bom, por tudo o que você me contou enquanto nós dois dividíamos a mesma cela, Bruce também nunca teve o intuito de se juntar à Liga, e só você pareceu não perceber isso desde o início. Bruce só queria armas para se vingar do assassino que matou os seus pais, ele só queria o treinamento, assim como eu.
– E quais são as razões que te levam a buscar apenas a destreza dos ninjas, sem recompensá-los com as suas habilidades adquiridas?
– É complicado – suspirou – não se trata de vingança, isso nem seria possível... é mais o que eu chamaria de precaução.
– Precaução do quê, exatamente? Você foi dada como morta, Alice – lembrou – essa foi a melhor precaução que você poderia ter tomado.
– Olha, Ducard, se teve uma coisa que eu aprendi no meio do fogo cruzado entre Batman e Coringa, é que dois raios podem sim cair no mesmo lugar. E tudo o que eu quero é evitar ser atingida novamente – explicou, de forma vaga – eu quero ser capaz de me defender sozinha, de ser auto-suficiente nas brigas que eu arranjo, e não precisar mais me esconder atrás de ninguém.
– Entendo... e por que você diz que a vingança não é uma opção? – seus olhos faiscaram mais uma vez.
– Primeiro porque aquele que merecia a vingança está morto – disse, pensando em Smith com desprezo – e segundo porque eu realmente quero dar um fim a essa parte da minha vida, e uma vingança só serviria para fazer o meu passado me consumir ainda mais. Eu quero ser capaz de “reencarnar” em meu próprio corpo, como se essa fase não passasse disso: de uma outra vida distante que já acabou.
– Mas mesmo o conceito de reencarnação sugere que a nova vida carregue alguns carmas da vida passada, até que eles se resolvam – lembrou, sorrindo para ela. Alice quase havia esquecido o quanto Ducard era persuasivo, e o quanto parecia esbanjar sabedoria em suas palavras e expressões eloquentes, por mais que fosse uma sabedoria com um leve quê de crueldade.
– Não me confunda com esses seus ensinamentos ninjas assustadores – a hippie pediu, rindo – só me diga se você pode me ajudar ou não, mas antes de responder, leve em consideração que eu arrisquei toda a minha farsa e liberdade para soltá-lo da cadeia, e claro, não se sinta pressionado a aceitar o meu pedido, mesmo sabendo que seria uma enorme traição de sua parte! – sorriu simpaticamente.
– Eu já disse que a ajudaria – Ducard respondeu, com uma expressão séria – agora só resta saber se você é capaz de passar pelo treinamento. Você está disposta a enfrentar a exaustão, a vontade de desistir, a raiva, o ódio? – seus olhos brilharam daquele mesmo jeito macabro e ao mesmo tempo envolvente, intensos em cada brilho – E o mais importante, você está disposta a enfrentar a si mesma?
– Onde eu assino, Mestre? – sorriu largamente para ele, deixando que sua aparente satisfação falasse por si mesma, como uma confirmação precoce àquelas perguntas, das quais nem ela mesma possuía a convicção das respostas.
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