BELA

A música bate-estaca soa na mesma batida que o meu coração. Posso sentir o baixo batendo dentro do meu peito_tum tum. É difícil enxergar à minha volta com tantos corpos se contorcendo,ainda mais com a névoa de gelo seco e as luzes bruxuleantes do teto do clube,que criam uma atmosfera um tanto hostil.

Mas sei que ele está aqui. Posso senti-lo.

É por isso que sou muito grata a todos esses corpos que se contorcem em volta de mim. Eles me mantêm longe da visão dele_e ainda disfarçam a minha presença. Caso contrário,ele já teria sentido o meu cheiro. Eles conseguem detectar qualquer rastro de medo a uma distância enorme.

Não que eu esteja com medo,porque não estou nem um pouco.

Bom,talvez um pouco.

Mas trago uma arma comigo: a minha besta Excalibur Vixen 285FPS,com uma flecha Easton XX75 de quase 70 centímetros (a antiga ponta de ouro foi substituída por uma feita a mão),pronta para ser lançada com um simples toque do meu dedo.

Ele nunca vai saber o que o atingiu.

E com sorte,nem ela.

O mais importante é dar um tiro certeiro_ o que não será fácil com tantas pessoas aqui_e fatal. É bem provável que eu só tenha uma chance para atirar. Então,ou eu acerto o alvo...ou ele me acerta.

–Aponte sempre para o peito_mamãe costumava dizer. -É a parte mais larga do corpo,um alvo difícil de errar. É claro que é mais fácil matar do que machucar quando você mira no peito,em vez de mirar na perna ou no braço...mas para que machucar,não é? A ideia é acabar com eles.

E foi para isso mesmo que vim aqui esta noite. Para acabar com eles.

A Rosalie vai me odiar quando descobrir o que aconteceu de verdade....e ainda mais quando souber que fui eu que fiz tudo aquilo.

Mas também o que ela queria que eu fizesse? Não é possível. Será que Rosalie achava que eu ia ficar parada assistindo ela jogar sua vida fora?

–Conheci um cara_disse ela no almoço hoje enquanto estávamos na fila do bufê de saladas.-Meu Deus,Bela,você não vai acreditar no quanto ele é fofo. O nome dele é Edward. Ele tem os olhos mais azuis que você já viu.

O que as pessoas não entendem sobre a Rosalie é que,por trás daquela aparência_temos que admitir_de vagabunda,bate o coração de uma amiga verdadeira leal. Ao contrário das outras meninas de Santo Afonso,Rosalie nunca me tratou mal por meu pai não ser um megaempresário ou cirurgião plástico.

Tudo bem,admito,eu tenho que filtrar mais ou menos três quartos do que ela fala porque,em sua maioria,são assuntos que não me interessam_tipo,o quanto ela pagou pela bolsa Prada na liquidação da Souks,e qual a tatuagem tosca que ela quer fazer quando voltar ao Caribe.

Mas essa nossa conversa realmente me deixou encucada.

–Rose_perguntei_,e o Jasper?

Afinal,Jasper era seu principal assunto desde que ele finalmente criou coragem de chamá-la para sair no ano passado. Quer dizer,era o principal assunto ao lado das bolsas PRADA em liquidação e da tatuagem na parte inferior das costas.

–Ah,isso já era_disse Rose,selecionando as folhas de alface com o pegador. — O Edward vai me levar para sair hoje à noite,vamos ao Star. Ele disse que consegue nos colocar lá dentro ....ele está na lista VIP.

Não foi o fato de esse cara,seja lá quem fosse,dizer que estava na lista VIP.

Não foi o fato de esses cara, seja lá quem fosse,dizer que estava na lista VIP da boate mais nova e exclusiva do centro de Manhattan que me fez sentir calafrios. Não me entendam mal:Rose é linda. Se alguma garota tiver que ser, de repente, abordada por um estranho que diz estar na lista VIP mais cobiçada da cidade,essa garota tem que ser a Rose.

Foi a situação com o Jasper que me deixou intrigada. A Rose adora o Jasper. Eles são aquele típico casal perfeito da escola. Ela é linda, ele é um atleta admirado...é uma união no paraíso hormonal.

E é por isso que aquilo que ela estava me contando não batia.

–Rose,como você pode simplesmente dizer que já era?_indaguei.-Vocês estão juntos desde sempre. Ou pelo menos desde quando eu cheguei no ensino médio do Santo Afonso, em setembro, quando Rose foi a primeira menina da sala que falou comigo. -E ainda tem a formatura neste fim de semana!

–Eu sei_disse Rose com um suspiro contente.-O Edward vai me levar.

–Ed...

Foi aí que eu entendi. Entendi tudo.

–Rose_disse eu_,olha para mim.

Rose então baixou seus olhos. Afinal eu sou baixinha. Baixinha, mas bem rapidinha,como minha mãe costumava dizer. E então eu percebi aquilo que eu devia ter me dado conta assim que ela apareceu com aquela expressão sutilmente apagada_os olhos entorpecidos..a boca mole_que,depois de tanto tempo, eu já sabia muito bem reconhecer.

Não dava para acreditar. Ele havia atingido a minha melhor amiga. A minha única amiga.

Pois bem. O que eu ia fazer agora? Ficar sentada e deixá-lo agir?

Não,isso não. Dessa vez, não.

Era de se esperar que uma garota com uma arma daquele tamanho no meio da pista de dança da mais nova e badalada boate de Mannhattan. Além disso,todos estão se divertindo muito para me notar. Até mesmo....

Ai, meu Deus. É ele. Eu não acredito que estou vendo o cara em carne e osso..

Na verdade, é o filho dele.

Ele é mais bonito do que eu achei que fosse. Ele tem cabelos dourados e olhos verdes, os lábios perfeitos como os de atores de cinema e os ombros bem largos. Ele também é alto_assim como a maioria dos meninos é, comparando ainda mais comigo.

Se ele for um pouquinho parecido com o pai dele,então eu entendo. Finalmente, eu entendo.

Pelo menos eu acho que sim. Eu ainda não....

Ai,eu não acredito. Ele sentiu o meu olhar. agora está se virando para cá....

É agora ou nunca. Então eu ergo a arma. Adeus, Edward Masen. Adeus para sempre.

Quando eu finalmente tenho a camisa branca dele sob a minha mira, algo inacreditável acontece: uma explosão vermelho-cereja surge exatamente na frente do ponto que eu estava mirando.

Acontece que eu nem puxei o gatilho.

E a espécie dele não sangra.

–O que é isso,Edward?_pergunta Rose,movendo-se na frente dele.

–Droga!Alguém..._Eu observo Edward tirar o olhar esverdeado e espantado da mancha escarlate em sua blusa e direcioná-lo para Rose.-Atiraram em mim.

Verdade. Alguém realmente atirou nele.

E esse alguém não fui eu.

Porém, não é só isso que não faz sentido. Ele está sangrando.

Isso não é possível.

Sem saber o que fazer,me escondo atrás de uma pilastra,abraçando a arma contra o meu peito. Preciso me reestruturar e pensar nos meus próximos movimentos. Nada disso pode estar acontecendo de verdade. Não é possível que eu tenha me enganado quanto a ele. Eu fiz a pesquisa. Tudo faz sentido...O fato de ele estar aqui em Manhattan... o fato de ele ter procurado a minha melhor amiga, entre tantas outras pessoas...a expressão distante de Rose...tudo.

Tudo,menos o que acabou de acontecer.

Eu vou simplesmente ficar aqui,parada,olhando. Tive o tiro perfeito ao meu alcance,mas não acabei com ele.

Ou acabei? Se ele está sangrando,então é porque ele é humano. Não é?

Só que,se ele é humano e levou um tiro no peito,por que ele ainda está em pé.

Meu Deus.

O pior de tudo é que...ele me viu. Eu tenho quase certeza de que o olhar vil dele passou por mim. O que ele vai fazer agora? Virá atrás de mim? Se vier, a culpa é toda minha. Mamãe me disse para nunca fazer isso. Ela sempre dizia que uma caçadora não trabalha sozinha. Por que eu não dei ouvidos a ela? No que, exatamente, eu estava pensando?

É este o problema,é claro. Eu não pensei em nada,deixei que minhas emoções me guiassem. Eu não podia deixar que Rose passasse pelo que mamãe passou.

E agora vou ter que pagar por isso.

Assim como mamãe pagou.

Agoniada,tento não pensar sobre a reação de papai ao receber a polícia de Nova York às quatro da manhã pedindo que ele vá ao necrotério a fim de identificar o corpo de sua única filha. Minha garganta estará exposta,e sabe-se lá que outras atrocidades terão sido feitas em meu corpo trucidado. Tudo porque eu não fiquei em casa hoje à noite fazendo o meu trabalho de história dos Estados Unidos para a Sra. Platt, como eu deveria ter feito

Uma nova música começa. Escuto Rose berrar:

–Aonde você vai?

E agora? Ele está vindo.

E ainda faz questão que eu saiba que ele está vindo. Ele está brincando comigo agora....assim como seu pai brincou com a minha mãe,antes que ele...Bem,antes de fazer o que ele fez com ela.

Então, eu escuto um som estranho seguido por outra exclamação:

–Droga!

O que está acontecendo?

–Edward._A voz de Rose demonstra espanto.-Tem alguém atirando ketchup em você!

O quê? Ela falou...ketchup?

Eu me viro cuidadosamente para o outro lado da pilastra a fim de checar o que Rose havia falado, e então eu o vejo.

Não o Edward. O atirador.

Eu mal posso acreditar nisso.

O que ele está fazendo aqui?