Notas iniciais
Oi, filhotes! Como estão? Capítulo novo! Vamos ver se Madalena irá se pronunciar.

Diário do Berg

Depois que eu terminei o meu namoro com a Madalena, senti que havia tirado uma baita de uma pedra de cima das minhas costas — e um chiclete grudento no meu sapato.

Juro a vocês que a minha intenção não era magoá-la, mas teve de ser assim, afinal não fui consultado sobre esse namoro (e ainda mais porque vale mais ser forever alone do que ter uma pedra no sapato). Pus então na minha cabeça que o motivo de ela ter inventado aquela baboseira toda foi uma espécie de amor à primeira vista.

Bom, só sei que naquele momento eu estava solteiro (por enquanto) e o meu caminho de encontro à Valentina estava mais perto do que nunca. Certo que eu só troquei algumas palavras com ela naquele dia, porém meu desejo de estar perto dela não fazia precisão de qualquer palavra. No entanto, eu sabia que teria de ter coragem de ao menos falar um “oi” e ter pelo menos a amizade dela.

Cheguei bem perto dela algumas vezes, como quando íamos pegar o lanche na hora do intervalo naquela fila imensa. Ela sempre estava lá, seu sorriso doce, rindo a toa e esbanjando felicidade. Burro como sou, voltava, e perdia qualquer coragem. Minhas pernas ficavam bambas e o meu coração acelerava em ritmo de escola de samba. Sem contar minha mão que gelava como a de um vampiro. Será aquele o significado da palavra amor?

Devido a essa timidez, fiquei praticamente um mês ensaiando minhas palavras, escolhendo os assuntos dos quais deveria tratar com ela e ouvindo muito rock clássico. Comprei até uma camisa do Nirvana pra mim e outra pra ela e finalmente senti que estava pronto pra tomar uma iniciativa.

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Diário da Madalena

Percebi que naquele dia o Berg foi mais arrumado pra aula. Tinha uma camiseta de banda em mãos e parecia aflito. Será que ele estava arrumado pra mocreia pela qual ele me trocou?

Fiquei sabendo que ele estava louco procurando a Valentina Palhares do 6º ano dentro daquela escola. Peguei a mocreia. Infelizmente, antes de eu dar aquela surra nela, fiquei sabendo também que ela havia saído da escola. Sorte dela.

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Diário do Berg

Música: Nx Zero — Razões e Emoções ¹

Como assim saiu da escola? Ave Maria ao quadrado! Poxa, eu chorei tanto naquele dia! Minhas lágrimas caíam sobre a foto do Kurt Cobain estampada naquela maldita camisa, indicando o resultado da minha falta de sorte. Só sei que a partir dali minha vida não fez mais sentido algum.

Andava angustiado pelos cantos da casa, e não comia nada. Minha mãe estava preocupada.

— Berg você tem que comer. Já é só o osso, quer morrer de fome, menino?

Morrer... Não seria uma má ideia. Naquele mês de verdadeira preparação eu fiz até planos para o meu futuro com minha princesinha... Coisas do tipo, de me casar com ela e termos dois filhos, gêmeos. Queria fazer dela a garota mais feliz do mundo! Mas acabou tudo.

Às vezes eu queria voltar no tempo. Como não podia, saía caminhando no meio da rua, sem rumo. Acabava parando na parte do meu bairro onde ela morava: descobri que ela havia ido embora devido o estado de saúde de sua madrinha que morava no interior. E se a madrinha dela estava doente, eu também estava. Certo dia acabei desmaiando em plena sala de aula.

— Ele está gelado. Deve ser pressão baixa. — disse alguém, acho que era o professor Pierre.

— Tá tudo bem. — meio zonzo, dei sinal de vida.

Meus pais, cansados de ouvir os meus lamentos sobre o quanto eu odiava tudo naquela escola, e com o orçamento mais folgado, disseram que me colocariam de volta na minha antiga escola que eu tanto amava. Porém, eu não aceitei.

— Como assim, não quer mais sair da São Benedito?!

— Acabei me acostumando com lá, pai. — respondi.

Na verdade eu queria sair de lá, mas a São Benedito me trazia boas lembranças da Valentina e aquilo pra mim era um ataque de nostalgia instantâneo.

Entre razões e emoções a saída...
É fazer valer a pena.
Se não agora, depois não importa
Por você, posso esperar!

O resto do ano foi normal. O John e os colegas deles me enchiam o saco e as meninas da minha sala, inclusive a Madalena, me evitavam (como sempre).

Ela disputava comigo a atenção dos professores: eles faziam a pergunta e ela ia logo levantando a mão. Eu não me importava com isso, se isso a fazia feliz, tudo bem.

Madá estava bem popular, para uma menina de aparência como a minha (nerd). E eu só acreditava que um dia quem sabe a Valentina iria voltar. Ficava só escutando Nirvana e pensando nela. Estar naquela escola, saber que aquele era o mesmo ar que ela respirou, me dava esperanças para uma possível volta dela.

Eu andava tão estressado por aqueles dias por causa de tudo aquilo que estava acontecendo, meus hormônios fervilhando e tudo mais, que acabei fazendo uma burrada: eu era meio preguiçoso e sentava sempre com as pernas esticadas. Até aí tudo bem, eu não era o único e aquilo não era errado. O tal do John queria passar e não pediu com licença nem nada, saiu chutando as minhas pernas. Só que comigo é assim: bateu, levou, e eu meti outro chute nas canelas desse infeliz que ele caiu de cabeça no chão. Quando ele levantou, apareceu um chifre enorme na testa dele. Parecia um touro; pior: um touro furioso!

Nunca tinha dado trabalho em colégio nenhum, mas eu fiquei bastante feliz pela professora ter me mandado para a sala da diretora, mesmo eu não sabendo como era o sistema lá. Levei uma bronca de mais ou menos meia hora e uma advertência bem legal. Pelo menos eu saí de dentro da sala.

Em casa eu continuava desenhando. Naquele dia, apesar do medo de ter que enfrentar o John no dia seguinte, eu fiz vários desenhos da Aeon Flux. Sabia que aquela de fato não era a Aeon, e sim a Valentina que deveria estar em algum lugar do grande Ceará. Eu suspirava, as lágrimas caíam. O vizinho colocara uma música alta. Era um acústico do Kid Abelha, que dizia:

Eu perco o sono e choro,
Sei que quase desespero
Mas não sei por quê
A noite é muito longa,
eu sou capaz de certas coisas que eu não quis fazer...

— Quem foi o filho da puta que colocou essa música? Quer acabar de ferrar comigo é? — gritei da janela da minha casa para a casa do vizinho. Ele aumentou o volume. — Ah, é? Aumenta o volume, seu infeliz! Eu sei que a Valentina não vai voltar, mas isso não lhe dá o direito de ferrar comigo! Só eu posso ferrar comigo mesmo ta legal?

Fechei a janela e não deu mais para escutar a música do vizinho. Mas o que você faz quando está numa crise sentimental, a famosa “fossa”? Opção 1: sair com a galera pra se divertir? Opção 2: Colocar uma música pra ferrar mais ainda com tudo? Acertou quem pensou que eu escolhi a opção 2!

Os fones de ouvido do meu MP3 eram potentes. De vez em quando eu ia à lan house (na época eu não tinha PC) e enchia o meu mp3 de músicas que me lembravam dela. Uma delas era essa:

“Quero que a estrada venha sempre até você
E que o vento esteja sempre a seu favor
Quero que haja sempre uma cerveja em sua mão
E que esteja ao seu lado seu grande amor” ²

Enquanto saía alguns rabiscos do meu lápis para a folha do meu caderno, (eu sempre desenhava nas últimas folhas da última matéria) as lágrimas desciam mais ainda no meu rosto e molhavam o papel. Sempre que eu escutava essa música eu me lembrava dela (só por que eu a tinha visto com uma camisa do Matanza algumas vezes), mas chorar daquele jeito eu nunca havia chorado por ninguém.

— Por que a vida é tão injusta hein? Eu só posso ter jogado pedra na cruz! Ave Maria ao quadrado! Não, elevada a décima sétima potência! Valentina... Valentina...

Chorei até dormir com o rosto em cima do caderno.

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Diário da Ludi

Olá, pessoas. Essa é a primeira vez que escrevo aqui. Espero aparecer algumas vezes mais nessa história. Vou falar um pouco de mim e da minha amizade com o Berg.

Ele foi a primeira pessoa a saber da minha opção sexual, esta já resolvida por mim desde criança. Nunca me senti atraída por rapazes (já apareceram muitos bons pretendentes na minha vida e eu negava todos). Lembro bem que naquela época só todos já sabiam da minha opção, menos minha mãe, Dona Maria. A mãe do Berg, Dona Hilda, inclusive, sabia tanto que o proibia o filho de falar comigo e o fazia cortar relações com a minha pessoa. Enfim, ele não a obedecia.

Meu primeiro beijo não foi com uma garota, e sim com um rapaz, em 2007; Este me roubou um beijão e levou uma tapa na cara. Eu ainda estava me descobrindo e, naquele mesmo ano, “fiquei” com a filha do dono da mercearia perto da minha casa. Apenas o Berg sabia daquilo.

E do mesmo jeito que eu contava tudo pra ele, ele era confidente a mim, e confessou que não estava mais gostando da sua namorada atual (Madalena), e sim de uma garota que havia pirado o seu cabeção: a misteriosa Valentina Palhares. Eu via que o pobre coitado passara um tempão sem comer e acabou passando mal no colégio. Claro que era por culpa da Valentina.

Nunca me dei bem com a Madalena Feitosa. Ela não era o tipo de pessoa perfeita para se manter um relacionamento sério, e sim um baita chiclete no sapato, como o próprio Berg se referia a ela.

Quanto ao John Lennon, o valentão alfa do colégio, o Berg deveria rezar naquele momento. Lembro que quando meu amigo deu-lhe um safanão em suas canelas e ele caiu no chão, o coitado ficou jurado de morte dentro daquela escola. John era frio e calculista. O tempo passou e Berg acabou esquecendo; mas o John, não.

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Diário do Berg

Eu até tinha pensado que o John havia esquecido o episódio do galo na cabeça, porém ele passou a ser zoado por todos na escola (inclusive pelos outros nerds, que me idolatraram por eu ter batido no John). Coisas desse tipo:

— John, ta na hora de se aposentar, cara!

Outro falava isso:

— Apanhar do Berg é sacanagem! Olha só o “muque” do cara!

Enfim, ele estava perturbado com os comentários, mas eu continuava de boa, tranquilo. Já havia se passado tanto tempo!

Ludi estava faltando às aulas naquela semana, e eu, em consequência disso, ia e voltava do colégio sozinho, prato cheio para um sequestro, ou uma vingançazinha básica.

Vinha eu descendo a rua de volta para casa quando, na esquina, vi o dito cujo mais dois dos seus mancomunados esperando por algo (eu) e sentados na calçada da panificadora (que naquela hora, cinco e quinze da tarde, já estava fechada).

Pô, foi a maior surra da minha vida. Acho que foi, porque antes do primeiro soco eu desmaiei de medo. Acordei depois de muito tempo no hospital.

Notas finais
E agora, Berg? ¹ - essa música do Nx Zero é a cara de 2008. Tocou tanto na rádio que enjoou. Depois veio Cedo ou Tarde, etc... ² - Letra de Tempo Ruim - Matanza Acostumem-se com as referências musicais rsrsrs