A Excluída
14 PARTE 2 O passeio
Depois que Daiana se mudou uma esquina acima da minha casa, ela passou a me acompanhar todos os dias no caminho para a escola. Logo eu percebi que ela conversava muito mais que eu. Falava sobre sua cidade antiga e o que estava achando de Lagoa Azul, dos professores, da escola e dos meninos mais bonitos da sua sala. Eu só respondia aham, é, verdade, que bom, legal e coisas assim. Não tinha muitos assuntos que seriam interessantes pra ela.
Depois que nossos caminhos se separavam, pensava muito em como era conversar com alguém que não fosse Lana ou David. Eu nunca sabia como responder tudo que Daiana falava. Tinha medo de falar mais do deveria e perder a atenção de uma estranha, o que eu estava começando a gostar.
Mais um dia de aula passou e mais uma vez, eu e Daiana fomos embora juntas.
—Ah você não sabe o que aconteceu! – ela começou mais uma conversa histérica – o Eric olhou pra mim! Mas depois o Michel também olhou e agora eu não sei qual eu escolho! Ah mas eu esqueci que você não conhece eles! Oh, e a professora de física! Quem aquela professora acha que é? Não sabe explicar nada! Eu de boa lá vendo se minha sombra tava borrada depois ela quer que eu faça aquelas continhas de Hertz? Continhas não, porque aquilo é enorme e muito difícil! Nossa, quase que eu esqueço, me falaram que a sorveteria Gelo Bom é muito boa. Você não quer ir tomar um sorvete comigo?
—Eu? – eu assustei quando ela se dirigiu diretamente a mim – eu... faz tempo que eu não tomo um sorvete. Eu quero sim, obrigada.
—Tá bom, tá bom – Daiana disse animada – então você me encontra lá quatro horas, pode ser?
—Pode sim, eu vou lá – respondi um pouco mais animada.
Daiana me disse tchau enquanto eu não podia acreditar que tinha recebido um convite como aquele. Poderia dizer o convite de uma amiga? Bem, pra mim ainda era um pouco cedo pra dizer.
**
No horário combinado, saí de casa sem me preocupar muito com a minha aparência. Meu cabelo sempre estava numa trança e eu sempre usava calça jeans, camiseta e tênis.
Eu cheguei à sorveteria e lá estava Daiana. Ela ainda não tinha comprado nenhum sorvete.
—Tava esperando você – ela me disse – vamos lá escolher o sorvete.
Nos levantamos e escolhi duas bolas de chocolate e floresta negra. Daiana escolheu flocos e creme.
—Ah eu gosto de chocolate – ela comentou olhando minha combinação – mas é bom não exagerar porque dá espinha,
—Certo – disse constrangida e nos sentamos.
Eu a observei colocar fones de ouvido enquanto eu tomava meu sorvete.
—Já escutou o Juninho Bárbaro? – Daiana perguntou um pouco mais alto – ele é muito lindo e a franja dele... peraí!
Ela tirou os fones.
—Algum problema? – me arrisquei perguntar,
—Parece que esse fone não presta mais! – ela reclamou.
—Eu... posso dar uma olhada? – perguntei.
—Pode – ela disse sem ligar muito.
Eu abri as extremidades dos lados dos fones e percebi que havia um fio fora do lugar. Não adiantaria empurrar os fios com o dedo, então peguei a chave de casa que estava comigo. Uma pequena pressão faria os fios ficarem no lugar. Assim, usei a chave pra coloca-los de volta no lugar e fechei os lados dos fones.
—Acho que isso deve resolver – eu devolvi os fones pra ela.
Ela os colocou de volta.
—Não acredito! – Daiana exclamou – Tá tocando normal! Valeu!
—De nada – não pensei em nada melhora para responder – não foi nada. É bem fácil consertar isso.
Quando me dei conta, estava tagarelando sobre como aparelhos eletrônicos funcionam. Mais tarde percebi a careta de Daiana. Ela se levantou de repente, me dizendo tchau.
Naquele momento eu não entendi porque ela foi embora do nada, mas dependendo do ponto de vista, não foi tão ruim assim.
Eu tinha acabado de sofrer mais um tipo de rejeição.
Fale com o autor