A Excluída
12 PARTE 2 A conversa com David
Eu e David éramos melhores amigos e os únicos amigos que tínhamos. Todos os dias, na hora da saída, havia alguém pra nos perturbar e nos colocar pra baixo. Por isso, eu e ele arrumamos um esquema para sairmos de fininho, sem sermos percebidos. Perto do sino bater, andávamos até a porta da sala e à primeira nota do som do sino, saímos correndo pelo corredor da escola e não parávamos até estarmos numa distância segura.
Eu nunca pensei em fazer isso antes, a ideia foi toda de David, que fazia isso na sua escola antiga.
—Acho que hoje batemos o recorde – ele disse depois que recuperamos o fôlego – daqui a pouco eles vão achar que ficamos invisíveis ou nos tele transportamos.
—Eu fico com a segunda opção – eu disse quietamente – já que eu já sou a primeira.
—Ei você não é invisível – ele me olhou, com as sobrancelhas unidas – eu estou te vendo.
—É, eu sei – consegui sorrir.
—Lilian – David me chamou meio hesitante – vai... fazer alguma coisa agora?
—Nada, só tarefa de matemática – eu respondi – mas você não precisa da minha ajuda. Consegue fazer sozinho.
—É, mas – ele pareceu perder as palavras – eu podia... a gente podia fazer a tarefa juntos.
—Tudo bem – acabei concordando – você quer ir na minha casa?
—Pode ser – David sorriu e me seguiu até minha casa.
**
Quando chegamos, encontramos meu pai, que tinha acabado de chegar do trabalho, e em seu rosto estava a inseparável expressão mal humorada.
—Quem é esse Lilian? – ele olhou David de cima a baixo.
—Meu... colega de classe David – respondi – ele veio fazer a tarefa de matemática comigo.
—Ah, tá bom – meu pai disse e saiu.
—Ele é sempre assim? – sussurrou David pra mim.
—Isso é só o começo – sussurrei de volta desanimada.
Sentamos à mesa da cozinha e assim que abrimos nossos livros e cadernos, Lana veio correndo de seu quarto.
—Lilian! – ela me abraçou.
—Oi Lana – eu sorri para minha irmãzinha.
—Oi quem é você? – ela se referiu a David.
—Eu sou David Loxtraide – meu amigo respondeu – e você é a Lana.
—Como você sabe? – minha irmã ficou desconfiada.
—Porque foi esse nome que Lilian te chamou – ele riu e Lana riu com ele.
—Ela é minha irmã – eu expliquei.
—Lilian – Lana chamou novamente – queria te mostrar meu desenho.
—Ah deixa eu ver – peguei a folha de papel que ela me entregou.
Havia uns rabiscos no chão e umas linhas curvas em volta se encontrando. Do lado, havia um bonequinho de palitos com cabelos arrepiados. Devia ser menina por causa da saia.
—É uma das meninas malvadas da sua sala levando um choque da sua armadilha – Lana me explicou alegremente.
David teve sua curiosidade despertada.
—De onde ela tirou isso? – meu amigo perguntou, observando o desenho.
—Eu não sei, não é nada! – me desesperei – nada importante, nada mesmo.
—Mostra os desenhos pra ele Lilian! – Lana insistiu.
—Que desenhos? – David ficou ainda mais curioso.
—Certo – perdi a paciência – é disso aqui que ela está falando.
Abri meu caderno e de lá tirei várias folhas. Meus desenhos nelas eram esquemas das armadilhas para patricinhas e valentões.
David os observou e entendeu o que eles eram rapidamente.
—A gente podia fazer um desses! – ele exclamo.
—Não, não – eu balancei a cabeça – eu... fiz alguns deles mas... minha última invenção não deu muito certo. É melhor fazer a tarefa.
—Tudo bem então – David ficou um pouco menos animado – quem sabe depois posso dar uma olhada nas suas invenções.
—É – eu suspirei – quem sabe.
Encerramos o assunto das invenções e começamos a fazer a tarefa em silêncio.
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