A Excluída

15 PARTE 2 O aviso de David


Eu fui pra casa depois que Daiana foi embora. Durante todo o caminho, eu pensei no que aconteceu. Por que ela tinha ido embora tão de repente? Quando cheguei em casa, encontrei Lana e David na mesa da cozinha.

—O que tá fazendo aqui? – perguntei a David.

—Ah oi Lilian – ele ficou meio sem graça – eu vim aqui e seus pais não quiseram me atender. Aí a Lana me chamou pra entrar e disse que você tinha saído com uma tal de Daiana.

—Lana não era pra contar! – repreendi minha irmã.

—Que foi? – ela estranhou eu estar um pouco nervosa.

—Ah deixa pra lá – eu me sentei com eles.

—Não foi tão bom o seu passeio? – David me perguntou.

—Eu não sei – suspirei – tudo estava indo bem. Bem, tirando a ladainha sobre chocolate e espinhas e um tal de Juninho Bárbaro.

—Ah eu sei quem é – David disse com desprezo – A Lúcia, minha irmã mais velha, vive ouvindo esse cara, ele nem sabe cantar.

—Bom a Daiana estava ouvindo o tal do Juninho Bárbaro e o fone de ouvido dela parou de funcionar – continuei contando – eu me ofereci pra consertar e acabei explicando como é que ele funcionava. Depois que eu terminei ela simplesmente se levantou e foi embora.

—Eu sei exatamente o que aconteceu Lilian – David disse com um olhar distante – passei por isso uma vez.

—Como assim? – fiquei curiosa e prestei atenção na sua história.

—Eu tinha 11 anos – meu amigo começou – tinha mudado de escola. Era a hora do recreio e eu estava procurando um bom lugar pra sentar e desenhar. E eu vi uma árvore grande com uma sombra gostosa perto do campo de futebol. Eu então sentei debaixo da árvore com o meu caderno e lápis e comecei a desenhar. De repente, a bola do jogo me acertou. Eu tentei sair dali o mais rápido possível só que o menino que chutou a bola veio pedir desculpa. Ele se chamava Alan. Depois disso, ele começou a andar comigo. E depois de um tempo, ele passou a me evitar. Na época eu não entendi, mas depois eu vi que ele fez isso por causa de quem eu era. Um menino obcecado com desenhos, esquemas e matemática. Alguém muito diferente do resto dos meninos que gostavam de jogar futebol. Um nerd e um descolado nunca daria certo.

—Um nerd e um descolado? – estranhei os termos – alguém como você e Alan?

—Como você e Daiana – ele concluiu – como nós e o resto do mundo.

—Como matemática, desenhos e esquemas – eu completei.

—Ou filmes, livros, ciência, como as coisas funcionam – David deu de ombros – os descolados são as pessoas que seguem o que está na moda, gostam de alguma coisa só porque os outros gostam.

—E acham que nós somos esquisitos – entendi tudo que ele estava tentando me dizer – Daiana estava andando comigo porque ainda não conhece ninguém como ela pra fazer amizade. Ela estranhou eu saber tanto sobre o fone, por isso se levantou tão de repente.

—Eu sinto muito mas ela não quer ser sua amiga – David disse triste.

—Por que eu não estou surpresa? – tentei conter as lágrimas.

—Olha Lilian – David olhou pra mim e levantei a cabeça – eu sou seu amigo.

—Eu sei – eu falei – e eu também sou sua amiga.

Houve um momento de silêncio entre nós e uma certa percepção foi compartilhada. Nerds deveriam ficar juntos.