A Eterna Dívida de Fujioka Haruhi
1 A Eterna Dívida De Fujioka Haruhi - OneShot
Notas iniciais
Já devia passar das três horas da manhã quando ela percebeu que não conseguia dormir. Estava deitada em sua cama, olhando para o teto, repassando os últimos meses de sua vida. Lembrando-se do dia em que inevitavelmente encontrara a sala do Clube de Anfitriões de Ouran; o dia em que começara sua sina. Viera trabalhando como escrava desde então; devia fazer tudo que os anfitriões mandassem, sem nenhum questionamento, sem nenhuma reclamação. Era o “cachorrinho” do Host Club. E pensar que deixaria de lado sua oportunidade de se formar em direito por causa de um vaso idiota. O Clube não a impedia de assistir às aulas, porém o tempo que ela não estava dentro da classe estava cuidando dos interesses dos anfitriões.
Haruhi virou-se de lado, incomodada. Já não bastava ter que deixar os estudos em segundo plano, ainda tinha que se vestir de menino para pagar os oito milhões de ienes que devia. Não era porque ela não ligava para aparências que eles podiam força-lá a fazer algo assim. Apesar de achar interessante o que ouvia quando estava com as clientes e achar engraçadas as atuações dos outros anfitriões, estava começando a acreditar que não seria tão cedo que se livraria de suas obrigações de anfitriã. Na realidade, ela estava assustada com a possibilidade de ter que servir o Host Club para sempre.
Uma estranha solidão se abateu sobre a garota. Ela se enroscou mais debaixo das cobertas, como se aquilo fosse de alguma forma lhe dar o conforto do qual ela sentia falta. Sentia falta de ser uma garota estudiosa, que não liga para coisas como dinheiro ou beleza, que era feliz apenas sendo uma aluna exemplar. Os rapazes do Host Club não a tratavam mal, mas ela não suportaria viver sendo escrava deles pelo resto de seus dias. Precisava sair desse buraco de algum jeito.
A primeira idéia que veio à sua mente foi fugir; desaparecer sem deixar rastros e nunca mais voltar. Várias vezes esse plano voltaria a seus pensamentos, mas ela sempre tentava deixá-lo de lado, visto que se realmente o colocasse em prática, jogaria para o alto tudo pelo que batalhou para chegar a Ouran. Tudo com o que ela se importava simplesmente escorreria pelo ralo. Por outro lado, se ficasse, as possibilidades de conquistar seu objetivo eram bem próximas a zero; o Host Club a impediria de prosseguir com seus estudos da maneira que ela queria.
Mas naquela noite não era apenas isso que a perturbava. Não apenas o fato de que seu sonho estava escapando-lhe por entre os dedos. Não apenas o fato de que ela jamais conseguiria pagar os oito milhões de ienes e ficaria no Host Club para sempre.
Era outra coisa.
Algo terrível.
Uma solução para seu problema. Provavelmente a única.
Mas não era uma solução comum. Se não bem executada, poderia trazer consequências ainda piores. Muito piores.
Ela apertou o cobertor contra o rosto, sentindo lágrimas correrem sobre seu rosto agora pálido só de pensar em tal possibilidade. Jamais faria uma coisa daquelas. Não teria coragem. Não teria sangue frio. Seu estomago se revirava ao imaginar. Ela não sabia como alguém poderia fazer algo tão baixo, tão desumano; ainda mais alguém como ela.
Matar o Host Club estava fora de questão.
~*~
Haruhi abriu os olhos na manhã seguinte como se tivesse ficado acordada por semanas. Sua cabeça pesava, ainda com os pensamentos da noite anterior. E com os pesadelos. Ela coçou os olhos, pulando da cama para se aprontar para mais um dia na Academia Ouran. Rapidamente vestiu seu uniforme azul e preto, correndo enquanto olhava a grade de horários das aulas. O sonho que tivera ribombava em sua cabeça, mas ela tentava se distrair para que sua mente se mantivesse longe dele. Fazia tempo que ela não assistia a uma aula de biologia decente; pensou nisso quando viu que a matéria preenchia o espaço da primeira aula. Tamaki havia programado uma reunião extra com o clube bem naquele horário. Ela se sentiu tentada a pedir para Tamaki liberá-la de suas atividades para acompanhar esta aula; porém, quando se encontrou com ele, hesitou ao ouvi-lo perguntar se ela estava bem.
- Senpai... – ela começou, receosa quanto ao pedido – Eu... Gostaria... De poder assistir à aula de biologia...
- Haruhi! – ele repreendeu, com aquele característico tom sedutor – Se você não vier, o encontro vai perder todo o sentido – ele se aproximou dela, piscando de uma maneira irresistível – Já que o objetivo é fazê-la se apaixonar por mim.
- Senpai, está sendo indiscreto – ela murmurou, se afastando um pouco – Por favor, deixe-me ir! A razão pela qual estou te implorando desse jeito é que dessa vez Hikaru e Kaoru não estarão lá para me distrair – ela sabia, por alguma razão, que isso o convenceria – E o tema da aula serão flores!
Os olhos dele até brilharam ao conceder a permissão a sua “filhinha” para seguir para a sala de biologia. Aquele brilho que em seus recentes sonhos ela vira desaparecer por culpa dela. Caminhou pelos corredores remoendo aquelas imagens horríveis, criadas por sua própria mente. Nunca conseguiria tocar um dedo neles, mesmo levando em conta a raiva que crescia em seu peito, vinda de seu pavor de ser uma eterna devedora. Mas aqueles sonhos vinham se tornando mais reais com o passar do tempo, sendo o da última noite o pior de todos: ela assistiu a si mesma esfaqueando Tamaki, viu a fúria e o prazer de matar em seus olhos, sangue que não lhe pertencia sujando seu rosto, aquela morte maculando sua alma.
Ao cruzar a porta da sala de biologia e tomar um lugar bem perto da lousa, a garota tentou desvencilhar-se desses tão terríveis pensamentos. Sua pele já tinha se tornado mais alva de medo.
Medo de si mesma.
~*~
- A planta Amarílis, também conhecida como Flor-da-Imperatriz, é uma herbácea, fruto de inúmeras hibridações feitas na Holanda. Possui flores muito vistosas, com folhagem que pode ou não desaparecer no inverno – a professora explicava, enquanto Haruhi absorvia as informações como uma esponja — Multiplicam-se facilmente por bulbos, os quais devem ser separados da planta-mãe após o desaparecimento da folhagem.
Ela anotava a matéria com furor, distraída do mundo à sua volta, quando as palavras da mestra encheram seus ouvidos e trouxeram de volta suas preocupações.
- Esses bulbos são extremamente venenosos. Se ingeridos por um humano, causam vômitos, convulsões, e até morte.
Haruhi congelou. Suas pupilas se contraíram e seus punhos se fecharam involuntariamente. Agora toda a vez que ela ouvia a palavra morte ou qualquer derivação, seu corpo reagia instintivamente. Como se ela já se sentisse culpada por algo que não havia feito. Sua respiração ficou descompassada, uma vertigem passando por sua cabeça. Quando se deu conta, todos na sala a observavam curiosos, alguns preocupados. Ela tratou de se recompor, enquanto a professora, que também havia interrompido a explicação por causa dela, retomava o ponto em que parara. A garota tocou a própria testa e percebeu que suava frio, situação que pioraria no momento seguinte.
- Aqui vocês podem ver dois espécimes desta herbácea – a mulher esclareceu, mostrando dois vasos que acabara de trazer – Um já atingiu a fase adulta; o outro ainda apresenta bulbos. Ali na prateleira – ela acrescentou apontando à sua esquerda – temos mais quatro bulbos, que estudaremos nas próximas aulas.
Um dos recipientes continha uma bela flor alaranjada, de pétalas grandes e bem abertas; enquanto no outros se encontravam pequenos brotos, com bulbos enterrados abaixo deles. Haruhi atentamente acompanhou a professora com os olhos enquanto ela desenterrava um dos bulbos e mostrava para a sala. Seu olhar fixou-se no objeto coberto de terra, e ela já não prestava mais atenção no que a mestra falava. Capaz de matar um humano...
A aula transcorreu sem maiores eventos, porém a atenção de Haruhi se prendeu naquela parte redonda da planta. A professora acrescentara que os alcalóides presentes no bulbo, em reação com outros tipos de substâncias, como fermento biológico, poderiam ser ainda mais fatais. A aula acabou com som de cadeiras se arrastando no chão e alunos conversando ao deixar a sala. A garota, ao levantar-se, sem querer derrubou seus cadernos. Abaixou-se para recolhê-los, porém quando novamente se pôs de pé, todos já haviam deixado a sala, inclusive a professora, deixando-a sozinha na sala com... Cinco vasos com brotos Amarílis.
Ela não sabia como nem por que, mas no momento seguinte ela estava colocando cautelosamente os cinco bulbos em um recipiente plástico deixado em cima da mesa pela professora e guardando-o em sua mochila. Ninguém jamais saberia.
A decisão já fora tomada.
~*~
- Bom dia!
No dia seguinte, Haruhi entrava sorridente na sala do Clube de Anfitriões, trazendo uma bandeja coberta com uma cúpula de prata.
- Isso é bolo, Haru-chan? – Mitsukuni perguntou, olhando possessivamente para a travessa.
- Sim – ela respondeu, destampando a bandeja e revelando um suculento bolo de chocolate – Parece que as clientes quiseram demonstrar sua gratidão e fizeram um bolo para o Host Club.
Kyoya observou-a pelo canto do olho.
- “Fizeram”? Por que se dariam ao trabalho de fazer se podem mandar alguém fazer por elas? – ele indagou, com seu jeito frio, intelectual, porém sedutor.
- Ora... – ela silenciou-se por um segundo – Elas disseram “De nós, clientes, para os anfitriões”. Eu pensei que elas tinham feito...
- Oh, pobre mente inocente – suspirou Tamaki,abraçando-a – Não sabe como é o mundo lá fora...
- Mas esse bolo parece tão gostoso... Posso pegar um pedaço, Haru-chan? – Mitsukuni pediu com sua voz doce e infantil.
Ela hesitou antes de responder. Não acreditava que estava para fazer o que pretendia fazer. Não era certo; era errado, muito errado. Aquele bolo. Ela mesma fizera o bolo, utilizando a essência do bulbo de Amarílis. Ficara horas parada na frente da tigela da mistura, pensando se realmente faria aquilo. Mas não dera para trás, como imaginou que fosse fazer. Um pedaço desse bolo e poucas horas depois você estaria morto. Se o deixasse pegar uma fatia, não teria mais volta. Se ela recusasse e levasse o bolo embora, tinha uma chance de consertar essa besteira.
Honey-senpai...!
Mas já era tarde demais. Mitsukuni já havia pegado o primeiro pedaço da pilha que se equilibrava na bandeja e entuchado-o na boca.
- Está muito bom, Haru-chan! – o veterano exclamou, pegando em seguida mais um pedaço – Muito bom...
Ela olhou para ele com receio. Talvez medo. Estava feito. O ponto sem retorno havia sido ultrapassado. Ela sentiu lágrimas se formando em seus olhos, mas disfarçou-as e, novamente com um sorriso, perguntou aos outros anfitriões:
- Vocês não vão experimentar?
- Não, obrigado, Haruhi-kun – recusou Kyoya, anotando algo em sua caderneta.
- Também não queremos. Obrigado, Haruhi! – disseram em uníssono os gêmeos Hitachiin.
- Takashi, pegue um pedaço – sugeriu o pequeno senpai, balançando uma fatia de bolo na frente do rosto do colega.
- Hum – grunhiu Takashi, aceitando o doce e engolindo-o em uma bocada.
Mori-senpai...!
Ela não acreditava em si mesma. Como tivera sangue frio para isso? Era como se estivesse sendo impulsionada por algo maior, algo dentro dela que... Na realidade não era parte de seu ser. Fora tudo no impulso. Impulso de roubar os bulbos, o impulso de oferecer o bolo.
- Não vai pegar um pedaço, tono? – novamente em coro indagaram Hikaru e Kaoru.
- Ah, sim, eu ado... – Tamaki adiantou-se para a bandeja, mas arregalou os olhos ao perceber que ela já estava vazia – Mitsukuni!
- Desculpe, Tama-chan – o garotinho colocou o indicador sobre os próprios lábios – Estava muito bom!
Algo se mexeu violentamente no estômago de Haruhi ao ouvir a suave voz de Mitsukuni, tendo certeza de que, por sua própria escolha, seria uma das últimas vezes que a ouviria. Então encarou os olhos cor de mel do pequenino e sentiu que havia se transformado em algo que não era humano. Seu coração apertou, e lágrimas novamente vieram aos seus olhos. Dessa vez ela não pode contê-las. Como poderia ser tão fria a ponto de tirar a vida de outra pessoa? Ainda mais de alguém como Mitsukuni? Era como se aquela Haruhi de seus sonhos, aquela Haruhi cujos olhos eram cheios de ódio e o coração cheio de maldade, estivesse dominando seu ser lentamente, tomando seu lugar pouco a pouco.
E ao ver as migalhas do bolo no canto da boca de Mitsukuni, teve ainda mais certeza disso.
- Haru-chan, por que está chorando? – o pequeno anfitrião perguntou, também choroso.
- Não... Não é nada... – ela mentiu, enxugando os olhos – Não é nada. Só estava pensando... Pensando...
Enquanto Tamaki a consolava com seu jeito exagerado, ela pensava nas conseqüências. Kyoya apenas observava com um olhar de suspeita.
Em poucas horas, o resto do Host Club deveria estar morto.
~*~
Ela caminhava pelo corredor com passadas largas, apertando um sobretudo negro contra o peito. Precisava correr. Já se passara uma hora e meia desde que Mitsukuni e Takashi comeram o bolo. O pior devia acontecer logo. Ela precisava ser rápida, antes que qualquer um pudesse desconfiar. Os olhares de Kyoya durante a reunião mostravam que ele estava suspeitando de alguma coisa. Ela devia acabar com isso logo.
A segunda parte de seu plano havia acabado de começar.
Rapidamente entrara numa sala e se fechara lá dentro sozinha. Desde o início pensara na possibilidade de algum dos integrantes não comer o bolo; era mais do que óbvio. Então ela, durante essa hora e meia, planejara como dar fim a mais dois anfitriões. Havia conseguido uma faca longa e bem afiada, guardado-a bem em sua mochila, e agora a manuseava com receio. Pretendia finalizar as vidas de Hikaru e Kaoru com aquela lâmina, naquela sala. Com aquelas mãos. Sentiu-se suja só de pensar.
Ouviu passos atrás da porta. As vozes dos gêmeos chegaram aos seus ouvidos.
Era agora ou nunca.
~*~
- Kaoru!
O irmão chegou perto para ver o que Hikaru tinha nas mãos. Era um bilhete, preenchido por letras muito bem feitas, que eles logo reconheceram ser de Haruhi.
- Haruhi nos deixou um bilhete!
Os olhos dos dois acompanharam as curvas de tinta, decifrando ao mesmo tempo as palavras da colega.
Caros Hikaru e Kaoru,
Por favor, venham me encontrar na sala de música cinco. Preciso falar com vocês dois. Em particular.Não contem ao resto do clube, nem a mais ninguém. É importante.
Haruhi
Eles sorriram ao levantar os olhos um para o outro ao mesmo tempo.
E então tomaram o caminho da sala de música cinco.
- O que será que ela quer, Hikaru? – Kaoru perguntou ao gêmeo, crispando de ansiedade.
- Só posso imaginar, Kaoru... – o ruivo respondeu, sorrindo – Só posso imaginar...
Hikaru sentiu o coração esquentar ao imaginar ele e Haruhi, juntos. Não podia negar seus sentimentos por aquela garota. E desde o dia em que ela o diferenciou de Kaoru ele tinha cada vez mais certeza de que gostava dela mais do que permitia a si mesmo. Era algo novo, diferente, intenso. Pela primeira vez uma garota tinha um espaço em seu coração maior do que o de seu irmão...
- A sala é ali, Kaoru – ele parou a alguns metros da porta, indicando-a com o braço.
- Vamos, Hikaru.
Ele abriu a porta, a qual rangeu estranhamente ao dar-lhes passagem. A sala de musica cinco não era utilizada há tempos; estava com um aspecto abandonado e um pouco assustador, incomum na Academia Ouran. Ele distinguiu algumas teias de aranha nos cantos escuros enquanto adentrava e, depois de correr a sala inteira com os olhos, olhou para o irmão. Hikaru estava ao seu lado, também observando sem pronunciar uma palavra. Então a porta gemeu novamente e ouviu-se um baque seco.
Alguém fechara a porta.
- Haruhi...? – chamou Hikaru, hesitante, olhando em volta assustado. Viu uma silhueta se destacando contra a porta e, por um momento, aliviou-se – Haruhi, que susto...
Percebeu a expressão séria no rosto da garota. Notou também que ela já não vestia mais o uniforme, mas sim um sobretudo preto que arrastava no chão. Ela tinha os dois braços relaxados ao lado do corpo, porém tremia levemente. Ele pôde ver que ela segurava algo em sua mão direita.
- Haruhi... O que... O que está... – ele sentiu o pavor na voz do irmão quando ele disse estas palavras, e soube no mesmo instante que estava com esta mesma sensação. Medo. Terror. Que tipo de brincadeira era essa que a anfitriã estava fazendo? O que quer que fosse, não estava tendo a menor graça.
- Kaoru... – a voz dela revelava um misto de emoções; ele não compreendeu de imediato o que era exatamente, porém logo percebeu uma melancolia profunda – Me... Me perdoe...
Hikaru não teve tempo de entender o que acontecia, porque no momento seguinte Haruhi avançava na direção de seu irmão. Um ataque súbito, covarde, cruel. A longa manga do sobretudo movera-se, revelando uma longa lâmina prateada, que transpassou a garganta de Kaoru numa velocidade incrível, derramando o sangue do garoto em suas próprias vestes e rosto. Seus olhos se arregalaram. Ele caiu de joelhos, o líquido vermelho jorrando de sua traquéia rasgada; tentou estancar o sangramento, mas de nada adiantou. Hikaru não conseguia reagir. Estava pasmo, branco de medo. A pele de Kaoru foi ficando cada vez mais pálida até ele virar os olhos e tombar de lado, sem vida.
Kaoru! Kaoru! sua mente gritava, porém ele não conseguia por para fora. Não conseguia se mover. Uma sensação de medo insano tomou conta dele. Estava congelado de choque. Seu irmão... Estava morto. Haruhi tirara a vida de seu irmão. De seu igual. Era como se uma parte dele tivesse morrido. Um vazio encheu seu peito, e ele não sabia mais o que seria de si mesmo. Haruhi... Por que, Haruhi...
- Hikaru... – ela murmurou. A voz dela estava estranha; era como se ela estivesse com medo também. Uma assassina não falaria daquele jeito. Parecia que ela não queria fazer aquilo, era como se estivesse sendo forçada. – Hikaru...
Haruhi...
Ela deu um passo a frente e fincou sem dó a faca no pescoço de Hikaru.
- Me desculpe, Hikaru... Eu não...
A dor era intensa. Ele já não conseguia mais puxar oxigênio. Seu peito ardia, e seu coração pulsava cada vez mais rápido; ele sabia que o fim estava próximo. Suas pálpebras começaram a pesar, sua cabeça parecendo que ia explodir, quando Haruhi tocou seu rosto. Após despir sua mão da luva branca manchada que usava, seus dedos macios acariciaram sua face enquanto ele sentiu a lâmina ser retirada lentamente de sua carne. Ele despencava vagarosamente, e Haruhi fazia de tudo para deitá-lo gentilmente no chão. Por entre suas pálpebras semicerradas, viu que os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Lágrimas de culpa.
- Ha... Haru... hi... – ele gemeu, sentindo um pouco de sangue escorrer pelo canto de sua boca – Por... Por q... que...
- Espero que um dia vocês possam me perdoar, Hikaru... – o rosto dela também tinha vários respingos escarlates; seus dedos deixaram delicadamente o rosto do ruivo, abandonando-o em seu último momento – Eu não tenho escolha, eu não...
Ele percebeu que ela não suportaria mais olhar para o rosto agora alvo dele, enfeitado apenas por um filete vermelho que escorria do canto da boca. Então ela deixou-o, para que partisse sozinho, junto apenas de seu irmão. Seus olhos lentamente desviram-se para o garoto caído ao seu lado. Kaoru... Como ela pôde... Ela, de todas as outras... Justo ela... Kaoru...
Então ele finalmente compreendeu. Seus sentimentos por Haruhi eram nada mais do que passageiros. Agora ele sabia quem era pessoa que estaria ali, sempre ao lado dele. Ele precisou morrer para entender que jamais ninguém seria tão importante para ele como seu irmão. Depois que a viu fechando a porta atrás de si, usou suas últimas forças para arrastar-se até o gêmeo, evolvendo o corpo morto de Kaoru em seus braços agora fracos.
Iremos juntos, Kaoru... Juntos, para sempre...
~*~
Ela... Ela matara... Os gêmeos, ela... Como...
Simplesmente não conseguia aceitar. Como pudera? Era cada vez mais difícil acreditar que ela realmente fizera aquilo. Estava terrivelmente arrependida. Desesperada. Mais desesperada do que estivera durante todo esse tempo. Não entendia. Era tudo tão estranho. Mitsukuni e Takashi logo deveriam ter sua vez também. Ela logo colheria mais um fruto de suas ações desmedidas. Era tão incompreensível. A dor que ela sentira. A dor que ela causara. Por que fizera aquilo? Indagações que nunca seria capaz de responder. Sua mente estava confusa, as informações dançavam por sua cabeça, era difícil de pensar. De compreender.
A loucura começava a beirar sua mente.
Enquanto se aproximava da sala do Host Club, ouviu a voz aguda do pequeno anfitrião numa nota desesperada de surpresa e medo.
- Takashi! Takashi!
Ela apressou-se.
Estava começando.
- Takashi! Takashi! – chorava Mitsukuni, agarrado na gola do colega – Takashi!
Takashi estava caído no chão. Seu olhos giravam nas órbitas, sua boca espumava. Ela pode ver que o rapaz deixara uma trilha de vômito até o lugar onde jazia. Ele apertava o estomago, mas não parecia ter mais noção de onde estava, quem era. Convulsionava violentamente, seu corpo inteiro tremia. Mitsukuni gritava o nome dele, uma tristeza imensa invadindo sua voz aos poucos. Haruhi jamais havia ouvido tal melancolia.
- Takashi! Taka...
Os olhos do garotinho se arregalaram e ele congelou por um momento. A sala silenciou; a expectativa incendiava o lugar. O pequeno vagarosamente levou as mãos ao estomago, e apertou os olhos.
- Minha barriga! – ele urrou, apertando o local com força – Minha ba...
Ele mais uma vez silenciou, porém desta vez não por muito tempo; logo quebrou o silencio, vomitando ruidosamente sobre o colega, que subitamente parara de se mover.
- Taka... Taka... shi... i...
Takashi já não respirava mais.
- TAKASHI!
O anfitrião só não gritou mais porque seu esôfago forçou mais uma enorme quantidade de resíduos mal digeridos por sua boca. A cena se repetiu duas, três vezes, até que ele tombou sobre o corpo já morto de Takashi, dizendo com uma dificuldade dolorosa:
- Ta... ka... shi...
Então ele vomitou novamente, porém desta vez um líquido vermelho foi apenas o que escapou por sua boca; uma quantidade assustadora. Haruhi, Kyoya e Tamaki assistiam a cena horrorizados; Haruhi mais do que todos, com a culpa roendo-a por dentro como um ácido. Nenhum deles conseguia mover um músculo. Um dedo. Era horrível demais.
O pequeno forçou-se e se levantou um pouco, apoiando-se nos dois braços.
Abriu a boca para dizer algo, mas jamais alguém saberia o que. Mais uma vez, uma última vez, ele vomitou violentamente. Sangue. Então, seu olhos perderam a luz e ele finalmente deixou este mundo.
Tamaki tinha puro medo estampado no rosto.
Kyoya mostrava um terror indescritível.
Haruhi queria morrer.
Mas sabia que não podia. Não depois de tudo isso.
- Tamaki... – murmurou Kyoya, sem mover o olhar e com um timbre estranho de voz – Vá chamar alguém... Rápido... Precisam... Alguém...
- Sim... Eu... Pode deixar... – Tamaki deixou a sala as pressas, virando os olhos e evitando a cena. Era perturbadora demais.
- Haruhi – ele disse, agora com a voz um pouco mais firme – Por que...
- Não sei, não sei, Kyoya-senpai, não sei... – ela respondeu, ainda sem conseguir tirar os olhos do pequeno Honey.
- Haruhi – ele repetiu – Eu tenho cara de idiota?
Ela arregalou os olhos com a pergunta. Ele permaneceu encarando o vazio por alguns segundos antes de levantar os olhos para ela de uma maneira feroz. Havia certo furor em seu olhar, e também uma aparente raiva. O rapaz deixou seu caderno no braço de um dos amplos sofás de estofado vermelho que mobiliavam a sala e ajeitou os óculos. Parecia estar se controlando, mantendo algo dentro de si.
- Posso te perguntar uma coisa? – ele indagou num tom estranhamente suave e, assim que ela assentiu com a cabeça, continuou – Quem seria a única pessoa, no momento, que poderia desejar a morte de integrantes do Host Club?
Ela não respondeu; apenas permaneceu em silêncio.
- Quem seria inteligente o suficiente para planejar uma morte aparentemente acidental, por indigestão?
Ele começou a se aproximar dela, vagarosamente.
- Quem seria ralé o suficiente para fazer um bolo?
Ele parou a alguns centímetros dela.
- Haruhi... Você achou mesmo que ninguém ia perceber?
- Kyoya-senpai... Não sei do que está falando... – ela gaguejou, dando um passo para trás.
- Eu não sou bobo, Haruhi. Você sabe. Percebi sua mudança de comportamento de uns dias para cá – ele fez uma pausa, desviando seu olhar – Ontem você esteve na aula de biologia.Os cinco brotos da professora desapareceram. Mitsukuni e Takashi morreram com os exatos sintomas da ingestão desses bulbos.
Ela encolheu-se, assustada com as palavras do senpai. Com a verdade que elas representavam. E com a frieza com que ele as falava. Começou a chorar silenciosamente, mas foi logo repreendida pelo rapaz.
- Não ouse chorar. Você não tem esse direito.
Ela no mesmo instante engoliu as lágrimas. Kyoya sabia de tudo. Ia contar para a polícia. Ela seria presa. As mortes de Kaoru, Hikaru, Mitsukuni e Takashi teriam sido em vão.
Isso ela não poderia permitir.
Pegou um pesado candelabro que naquele dia enfeitava a sala do clube de Anfitriões e golpeou a cabeça de Kyoya com toda a sua força. Ele, sem esperar o ataque, foi nocauteado, e um filete de sangue escorreu por seus cabelos negros no lugar onde fora atingido. Ele estava no chão, vulnerável. Agora ela só precisava dar um fim nele.
A primeira coisa que fez foi pegá-lo pelos pés e arrastá-lo para fora da sala. Percebeu que não havia ninguém por perto; ainda bem que Tamaki não fizera um escândalo. Com certa dificuldade, foi puxando-o, tomando o caminho para um lugar no qual ela sabia que Kyoya não seria encontrado tão cedo: o velho salão de bailes da Academia Ouran. Ela o descobrira do mesmo jeito que encontrara a sala do Host Club: por mero acaso. Enquanto procurava por uma sala silenciosa em que pudesse estudar em paz, encontrou aquela sala. Ninguém jamais a incomodara quando estivera lá.
O peso de Kyoya parecia estar aumentando. Por sorte, ela pode ver as portas antigas com uma faixa “Não Ultrapasse” se aproximando. Um minuto depois, ela soltou o anfitrião e abriu a porta, em seguida trazendo-o para dentro.
O Salão tinha um aspecto clássico, porém estava muito mal conservado, e várias partes careciam de uma boa restauração. O chão era coberto por um tapete de madeira e as paredes bem adornadas, ainda que em certas partes estivessem totalmente deterioradas. Ela percebeu que fuligem cobria o chão, além de alguns pedaços de telhas. O lugar estava desmoronando.
Olhou para Kyoya. Ele ainda estava inconsciente e provavelmente demoraria um pouco a acordar. O que faria com ele? O senpai era com certeza o mais “perigoso” dos anfitriões. O mais inteligente. Não podia deixar nenhuma chance de sobrevivência. Seus olhos correram a sala em busca de alguma idéia, e pararam num certo ponto; ela se surpreendeu.
Não pode ser. È coincidência demais.
Uma lata de querosene jazia ao lado da majestosa porta. Ela caminhou até ela hesitante, porém reconheceu que aquela era a idéia perfeita. Prendê-lo na sala e incendiá-la. Não teria jeito de ele sobreviver. Nem que o fogo não o matasse, o desmoronamento o faria. Apanhou a lata e observou-a por um momento, considerando se realmente acabaria com aquilo daquele jeito. Decidiu que sim, sem pensar muito. Kyoya sempre fora o que ela menos gostara. E agora que ela já era uma assassina sem volta, isso fazia alguma diferença.
Reuniu algumas cadeiras e mesas antigas que estavam espalhadas pelo salão e deitou o inconsciente Kyoya por entre elas. Despejou uma farta quantidade do líquido inflamável sobre o amontoado e pela sala toda. Fez uma trilha até a porta.
Precisava de fogo.
Não tinha nenhum isqueiro, nenhum fósforo. Como faria para acender o fogo? Reconheceu não ter pensado nisso. Porém, não podia ficar ponderando ali. O rapaz poderia acordar a qualquer momento. Ajoelhou-se ao lado do corpo inerte e tateou por suasroupas. Havia algo no bolso de Kyoya.
O quê...? Um maço de cigarros? Haruhi pensou, surpresa. Ele fuma? Nunca... Nunca, jamais poderia ter imaginado... O segredo dele, assim como o dela, jamais seria revelado. Ao tirar o maço do bolso do anfitrião, percebeu que junto dele havia um isqueiro. Apossou-se do objeto e afastou-se rapidamente, parando ao chegar à porta. Fechou os olhos.
- Aahh... – um gemido baixo chamou sua atenção.
Ele estava acordando.
O anfitrião abriu os olhos com dificuldade. Demorou um pouco a reconhecê-la, aparentemente sem estar completamente acordado. Ela encarou aquelas íris castanhas pela última vez e, com um aperto no coração, suspendeu o isqueiro aceso na altura de seus olhos. Se demorasse mais poderia desistir.
- Haruhi... Por favor... Não, por favor... – ele implorou, mas já era tarde demais.
O isqueiro caía, lentamente aos olhos de ambos, de encontro ao chão. Kyoya gritou. Gritou como jamais havia feito. “NÃO, HARUHI, NÃO!” Ela fingiu não escutar. Fingiu ser um sonho ruim, apenas isso. O garoto tentava se desvencilhar das mesas e cadeiras velhas, mas estava enroscado de tal jeito que não haveria como escapar do fogo que corria em sua direção. O isqueiro, ao bater no chão, incendiou imediatamente os locais regados de querosene, e o fogo rapidamente se aproximava de Kyoya. Haruhi congelara, assistindo o inferno se formar diante de seus olhos. O fogo subiu por uma das pernas do rapaz; ele gritava, a dor se propagando por sua voz e também por seus olhos. A calça dele se desfazia nas chamas, que subiam quentes por seu tórax e já queimavam tudo ao seu redor.
Haruhi queria fechar a porta, queria muito, mas estava paralisada por uma força que ela mesma desconhecia. As labaredas finalmente encontraram o rosto do anfitrião, e nessa hora os gritos dele já não eram apenas de dor, mas de um pânico intenso. O fogo cobriu a face dele; sua pele começou a desmanchar, a derreter no calor infernal do incêndio causado por Haruhi. Seus gritos se intensificaram mais ainda; aquilo era uma visão do próprio inferno.
Haruhi fechou os olhos. Era horrível demais para continuar assistindo.
Ainda mantendo suas pálpebras apertadas, Haruhi bateu a porta atrás de si. Os berros dele continuavam, agora se transformando em urros desesperados. Então um ruído de concreto se rachando cobriu os sons de Kyoya; o salão estava desmoronando. Mesmo sem estar vendo, ela percebeu que um grande pedaço do teto havia caído, porém sem atingir o anfitrião.
Ela não queria estar perto quando o pior acontecesse.
Porém suas pernas não queriam obedecer.
Um estrondo ainda mais alto encheu seus ouvidos.
Desta vez uma das paredes havia tombado, abafando os gritos do rapaz.
Por que estava parada, por quê? Deveria estar bem longe dali àquela hora, porém simplesmente não conseguia abandonar Kyoya.
- NÃO! NÃ... Ah... Não... Haruhi... – ela escutou o último lamento do garoto antes de mais uma parte do teto desmoronar e finalizar o sofrimento do penúltimo anfitrião.
Acabou, Haruhi, acabou... Ela disse para si mesma, Agora só falta um...
Tamaki-senpai...
~*~
Tamaki se assustou ao voltar para a sala do Host Club e encontrá-la vazia. Havia avisado aos Superiores do colégio do acontecido; eles disseram que logo tomariam providências sobre o caso. Mas ele não podia deixar de ficar preocupado. Dois membros do Clube estavam mortos. Os gêmeos haviam desaparecido. E agora Kyoya e Haruhi também estão sumidos? Era preocupante.
Ele não pode deixar de sentir um alívio enorme quando Haruhi irrompeu por uma das portas da sala, ofegando intensamente. Ele sorriu ao vê-la a salvo, mas não se esqueceu de Kyoya.
- Haruhi-kun, onde está...
- Kyoya-senpai... Ele... – ela interrompeu, falando entrecortada por sua respiração irregular – Saiu correndo... Eu o segui... Mas ele... Ele... Sumiu...
Tamaki arregalou os olhos. Essa não. E se Kyoya foi também uma vítima de quem quer que fosse que matara Mitsukuni e Takashi? Um medo retumbava em seu peito, acelerando seu coração. Se Kyoya tivesse sido pego, os gêmeos provavelmente também estavam...
- Tem algo muito errado, Haruhi... Tem alguém tentando acabar conosco.
- Tamaki-senpai... – ela suspirou antes que ele subitamente a abraçasse de um modo protetor e paternal.
- Não se preocupe, Haruhi, eu vou te proteger – ele sussurrou no ouvido dela – Ninguém vai tocar em você, eu prometo. Eu vou te proteger.
Ele não tinha ideia de que isso só tornaria as coisas mais complicadas.
Para ele, pelo menos.
~*~
- Tamaki-senpai, não acho que isso seja uma boa ideia... – Haruhi começou, mas foi logo cortada pelo anfitrião.
- Não, Haruhi, isso é o melhor que temos a fazer no momento. Os Superiores já tomaram conta da situação, porém ninguém tem a menor pista de quem seja responsável por isso. Precisamos ficar a salvo; somos as prováveis “próximas vítimas”.
- Mas eu não preciso dormir no seu quarto, senpai – ela retrucou. Ela tentava adiar cada vez mais o momento em que teria de acabar com a vida de Tamaki, mas parecia que ele queria que tal hora chegasse o mais rápido possível.
- Meu quarto é o com maior segurança dentre todos os alunos da Academia Ouran. Não tem como ninguém nos pegar lá – A convicção dele era incrível; ele realmente estava convencendo-a a fazer aquilo.
- Senpai, eu... – ela respirou fundo, e então mentiu com algum receio – Obrigada.
- Eu vou cumprir minha palavra, Haruhi. Vou te proteger.
Com essas palavras ele selou seu destino.
Seria naquela noite.
O fim de tudo.
E então ela finalmente estaria livre.
~*~
Ele já havia se deitado em sua cama de casal de lençóis vermelho-sangue e estava parcialmente adormecido. Ela inda estava de pé; já passavam das dez horas. Ela andava de um lado para outro do quarto, ponderando; ponderando se seria mesmo capaz de machucar Tamaki. Ou pior, matá-lo. E pensar que dois dias antes ela imaginava que seria incapaz de fazer um décimo do que fizera.
A ingenuidade era tão doce...
Seus olhos iam do chão para o rapaz, e dele novamente para o chão; um abajur era tudo que iluminava o quarto. A noite estava fria. Perfeita para um assassinato. Mas no que ela estava pensando? Sua mente já estava se fundindo com a daquela Haruhi que ela tanto temia. Seus olhos mais uma vez passaram pelo belo corpo do loiro que jazia na cama. Um arrepio perpassou sua espinha. Era agora. Ele não ia nem ver o que o atingira. Ela precisava acabar com isso logo. Era exatamente como das outras vezes: precisava fazê-lo rápido, senão perderia a coragem.
Olhou para a pequena mala que estava aberta em cima da cama de armar em que supostamente deveria dormir. Ali estava escondida a faca. A lâmina que já tirara duas vidas. E que deveria tirar mais uma.
Adiantou-se para a bolsa e tateou seu interior até encontrar a faca com sua longa lâmina. Observou-a como fizera pela primeira vez. Inacreditável. Era exatamente a mesma sensação. Não se tornava mais fácil com a “experiência”. Ficava mais difícil. Ela mais uma vez observou Tamaki. Desde o começo sabia que ele era diferente dos outros. Sabia que seria muito mais difícil tirar a vida dele do que a de Hikaru, Kaoru, ou qualquer um dos outros. Tamaki era especial, com seu jeito bobo, exagerado, romântico. Ela foi caminhando até parar ao lado do rapaz adormecido, com a faca em riste, apontada para o pescoço do anfitrião.
Ele moveu-se, virando-se de lado. Sua respiração antes profunda se tornou mais rápida. Ele estava despertando.
Ela rapidamente atirou a faca no chão, de modo que ela ficasse fora do campo de visão de Tamaki. Para disfarçar sua presença ali, ela, ao vê-lo abrir os olhos, aproximou sua cabeça do rosto dele e deu-lhe um beijo na testa, surpreendendo-o.
- Boa noite, Tamaki-senpai – ela murmurou, fingindo pensar que ele estava dormindo. Ao afastar-se, percebeu que ele já fechara os olhos novamente, e um sorriso instalara-se em seu rosto.
Vai ser mais difícil do que eu pensava.
~*~
Um ruído muito baixo despertou Haruhi como um alerta. Percebeu o barulho de uma cama rangendo, pés pisando suavemente no chão e fazendo um caminho curto até o banheiro do quarto, com a porta logo se fechando com um baque seco. Tamaki havia acordado para ir ao banheiro. Ela permaneceu imóvel por um segundo, porém uma voz disse dentro de sua cabeça, uma voz que ela julgou ser daquela Haruhi, que agora era o momento. Assim que ele aparecesse pela porta, ela devia acabar com aquilo.
Mas por tinha que ser tão difícil?
Ela se levantou lentamente, deslizando a mão por baixo de seu travesseiro a procura da faca. Ouviu o som da descarga abafado pela porta fechada, enquanto se aproximava vagarosa e silenciosamente da entrada. Percebeu o barulho da torneira sendo aberta e da água escorrendo na pia. Ele nem devia desconfiar das pretensões dela. Seria pego totalmente desprevenido. Ela, porém, ainda reunia coragem. Como podia estar hesitante, diante de tudo que já havia feito? Seus sentimentos nunca estiveram tão confusos.
A maçaneta começou a girar. Agora era o momento. Ela levantou a faca na altura do peito. Sua mão tremia. A luz escapando pela fresta da porta iluminou o escuro quarto, criando uma faixa amarelada sobre seu rosto. Ela apertou com mais força o cabo da faca, com medo do que viria a seguir. A porta rangeu um pouco ao ser aberta, revelando a bela figura que era Tamaki, que mesmo sonolento ainda posava com aquele ar principesco. Ele observou-a um pouco confuso, como se seu raciocínio ainda estivesse um pouco lento, como se seus olhos o estivessem enganando.Seus olhos foram do rosto dela para a lâmina que ela empunhava, e de volta para a expressão amedrontada da garota. A cena congelara-se por alguns momentos, sem que nenhum dos dois fizesse um movimento.
- O... O que é isso, Haruhi? – ele perguntou num sussurro quase inaudível. A mão dela tremia loucamente, transparecendo seu medo e dúvida. Ele encarou-a, sem entender o que acontecia.
- Isso, Tamaki-senpai... É para proteger meu segredo... – ela respondeu, assombrando a si mesma pela morbidez de sua voz – Desculpe, mas eu não tinha opção... Agora... Deixe-me acabar com isso rápido... Assim nem eu nem você sofreremos.
- Acabar com... Com o que? – os olhos dele estavam arregalados, puro medo estampava-se em sua face.
- Senpai, eu... – ela hesitou, dando um passo na direção dele – Eu não posso... Não podia... Deixar que vocês arruinassem meu sonho. Eu luto pelo que eu acredito, e estou lutando para que meu sonho não se perca. Para que ele não seja apenas isso: um sonho.
- Seu sonho... Do que está falando? – ele não estava entendendo; o que ela estava fazendo?
- Para realizá-lo... Eu preciso estudar muito... E sendo uma escrava do Host Club, eu jamais conseguiria atingir metade do necessário. E a única coisa que me prendia a vocês era essa dívida, esse segredo... – ela foi se aproximando até que Tamaki sentisse suas costas encontrarem a cômoda de mogno. Ele estava encurralado.
- A sua... Sua dívida... Você... Foi você... – ele tentou se esquivar, porém já era tarde; a lâmina de Haruhi atingiu seu abdômen, causando grande dor. Ele conteve uma exclamação, apertando os olhos, mas sua mente não poderia estar mais clara – Você... Você os matou...
- Sim, fui eu... – havia um sentimento estranho naquelas palavras, um misto de arrependimento e alívio – Fui... Eu...
Ela retirou a lâmina e, no mesmo local, enfiou-a novamente,fazendo Tamaki se dobrar. Ele deu um gemido baixo, e ela repetiu o gesto. Lágrimas corriam pelos rostos de ambos. Haruhi se sentia culpada, mas cada facada era como se um peso pouco a pouco fosse retirado de seus ombros. Tamaki sangrava, o líquido da vida escapava pela agora enorme ferida em seu baixo ventre, formando um caminho vermelho por sua calça até a poça escarlate que cobria o chão. Ela mais uma vez enterrou a faca no rapaz, arrancando dele um urro, porém desta vez parou naquela posição. Lentamente deitou sua cabeça no peito dele, que subia e descia freneticamente, buscando os últimos golfos de ar que pudesse inspirar.
- Será... Será que um dia vocês irão me perdoar? – ela murmurou, soluçando -É tão terrível, o que eu fiz... Fui muito egoísta... Mas eu estava com tanto medo... Tão assustada... Eu não tive outra escolha... Esse segredo precisava ser enterrado...
- Haruhi... – ele gaguejou, percebendo a melancolia na voz da garota, e com um esforço descomunal, levou uma das mãos à cabeça dela e afagou seus cabelos – Por que...
- Me desculpe, me desculpe... – ela chorava, chorava como nunca havia chorado – Me desculpe...
- Acabe... Acabe com isso de uma vez... Por favor... Está doendo... – ele implorou, envolvendo a mão que empunhava a faca com a sua, e então desenterrando-a de seu corpo, gemendo um pouco, e então levando-a até seu pescoço – Acabe... O que você começou.
Ela assustou-se com o gesto dele. Ele entendera o que ela estava sentindo, entendera o que ela estava passando, e parecia estar... apoiando? Um calor estranho preencheu seu peito, e ela pressionou levemente a lâmina contra o pescoço do anfitrião. Aqueles belos olhos lilases mostravam uma dor terrível, e ela queria acabar com aquela dor.
- Tamaki-senpai... – ela encarou-o, ainda sem certeza do que faria, mas ele a interrompeu num murmúrio rouco.
- Não tenha medo. Vá em frente, filhinha.
Ela observou o brilho nos olhos dele por uma última vez, e então dilacerou sua garganta com um único golpe.
- Me desculpe... Papai.
Ele teve alguns espasmos, apenas por um ou dois segundos, enquanto seu sangue espirrava no rosto de Haruhi, e então seu corpo tombou sem vida sobre ela. Ela deitou-o no chão, fechou seus olhos, acariciou seu rosto.
Então ela sentou-se ao lado dele e desatou a chorar.
~*~
“Não há dívida pior que a culpa.”
Uma semana depois
“Assassinatos misteriosos na prestigiada Academia Particular Ouran assolam o Japão.”
Um ano depois
“Polícia japonesa abandona investigações do famoso Caso Ouran por falta de evidências.”
Quatro anos depois
“Veterana da Academia Particular Ouran, Fujioka Haruhi se forma com a melhor marca em 50 anos.”
Dez anos depois
“É registrada a maior participação de mulheres na política japonesa.”
Quinze anos depois
“Fujioka Haruhi é eleita a primeira e mais jovem Primeira Ministra japonesa da história.”
Vinte anos depois
“O Japão nunca passou por uma era tão próspera.”
“Há males que vêm para bem.”
FIM
Notas finais
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Essa é a vida, minha gente...
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