A Estranha Cidade De Brecksville

2 Capítulo 2 - Quando não dá para piorar ...


Ainda não sei ao certo o que me leva a querer tanto entrar naquele quarto, se é a raiva que fiquei da minha avó ou se estou tão curiosa que não posso mais esperar nem mais um segundo. Tudo o que eu sei é que eu estou pulando a varanda.

Pensando bem, eu estou em um telhado do segundo andar de uma casa que nunca estive na minha vida, presa a nenhum equipamento e sem nenhuma proteção. Medo? Não. Insegurança? Menos ainda. Justo eu, uma menina insegura de tudo, estou completamente normal mesmo sabendo todos os meus riscos de cair e me machucar. Mas o mais estranho é que quanto mais me aproximo do quarto mais tranquila eu fico, como si eu sentisse algum tipo de energia positiva que me liga à ele.

Ao pular a janela do quarto a minha expectativa se quebra imediatamente. O cômodo era lindo, mas não tinha nada de quarto. Minha primeira impressão foi de uma biblioteca com uma cama. O quarto tinha filas e filas de prateleiras brancas repletas de livros antigos empoeirados. A pergunta que não sai da minha cabeça agora é ‘o que tem de tão importante naqueles livros que minha avó fez tanta questão de esconder?’

As filas eram todas nomeadas, menos uma. E é em direção a essa que eu vou. Não percebo nada de diferente nela a não ser lá no final, onde tinha um livro quase caindo. Este era o único eu vi até agora que não estava empoeirado, ou seja, minha avó tinha usado ele recentemente. O nome do livro é ‘O Círculo’. Amplo demais para mim. Eu queria levá-lo para ler, mas se minha avó tinha usado ele recentemente, provavelmente ela iria a procura dele de novo. Poderia ficar e começar a ler, mas sinto o cheiro de comida pronta e escuto passos no corredor. Então escuto a maçaneta do quarto começando a girar, o que só me dá tempo de soltar o livro e me esconder em baixo da cama. A minha visão é limitada pela colcha, mas mesmo assim eu consigo ver que os pés são da minha avó. Ela anda em direção a prateleira, pega o livro que eu deixei caído no chão, e o observa durante um tempo. Minha aflição não aumenta nem quando penso na possibilidade da próxima parada dela seja no meu quarto. Ela pega o livro, o esconde dentro da camisa e sai do quarto. Dá para ouvir seus passos no assoalho de madeira, e percebo que eles estão na direção da escada.

Essa era a minha chance de ir para o meu quarto antes da minha avó, mas antes de sair de baixo da cama eu sinto o meu pé bater em algo duro e oco. Sei que deveria sair do quarto o mais rápido possível, mas ao me virar vejo que eu chutei a parede. Chuto-a novamente e posso perceber claramente que ela é oca. Chuto então uma parte diferente da parede e vejo que essa não era oca. Depois de vários chutes em locais diferentes percebo que na parede inteira só te uma parte oca. E eu vou descobrir o que é. Mas antes de poder pensar em outra coisa escuto passos novamente, mas dessa vez, o destino será meu quarto. Saio em dispara e pulo a janela, mas mesmo assim eu já escuto que a porta do meu quarto já foi aberta.

- Lanna? – pergunta uma voz rouca que com certeza é da minha avó.

- Sim – respondo, mas nesta hora eu já tinha entrado pela janela do banheiro – Senti cheiro de comida pronta e vim lavar a mão. E pelo cheiro parece estar delicioso.

Dá para perceber claramente a desconfiança em seu olhar que agora me assusta facilmente. É como se toda a coragem que tive para ir para o quarto ficou para traz.

Minha avó sai do quarto e eu vou logo atrás dela. Chego à sala de jantar e vejo Annie mais séria do que nunca, mas o que me assusta realmente é ver que ela está escondendo alguma coisa atrás dela... É o? ... Será? ... O livro ‘O Círculo’! Mas porque motivo ele deixaria Annie tão séria. Afinal é apenas um livro, penso tentado convencer a mim mesma desse fato.

Sento a mesa. Com certeza esse será um longo e silencioso jantar. Mas de repente a Annie afirma:

- Você tem aula amanhã. Esteja pronta às sete horas. Sua primeira aula é sete e meia.

- Pode ir no meu carro – diz minha avó, e pela primeira vez desde de minha entrada na casa, ela está tentando ser gentil.

- Ok! Valeu. – mas tem um pequeno detalhe que as duas mal-humoradas esqueceram. Eu não sei onde fica a droga da escola. Mas não vou mencionar esse fato para não deixar o clima mais tenso, se isso for possível.

- No carro tem um mapa da cidade. Use-o para chegar à escola. – diz minha avó.

- Obrigada. Eu vou para a casa assim que a minha aula acabar. – respondo esperando que a conversa renda.

- Tanto faz. Volte a hora que quiser – Ai! Essa doeu com força. E com essa patada eu percebo que ninguém está a fim de conversar, e calo a boca.

Ao acabar de comer levo meu prato até a pia vou correndo para o meu quarto. Depois de hoje eu só tenho certeza de duas coisas. Vou tomar meu banho e ir dormir, ou pelo menos tentar dormir. Espero que pelo menos a escola dessa cidade seja normal. Mais isso eu vou descobrir amanhã. E pensando nisso, eu adormeço.

PIB PIB PIB PIB PIB

- Lanna, faça o favor de fazer esse troço para de apitar – certamente esse não é a melhor maneira de acordar, não que minha avó ligue para esse fato.

Desligo o meu despertador e vou tomar banho na esperança de que ele me faça esquecer que estou em Brecksville, mas infelizmente o meu chuveiro não é mágico. Além de não esquecer essa cidade horrível, me lembro que tenho aula daqui a 1 hora. Apronto-me rapidamente para tomar café antes de todos acordarem e ir embora sem deixar rastros. Mas meu plano não teve sucesso. Ao chegar à mesa dou de cara com Annie e minha avó. Só que dessa vez, EU vou ser a amarga.

- Tchau! – digo no tom mais mesquinho que consegui.

- Não vai nem tomar café? – pergunta Annie com um tom doce que não escuto há dias, mas mesmo assim mantenho a pose. – Você vai ficar com fome e depois...

- E daí? – interrompo.

- Mais respeito com sua mãe, mocinha – intromete minha avó.

- Ah! Poupe-me – respondo abrindo a porta

- Sente-se aqui agora! – grita minha avó.

Ficamos nos encarando por um tempo, mas eu resolvo quebrar o silêncio:

- Justo você. A pessoa que mais me quer longe agora quer que eu fique? Você me odeia, me encara com nojo em seus olhos desde que entrei nessa casa. Para ser mais específica desde que eu quase entrei no quarto da Annie. Eu sei que não sou sua neta de sangue, sei que você não quer ser minha avó, e acredite, eu também daria tudo para não ser sua neta. Mas não sou eu que escolho. Será que dói muito para você fingir que não me odeia tanto? – me direciono a Annie e continuo – E você que sempre me protegeu, de repente deixa essa velha acabar comigo!

Após essa fala percebo que me excedi e que essa é a hora perfeita para dar o fora, então saio e bato a porta. E só aí me lembro que não peguei a chave do carro com minha avó e agora eu não posso simplesmente entrar lá e dizer ‘ eu estava tão ocupada te xingando que me esqueci de pegar a chave do seu carro’. Então o jeito é ir a pé, mas eu não tenho o mapa e não tenho nem idéia de onde fica a escola. E é nessa hora que eu me arrependo de ter dormido no taxi que me trouxe a essa fim de mundo, também conhecido como Brecksville.

- Me deixa adivinhar. Você é nova na cidade e está perdida. – me viro rapidamente e vejo que a voz vem de um menino lindo. Eu poderia ficar ali apenas o observando e tentando lembrar o meu nome, mas aí eu me lembro de que tenho que falar alguma coisa antes que ele ache que eu sou muda. Mas ele não me dá tempo e continua – Desculpa se te assustei. Sou Daniel, prazer.

- Lanna, prazer.

- Então você está realmente perdida? – diz ele continuando o assunto

- Mais ou menos. Briguei com a minha avó antes de pegar a chave do carro dela e não tenho a mínima idéia de como chegar à escola.

- Então acho que vamos juntos. Você aproveita e me conta da sua cidade. Ás vezes é bom ouvir histórias que podem me dar esperança de um dia sair desse lugar um dia. – Isso significa que eu não sou a única que quer ir embora daqui.

Esse é aquele momento em que eu percebo que tenho que parar de olhar a beleza dele e começar a prestar atenção ao que ele fala.

- Então o que te prende aqui? Quero dizer, eu vim para Brecksville morar com a minha avó e as coisas já não estão boas para o meu lado. Se não fosse pela minha mãe Annie eu não estaria aqui. – Annie. Falar o nome dela me dá calafrios. Lembro-me de como fui dura com ela, mas Daniel logo começa a falar de novo o que me dá a chance perfeita para parar de pensar nela.

- O que me prende aqui... Digamos que é mais poderoso que eu, sendo assim eu não tenho o controle da situação. – Isso me enche de dúvidas, mas logo ele continua – Não pergunte! – após essa fala ficamos alguns minutos em silêncio – Então você é filha da Annie?

- Sim. – O assunto não tem continuidade, mas logo vejo o grande edifício cinza.

– Chegamos. Um conselho: não ligue pelo fato das pessoas ficarem te olhando, não é comum ter novatas aqui, então só aproveite o seu dia de fama.

Quanto mais chego perto da porta, mais sou notada. Fico me perguntando se eles olham assim para qualquer novata. O olhar deles não é um olhar qualquer, é diferente, como se eu tivesse infringido uma lei ou me metendo em encrenca. Nada parece tirar a atenção deles e isso começa a me assustar, mas finalmente o sinal toca e todos começam a entrar. Menos um. Ele continua me encarando.

- Você o conhece – diz Daniel

- Quem? Ele. – digo inclinando a cabeça discretamente em direção ao menino – Não. Quem é?

- Nick Mizan. Ele é legal. Geralmente mata aula no primeiro horário. Lá vem ele.

- Acho melhor eu entrar. Não é bom para uma novata se atrasar. – digo rapidamente e entro no prédio. Não sei por que fiz isso, mas o que eu quero agora é ficar sozinha. Mas o meu plano não tem sucesso, pois logo escuto outro sinal e acho uma boa idéia descobrir qual é a minha sala.

- Sala 100... 101... 102... – a minha procura pela minha sala só é interrompida quando trombo em alguém.

- Olha por onde anda! – diz a menina – Ah! Você deve ser a novata, engraçado, você não é grande coisa. – ela toma o papel e minha mão – Sua sala é a mesma da minha. Vem!

Não sei se deveria estar feliz por ter achado a minha sala ou apavorada pela minha nova “colega” ser rude. Mas também não tenho tempo de pensar sobre essa idéia.

- Achei a novata perdida, é toda sua. – diz a menina.

- Obrigado Christina. – responde a professora – Prazer, eu sou Sra. Adams e vou ser sua professora de Ciências. Pode sentar ao lado de Christina, já que ela parece ser sua primeira amiga na cidade.

- Obrigada.

Sento-me ao lado de Christina e posso ver a expressão de desprezo presente em seu rosto, mas sentar ao lado dela também não foi minha primeira opção. Na verdade, sem Daniel na sala, ela parece ser a única pessoa que me trata de maneira normal, afinal... Eu sou a novata. Vai entender qual é o problema com isso aqui, mas normalidade não é exatamente o tipo de coisa que eu encontrei até agora, então...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.