Notas iniciais
Último capítulo da estória.

Sonja estava disfarçada de guarda do solar do prefeito, na arena de sacrifícios das masmorras. No centro da arena havia dois prisioneiros que seriam mortos num ritual em honra ao deus Kulan Gath. Yovanes era um dos condenados à morte. O prefeito de Shealoussel estava lá, com sua guarda particular para protegê-lo. Haviam outros convidados importantes também, mas Sonja não os conhecia. Viera a este local com a missão pessoal de destruir os símbolos de Kulan Gath e se possível matar o prefeito. Se fosse necessário, ela destruiria o solar inteiro, para conseguir o seu intento. Já havia libertado os moradores encarcerados, que ela mesma ajudara a aprisionar, e isso aliviava um pouco sua consciência. Ela estava neste momento petrificada de preocupação e surpresa. Como Yovanes fora parar lá?

Quando Sonja saíra ao cair da noite, Yovanes ficara preocupado. Ele rezara mais um pouco. Fizera sortilégios para tentar ver o futuro e desse modo evitar o pior, mas nada disso acalmara seu coração. Agora mais do que nunca ele amava aquela mulher. Ele nunca antes em toda a sua vida lamentara o fato de ser um curandeiro e não um guerreiro. Se fora um guerreiro ele a teria acompanhado. Defendido sua vida com espadas, lanças e punhos. Não estaria lá sentado no chão, jogando pedras para ver a sorte como uma velha matrona, enquanto Sonja ia de encontro à morte. Este pensamento tivera a força de um aguilhão. Na mesma hora Yovanes dera um salto e preparara-se para partir. Ele não abandonaria Sonja na hora da morte. Poderia não saber lutar, mas estaria lá para ampará-la e cuidar de seus ferimentos. Sendo assim ele montara em Keke e partira para Shealoussel.

Ao chegar à cidade, aproximara-se o mais cautelosamente possível do solar. Não havia ninguém fora de suas casas. Alguns lugares que abriam exclusivamente à noite estavam fechados. Havia uma milícia patrulhando as ruas. Vestiam mal ajambradas roupas de guerreiro, composta de ombreira, protetor do braço esquerdo, um elmo, o cinto com bainha para espada, e malha de metal cobrindo o peito. Os guardas que protegiam o solar do prefeito usavam o mesmo paramento, mas tinham roupas nas mesmas cores e porte marcial. Yovanes tentara passar despercebido, afinal tinha que encontrar Sonja, porém a sorte não lhe sorrira.

_Ei você, o que está fazendo fora de casa? — Falara o miliciano.

_Já estou indo para casa. Atrasei-me no trabalho. — Mentira Yovanes.

_Que trabalho? — Suspeitara o homem.

_Ah... Eu sou... Humm... Curandeiro. — Yovanes não conseguira pensar em nenhum outro ofício, a não ser o dele mesmo.

_Curandeiro? Temos apenas um curandeiro nessa cidade, Bahn. — O miliciano falara incisivamente, apertando os olhos para Yovanes.

_Pois é... Ah... Eu sou aprendiz dele. — Yovanes tentara sustentar a mentira.

_É. Você é péssimo. Pois ainda nem aprendeu o nome dele. Acompanhe-me.

Os milicianos levaram Yovanes manietado até a guarda do solar.

_Trouxemos este espertinho para vocês. Estava vagabundando por aí, mesmo após termos avisado que não deveriam sair de suas casas esta noite. — Explicara o miliciano a um dos soldados que guardavam a entrada do solar.

_Não me diga! Quando não vamos até os ratos, eles fazem questão de nos afrontar. Hummm... Este aqui me é familiar. — O soldado parecera reconhecer Yovanes.

_Será que é um dos fugitivos? — O miliciano animara-se com a perspectiva de recompensa.

_Fugitivos? Agora me lembrei. É o pajem de Sonja. Aquela mercenária ruiva. Isso é para você aprender que não pode mexer com a guarda do solar, seu eunuco.

Ao dizer isso o soldado começara a espancar Yovanes, com socos, pisões, chutes e puxões nos cabelos. Yovanes tentara dobrar-se ao meio para proteger o estômago, ao mesmo tempo em que cobrira a cabeça com as mãos, e as fechara para não lhe quebrarem os dedos. Logo estava no chão em posição fetal, com as mãos no rosto. Tentando não respirar muito, e não se afogar no próprio sangue que lavava seu rosto. Vindo das sobrancelhas, nariz, lábios e queixo. Os soldados o puxaram para que ficasse de pé. As pernas de Yovanes estavam bambas. Quando ele sustentara o corpo sobre elas, sentira uma dor atroz. Ele gemera e chorara baixinho. Suspeitara que estivessem quebradas.

_Vamos levá-lo para o pátio para lhe aplicarmos um castigo como se deve. — Falara um dos guardas que não tivera chance de bater em Yovanes.

_E quanto a mim? Não tem recompensa por esse aí? — Reclamara o miliciano que queria se dar bem. Os guardas do solar se entreolharam e riram-se. De modo nenhum eles iriam deixar qualquer recompensar ir para as mãos dos milicianos. Mas resolveram ser simpáticos com aquela imitação de soldado.

_Nós falaremos ao prefeito que foi você que o prendeu. Ele com certeza lhe dará uma boa recompensa por este aqui. — Os outros soldados riam-se enquanto o que falava, controlava-se ao máximo para não fazer o mesmo.

Estavam atando Yovanes no pátio, quando outro soldado aparecera. Ele olhara para aquilo tudo e falara:

_Vocês não pensam em castigar um prisioneiro no dia que o prefeito tem convidados, não é? — Reprovara o soldado recém chegado.

_O que? Teremos que esperar até amanhã? Foi a patroa deste aqui quem matou o conselheiro. Ele merece isto. — Reclamara o soldado que espancara Yovanes.

_Façamos o seguinte: Levamo-lo como uma segunda vítima do ritual de Kulan Gath. Lá ele pagará com a própria vida. — Contemporizara o soldado que aparentemente reprovava violência.

_Você é cruel homem. Nós só queríamos corrigi-lo. Você quer acabar com a raça dele. — Rira-se o espancador.

Yovanes então fora conduzido através da passagem do pátio até a arena de Kulan Gath. Lá fora acorrentado a um poste, no centro da arena, próximo a uma grande estátua de um homem dourado e hipnotizante, com as mãos em garra. Yovanes tinha uma boa idéia do que iria acontecer com ele. Seria sacrificado. Sua volta a Shealoussel para ajudar Sonja havia sido inútil.

Os guardas retiram-se para os seus afazeres, deixando Yovanes e outro prisioneiro atados a postes. Yovanes o reconhecera. Fora o primeiro fugitivo capturado. Estava emagrecido, cheio de manchas roxas e esverdeadas. Suas roupas já pobres e rotas haviam virado farrapos desfiados. Algumas unhas e dentes lhe faltavam. Estava mesmo deformado. Sobrevivera até agora por sua constituição física saudável e robusta. Yovanes sentira remorso por ter ajudado a prender aquele homem.

_Desculpe-me. Fui eu que o entreguei a eles. — Falara Yovanes, sinceramente condoído da situação daquele homem.

_Desculpas aceitas. Você não está melhor do que eu. Quebraram-lhe as pernas? — Falara o homem com dificuldade, pois lhe faltavam dentes.

_Parece que sim. Tiveram que me arrastar até aqui. Mal consigo me apoiar neste poste sem cair. Sinto muito, não posso lhe ajudar, nem ajudar a mim mesmo. Espero que Sonja esteja viva. — Falara Yovanes lembrando-se do motivo que o levara até as mãos do inimigo.

_Falta pouco agora. No fim desta noite estaremos mortos. Amanhã pela manhã nos veremos nos campos verdes de pan, e haverá música, lindas mulheres e comida farta. Não sofreremos mais. — Falara esperançoso o condenado.

_Você não trocaria tudo isso pela chance de voltar para sua família? — Perguntara Yovanes que tinha outros deuses e uma visão diferente do paraíso.

_Oh, pelos deuses! Era tudo que eu mais queria. Mas nada posso fazer, a não ser me resignar ao meu destino. — O homem começara a chorar.

Sem saber como consolar o pobre homem, Yovanes começara a rezar. Rezara por Sonja também. Começara a aceitar a sua ida para o paraíso da sua crença.

Algum tempo depois, chegaram outras pessoas. Homens ricamente vestidos, escoltados pela guarda do solar. Todos se prontificaram à frente de Kulan Gath. Um dos Homens importantes aproximou-se deles. Colocaram-lhe uma túnica rubra com bordas douradas. Trouxeram-lhe uma caixa ricamente decorada, pintada de dourado. Ela foi aberta e de lá o homem que parecia ser um sacerdote, retirou um punhal cravejado de pedras preciosas.

O sacerdote então fez mesuras e proferiu uma ladainha. Pareceu entrar em transe, então se virou para os homens atados ao poste. Parecia escolhê-los. Então se dirigiu para Yovanes. O sacerdote então fez uma pose ritual e elevou as duas mãos acima da cabeça, segurando o punhal. Voltou a proferir a ladainha ininteligível até que seu estado de transe levou-o ao clímax. Quando ele deu o golpe de punhal em Yovanes, uma lança sibilou o ar e o atravessou ao meio. O sacerdote, que não era ninguém mais do que o prefeito, caiu duro ao chão. Estava morto.

Todos os presentes olharam para trás, para ver quem havia assassinado o prefeito sacerdote. Viram então um dos soldados, o mais sujinho e imberbe de todos, com belíssimos olhos verdes, lutando admiravelmente com uma espada prateada. Após dois guardas tombarem mortos, a turba avançou com tudo para cima daquele soldado rebelde. Conseguiram apenas retirar-lhe o elmo, revelando magnífica cabeleira ruiva.

_É a Sonja. É ela. Ela matou o conselheiro e o prefeito. Ela é um demônio com uma espada. Ataquem com tudo. — Gritou um dos soldados.

_Se Sonja matou o conselheiro e o prefeito, quem é que manda na cidade agora? — Quis saber um soldado estúpido.

_Sei lá. Ninguém eu acho. — Respondeu outro soldado estúpido.

Alguns dos soldados fugiram por achar que já não tinham que seguir ordens. Poucos continuaram enfrentando aquela terrível espadachim. Então algo aconteceu. A grande estátua de Kulan Gath começou a mexer-se, adquirindo vida e soltando um urro ensurdecedor. Os soldados remanescentes fugiram em debandada. Os homens importantes continuaram lá, adorando Kulan Gath.

Sonja aproximou-se da arena. Viu a aberração que era Kulan Gath agarrar o corpo do prefeito que jazia ao chão e levá-lo à boca, para devorá-lo. O prisioneiro gritava horrorizado. Os homens importantes, em número de três, estavam em transe, hipnotizados pelo barulhento monstro devorador de pessoas. Sonja não teve dó. Matou todos os três com um golpe só.

Kulan Gath sentiu o cheiro da matança e avançou sobre o corpo dos figurões. Enquanto deleitava-se com os cadáveres, Sonja libertou o prisioneiro que ainda gritava. Ela o esbofeteou para que ele se acalmasse.

_Fuja seu desgraçado. Salve sua vida. Corra para bem longe daqui. — Gritou-lhe Sonja com a adrenalina correndo nas veias.

Assim o prisioneiro fez. Sonja aproximou-se de Yovanes. Ele estava com a cabeça pendida para frente, desacordado. Com um só golpe de espada Sonja o libertou de suas correntes. Ele tombou ao chão. Sonja ficou paralisada por um instante. Então um movimento às suas costas a fez virar-se já com a espada em prontidão. O monstro aproximava-se urrando.

Sonja era dura na queda. Golpeou o monstro com seus golpes mais poderosos, e com toda a força de seu ser. Deu cambalhotas e usou suas habilidades acrobáticas para escapar de suas arremetidas. Conseguiu escalá-lo e segurar-se em sua cabeça. Mas o monstro a agarrou e atirou longe. Em seguida ele aproximou-se do corpo de Yovanes.

_Por Scathach, não. Afaste-se dele Kulan Gath. Procure alguém a sua altura. — Sonja falou raivosa.

Havia fogo nos seus profundos olhos verdes. Kulan Gath pareceu compreender o desafio. Voltou-se para Sonja resolvido a devorá-la. Atacou-a com tudo. Sonja desviou-se e desferiu um potente golpe de espada, decepando uma das pernas de Kulan Gath. Ele tombou para o lado destruindo parte da arena. Sonja avançou contra ele e desferiu outro golpe decepando-lhe um braço. Kulan Gath desceu o braço remanescente contra ela. Sonja foi arremessada contra a parede. Sentiu algo quebrar-se dentro dela, mas ainda não entregara os pontos.

_Isso é tudo que pode fazer Kulan Gath. É pouco. — Sonja provocou-o mais uma vez.

Sonja levantou-se e saiu gritando e correndo em direção a Kulan Gath. Atingiu-o com um golpe que arrancou metade de sua cabeça. A criatura arriou-se imóvel no chão. Parara de fazer barulho.

Sonja continuava de pé. Arfante e afogueada. Sentiu as costas molhadas. Havia um grande corte em sua cabeça que sangrava abundantemente. Ela procurou um dos elmos de metal e colocou-o sobre a massa rubra dos seus cabelos, para fazer o ferimento estancar.

Aproximou-se de Yovanes ainda imóvel no chão. Ajoelhou-se ao lado dele e colocou sua cabeça no colo. Havia um grande ferimento no peito dele, feito por um fino punhal. Yovanes estava morto. Sonja a princípio soluçava, depois passou a urrar e a gritar, de ódio e dor.

Fim


Notas finais
This is the end.
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