A Essência do Dever
28 Meditação
Não havia som nenhum no ambiente em que Spock estava além de seus próprios pensamentos. A indicação mais clara de que havia alguém ali era o cheiro suave de incenso, um aroma de lavanda que vinha direto da Terra, um presente de sua mãe entregue há muito tempo para ela. Era o ambiente propício para meditação, atividade que Spock tinha aumentado desde que tinha descoberto a gravidez. Era uma maneira profunda de se conectar com o bebê antes de ele nascer.
Sua aparente inabalável calmaria foi interrompida pelo som das portas do aposento se abrindo. Ela contorceu o nariz como uma resposta natural ao som, porém não abriu os olhos. Ouviu os passos do marido, alto e claro, se aproximando.
—Me desculpe pela demora... — Jim suspirou, um tanto esbaforido, cruzando as pernas em frente à esposa.
Spock abriu os olhos lentamente e olhou para ele antes de dar sua resposta.
—Eu sei que seus afazeres como capitão podem tomar muito seu tempo, está perdoado — ela assegurou — eu só preciso que fique em silêncio agora, consegue fazer isso?
—Eu percebi sua dúvida — ele alfinetou um pouco, no que a esposa apenas ergueu uma sobrancelha, o questionamento de Jim provando o argumento de Spock — está bem, entendi.
Ela assentiu, satisfeita e então fechou os olhos, seu marido fez o mesmo, logo em seguida, cumprindo o combinado de ficar em silêncio.
Era a primeira vez que Jim se juntava a Spock numa meditação. Os momentos geralmente eram reservados somente a ela, numa velha prática vulcana, no entanto, desde que ficou grávida, automaticamente duas pessoas faziam parte desse momento. Como um momento em família, Spock sugeriu que Jim participasse, enquanto ela tentava acessar o katra do bebê. Essa informação havia sido passada a ela por sacerdotisas vulcanas. Se fosse bem sucedida ou não, gostaria que Jim estivesse presente.
Se mantendo concentrada, Spock sentiu uma presença, o começo de uma consciência, simples pensamentos ordenados, conforto e alegria emanavam dela ao encontrar com o katra da mãe, o que fez Spock sorrir brevemente.
Jim, por sua vez, não conseguiu deixar de abrir os olhos quando Spock tocou seus ombros inesperadamente, tentando entender o que aquilo significava. Vendo a esposa sorrir, ele ficou ainda mais curioso
—O que está acontecendo? — ele perguntou sem reservas ou sussurros.
—Sh! — Spock exclamou alto, sem hesitar, o que deixou o pobre de seu marido mais confuso ainda.
Compadecendo-se de Jim, ela segurou uma das mãos dele com paciência e levou até sua barriga. Jim soltou uma risada ao sentir o bebê se mexer.
—Oi, filho — ele murmurou, emocionado.
Querendo compartilhar o momento por completo com ele, Spock tocou o rosto de Jim, iniciando um elo mental.
—Sua mente para minha mente, meus pensamentos para seus pensamentos — ela murmurou, concentrada.
Jim então conseguiu sentir o mesmo que a esposa, a consciência que representava seu filho. A alegria e conforto que vinha dela se intensificou ao reconhecer o pai. Ao mesmo tempo, Jim e Spock fizeram uma descoberta.
—Uma menina... — disse sua mãe, ponderando o fato.
—É... é interessante... — Jim deixou as palavras no ar, com um milhão de possibilidades se formando em sua mente.
—De fato — concordou sua esposa, ainda concentrada na meditação.
De alguma forma profunda, Spock conseguiu sentir seu formato, seu peso e a curiosidade que vinha do bebê. A garotinha a chutou novamente, o que foi sentido por seu pai, o que o fez rir outra vez. Sentindo um pouco de dor pelos movimentos, Spock desfez o elo mental lentamente, encontrando os olhos preocupados de Jim ao abrir os olhos.
—Você está bem? — ele quis saber imediatamente.
—Estou, foi uma experiência memorável, porém não posso negar a dor que os chutes causam — ela murmurou — é como se minhas estruturas fossem refeitas a cada movimento.
—Talvez seja melhor você se deitar — Jim sugeriu.
—Eu não sei — sua esposa replicou, em genuína dúvida, a dor a atrapalhando de pensar no que seria melhor.
—Eu sinto muito, meu amor — ele aproximou dela, sentando-se atrás dela e empurrando as costas de Spock para o seu peito — talvez assim você fique um pouco mais confortável.
—Talvez, não me parece uma má ideia — ela virou a cabeça para trás, deitando no ombro dele, tentando relaxar um pouco.
—Ei, garotinha, você precisa pegar leve com a sua mãe — Jim resolveu conversar docemente com o bebê, procurando chegar a um acordo — ela precisa estar bem até quando você nascer, quer dizer, ela precisa estar bem depois que você nascer.
—Sua preocupação com meu estado físico é agradável, agradeço — sua esposa murmurou gentilmente.
—Só o melhor por você, querida — ele beijou a bochecha dela suavemente.
A frase charmosa arrancou um pequeno sorriso de Spock, o que a fez tentar relaxar novamente. Jim acabou apoiando as duas mãos sobre a barriga dela, sentindo a curvatura consideravelmente grande. Ele fez movimentos circulares com as pontas dos dedos, o que fez com que sua filha se acalmasse e sua esposa relaxasse. Spock e a bebê conseguiram ficar imóveis, quase que num estado de meditação novamente.
—Encontramos o equilíbrio novamente — murmurou Spock, abrindo os olhos lentamente — obrigada pela ajuda, Jim.
—Não há de que, disponha, meu amor — ele a beijou nos lábios dessa vez, aliviado pelos três estarem juntos ali, numa posição mais relaxada.
Em meio ao silêncio, Jim começou a imaginar como seria quando sua filha estivesse ali com eles, uma menininha parecida com ele e Spock. Esperava que ela fosse tão esperta quanto a mãe e vivesse suas próprias aventuras como o pai. Crescer apenas com um irmão mais velho não lhe dava muito experiência do que esperar de criar uma garotinha, mas ele contava com os conselhos de Spock, que por sua vez, se espelhava em Amanda.
—Spock — Jim quebrou o silêncio com delicadeza.
—Sim, Jim — ela olhou para ele.
—Não conversamos sobre nomes, mas acho que Amanda seria perfeito — ele contou a ela.
—Compreendo a inspiração, eu mesma não poderia pensar em um nome mais perfeito do que esse — ela respondeu, satisfeita com a ideia — Amanda Kirk, acho que soa muito bem.
—Sem dúvida — James a beijou mais uma vez, concordando com o que ela tinha dito.
Ao menos por um tempo, Amanda também descansou junto com seus pais.
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