A Essência do Amor

19 O renascer de Eloise


A manhã seguinte chegou com uma luz cinzenta e fria, condizente com o luto que pairava sobre a cobertura de Richard. Ele acordou com um sobressalto, o braço estendido procurando Elara na cama, mas encontrou apenas lençóis vazios e frios. O pânico subiu por sua garganta. Ele a procurou por todos os cômodos, gritando o nome dela, mas a mansão estava silenciosa.

​Ele pegou o celular com as mãos trêmulas e viu uma única notificação de mensagem. Era de Elara.

​"Não consegui dormir. Preciso de silêncio. Fui para o laboratório. Não se preocupe."

​O laboratório. O lugar onde tudo começara, o lugar onde a dor se transformava em alquimia. Richard respirou aliviado, mas uma nova preocupação o invadiu. Ele sabia o quanto Elara era possessiva e obsessiva com o trabalho quando estava sob pressão. Ele se vestiu rapidamente e saiu, o coração batendo descompassado.

​Ao chegar no laboratório da Lâfrer & Jones, Richard foi recebido pelo som rítmico e obsessivo de misturadores magnéticos e pipetas de vidro batendo em béqueres. O ar estava saturado com um aroma complexo, quase sufocante.

​Elara estava lá. Ela ainda vestia o vestido preto do velório, amassado e manchado de lágrimas secas. Seus cabelos estavam presos de forma desordenada e olheiras profundas marcavam seu rosto pálido. Ela não notou a entrada de Richard; estava concentrada em uma balança analítica de precisão, pesando cristais de almíscar com uma intensidade assustadora.

​Richard não a interrompeu. Ele sabia que o processo criativo de um gênio sob luto não era algo para ser quebrado. Ele se sentou em uma poltrona de couro no canto do laboratório e observou. Elara movia-se com uma energia febril, quase maníaca. Ela misturava, destilava, testava, descartava e recomeçava, sem pronunciar uma palavra. O silêncio era preenchido apenas pelo som da ciência e da dor que ela tentava engarrafar.

​Passaram-se horas. O sol já estava alto no céu quando Elara finalmente parou. Ela segurava um pequeno frasco de cristal, contendo um líquido límpido e ligeiramente amarelado. Ela suspirou profunda e dolorosamente, e finalmente levantou os olhos, encontrando Richard sentado ali, esperando pacientemente.

​— Você está aqui — disse ela, a voz fraca e rouca. — Há quanto tempo?

​— O tempo suficiente para ver o nascimento de algo extraordinário — respondeu Richard, levantando-se devagar.

​Elara olhou para o frasco em sua mão e depois para ele. Ela caminhou até Richard, estendendo o frasco.

​— Cheire — ordenou ela, num sussurro.

​Richard pegou o frasco com cuidado e o levou ao nariz. Ele esperava algo pesado, triste, opressor. Mas o que ele sentiu foi... divino.

​A fragrância explodiu em suas narinas com uma pureza avassaladora. Era uma base rica, profunda e reconfortante de almíscar, que trazia uma sensação de calor e banho tomado, uma colônia de banho clássica e honesta. E sobre essa base, flutuava a nota mais delicada, pura e fresca de lírios brancos que ele já sentira em toda a sua vida. Não era o cheiro opressor dos lírios do velório; era o cheiro da flor viva, orvalhada pela manhã, cheia de esperança e inocência. O contraste era magnífico, criando um aroma que era, ao mesmo tempo, poderoso e vulnerável, ancestral e moderno. Era maravilhoso.

​Richard abaixou o frasco, os olhos marejados de emoção. Ele olhou para Elara, que o observava com uma expectativa dolorosa.

​— O que é isso, Elara? É... é a coisa mais deliciosa que eu já senti em toda a minha vida.

​Ela deu um sorriso triste, e a primeira lágrima caiu, traçando um caminho limpo em seu rosto cansado.

​— Minha mãe... — ela engasgou, a voz falhando. — Ela amava as colônias de banho de almíscar. Dizia que era o cheiro da limpeza, da simplicidade. E ela também amava lírios brancos. Quando eu era criança, ela plantava no nosso pequeno quintal. O almíscar era o conforto dela, o lírio era a beleza que ela cultivava.

​Ela respirou fundo, tentando controlar os soluços.

​— Eu peguei a colônia de banho dela e a misturei com a essência pura do lírio que eu criei aqui. É ela, Richard. Engarrafada. O nome desse perfume... o nome dela... é Elise.

​Ao dizer o nome da mãe, a barreira de Elara finalmente ruiu. O frasco escorregou de suas mãos, mas Richard o pegou antes que atingisse o chão. Ele a puxou para um abraço apertado, sentindo o corpo dela tremer com o choro desesperado.

​Elara chorou no peito dele, libertando toda a dor que tentara canalizar para o perfume. Richard a apertava, ignorando o jaleco molhado de lágrimas, beijando o topo da cabeça dela.

​— É Elise — sussurrou ele, a voz embargada. — E é perfeito, Elara. Nunca, em toda a minha carreira, eu senti algo tão deliciosamente puro e cheio de amor quanto esse perfume. Ela ficaria tão orgulhosa de você.

​Eles ficaram ali, no meio do laboratório cheio de essências, chorando o luto e celebrando a memória. Richard segurava Elise em uma mão e Elara na outra, sabendo que, embora a dor fosse imensa, eles acabaram de criar algo que tornaria a memória dela eterna. E que, juntos, eles eram inquebráveis.