A Essência do Amor
6 O Cheiro do Cuidado
O hospital tinha um aroma que Richard detestava: antisséptico, frio e impessoal. Lembrava-o das enfermarias do orfanato onde passara noites febris sem que ninguém lhe segurasse a mão. Mesmo assim, lá estava ele, cruzando o corredor da ala VIP às duas da manhã, ainda vestindo o terno da reunião que terminara tarde.
Ele avistou Elara sentada em uma poltrona desconfortável na sala de espera. Ela parecia pequena, encolhida em seu próprio casaco, com os olhos vermelhos e fixos na porta da UTI.
Richard aproximou-se em silêncio.
— Ela já saiu da cirurgia? — a voz dele, embora baixa, fez Elara dar um salto.
— Richard? O que faz aqui? Pensei que estivesse em jantar de negócios... — ela limpou as lágrimas rapidamente, tentando se recompor.
— O jantar acabou cedo. E eu precisava saber se meu investimento estava seguro — ele mentiu, usando a frieza como escudo enquanto se sentava ao lado dela.
Elara soltou um suspiro trêmulo, ignorando a aspereza dele. Ela sabia que ele não estaria ali àquela hora apenas por "negócios".
— O médico disse que a cirurgia foi um sucesso. O marca-passo novo está funcionando bem, mas ela precisa de repouso absoluto. Eu não sei como agradecer... eu nunca vou conseguir pagar tudo o que o senhor...
— Pare, Elara — ele a interrompeu, olhando para as próprias mãos. — Eu não fiz isso por gratidão ou por dinheiro. Eu fiz porque... porque eu podia. E porque não suportaria ver aquele brilho irritante nos seus olhos se apagar por causa de uma conta de hospital.
Elara deu um sorriso fraco, o primeiro em muitas horas.
— O senhor é um homem muito estranho, Richard Lâfrer. Tenta parecer um monstro de gelo, mas paga cirurgias de emergência para funcionárias que conheceu há um mês.
Richard virou o rosto para ela. A proximidade na penumbra da sala de espera era diferente da do laboratório. Não havia o cheiro de produtos químicos, apenas o cansaço e a verdade nua entre os dois.
— No orfanato — começou ele, a voz num tom confessional que ele nunca usara com ninguém —, eu aprendi que o mundo não te dá nada de graça. Tudo tem um preço. O amor, a atenção, a comida... eu decidi que seria eu a ditar os preços, para nunca mais ser o pedinte.
Elara estendeu a mão e, com uma coragem que nem ela sabia que tinha, tocou a mão dele. A pele de Richard era quente, contrariando sua fama de gélido.
— Às vezes, as melhores coisas da vida são dadas, não vendidas, Richard. Minha mãe nunca teve um centavo, mas eu sou a pessoa mais rica do mundo porque ela me deu tudo o que tinha aqui dentro — ela tocou o próprio coração.
Richard não retirou a mão. Ele sentiu o toque dela como um bálsamo.
— O que você está fazendo comigo, Elara? — ele perguntou, a voz quase sumindo. — Você entra na minha empresa, muda meu café, altera minhas fórmulas e agora... está tentando alterar a minha cabeça.
— Eu não estou alterando nada — sussurrou ela, inclinando-se levemente para ele. — Só estou ajudando o senhor a sentir o aroma de algo que não pode ser engarrafado.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Richard sentiu uma vontade avassaladora de puxá-la para perto, de protegê-la de todo o cansaço do mundo. Mas o medo de ser abandonado novamente, o trauma que o moldara por 32 anos, gritou em sua mente.
Ele se levantou bruscamente, quebrando o contato.
— Vá para casa descansar, Elara. Meu motorista vai te levar. Amanhã quero você no laboratório às dez. Temos muito trabalho.
Ele saiu a passos largos, sem olhar para trás. Elara ficou ali, olhando para a própria mão, ainda sentindo o calor da dele. Ela sabia que a luta para conquistar o coração de Richard Lâfrer seria mais difícil do que qualquer fórmula química, mas ela nunca fora de desistir de um desafio.
No carro, Richard fechou os olhos e respirou fundo. O cheiro de Elara — aquele toque de baunilha e esperança — parecia ter grudado em sua pele. Ele odiava aquilo. E, ao mesmo tempo, era a primeira vez em décadas que ele não se sentia sozinho.
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