A Essência do Amor
1 O Aroma da Solidão e o Gosto da Esperança
O quadragésimo andar da Lâfrer Essences exalava o cheiro metálico do sucesso e a fragrância amadeirada de perfumes caros. Richard Lâfrer, com seus 32 anos e uma postura que impunha silêncio absoluto, observava a cidade através da parede de vidro de seu escritório. Para ele, as luzes lá fora eram apenas números em um gráfico de expansão.
Ele ajustou o punho da camisa social impecável, lembrando-se brevemente do orfanato cinzento onde aprendeu que ninguém viria salvá-lo. Aos 18 anos, enquanto outros jovens pensavam em festas, ele misturava essências em um porão úmido até criar a fórmula que o tirou da miséria.
Um toque seco na porta interrompeu seus pensamentos.
— Entre — ordenou Richard, sem se virar.
A secretária, Sra. Albright, entrou com uma pasta de couro.
— Senhor Lâfrer, os relatórios de exportação para a Europa estão prontos para sua assinatura.
— Deixe-os na mesa, Albright. Algo mais? — perguntou ele, o tom de voz frio como uma manhã de inverno.
— Apenas um detalhe administrativo. A nova auxiliar de cozinha para a copa da diretoria começa amanhã cedo. O RH finalizou a contratação hoje.
Richard finalmente se virou, seus olhos calculistas encontrando os da secretária.
— Certifique-se de que ela seja discreta. Não suporto interrupções, barulho de louça ou café frio. Se ela não for eficiente, não passará da primeira semana.
— Entendido, senhor. Ela pareceu muito dedicada na entrevista. Uma jovem chamada Elara Jones.
Richard apenas assentiu com um gesto dispensivo. Pessoas eram peças de uma engrenagem; nomes não importavam.
Enquanto isso, em um bairro humilde e distante dali, o cenário era outro. Elara Jones, de apenas 19 anos, guardava um frasco de remédios no armário da cozinha enquanto conferia a temperatura da mãe.
— Você não precisava ter trancado a faculdade por minha causa, Elara — disse a mãe, com a voz embargada e a respiração pesada devido ao problema cardíaco. — Química era o seu sonho.
Elara forçou um sorriso, escondendo o cansaço atrás de um brilho de determinação nos olhos castanhos.
— O meu sonho agora é ver você recuperada, mãe. A faculdade pode esperar, o seu coração não. Além disso, consegui o emprego!
A mãe segurou a mão da filha, sentindo o aperto firme e cheio de vida.
— Onde, querida?
— Na Lâfrer Essences. Vou ser auxiliar de copa. Vou servir café para a diretoria. É um começo, e o salário vai cobrir os seus exames novos.
A mãe suspirou, preocupada com a carga que a filha estava carregando tão cedo.
— Ouvi dizer que o dono de lá é um homem difícil. Um tal de Richard Lâfrer. Dizem que ele não tem coração.
Elara soltou uma risada leve, tentando aliviar a tensão do ambiente.
— Ele pode ter o coração de gelo, mãe, mas eu só preciso fazer o café dele. Se ele for tão exigente quanto dizem, farei o melhor café de São Paulo. Ele nem vai notar que eu existo, e é exatamente assim que eu quero.
Naquela noite, Elara separou sua melhor camisa branca e a passou com cuidado, enquanto Richard, em sua cobertura luxuosa, bebia um uísque caro em total silêncio. Dois mundos distintos, separados por muros de dinheiro e traumas, estavam prestes a colidir no primeiro aroma de café da manhã seguinte.
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