A Essência do Amor
3 Entre Notas e Aromas
As semanas se passaram e a presença de Elara Jones tornou-se uma constante silenciosa no 40º andar. Para Richard, ela era apenas a "moça do café", mas ele não podia negar que a eficiência dela era impecável. O café nunca estava frio, a copa nunca estava desorganizada e, acima de tudo, ela nunca tentava puxar conversa — algo que ele detestava em seus subordinados.
No entanto, em uma tarde chuvosa de terça-feira, o silêncio do escritório foi quebrado por um som que Richard não reconheceu de imediato. Vinha da copa. Era um murmúrio baixo, uma melodia cantarolada com uma doçura que parecia aquecer o ambiente gélido.
Richard levantou-se de sua mesa, movido por uma curiosidade rara, e caminhou silenciosamente até a porta da copa. Ele parou no batente, observando Elara de costas. Ela estava organizando alguns frascos de amostras que haviam sido deixados ali por engano pelo departamento de criação.
— O que está fazendo com esses frascos, Srta. Jones? — a voz de Richard soou como um chicote no ambiente pequeno.
Elara deu um sobressalto, quase derrubando um pequeno vidro de essência de lavanda. Ela se virou rapidamente, o rosto levemente corado.
— Oh! Senhor Lâfrer... perdão. Eu só estava... organizando. Alguém da criação esqueceu isso aqui e eu notei que estavam fora de ordem.
Richard deu um passo à frente, estreitando os olhos.
— Fora de ordem? São apenas amostras de base. Como saberia a ordem?
Elara hesitou, mas a paixão pela química, que ela tentava suprimir para focar no trabalho braçal, falou mais alto.
— Bem... eu percebi pelo olfato. Estavam misturando notas de topo cítricas com fixadores pesados de forma aleatória. Eu apenas os separei por densidade e família olfativa para facilitar para quem vier buscar.
Richard ficou em silêncio por um longo momento. Ele olhou para a bancada e viu que, de fato, as amostras estavam separadas com uma precisão técnica que ele só esperava de seus perfumistas seniores.
— Você disse que seu nome era Jones, certo? Onde aprendeu sobre famílias olfativas? — perguntou ele, a frieza dando lugar a uma nota de suspeita.
— Eu cursava Química na universidade, senhor — respondeu ela, baixando o olhar para as mãos. — Tive que trancar a matrícula recentemente.
— Por que? — Richard não costumava se interessar pela vida alheia, mas algo na resignação daquela jovem o incomodava.
Elara respirou fundo. Ela não queria a piedade de um homem que parecia não ter sentimentos, mas a pergunta fora direta.
— Minha mãe está doente. Problemas no coração. Os remédios e os exames são caros e... o tempo dela não espera pelo meu diploma.
Richard sentiu um desconforto familiar. A palavra "mãe" sempre trazia de volta a imagem do portão de ferro do orfanato e do frio que sentira naquela noite aos cinco anos de idade. Para ele, família era um conceito vazio, uma fonte de fraqueza.
— Sacrificar o futuro por alguém que pode não ter um... — ele disse, a voz endurecendo novamente. — Parece uma decisão pouco lógica, Srta. Jones.
Elara sentiu uma pontada de raiva superar a timidez. Ela deu um passo à frente, sustentando o olhar cinzento dele.
— Pode não ser lógico para o senhor, Sr. Lâfrer. Mas o amor não é uma equação química que se resolve com lógica. É sobre estar lá quando alguém precisa. Eu faria tudo de novo.
Richard sustentou o olhar dela por cinco segundos que pareceram uma eternidade. O brilho desafiador nos olhos de Elara era algo que ele nunca vira. A maioria das pessoas baixava a cabeça. Ela, não.
— Volte ao seu café — disse ele, dando as costas e caminhando para o escritório. — E não mexa mais nas amostras. Elas não são sua responsabilidade.
Ele fechou a porta de sua sala, mas o cheiro de lavanda e o eco das palavras de Elara permaneceram no ar. Pela primeira vez em anos, Richard Lâfrer sentiu que sua lógica não era suficiente para explicar o mundo.
Naquela noite, ao chegar em casa e ver a mãe dormindo tranquilamente graças aos remédios que o novo salário comprara, Elara chorou em silêncio. Ela odiava o jeito arrogante dele, mas, por algum motivo, não conseguia tirar da cabeça o vazio profundo que vira nos olhos de Richard quando ela mencionou a palavra "amor".
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